A Bacia do Rio Negro se estende pelos estados do Amazonas e de Roraima, no Brasil, e também avança pelos territórios vizinhos da Colômbia, Venezuela e Guiana. Na sua porção no Amazonas, a bacia é uma das regiões mais preservadas de todo o bioma amazônico, com biodiversidade incalculável. Por outro lado, a parte da bacia localizada em Roraima vem sofrendo grande degradação ambiental causada pelo garimpo ilegal de ouro, desmatamento e roubo de terra, ou "grilagem de terra".
Aproximadamente 68% da Bacia do Rio Negro no Brasil está formalmente protegida por um conjunto de unidades de conservação e terras indígenas legalmente reconhecidas. A diversidade cultural da região é enorme: ali vivem 45 povos indígenas e estão localizados dois patrimônios culturais do Brasil – a Cachoeira de Iauaretê e o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro – além do ponto mais alto do Brasil, o Pico da Neblina, lugar sagrado do povo Yanomami.
No Rio Negro, o ISA mantém trabalho de longo prazo e parceria institucional - que nos enche de orgulho - com associações indígenas e suas lideranças, entre elas a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), a Hutukara Associação Yanomami (HAY) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Mantemos escritório e equipe na cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), considerado o município mais indígena do Brasil, localizado no Alto Rio Negro. De São Gabriel, também descemos com as águas do Negro para apoiar comunidades e associações indígenas dos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, ambos no Amazonas. Em 2009, o ISA incorporou a organização Comissão Pró-Yanomami (CCPY), sua equipe e legado, abrindo escritório em Boa Vista (RR) e passando a atuar diretamente com o povo Yanomami e outros povos de Roraima.
Atualmente, o ISA atua na Bacia do Rio Negro com a promoção de processos formativos, articulando parcerias para a proteção dos territórios indígenas, valorização da diversidade socioambiental, segurança alimentar das comunidades, desenvolvimento de cadeias de valor da economia da floresta para geração de renda e produção de pesquisas interculturais que dêem visibilidade aos conhecimentos tradicionais e modos de vida das populações que, há muitos anos, mantém as florestas da região preservadas.
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Boa Vista tem picos de ar insalubre em metade do ano, aponta Inpa
Capital de Roraima tem pico de insalubridade causado pela fumaça das queimadas, entre janeiro e março. Qualidade do ar ficou pior que a de São Paulo 4 vezes em 2024
As cores mais quentes indicam os picos de poluição em Roraima. Fonte: Monitoramento da Qualidade do Ar na Cidade de Boa Vista - Roraima / Inpa
Em Boa Vista, em seis meses do ano, o ar respirado pela população apresenta picos de insalubridade, principalmente por causa da fumaça das queimadas e incêndios florestais. É o que revela uma pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) publicada no último dia 6. O relatório “Monitoramento da Qualidade do Ar na Cidade de Boa Vista - Roraima” registrou dados do período de 2020 a 2024.
“Do ponto de vista global, Boa Vista não é uma megacidade que produz grandes quantidades de poluentes urbanos derivados de fábricas e/ou indústrias. Por outro lado, a fumaça derivada de queimadas e incêndios (florestais e não florestais), em especial nos últimos anos, tem tornado a cidade um local insalubre por vários dias”, conclui o estudo assinado por Reinaldo Imbrozio Barbosa e Arthur Camurça Citó.
No dia 2 de abril, o ar na capital roraimense foi classificado como o 15º pior do mundo. O levantamento do Inpa lembra que, neste ano, a cidade teve quatro dias com níveis de poluição que superaram o de algumas das grandes metrópoles mais poluídas do planeta, como Hanoi, no Vietnam, e São Paulo.
De acordo com a pesquisa, nos quatro dias em questão, foi registrado um nível de material particulado no ar superior a 300 microgramas por metro cúbico (µg/m³) de PM 2.5 (partículas de poeira inaláveis de diâmetro igual ou menor que 2.5 microns) – a unidade de medida da concentração de poluentes.
O estado teve recorde de focos de calor em fevereiro deste ano, considerando a série histórica do mês desde 1998. Como várias outras regiões do país, a capital, outros municípios e terras indígenas, incluindo a Yanomami, ficaram cobertos por fumaça. O levantamento do Inpa aponta que a nuvem de poluição gerada em Roraima foi tão grande que acabou alcançando regiões relativamente distantes, como o Alto Rio Negro e o Alto Rio Solimões, no Amazonas.
Vista de Boa Vista com fumaça de queimadas ao fundo neste ano | Lucas Silva/ Platô Filmes/ ISA
“Pico de insalubridade”
“Estamos tratando a insalubridade do ar como a poluição que pode causar danos à saúde humana. Esse impacto à saúde tem níveis diferentes, tanto pela quantidade de poluição quanto pelo público que é afetado”, explica Citó.
O “pico de insalubridade” é um período de tempo que concentra saltos nos níveis máximos de poluição. De acordo com a pesquisa, de janeiro a março, Boa Vista sofre o maior pico por causa de queimadas e incêndios, localizados principalmente no centro e norte de Roraima, em anos de extrema seca e ventos fortes, como em 2024 e 2023.
Ainda conforme o estudo, o segundo período mais crítico, de agosto a outubro, é causado pelo transporte de poluentes vindos de incêndios e queimadas situados no sul da Amazônia, em especial no oeste do Pará e localidades próximas de Manaus.
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Fonte: Monitoramento da Qualidade do Ar na Cidade de Boa Vista - Roraima / Inpa
“No pico de poluição primário (janeiro a março), os valores de poluição são maiores, oferecendo riscos à população em geral”, aponta o pesquisador. “Depois desse pico, os valores de poluição baixam e podem chegar a 0 durante o período de chuvas. Mas a partir de agosto surge um novo pico de poluição, que se estende até outubro, configurando um pico de poluição secundário. Caracterizamos este trimestre como ‘pico secundário’ porque os valores de poluição são menores, oferecendo maior risco a uma parcela mais sensível da população, como crianças e idosos”, detalha.
Pelo fato de parte do estado estar acima da Linha do Equador, em Roraima o período de seca vai de outubro a março e o chuvoso, de abril a setembro, ao contrário do que acontece no resto do país.
Para se ter uma ideia do problema, nos quatros anos analisados pelos cientistas do Inpa, em 70 dias a qualidade média do ar foi classificada como “insalubre para grupos sensíveis”, “insalubre” ou “muito insalubre”. Por outro lado, em 255 dias a leitura máxima da concentração de poluentes feita ao longo do dia alcançou a classificação de “insalubre para grupos sensíveis”, “insalubre", “muito insalubre” ou “péssima” (veja a tabela).
Como a pesquisa foi feita?
Os pesquisadores observaram os dados de qualidade do ar em 1290 dias, entre julho de 2020 e maio de 2024. A pesquisa analisou médias diárias (variação ao decorrer do dia) do grau de poluição e também máximas diárias (pico de insalubridade do dia).
Com base nas médias diárias, Boa Vista teve 689 dias (53,4%) com qualidade de ar considerada boa. No entanto, nos outros 601 dias (46,6%), a qualidade do ar apresentou algum grau de risco para os moradores. Já na análise de máximas diárias, a cidade teve pico de ar insalubre em 1010 dias (78,3%), enquanto a qualidade considerada boa sofreu queda brusca em 280 dias (21,7%) (veja a tabela acima).
Para chegar aos resultados, os cientistas utilizaram dois sensores PurpleAir. A tecnologia é conectada à internet e foi instalada em Boa Vista em 2020. Conforme o estudo, há outros sensores instalados em Roraima, mas nenhum deles possui séries temporais adequadas para formatação de qualquer tipo de padrão que pudesse resultar em uma análise científica.
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Nível do Rio Branco, em Boa Vista, chegou a quase 40 cm abaixo da medição mínima | Stephanie Vieira / Platô Filmes / ISA
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Nós e eles
O sócio fundador do ISA Márcio Santilli avalia os desdobramentos da crise sanitária dos Yanomami e cobra solução para suas causas
Márcio Santilli
- Sócio fundador e presidente do ISA
Presidente Lula visita Casa de Saúde Indígena em Boa Vista (RR) para avaliar crise sanitária dos Yanomami, janeiro de 2023 | Ricardo Stuckert / PR
Na cosmologia ensinada por Davi Kopenawa, o ouro e outros minérios, quando retirados dos seus depósitos subterrâneos, exalam energias que forçam o rompimento e a queda do céu. Por isso, os pajés Yanomami precisam trabalhar o tempo todo para segurar o céu. Se os invasores matarem os Yanomami, o céu desabará sobre a Terra.
O pensamento de Davi tem uma similaridade impressionante com a ciência do clima e com as emissões excessivas de gases do efeito estufa, que aquecem a atmosfera e provocam secas agudas e violentas tempestades, ameaçando todas as formas de vida. É, também, uma metáfora viva da interdependência entre os povos e deles com a natureza.
Davi nos faz essa denúncia há 40 anos, desde as primeiras invasões garimpeiras à Terra Indígena Yanomami (AM-RR), ainda nos tempos de ditadura militar. Eram, então, 40 mil garimpeiros, grande parte oriunda do garimpo exaurido de Serra Pelada, no Pará. Foram milhares, mas nem é possível precisar quantos Yanomami morreram, vítimas de armas de fogo, da malária e de outras doenças. Quase todos os invasores foram retirados e a terra foi demarcada, mas pequenos focos ficaram, pulando de um lado para outro na fronteira com a Venezuela.
Agora, há outra invasão em massa. Os garimpeiros estão em menor número, mas provocam destruição maior. Talvez sejam uns 20 mil ou menos. Mas usam dragas, escavadeiras e outros equipamentos muito maiores e com alta capacidade de destruir igarapés inteiros. A contaminação do solo, das águas e dos organismos é muito maior.
Parte deles presta serviços de apoio, manutenção, alimentação e lazer, enquanto outros operam na extração do ouro ou da cassiterita. Entre esses, há garimpeiros profissionais, que tendem a vazar pela fronteira em busca de outros garimpos, e os sazonais, que seguem esse caminho para tentar levantar dinheiro, para a compra de imóveis ou carros, entre outros. Os nossos motivos são comezinhos. Por isso, os Yanomami dizem que os brancos não têm memória.
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Yanomami recebem atendimento em hospital em Boa Vista (RR) | Felipe Medeiros / Amazônia Real
Chocante
Não faltaram denúncias. Várias comunicações e alertas formais foram feitas às autoridades. A Hutukara Associação Yanomami liderou campanhas e a mídia publicou bastante sobre o assunto. O caso chegou ao Tribunal Penal Internacional. Mas foi só depois que mudou o governo que informações oficiais do Ministério da Saúde revelaram as mortes (subnotificadas) de 570 crianças indígenas por desnutrição e outras causas evitáveis e vieram à tona imagens estarrecedoras de velhos e crianças famélicos.
Mas o que levantou, mesmo, a poeira foi a decisão do presidente Lula de visitar Roraima, de supetão, com ministros e jornalistas, pondo em evidência a situação caótica na Casa de Saúde Indígena de Boa Vista. Lula não foi ao território, mas colocou as cenas chocantes na casa de cada um de nós, tornando urgentes soluções para aquela situação inaceitável. E determinou ações emergenciais aos órgãos envolvidos, como os ministérios da Justiça, Defesa e dos Povos Indígenas, enquanto se planeja a retirada dos invasores.
No meio desse escândalo planetário, o governador reeleito de Roraima, Antônio Denarium, ainda foi capaz de piorar as coisas, declarando-se a favor da aculturação forçada dos indígenas, à revelia dos seus direitos constitucionais de viverem conforme as suas culturas, como se está fosse a solução para o gencídio em seu estado. Ele já havia promulgado uma lei estadual legalizando o garimpo predatório, declarada inconstitucional pelo STF. Mostrou-se ao mundo como um dos cúmplices dessa situação.
Representantes do ex-governo genocida tentam minimizar a repercussão da tragédia. Bolsonaro disse que o problema sempre existiu e não responde pelo crescimento de mais de 300% do garimpo durante o seu mandato nas terras Yanomami. Ele visitou pessoalmente garimpos ilegais e tentou assediar líderes yanomami para estender a predação pelo território. O genocídio decorreu de políticas deliberadas.
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Militares jogam mantimentos para aldeia na Terra Indígena Yanomami em meio à crise sanitária | Fernando Frazão / Agência Brasil
Solidariedade
Muita gente, chocada, está ajudando nas ações emergenciais com doações em dinheiro, alimentos e remédios. A Hutukara e o Conselho Indígena de Roraima (CIR) mobilizam parceiros na sociedade civil, como a Central Única das Favelas (CUFA), Médicos Sem Fronteira, Diocese de Roraima e o Instituto Socioambiental (ISA) para apoiarem as iniciativas do governo na assistência à saúde, distribuição de alimentos e comunicação.
Certamente, há entre as doações contribuições de empresas e de empresários indignados com a situação. O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) reiterou a sua oposição ao garimpo ilegal. Mas não houve, até agora, um movimento empresarial de escala para barrar de vez o acesso da produção predatória aos mercados e para viabilizar investimentos num modelo econômico sustentável na Amazônia. A cooperação internacional está oferecendo recursos para ajudar no front emergencial e na reestruturação das políticas socioambientais, desmanteladas no mandato anterior. Mas também pode fazer mais para impedir o acesso dos produtos e dos recursos ilegais aos mercados. A comoção gerada pelo genocídio precisa ir além da justa indignação para dar suporte à reversão definitiva do quadro atual.
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O que você precisa saber para entender a crise na Terra Indígena Yanomami
Dados confirmam que tragédia é resultado direto do desmonte de serviços de saúde e do agravamento da invasão garimpeira promovidos pelo governo Bolsonaro
No dia 20/1, a agência Sumaúma noticiou que 570 crianças de até cinco anos morreram de doenças evitáveis, entre 2019 e 2022, na Terra Indígena (TI) Yanomami (AM-RR). As fotos de crianças e idosos esquálidos, desnutridos, divulgadas na imprensa e nas redes sociais causaram comoção dentro e fora do Brasil.
Acompanhado de vários ministros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi a Roraima avaliar a crise. O governo decretou emergência de saúde na área e anunciou uma série de medidas, como o envio de equipes médicas à região e a instalação de um hospital de campanha em Boa Vista.
A repercussão do caso gerou indignação, dúvidas, surpresa, com a impressão de que o problema veio a público só agora, e, claro, fake news. Logo começaram a circular notícias falsas para desviar o foco da responsabilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro. Contra fatos e imagens, ele classificou a situação como uma “farsa da esquerda”.
O ISA resumiu abaixo, num texto de perguntas e respostas, as principais informações e dados científicos colhidos por pesquisadores, técnicos do governo, imprensa, sociedade civil e as próprias comunidades para você entender a tragédia humanitária que se abateu sobre os Yanomami e ajudar a combater a desinformação.
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Garimpo no Rio Uraricoera, Terra Indígena Yanomami, em janeiro de 2022
O que está acontecendo na Terra Indígena Yanomami pode ser considerado genocídio?
A Lei 2.889/1956 diz que o genocídio é caracterizado pela “intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso”, por meio de atos como: “matar membros do grupo; causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo; submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial; adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo; efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo”. A definição segue a legislação internacional.
Juristas ouvidos pela imprensa nos últimos dias dizem que há indícios de que a gestão Bolsonaro cometeu o crime na TI Yanomami, mas apenas um julgamento pela Justiça brasileira ou internacional poderá confirmá-lo.
Na segunda (30), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso determinou a abertura de inquérito contra autoridades federais para apurar essa possibilidade. Não se sabe exatamente quem é alvo do processo porque ele está sob sigilo.
Na semana passada, o ministro da Justiça, Flávio Dino, já tinha determinado que a Polícia Federal (PF) também investigasse os possíveis crimes de genocídio e omissão de socorro por parte do governo anterior no território indígena.
O assassinato de 16 Yanomami por garimpeiros, em 1993, conhecido como “Massacre de Haximu”, é o único caso do crime de genocídio confirmado pela Justiça brasileira.
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Garimpo no Rio Uraricoera, Terra Indígena Yanomami, janeiro de 2022
Quais os motivos para a crise de saúde na Terra Indígena Yanomami?
Agravadas ao longo dos últimos cinco anos, as razões da crise são a desestruturação da assistência à saúde indígena e a invasão garimpeira, responsável por uma série de impactos sanitários, ambientais, socioculturais e econômicos sobre as comunidades.
Não é verdade que a origem da situação seja a suposta incapacidade produtiva dos indígenas. Ao contrário, com suas terras e seus recursos naturais preservados, eles conservam boas condições de vida.
Também não é verdade que a crise Yanomami seja comum a outras populações indígenas neste momento. Há outras TIs com problemas parecidos, mas não na mesma escala e pelos mesmos motivos.
Qual a relação entre o garimpo ilegal, a disseminação de doenças e a desnutrição entre os Yanomami?
O garimpo é o responsável direto por uma série de problemas graves entre os povos originários. No caso Yanomami, há relação comprovada entre a explosão da atividade e o aumento de casos de doenças infectocontagiosas, como gripe e pneumonia.
É inequívoca ainda a associação entre a devastação provocada pela mineração ilegal e a propagação da malária, facilitada pela multiplicação de invasores e pelas crateras com água parada, fruto da atividade e propícias à proliferação de mosquitos transmissores da enfermidade.
Em virtude do contato razoavelmente recente e do isolamento relativo, os indígenas têm menos defesas imunológicas para moléstias comuns entre não indígenas.
A ocupação do território, a destruição da floresta, a contaminação dos corpos de água promovidas pelo garimpo dificultam a manutenção e abertura de roças, a caça, a pesca e a coleta de frutos, as principais fontes de alimentação das comunidades.
Uma parte delas também é aliciada. Especialmente vulneráveis a falsas promessas de prosperidade, jovens recebem armas e comida para trabalhar ou aliar-se aos invasores. Mulheres são abusadas e exploradas sexualmente. O recrudescimento da violência cria um clima de tensão permanente. Os moradores ficam sitiados em suas próprias aldeias.
Todo o quadro é agravado pelo desmonte da assistência aos indígenas. Além disso, os invasores têm se apossado de parte da infraestrutura de atendimento, como pistas de pouso e postos de saúde. A violência do garimpo dificulta a presença de equipes médicas, a distribuição de medicamentos e alimentos.
Sem comida e assistência médica, a condição dos enfermos piora. Como a economia indígena depende da mão de obra familiar, as atividades tradicionais de subsistência ficam inviáveis com as pessoas permanentemente adoecidas ou trabalhando no garimpo, num círculo vicioso de fome, debilidade física e escassez.
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Garimpo no Rio Novo, Terra Indígena Yanomami, janeiro de 2022
Qual a extensão da crise de saúde na Terra Yanomami?
Conforme dados do Ministério da Saúde obtidos pela agência Sumaúma, 570 crianças de até cinco anos morreram de doenças evitáveis na TI Yanomami, entre 2019 e 2022, um aumento de 29% em relação a 2015-2018. De acordo com o Ministério dos Povos Indígenas, 99 crianças de um a quatro anos teriam morrido, só em 2022, por causas como desnutrição, pneumonia e diarreia.
Cerca de 56% das crianças da área acompanhadas tinham um quadro de desnutrição aguda (baixo ou baixíssimo peso para a idade) em 2021, segundo dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) fornecidos à agência Pública. “O estado nutricional das crianças Yanomami é realmente muito ruim, só comparável aos dados de crianças da África Subsaariana”, afirmou o médico Paulo Basta, da Fiocruz à agência.
Apenas entre 2020 e 2021, a TI Yanomami registrou mais de 40 mil casos de malária, de acordo com o Sistema de Informações de Vigilância Epidemiológica (Sivep) do Ministério da Saúde. Isso tudo para uma população de cerca de 30 mil pessoas.
É importante observar que a TI Yanomami é a maior do país, com cerca de 96 mil km2 (superando a extensão de Portugal), e há diferenças entre as 370 comunidades. As regiões mais distantes das invasões têm uma condição sanitária mais favorável, embora a precarização do atendimento à saúde impacte todo o território.
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Bebês yanomami desidratados são atendidos em hospital em São Gabriel da Cachoeira (AM), em 2020 | Raquel Uendi / ISA
O que aconteceu com os serviços de saúde Yanomami nos últimos anos?
A saúde indígena foi desestruturada pelo governo Bolsonaro, embora sempre tenha apresentado deficiências. A pandemia de Covid-19 agravou e escancarou a situação.
No caso Yanomami, a má gestão de recursos e o aparelhamento político, com a nomeação de pessoas sem conhecimento e experiência para cargos importantes, criaram um quadro de desorganização, escassez de equipamentos, mão de obra, medicamentos e outros insumos.
Indígenas e profissionais de saúde relataram o fechamento ou abandono de postos de saúde e a redução dos atendimentos nos que continuaram funcionando. O problema foi documentado pelo relatório Yanomami Sob Ataque, publicado pela Hutukara Associação Yanomami e a Associação Wanasseduume Ye’kwana.
Auditorias da própria administração federal confirmaram várias falhas no Distrito Especial de Saúde Indígena Yanomami (DSEI-Y): desatualização de indicadores de saúde; descumprimento de jornadas de trabalho e metas de atendimento; entrega de medicamentos com data de validade próxima do vencimento; transporte por aeronaves sem autorização de voo, entre outros. Os relatórios foram ignorados pelo governo.
Na verdade, a crise sanitária é ainda pior por causa da subnotificação e do “apagão” de dados dos últimos anos. Por exemplo, 90% das crianças yanomami eram monitoradas pelo DSEI-Y em 2019, mas o número baixou para 75%, em 2022. Nas estatísticas oficiais, houve melhora nos registros de desnutrição, mas ocorreu o contrário, simplesmente porque o número de crianças acompanhadas caiu. No início do governo Bolsonaro, já se sabia que a situação era ruim e, mesmo assim, a vigilância foi reduzida.
Quando começou exatamente a crise de saúde na Terra Indígena Yanomami? Ela veio a público só agora?
Não há dúvida de que a situação agravou-se a partir de 2018 e 2019, com as eleições e o início do governo Bolsonaro, embora já houvesse problemas na assistência e invasores na área. O discurso antiambiental de Bolsonaro e seus aliados e o desmonte dos órgãos de fiscalização estimularam a ocupação ilegal de áreas protegidas e provocaram recordes sucessivos de desmatamento. O território yanomami foi um dos mais afetados.
Não é verdade, portanto, que a situação seja a mesma em 30 anos, embora os Yanomami já tenham passado por crises graves, principalmente com a intensificação do contato com os não indígenas e a primeira grande onda garimpeira, nos anos 1970 e 1980. Profissionais de saúde e lideranças indígenas reafirmam que a situação nunca foi tão grave nesse período.
Muita gente teve a impressão de que a crise veio a público só agora porque as notícias sobre ela alcançaram uma audiência sem precedentes, resultado da repercussão da visita do recém-empossado presidente Lula e das medidas emergenciais tomadas por seu governo.
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Quem são os responsáveis pela crise de saúde dos Yanomami?
Notoriamente anti-indígena, Bolsonaro foi o primeiro presidente da República desde a Redemocratização a não demarcar “nenhum centímetro” de TIs, como prometeu em campanha.
Durante todo o governo, ele estimulou o crime ambiental e sua regularização, em especial o garimpo ilegal nas TIs. Também promoveu um desmonte administrativo sem precedentes na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e no Ibama, responsáveis pela fiscalização dessas áreas.
Tudo isso resultou, a partir de 2019, numa onda de invasões a áreas protegidas e recordes sucessivos de desmatamento em cerca de 15 anos. A TI Yanomami foi uma das mais afetadas.
A saúde indígena também sofreu com a desestruturação de políticas públicas do governo Bolsonaro. As deficiências já existentes recrudesceram.
Forças militares e de segurança também reduziram a fiscalização e, muitas vezes, negaram apoio a operações para a retirada dos invasores e proteção das aldeias.
Toda a situação foi denunciada aos órgãos federais, ao Ministério Público, à imprensa e nas redes sociais pelo Conselho Distrital de Saúde Yanomami e Ye’kwana (Considisi-Y), a Hutukara Associação Yanomami, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e o ISA. Os alertas foram desprezados, no entanto. Pelo menos 21 ofícios sobre o caso foram ignorados por diversas instituições oficiais em apenas dois anos, informou o The Intercept Brasil.
A ordem de isolar e conter os garimpeiros na TI Yanomami também foi ignorada. O mesmo aconteceu com decisões do próprio STF e da Justiça Federal para que a União formulasse e executasse um plano para retirar os invasores. Também foi desconsiderada uma deliberação da Corte Interamericana de Direitos Humanos e pedidos da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Se as determinações e alertas tivessem sido atendidos, a crise não teria ocorrido ou seria menor.
Portanto, têm responsabilidade sobre a tragédia, em diferentes graus e aspectos, o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-vice-presidente Hamilton Mourão, então coordenador do Conselho Nacional da Amazônia, responsável por articular as ações de fiscalização ambiental na região durante o último governo. Também podem ser responsabilizados os respectivos dirigentes, no antigo governo, da Funai, do Ibama, da PF e dos ministérios da Saúde, da Justiça, da Defesa e do Meio Ambiente, entre outros que uma investigação adequada vier a apontar.
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Presidente Lula visita indígenas yanomami em Boa Vista, Roraima, 20/1/2023 | Ricardo Stuckert / PR
Quais as medidas tomadas pelo governo até agora para enfrentar a crise sanitária na TI Yanomami?
Ainda no dia 20, o governo federal decretou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional na TI Yanomami. Trata-se de uma situação que demanda o emprego urgente de medidas de prevenção, controle e contenção de riscos, de danos e de agravos à saúde pública, em situações que podem ser epidemiológicas (surtos e epidemias), de desastres ou de desassistência à população. Esse último é o caso dos Yanomami.
A gestão federal também anunciou o envio de equipes médicas para prestar assistência emergencial e fazer um diagnóstico da situação, além da instalação de um hospital de campanha em Boa Vista e de um Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública (COE), que fará a coordenação das ações contra a crise e deverá ser gerido pela Sesai.
Foi criado ainda um Comitê de Coordenação Nacional para Enfrentamento à Desassistência Sanitária das Populações em Território Yanomami, que vai discutir as medidas a serem adotadas, apoiar a articulação entre poderes e estados e apresentar um plano de ação em 45 dias. Fazem parte do colegiado os ministérios dos Povos Indígenas, da Saúde, da Defesa, da Justiça, do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome e da Gestão e Inovação em Serviços Públicos.
O governo planeja uma grande operação de retirada dos garimpeiros. A ação ainda não tem data para acontecer, mas nesta segunda (30), em reunião com vários ministros, o presidente Lula pediu pressa no bloqueio do espaço aéreo e dos principais rios que cortam a área, com o objetivo de estrangular a logística do garimpo. Cerca de 56 toneladas de alimentos e medicamentos já teriam sido enviados à TI Yanomami, segundo a Força Aérea Brasileira (FAB).
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Fórum Socioambiental de Políticas Climáticas é tema de novo episódio do “Vozes do Clima”
Programa aborda temas discutidos no evento, realizado em Manaus, como o protagonismo de povos e comunidades tradicionais na agenda climática da Amazônia
O boletim de áudio “Vozes do Clima” abre o ano de 2026 com os debates ocorridos durante o I Fórum Socioambiental de Políticas Climáticas no Amazonas, realizado no final de outubro de 2025, em Manaus (AM). O evento teve a presença de mais de 80 pessoas entre lideranças indígenas e de comunidades tradicionais, representantes da sociedade civil, instituições de pesquisa, órgãos governamentais e parceiros técnicos para debater os caminhos da agenda climática no estado - e no país. A organização foi feita pelo Instituto Socioambiental (ISA), em parceria com o Memorial Chico Mendes, o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), redes e instituições locais.
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Povos da floresta precisam ser protagonistas das soluções para barrar a crise climática|Carol Quintanilha/ISA
O novo episódio, lançado nesta sexta-feira (20/02), traz as vozes de lideranças indígenas, representantes do poder público e ativistas socioambientais que durante os dois dias do Fórum participaram de oito mesas temáticas, abordando experiências de governança e adaptação climática e financiamento para uma transição justa. Foi um momento histórico no debate sobre as consequências enfrentadas e as soluções criadas por quem vive na Amazônia para fazer frente à emergência climática.
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I Fórum Socioambiental de Políticas Climáticas no Amazonas reuniu mais de 80 pessoas em Manaus|Michel Dantas/ISA
O programa tem apresentação de Vanessa Fernandes, jornalista do ISA, e conta com as participações de Júlio Barbosa, presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS); de Dario Baniwa, diretor-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn); de Almir Suruí, líder maior do povo Paiter Suruí da Terra Indígena Sete de Setembro, em Cacoal, Rondônia; de Henrique Pereira, diretor presidente do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA); de Francisca Arara, Secretária dos Povos Indígenas do Acre; e de Juliana Radler, analista de políticas socioambientais do ISA.
Ouça aqui
Ações para enfrentar a crise
“A floresta que produz a fruta que os animais silvestres comem não tá produzindo. Aí o que que acontece? Os animais que comem aquelas frutinhas ficam passando necessidade. Muitas vezes o macaco, o porquinho, a cutia vem pegar fruta no quintal. Então, a família que planta às vezes uma rocinha de mandioca para fazer farinha para se alimentar, antes daquela mandioca começar a produzir a batata, o porquinho do mato vem e come, porque ele não tem alimento”, contou Júlio Barbosa, do CNS, lembrando que as antigas gerações organizavam a roça com base nos períodos regulares de chuva e seca, mas com o agravamento das mudanças climáticas essas estações estão cada vez menos previsíveis, prejudicando o plantio, a colheita do alimento e o sustento dos animais.
Dario Baniwa, da Foirn, também falou dos efeitos da crise climática e apontou os desafios para a manutenção do manejo tradicional na produção de alimentos.
“Hoje a gente sofre crise climática, mas a injustiça também. Uns 20 anos atrás, as pessoas que produziam, principalmente as mulheres que cuidam da roça, podiam passar quatro horas ou cinco horas na roça. Hoje não, elas têm que ir mais cedo para poder voltar umas nove, 10 horas (da manhã). Ou vai no final do dia, porque o sol a partir de 10 horas até umas três horas da tarde, ninguém consegue aguentar”, disse Dário ao “Vozes do Clima”.
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Dário Baniwa, presidente da Foirn, apontou os desafios para a manutenção do manejo tradicional na produção de alimentos|Michel Dantas/ISA
Almir Suruí, líder do povo Paiter Suruí, reforçou o entendimento dos parentes e compartilhou experiências de seu território no enfrentamento desses desafios.
“A Amazônia não produziu nada de castanha no ano passado, por efeito das mudanças climáticas. Nosso modelo, que nós estamos sugerindo, discutindo, é produzir com planejamento na forma de agrofloresta, da sustentabilidade e criar cadeia produtiva com calendário produtivo também. Você pode produzir dentro de uma espaço vários tipos de produto, como café, castanha, cacau, açaí, cupuaçu, frutíferas. Então, é você trabalhar com esse modelo de agrofloresta para tentar ajudar a trazer o equilíbrio das mudanças climáticas na Amazônia”, enfatizou.
Secretária dos Povos Indígenas do Acre, Francisca Arara ressaltou ao “Vozes do Clima” a necessidade do apoio do poder público para políticas de adaptação.
“Cada vez as coisas estão acontecendo de uma forma mais violenta e mais urgente, e a gente precisa criar alguns mecanismos de como sobreviver dentro do nosso território, trabalhar os poços artesianos, reservatório de água, captação da chuva, que agora o Acre tá fazendo. Mas para fazer isso, você não faz só com a boa vontade, precisa captar recursos. Tem que ter recurso de fundos climáticos, de fundo do Governo Federal, dos estados que estão arrecadando. Então, precisa olhar, não só os povos indígenas, mas também as populações tradicionais, porque agora é saber como enfrentar e se adaptar a viver nesse outro momento”, defendeu.
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Francisca Arara, Juliana Radler e Hulicio Moisés Kaxinawa também participaram do evento e do novo episódio do "Vozes do Clima"|Michel Dantas/ISA
O que é o “Vozes do Clima”?
O boletim de áudio “Vozes do Clima” é uma realização do ISA, com produção da produtora de podcasts Bamm Mídia e apoio da Environmental Defense Fund (EDF) que propõe levar informações a povos e comunidades tradicionais sobre os temas relacionados à pauta climática.
A identidade visual foi concebida pelas designers e ilustradoras indígenas Kath Matos e Wanessa Ribeiro. Além de ser distribuído via Whatsapp e Telegram, o programa poderá ser ouvido nas plataformas de áudio Spotify, iHeartRadio, Amazon Music, Podcast Addict, Castbox e Deezer.
Este é o sétimo episódio da segunda temporada do “Vozes do Clima”, que contará com um total de 12 edições e abordará os diversos debates sobre clima e a pauta socioambiental.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Nota de pesar por Gabriel Ferreira, jovem liderança do povo wapichana
Gabriel atuou como secretário regional do Conselho Indígena de Roraima (CIR) e comunicador da Rede Wakywaa; ISA cobra investigações
Gabriel foi secretário regional do Conselho Indígena de Roraima e comunicador da Rede Wakywaa | Divulgação CIR
O Instituto Socioambiental (ISA) manifesta profundo pesar pela morte de Gabriel Ferreira, 28 anos, jovem liderança do povo indígena wapichana.
Gabriel era morador da comunidade Novo Paraíso, Terra Indígena Araçá, localizada no município de Amajari, em Roraima. Liderança da juventude indígena de Roraima, ele atuou como secretário regional do Conselho Indígena de Roraima (CIR) e comunicador da Rede Wakywaa.
O ISA se solidariza com os familiares e amigos neste momento de profunda tristeza. Também cobramos das autoridades que as investigações sejam rigorosas e levem a respostas concretas sobre as condições de sua morte.
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Cine Japu se consolida como espaço de democratização e celebração do cinema indígena no Rio Negro
Em 2025, o cineclube integrou importantes circuitos e mostras nacionais e internacionais, apresentando uma programação plural, com destaque para temáticas indígenas e ambientais
A primeira sessão de 2025 teve o filme Mensageiras da Amazônia, do Coletivo Audiovisual Munduruku Daje Kapap Eypi | Foto:Vanessa Fernandes/ISA
Às margens do Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (AM), município com a maior população indígena do país, o Cine Japu vem se consolidando como um espaço estratégico de fortalecimento do audiovisual indígena. Prestes a completar três anos de criação, o projeto alcançou um público de quase 900 pessoas em 2025, o dobro em relação ao ano anterior.
Criado em 2023, é uma iniciativa do Instituto Socioambiental (ISA), com participação da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro. As sessões são quinzenais, seguidas de rodas de conversa, com a proposta de ampliar diálogos, compartilhar saberes e fortalecer as culturas indígenas por meio da arte e do lazer, conectando comunidades, instituições locais e diferentes gerações.
Desde o seu início, 44 exibições já foram realizadas, reunindo um público total de 1.965 pessoas, tanto na sala Dagoberto Azevedo – Suego, no Telecentro do ISA, quanto em itinerâncias em escolas e comunidades próximas, reforçando o papel do cinema como ferramenta de educação, pertencimento e troca. Um impacto que vai muito além dos números.
Em 2025, o Cine Japu integrou circuitos e mostras nacionais e internacionais importantes, como o Circuito Embaúba, recebendo estreias do audiovisual brasileiro. Também foi um dos pontos selecionados para receber o 14º Circuito Tela Verde, uma iniciativa do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima; aderiu ao programa educacional da mostra Ecofalante; e foi convidado para exibir a 2ª Mostra do Mercosul Audiovisual, realizada pela Secretaria do Audiovisual (SAV) do Ministério da Cultura, em parceria com a Reunião Especializada de Autoridades Cinematográficas e Audiovisuais do Mercosul (RECAM).
O projeto também celebrou, pelo segundo ano consecutivo, o Dia Internacional da Animação, com uma seleção de curtas nacionais. Mais recentemente, o projeto recebeu convite para integrar o Mapeamento de Salas Públicas de Cinema da Secretaria do Audiovisual e do Ministério da Cultura, um reconhecimento importante para uma iniciativa que nasce em uma cidade fora do circuito comercial de cinema, em um contexto regional que possui o menor acesso a salas de cinema, museus e teatros do país.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2023), no Amazonas, para chegar ao cinema mais próximo, a média de deslocamento é de mais de 23 horas. No Rio de Janeiro, por exemplo, a média é de 16 minutos.
Espaço de fala e escuta
Ao longo das sessões de 2025, todas as rodas de conversa foram conduzidas por jovens comunicadores e lideranças indígenas, tanto da Rede Wayuri quanto do Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Dajirn/Foirn).
Outras instituições que também participaram ativamente das sessões e discussões foram o Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (Dmirn/foirn), o Colegiado Indígena do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (PPGAS/UFAM) e a Secretaria Municipal de Educação e Educação Escolar Indígena (SEMEDI).
Renata Meirelles, diretora do filme Do Colo da Terra, e a liderança do povo Desana Adelina Sampaio com os filhos - assíduos do projeto - após sessão no Cine Japu | Foto: Vanessa Fernandes/ISA
A programação diversificada trouxe filmes com temática indígena e ambiental, obras dirigidas por indígenas, filmes produzidos na região do Rio Negro, além de longas e curtas brasileiros que abordam outras temáticas sociais.
As sessões itinerantes em escolas como a Escola Municipal Indígena Lilian Ambrósio e a Escola Estadual Sagrada Família ampliaram ainda mais o alcance do projeto, com a participação ativa de gestores, professores e estudantes no processo de formação de plateia.
Entre os títulos exibidos, estiveram Mensageiras da Amazônia, do Coletivo Audiovisual Munduruku Daje Kapap Eypi, que acompanha jovens Munduruku utilizando o audiovisual como ferramenta de denúncia e defesa de seus territórios; Mapear Mundos, documentário histórico sobre as lutas indígenas e os direitos territoriais no Brasil; e Meu Pai Kaiowá (Yõg ãtak), que aborda reencontros familiares marcados por separações forçadas vividas por povos indígenas.
Também integrou a curadoria o documentário Do Colo da Terra, exibido com a presença da diretora Renata Meirelles, que reforçou o diálogo entre cineastas e público, além de obras de ficção como Ainda Não é Amanhã e Suçuarana, que ampliaram o debate sobre questões sociais, pertencimento e território.
A programação contou ainda com produções audiovisuais comunitárias e experimentais, como vídeos realizados pelas produtoras e multiartistas Naiara Bertoli e Rosi Waikhon, durante a programação de Imersão Teatral no Rio Negro, reforçando o compromisso do Cine Japu com múltiplas narrativas e formas de contar histórias.
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Sessão itinerante na Escola Municipal Indígena Lilian Ambrósio | Inês Mexia/ISA
Para a comunicadora indígena Nayra Sthefany Cardoso, que também foi uma das mediadoras ao longo de 2025, o Cine Japu, muitas vezes, é o primeiro contato com o cinema para muitas crianças e jovens de São Gabriel da Cachoeira. “A gente vê a emoção deles, a felicidade, os sentimentos despertados quando o filme passa na tela. Muitas vezes, aquela é a primeira experiência em uma sala de cinema, diante de um telão, junto com outras pessoas”, descreve Nayra.
Segundo a jovem, a iniciativa contribui para a formação crítica do público, especialmente dos mais jovens. “São vídeos educativos, que fazem a gente enxergar o mundo de forma mais crítica. Isso é muito importante para a nossa juventude, e a gente fica muito feliz”, afirma.
Na avaliação de Claudia Ferraz, coordenadora da Rede Wayuri, o Cine Japu se consolida como um espaço essencial para a população. “É um lugar onde podemos assistir filmes e documentários relacionados aos povos indígenas, que trazem memórias, histórias e narrativas que marcaram a vida dos nossos povos”, afirma.
Para Claudia, o diferencial está nos encontros que o cinema provoca. “Além de assistir, a gente compartilha, troca ideias e conversa sobre o que viu. O Cine Japu mostra a importância de registrar, gravar e mostrar a nossa realidade, nossa cultura e nossas línguas”, finaliza.
O público do Cine Japu ao longo do ano teve destaque especial para a participação de crianças e jovens, impulsionada pelas exibições nas escolas, mostrando que o cinema pode ser uma ferramenta potente de educação, pertencimento e imaginação. A participação do público feminino segue sendo majoritária desde o início do projeto.
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Da esquerda para a direita: Adelina Sampaio Veloso, Sarah Sampaio (bebê no colo), Melissa Maria, Wendell Manoel e Rafaela Sampaio Veloso em sessão do Cine Japu | Vanessa Fernandes/ISA
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Lideranças Yanomami e Ye’kwana lançam filme sobre ‘A Carta de Surucucu’ e avaliam ação emergencial
Há três anos, o Governo Federal iniciava operação na Terra Indígena Yanomami e agora lideranças indicam próximos passos nas áreas da saúde, educação e proteção do território
As lideranças da Terra Indígena Yanomami lançam nesta sexta-feira (30/01) um minidocumentário sobre o VI Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana. O evento reuniu mais de 550 indígenas durante uma semana e resultou na Carta de Surucucu, documento que avalia ações emergenciais do governo federal e reivindica mais atenção no combate à malária e na proteção territorial.
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O Fórum de Lideranças é a mais alta instância de decisões da TI Yanomami. Na foto, Davi Kopenawa, presidente da Hutukara Yanomami|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
Disponível no YouTube, o curta de 19 minutos conta com depoimentos de algumas das lideranças, como Waihiri Hekurari, presidente da associação Urihi Yanomami, Davi Kopenawa Dário Kopenawa, presidente e vice-presidente da Hutukara Yanomami, Júlio Ye’kwana, presidente da Wanasseduume Ye’kwana (Seduume), e Carlinha Lins, presidenta da Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK).
Assista abaixo:
O VI Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana ocorreu na comunidade Kori Yauopë, na região de Surucucu, em novembro de 2025, e teve Waihiri Hekurari como anfitrião. Uma das vozes mais expressivas no combate ao garimpo e nas denúncias de descaso durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), ele convida os espectadores para a leitura da carta na íntegra.
“Nós, Yanomami e Ye’kwana, fizemos uma carta com a voz do nosso povo, uma flecha forte”, diz Hekurari. Waihiri ficou mundialmente conhecido como Júnior Hekurari - nome que abandonou por sentir a necessidade de uma alcunha mais adulta e diretamente ligada à língua do seu povo. O novo nome carrega o mesmo peso que a palavra “guerreiro” em português.
O minidocumentário conta ainda com depoimentos de lideranças Ye’kwana da Venezuela, que participaram do VI Fórum em um movimento de intercâmbio para compreender como as lideranças da Terra Indígena Yanomami se organizam no Brasil.
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Waihiri, uma das vozes mais expressivas no combate ao Garimpo, foi um dos anfitriões|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
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Lideranças reunidas no último dia do VI Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
O trabalho é uma produção de Cama Leão e Instituto Socioambiental (ISA) realizado em conjunto com as associações da Terra Indígena Yanomami que compõem o Fórum de Lideranças. Tem direção e montagem de Tati Vesch, produção de base e entrevistas por Fabrício Araújo, produção executiva de Maica Alves, coordenação de Ana Paula Anderson, direção de fotografia e drone por Erik Vesch, fotografia adicional de Lucas Silva, direção de arte de Mariana Abasolo, finalização de João Maia, tradução do yanomami para o português de Marcelo Moura, e tradução do espanhol para o português e legendas de Ana Paula Anderson.
Três anos em situação de emergência
O filme é lançado no mesmo mês em que a Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) foi decretada na Terra Indígena Yanomami. À época, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) viajou a Boa Vista e montou uma operação para estruturar a saúde e expulsar garimpeiros ilegais da região. Agora, as lideranças avaliam quais devem ser os próximos passos do governo na manutenção da defesa da maior terra indígena do Brasil.
“O presidente decretou situação de emergência para salvar a população Yanomami, para expulsar os garimpeiros”, diz Hekurari antes do filme mostrar uma sequência de imagens de equipamentos e estradas utilizadas pelo garimpo ilegal sendo destruídos em operações ligadas à Casa de Governo em Roraima. Embora reconheçam avanços desde que a criação da Casa de Governo em fevereiro de 2024, as lideranças afirmam que a operação não pode parar e que ainda faltam avanços no combate à malária.
“Na minha opinião, na opinião do povo Yanomami junto com Xapiri, Lula é uma pessoa honesta. Eu o conheci e já sonhei com a alma dele. Ele nos abraçou e aprendeu a respeitar a nossa terra, aprendeu a respeitar o povo Yanomami. Nós esperamos mais, ele não pode abandonar e pensar que já resolveu”, afirma Davi Kopenawa, xamã do povo Yanomami.
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Carlinha Lins, presidenta da AMYK, também compartilhou as reivindicações das mulheres para o território|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
Conforme a Carta de Surucucu, houve 14.615 casos positivos de malária só nos primeiros oito meses de 2025. A quantidade é preocupante, pois a população Yanomami é estimada em cerca de 30 mil pessoas. O documento aponta que há esforços para reestruturação da saúde e que houve uma queda de 20% no número de casos positivos em comparação ao mesmo período de 2024, mas pedem que as equipes de saúde foquem no diagnóstico rápido.
Ainda referente ao combate ao garimpo, as lideranças pedem no documento que haja celeridade nos inquéritos e julgamentos de garimpeiros e financiadores da atividade ilegal, manutenção da Casa de Governo e operações de desintrusão, além de aprovação do Projeto de Lei 3.776/2024, que prevê aumento de penas minímas.
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As lideranças pedem celeridade nos inquéritos e julgamentos de garimpeiros e financiadores da atividade ilegal no território|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
A carta também reforça o desejo dos Yanomami e Ye’kwana por uma educação diferenciada com Territórios Etnoeducacionais como caminho para terem acesso a escolas bilíngues e interculturais.
“Os jovens cobram a gente. Na minha comunidade, eles nos cobram por ajuda na educação, é o principal pedido. Eles querem o fim das invasões e querem frequentar escolas”, pontuou Júlio Ye’kwana, presidente da Seduume.
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Nota de pesar pelo falecimento de Geraldo Kuisitheri Yanomami, liderança do povo Yanomami
Pioneiro, Geraldo foi videomaker nos primórdios do projeto Vídeo nas Aldeias, assim como um dos primeiros professores yanomami, intérprete, microscopista e pesquisador
É com imensa tristeza que o Instituto Socioambiental (ISA) recebe a notícia de falecimento de Geraldo Kuisitheri Yanomami, liderança do povo Yanomami.
Geraldo faleceu aos 57 anos, na noite desta terça-feira (14), em razão de complicações de saúde.
Figura emblemática na luta pela defesa da Terra Indígena Yanomami, a maior do Brasil, Geraldo assinou uma carta em defesa de todas as florestas do mundo junto a Davi Kopenawa na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992, no Rio de Janeiro.
Também em 1992, esteve com Davi no Palácio do Planalto, em Brasília, para a assinatura da homologação da Terra Indígena Yanomami.
Pioneiro em várias frentes de atuação, Geraldo foi um dos primeiros a participar de processos formativos. Foi videomaker nos primórdios do projeto Vídeo nas Aldeias, assim como foi um dos primeiros professores yanomami, intérprete, microscopista e pesquisador.
Na última década participou ativamente da elaboração do Plano de Gestão Territorial e Ambiental da Terra Indígena Yanomami e do Protocolo de Consulta dos povos Yanomami e Ye´kwana, além de ser responsável pelo surgimento e fortalecimento da rede de coletores de castanha e de artesãs Yanomami, projeto desenvolvido pela Hutukara Associação Yanomami (HAY) em parceria com o ISA.
Geraldo foi um dos principais responsáveis pela implementação dos projetos da Hutukara na busca da melhoria na qualidade de vida dos Yanomami e segue como um exemplo para as novas gerações de seu povo. Permanece entre nós a sua garra, coragem, generosidade e simpatia.
O ISA deseja conforto e forças aos familiares, amigos e parceiros de luta da exemplar liderança que foi Geraldo Kuisitheri Yanomami.
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Aimas realizam oficina de manejo das capoeiras e do uso sustentável da sorva no Médio Rio Tiquié
Atividade incentivou debate sobre a influência humana na configuração de paisagens antropogênicas na região
Entre 27 de outubro e 10 de novembro de 2025, a comunidade de Boca da Estrada, no Médio Rio Tiquié (São Gabriel da Cachoeira – AM), sediou a oficina de Manejo das Capoeiras e da Sorva. A atividade contou com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) do Tiquié, reunindo estudantes, professores, artesãos e lideranças para fortalecer práticas indígenas de manejo e discutir estratégias de uso sustentável das capoeiras e da sorva (Couma utilis) — árvore utilizada na produção dos bancos tukano (kumurõ).
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Alunos, professores e consultor na capoeira madura na Comunidade de Boca da Estrada|Danilo Parra
A programação envolveu visitas a capoeiras, identificação de plantas, elaboração de desenhos de perfis das árvores indicadas em categorias de uso e manejo, proporcionando um rico debate sobre a influência da ação humana na configuração de paisagens antropogênicas nesta região.
Manejo das capoeiras
As capoeiras são áreas retomadas pela floresta após o período de uso agrícola. Estas áreas integram ambientes que sustentam o próprio sistema agrícola, uma vez que as plantas cultivadas dependem de solos ricos em fertilidade, que em suma só podem ser restaurados a partir deste processo de reversão da floresta novamente.
Na agricultura indígena do Rio Negro, ao contrário do modelo ocidental, as áreas produtivas não são utilizadas até a sua exaustão: quando a produtividade diminui, a área é deixada para se recuperar, visto que também existe uma série de cuidados que favorecem a regeneração de árvores úteis e funcionais nestes sítios manejados.
Nesse processo a floresta retoma essas áreas, e um conjunto de espécies características de cada estágio de sucessão renasce, cresce e acaba por formar uma nova floresta, revigorando o solo e garantindo roças produtivas ao longo de gerações.
Durante a oficina, os participantes sistematizaram conhecimentos locais e criaram classificações para os estágios de sucessão — das capoeiras novas (Wiakaro Wimaro) às mais antigas, com árvores grossas similares às da mata primária (Buhku Wiakaro).
As conversas destacaram que o manejo cuidadoso, além de evitar a degradação do solo e da própria floresta regenerante, mantém as características do sistema agrícola produtivo e, a depender do tipo de manejo de plantas úteis e funcionais, pode tornar esses ambientes ainda mais ricos.
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Ismael dos Santos desenha o perfil de uma capoeira intermediária, com destaque para árvores cultivadas (vermelho)|Marcus Schmidt
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Apresentação dos desenhos na oficina de capoeiras, com destaque para a categoria de plantas coletadas (amarelo)|Marcus Schmidt
As visitas às áreas de cultivo também mostraram desafios atuais, entre eles a manutenção de algumas práticas tradicionais que asseguravam a produtividade nestes ambientes após sucessivos ciclos de cultivo. Mudanças de hábitos associadas a novas tecnologias têm levado ao uso excessivo de algumas capoeiras e causado o distanciamento das áreas produtivas em relação às comunidades, levando muitas vezes a uma situação de escassez ou raridade de ocorrência de plantas úteis e funcionais, podendo resultar na degradação de algumas dessas antigas capoeiras, a depender dos cuidados considerados durante o período de cultivo agrícola.
A oficina resultou na avaliação de seis capoeiras em diferentes estágios de crescimento e estados de conservação no entorno da comunidade de Boca da Estrada, onde predominam povos de língua Tukano Oriental e Hüpda.
Algumas destas capoeiras mais antigas apresentavam boas condições de solos e presença de plantas úteis que haviam sido cultivadas e cuidadas pelos antigos donos. Estas foram mantidas nestes ambientes a partir da proteção, plantio de mudas e outros tipos de zelos que favoreceram o seu estabelecimento. Enquanto outras capoeiras apresentavam sinais de exaustão, evidenciados pelas características dos solos e da estrutura e composição de plantas. Conforme observado, ambientes de caatinga amazônica – tattahboa – são mais vulneráveis por apresentar solos mais arenosos e menos estruturados.
Os estudantes registraram cerca de 63 espécies de plantas, sendo posteriormente classificadas em 10 categorias de manejo que, em sua maioria, poderiam favorecer o seu estabelecimento nas áreas de capoeiras após os períodos de cultivo. Entre estas 10 categorias de manejo identificadas e traduzidas com o apoio de AIMAS, alunos e professores estavam: 1. corte, 2. manejo de rebrota, 3. cultivo, 4. dispersão de sementes, 5. corte de casca, 6. proteção, 7. coleta, 8. derrubada, 9. poda de galhos e 10. não manejada.
A proposta da oficina foi sensibilizar os comunitários sobre a importância dos cuidados com o manejo das capoeiras, enfatizando os conhecimentos dos agricultores mais experientes e considerando os limites da resiliência destes ambientes, evitando a degradação dos solos e favorecendo a permanência de plantas que apresentam usos específicos.
Os alunos e professores compreenderam a importância em atribuir categorias às plantas, uma vez que o manejo específico dessas categorias pode definir a sua permanência nestes sistemas, tornando as capoeiras mais diversas e sustentáveis.
Sorva: espécie sensível e central para o artesanato
A discussão sobre o uso da sorva (Couma utilis) na produção dos bancos kumurõ para comercialização retomou antigos debates sobre sua sustentabilidade. A sorva apresenta importância cultural para os povos rionegrinos, principalmente por ser a principal madeira utilizada na confecção dos bancos.
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AIMAs e alunos coletam madeira de sorva para a oficina de produção de bancos kumorõ|Marcus Schmidt
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A oficina de produção de bancos kumurõ e manejo da sorva, auxilia na revisão do plano de manejo|Marcus Schmidt
Em oficinas realizadas em anos anteriores, alguns fatores que limitam a sua regeneração e ocorrência em florestas mais antigas já haviam sido identificados, resultando em situações de raridade em algumas localidades ao longo desta região. Segundo estudos realizados pelo consultor Marcus Schmidt junto com a equipe de assessores do ISA na região do Rio Negro, a espécie apresentou situação desfavorável à regeneração natural, requerendo mais atenção e cuidados, aspectos que levaram à elaboração de um plano de manejo, de modo a garantir a sua continuidade entre o sistema produtivo.
Nesse sentido, a oficina de produção de bancos kumurõ e manejo da sorva, além de constituir um encontro de formação de novos artesãos permitiu que os participantes revisassem as estratégias definidas no plano de manejo: o plantio de mudas em roças; o uso de madeiras alternativas; a proteção de mudas regenerantes em capoeiras; e o monitoramento e proteção de matrizes que servem como porta sementes.
Nas iniciativas passadas ligadas ao manejo da sorva, o plantio de mudas já foi experimentado e apesar de algumas experiências positivas não é uma tarefa simples, como relatou o mestre artesão Celestino Azevedo, de Pirarara Poço. Ele conta que fez diversas tentativas até obter sucesso transplantando plântulas pouco enraizadas e geralmente dispersas por animais ao invés de plantar as sementes.
A região carece de um levantamento atualizado das populações de sorva. Apesar de algumas experiências positivas em relação ao plantio não se sabe a situação atual das populações de sorveira no Tiquié, ao que os participantes sugeriram algumas bolsas para jovens pesquisadores, maior envolvimento dos artesãos no plantio e integração da sorva às próprias áreas de roça e capoeiras.
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Finalização da Oficina de produção de bancos kumurõ|Marcus Schmidt
Para a formação dos jovens artesãos foram usados dois pés de sorva, dos quais resultaram mais de 30 bancos. Embora o foco desta oficina tenha sido a produção, os artesãos vêm atualmente discutido com o departamento de negócios da FOIRN os custos e a viabilidade econômica da atividade. Nesse sentido, as estratégias de manejo propostas nas oficinas podem ser uma alternativa interessante no sentido de agregar valor aos produtos e reduzir a pressão sobre o recurso. A sugestão de Marcus Schmidt é de que “toda ação de produção, com finalidades comerciais, deve estar conectada às ações de manejo”.
Integração entre escola, comunidade e território
Os debates da oficina mostraram que o manejo ambiental envolve também a transmissão de conhecimento e o fortalecimento cultural. Benzimentos, narrativas e história de ocupação do território emergiram como parte essencial do cuidado com a roça e com a floresta. Como disse a AIMA Oscarina Caldas, “os benzimentos são como adubo para nós; sem eles, a roça não produz direito”.
Os participantes da oficina contam que os conhecimentos tradicionais devem ser transmitidos nas “Casas de Saber” (vulgarmente chamadas de malocas), motivo pelo qual a comunidade pretende submeter um projeto ao Fundo Indígena do Rio Negro (FIRN) para a construção de uma dessas casas na área da comunidade.
Artesanato, economia e uso sustentável
Paralelamente à oficina de capoeiras e formação de jovens artesãos aconteceram outras atividades que também mobilizaram as mulheres da comunidade. Elas organizaram uma oficina de cerâmica – já que a feitura dos bancos é uma atividade exclusivamente masculina – e moradores da comunidade de Nova Esperança, vizinha a Boca da Estrada, promoveram uma oficina de cestaria Hüpda, utilizando-se da coleta de cipós e outros materiais.
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Mulheres apresentam o resultado da oficina de cerâmica e cestaria Hüpda|Marcus Schmidt
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Meninas apresentam o resultado da oficina de cerâmica e cestaria Hüpda|Marcus Schmidt
Uma agenda contínua de cuidado com o território
As oficinas tiveram grande participação da comunidade, envolvendo estudantes, professores e artesãos. Além de evidenciar a demanda por ações integradas, esse tipo de iniciativa demonstrou que as ações de manejo são mais do que eventos pontuais: elas são parte de um processo contínuo de cuidado com a terra, segundo a fala dos professores, alunos e AIMAs, durante as oficinas de manejo e produção.
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Nature publica pesquisa indicando que manejo da fauna na Amazônia alimenta os povos e protege a floresta
Estudo inédito, com participação de pesquisadores indígenas do Rio Negro e do ISA, registra que animais silvestres sustentam 11 milhões de habitantes do bioma
O período adequado para sair em busca da caça; o pote de guardar o curare - veneno que vai ser colocado na flecha; o cuidado para não abater nenhum animal além do necessário para o consumo comunitário; a partilha com a comunidade. Esses são alguns dos elementos do manejo da fauna promovido pelos povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares há milhares de anos na Amazônia.
Esse manejo, essencial para a segurança alimentar, para a proteção da floresta e para a regulação climática, é o tema de artigo publicado nesta quarta-feira (26/11), na revista Nature. A bióloga Natalia Campos Pimenta, coordenadora adjunta do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA), liderado por André Pinassi Antunes, da Rede Fauna.
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Ceramistas buscam a resina vegetal usada no acabamento das cerâmicas baniwa na região do Rio Ayari (AM)|Natalia C. Pimenta/ISA
Segundo a Nature, o estudo inédito revela “a imensa riqueza biológica e cultural dos sistemas alimentares baseados na carne silvestre e sua importância para os povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores do interior da Amazônia.”
Estima-se que a carne silvestre produzida na região seja suficiente para suprir quase metade das necessidades diárias de proteína e ferro dos 11 milhões de habitantes das áreas rurais do bioma, além de uma parcela significativa de vitaminas do complexo B e zinco, nutrientes fundamentais para a saúde humana.
E ainda indica a importância econômica do manejo, mostrando que, quando comparada aos preços atuais da carne bovina, essa produção teria um valor aproximado de US$2,2 bilhões ao ano — uma riqueza invisível que sustenta a segurança nutricional dos povos da Amazônia.
Substituir a carne silvestre por carne de animais domesticados nas áreas rurais da Amazônia, uma medida frequentemente sugerida para reduzir a caça de animais silvestres, geraria enorme impacto ambiental.
O estudo sugere que a produção de carne bovina equivalente à carne de animais silvestres proveniente da caça produzida para alimentar os povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultoras da região exigiria a conversão de até 64.000 km2 de floresta em pastos, liberando até 1,16 bilhão de toneladas de CO2 — aproximadamente 3% das emissões globais anuais.
Além disso, o estudo revela que Terras Indígenas e Reservas Extrativistas mantêm populações saudáveis de espécies-chave caçadas, demonstrando a eficácia da governança e gestão territorial feita pelos povos da Amazônia.
Indica ainda que demarcar os territórios e fortalecer a governança indígena e tradicional são estratégias centrais para assegurar a sustentabilidade dos sistemas alimentares baseados na carne de caça e, consequentemente, para o cumprimento de diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.
O manejo da fauna silvestre considerando a caça tradicional é o caminho que concilia os interesses da conservação das espécies e os direitos, práticas e o modo de vida dos povos da Amazônia.
“A identidade cultural é uma característica chave para a produtividade da caça, refletindo milênios de relações dinâmicas e recíprocas com a natureza”, diz a pesquisadora Natalia Pimenta.
Os pesquisadores enfatizam que “propostas de proibir ou substituir a carne silvestre sem reconhecer esse contexto representam visões colonialistas que ameaçam a autonomia e os direitos dos povos da Amazônia”.
“A caça tradicional na Amazônia é profundamente moldada por conhecimentos, regras e práticas culturais que regulam o uso da fauna há milênios. Embora os números estimados de animais caçados anualmente sejam elevados, povos indígenas e comunidades tradicionais têm historicamente mantido populações saudáveis, defendendo seus territórios e manejando-os por meio de normas sociais e alimentares, restrições espaciais e relações de reciprocidade com os animais. Não por acaso, os maiores berçários de fauna encontram-se hoje justamente nos territórios indígenas e tradicionais”, informa André Antunes à Nature.
E conclui que proteger a Amazônia é vital não apenas para conservar a biodiversidade, mas para garantir a saúde, o bem-estar, a segurança alimentar e nutricional, a soberania e a continuidade dos modos de vida de milhões de habitantes rurais.
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Manejo da fauna promovido pelos povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares é essencial para a proteção da floresta e para a regulação climática|Fellipe Abreu/ISA
A pesquisa, conduzida por dezenas de pesquisadores acadêmicos, indígenas e extrativas, foi endossada por duas das maiores entidades representativas dos povos indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia brasileira: a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).
Veja alguns dados da pesquisa:
- A pesquisa reúne um conjunto inédito de dados coletados entre 1965 e 2024 em mais de 600 comunidades de todo bioma amazônico;
- A diversidade de animais consumidos é surpreendente, abrangendo pelo menos 500 espécies. Contudo, os autores identificaram que 20 grupos de animais respondem por 72% de todos os indivíduos caçados e 84% da biomassa animal total extraída, com destaque para espécies como queixada, anta e paca.
- Ao longo dos 8 milhões de km2 que compõem a Amazônia, os autores estimaram uma extração anual de mais de meio milhão de toneladas de biomassa animal, o que corresponde a 0,37 milhão de toneladas de carne silvestre efetivamente comestível.
- O estudo também alerta que o desmatamento representa uma ameaça direta a esses sistemas alimentares. Em áreas onde mais de 70% da floresta foi perdida, que corresponde a cerca de 500 mil km2, a quantidade de animais e de biomassa animal disponíveis por caçador caiu 67%. Nessas regiões degradadas, espécies mais generalistas, como tatus, capivaras e pombas, são proporcionalmente mais caçadas, sobretudo na proximidade de centros urbanos, onde a demanda por proteína animal é maior.
- Além do alto custo ambiental, a carne doméstica, especialmente a de frango, contém níveis muito menores de ferro, zinco e vitaminas essenciais, agravando riscos de deficiências nutricionais entre as populações humanas que vivem nessas áreas.
Documentário “Eenonai: Conservação e manejo na casa dos animais”
O documentário “Eenonai: Conservação e manejo na casa dos animais”, lançado na COP30, em Belém, mostra de perto o manejo da fauna promovido pelo povo Baniwa no Alto Rio Negro (AM).
Eenonai é o termo na língua dos conhecedores Baniwa que se refere aos animais e dá nome ao documentário sobre o manejo da fauna na região do Rio Ayari (Alto Rio Negro - AM), na bacia do rio Içana, território predominantemente do povo Baniwa.
Entre os Baniwa, a prática da caça se mantém de geração em geração e integra um sistema sofisticado de conhecimentos dos povos indígenas do Alto Rio Negro, uma das regiões mais preservadas da Amazônia. Esse manejo também compõe o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (SAT-RN), reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histório e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio cultural.
As práticas e saberes sobre esse manejo são acompanhados pelos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) da região, que desenvolvem pesquisas sobre temas socioambientais, em diálogo permanente com os conhecedores de suas comunidades e com pesquisadores especializados não-indígenas.
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Armindo Brazão, AIMA e presidente da Organização Indígena da Bacia do Içana (OIBI), navegando pelo igarapé Pamáali, no Rio Içana, Terra Indígena Alto Rio Negro (AM)|Natalia C. Pimenta/ISA
Constituída a partir de colaborações entre o Instituto Socioambiental (ISA), a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e organizações e escolas indígenas locais, a Rede de AIMAS atua na região do Içana e em outras áreas do Alto e Médio Rio Negro, registrando em diários e tablets práticas de manejo das roças, pesca, caça, coleta de frutos e insetos, intercâmbios econômicos e rituais, fabricação dos instrumentos e utensílios.
O objetivo da Rede de AIMAs é promover pesquisas colaborativas e interculturais de longa duração para o fortalecimento dos conhecimentos indígenas e da gestão territorial. Para isso, os agentes indígenas também contam com a parceria com institutos de pesquisa e universidades.
O educador-pesquisador, físico, cientista ambiental e liderança indígena Dzoodzo Baniwa, que participou da produção do Eenonai, ressalta a importância do documentário, que registra o manejo sustentável da fauna pelo povo Baniwa.
“O documentário traz esse registro importante sobre o conhecimento. Cada povo indígena tem seu próprio sistema de conhecimento e do manejo do seu território. Cada técnica, cada domínio da tecnologia é muito importante. Os Baniwa utilizam, por exemplo, instrumentos tradicionais, como zarabatana, e têm outras técnicas. O documentário resgata essas práticas tradicionais e dá esse horizonte de como podemos continuar mantendo o manejo da caça no nosso território, inclusive nessa perspectiva de impacto de mudanças climáticas. É muito importante, porque tanto os animais quanto nós povos indígenas manejamos esse território todo, ajudamos a diversificar as plantas, distribuindo sementes. A gente tem esse papel muito importante na proteção da floresta”, diz.
A pesquisa retratada no documentário é uma realização do ISA e da FOIRN, com fruto da dedicação da Rede de AIMAs em parceria com o Centro de Pesquisa e Monitoramento Eenopana e a Rede Fauna - Pesquisa em Conservação, Uso e Manejo da Fauna da Amazônia.
A idealização do projeto é da pesquisadora e coordenadora-adjunta do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (PRN/ISA), Natalia Camps Pimenta, e dos pesquisadores André Pinassi Antunes e Walter Lopes da Silva, do povo Baniwa. A direção é do documentarista Fellipe Abreu, especialista em sistemas alimentares, e da analista do ISA, Giselle Sousa.
Ficha técnica
Idealização: Natalia Camps Pimenta, André Pinassi Antunes e Walter Lopes da Silva Produção: Natalia Camps Pimenta, André Pinassi Antunes, Walter Lopes da Silva, Dzoodzo Baniwa e Ana Amélia Hamdan Gontijo Direção: Fellipe Abreu e Giselle Sousa Direção de fotografia e captação de áudio: Fellipe Abreu Entrevistas em Baniwa: Laise Cardoso Roteiro: Luiz Felipe Silva Edição/finalização: Elder Barbosa Agradecimentos: Aos moradores e conhecedores de Canadá e demais comunidades do Rio Ayari, Escola Baniwa Eeno Hiepole, Centro de Pesquisa e Formação Eenopana, National Geographic, Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) da Bacia do Rio Negro. Realização: ISA, FOIRN, Rede Fauna, Nadzoeri Apoio: Ipê/Lira e Nia Tero
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