"Devastamos mais da metade do nosso País pensando que era preciso deixar a natureza para entrar na história: mas eis que esta última, com sua costumeira predileção pela ironia, exige-nos agora como passaporte justamente a natureza".
Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo, um dos motes da fundação do ISA em 1994.
O ISA trabalha em parceria com povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais para elaborar soluções inovadoras para os desafios enfrentados por estas comunidades e povos. Nossas iniciativas apoiam e promovem a defesa de direitos, gestão e proteção territorial, economias do cuidado, processos formativos, restauração ecológica inclusiva e produtiva. Elas são baseadas em processos de experimentações e trocas de saberes transparentes, equitativas e de longo prazo com nossos parceiros, que tem como base a valorização dos modos de vida destas populações e a garantia de seus direitos.
Nossa abordagem de atuação coloca a potência dos saberes tradicionais em diálogo com práticas legais, acadêmicas e de mercado. A inovação, produzida a partir dessa interação entre diferentes mundos, pensamentos e linguagens, oferece caminhos para o reconhecimento pela sociedade brasileira - e mundial -, que são estes povos que cuidam e protegem as florestas que prestam os serviços socioambientais para a própria sobrevivência do planeta e cada um de nós.
Há diversas outras iniciativas que apontam para soluções originais para os desafios enfrentados pelas populações indígenas e tradicionais para garantir o direito à terra, o bem-viver, a preservação de suas florestas e modos de vida, intrinsecamente interdependentes. A formação de jovens comunicadores indígenas, por exemplo, capacita tecnicamente a juventude dos territórios do Xingu e do Rio Negro em dominar a tecnologia para contar suas próprias histórias, defender seus direitos e se conectar com a cultura de seus de seus antepassados. Conheça abaixo outros exemplos de soluções desenvolvidas pelo ISA e seus parceiros locais e nacionais:
Copiô, Parente, o primeiro podcast feito no Brasil para os povos da floresta
Xingu Solar, projeto de promoção de energia fotovoltaica no Xingu
Pavilhão da COP30, em Belém (PA), em novembro de 2025 | Sergio Moraes/COP30
Após a 12ª carta da Presidência da COP30, um grupo de 114 organizações da sociedade civil divulgou uma carta aberta alertando que, sem um compromisso político mais forte e um processo genuinamente participativo, a iniciativa de mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis corre o risco de se tornar “mais um documento que junta poeira”.
A carta é divulgada em meio à intensificação dos impactos climáticos e à instabilidade geopolítica. Ela afirma que a credibilidade da ação climática global depende cada vez mais da capacidade dos governos de promover uma “redução justa e ordenada da produção e do consumo de combustíveis fósseis”. Entre os signatários estão organizações de justiça climática, povos indígenas, direitos humanos, grupos religiosos e comunitários.
As organizações ressaltam que a iniciativa de roteiro para os combustíveis fósseis da Presidência da COP30 precisa ir além de um exercício técnico. “Se algo ficou absolutamente claro no início de 2026, é que os países precisam se libertar dos mercados voláteis de petróleo, que os expõem a riscos geopolíticos e a choques recorrentes de preços. Tem de haver um declínio manejado dos combustíveis fósseis e a entrega de energia acessível e justa”, salienta Andreas Sieber, chefe de Estratégia Política da 350.org, que coordenou a iniciativa da carta juntamente com a rede brasileira Observatório do Clima. “Este roteiro é uma oportunidade crucial para transformar compromissos globais em ações críveis — e não em mais um documento que fica esquecido numa prateleira”, diz Sieber.
Para gerar impacto real, os signatários afirmam que o roteiro de transição dos combustíveis fósseis precisa ser transparente, co-criado e inclusivo, com participação significativa da sociedade civil, dos povos indígenas e das comunidades tradicionais e locais, além de co-liderança do Brasil junto a países parceiros, especialmente da América Latina e do Pacífico.
“A presidência brasileira termina em poucos meses, e precisamos de outros países ou grupos de países dispostos a levar o trabalho adiante, já que este será necessariamente um processo de vários anos”, considera Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima. “Por isso, a apropriação do processo do roteiro será crucial. O Brasil precisará equilibrar com muito cuidado a necessidade de um documento que seja ao mesmo tempo ousado e inclusivo.”
A carta alerta que a dependência contínua de combustíveis fósseis expõe os países a choques de preços, conflitos e coerção, argumentando que uma transição baseada na ciência é essencial não apenas para os objetivos climáticos, mas também para a resiliência econômica e a estabilidade política. Além disso, defende que o roteiro deve:
Contar com salvaguardas robustas contra interesses estabelecidos dos combustíveis fósseis, incluindo a exclusão ou limitação rigorosa de contribuições;
Garantir que os países desenvolvidos cumpram suas obrigações climáticas, inclusive em financiamento;
Abordar os impactos sobre trabalhadores e comunidades e assegurar que os custos, benefícios e oportunidades da transição sejam distribuídos de forma justa entre países e comunidades;
Ter liderança ministerial sustentada, forte responsabilização democrática e salvaguardas de direitos humanos.
“Os povos do Pacífico e da Amazônia celebraram o anúncio de um roteiro para nos levar a um futuro além dos combustíveis fósseis. Esperamos que a presidência da COP30 esteja à altura do reconhecimento que esse roteiro lhes rendeu em novembro passado. Este ano nos mostrou que a meta de 1,5oC está perigosamente em risco, e não podemos nos dar ao luxo de mais um documento sem passos concretos para a transição. Um atraso na saída do carvão, do petróleo e do gás devastará o Pacífico, a Amazônia e inúmeras comunidades na linha de frente em todo o mundo”, afirma Fenton Lutunatabua, gerente de programas da 350.org para o Pacífico e o Caribe.
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A restauração da saúde do corpo e dos ecossistemas
Restaurar não é necessariamente retornar a um estado idealizado do passado. É criar condições para que estrutura, diversidade e função se reorganizem de maneira possível
*Artigo publicado originalmente em (o)eco, no dia 29 de janeiro de 2026.
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'Entre o metal e a natureza: reflexões sobre cura e restauração’ | Arte digital: Danielle Celentano + IA (ChatGPT/OpenAI), 2026.
Este texto nasce do cruzamento entre experiência profissional e vivência pessoal, onde corpo e paisagem deixam de ser metáforas distantes e passam a dialogar como territórios vivos. Entre ciência, técnica e cuidado, proponho um olhar que reconhece a restauração – humana e ecológica – como um processo de recomposição, no qual mesmo estruturas atravessadas por rupturas podem sustentar toda a potência da vida
Corpo e paisagem: uma mesma trama de vida Existe uma analogia profunda – e cada vez mais reconhecida – entre a saúde humana e a saúde dos ecossistemas. De modo semelhante, há paralelos claros entre os processos de restauração ecológica de áreas degradadas e os caminhos de reestabelecimento da saúde dos corpos adoecidos. Essa relação não é nova: atravessa saberes tradicionais, a ciência contemporânea e o conceito de Saúde Única, que reconhece a interdependência entre pessoas, ambientes e outros seres vivos – em consonância com a própria teoria da evolução. Escrevo sobre ela agora a partir de um lugar específico: o de um processo pessoal de cura que estou vivenciando.
Quando a degradação se instala Ao longo de mais de duas décadas trabalhando com conservação e restauração de florestas na Amazônia, aprendi que conservar deve ser sempre a prioridade: a restauração não pode ser tratada como panaceia e, em muitos casos, simplesmente não é possível. Da mesma forma, o cuidado com a saúde do corpo deveria ser prioritário – “melhor prevenir do que remediar” –, mas, por uma série de fatores intrínsecos e extrínsecos ao ser, isso nem sempre acontece. Talvez porque toda degradação – do corpo, da sociedade ou da natureza – seja o reflexo de uma ruptura mais profunda: o afastamento das relações que dão sentido, cuidado e pertencimento à Vida, perpassando a saúde física, mental e espiritual.
Quando a degradação já se instalou, a recuperação de um ecossistema depende de um bom diagnóstico, planejamento, cuidado contínuo e tempo. O mesmo vale para o corpo humano. Antes de qualquer intervenção, é fundamental compreender as causas do adoecimento – identificar fatores de risco, limites estruturais e perdas funcionais. Na restauração, chamamos isso de diagnóstico ambiental; na saúde, de exame clínico. Em ambos os casos, não há atalhos, embora hoje existam tecnologias cada vez mais sofisticadas para apoiar esses processos.
O planejamento vem em seguida. Ele envolve definir estratégias, escolher métodos e reconhecer o que pode ser regenerado de forma natural – a partir da retirada de pressões – e o que exige ações ativas. Na ecologia, isso inclui desde a exclusão de fatores degradantes até o plantio de sementes e mudas; em situações mais severas, pode ser necessário realizar previamente a reabilitação física, com obras de infraestrutura, a reabilitação química, por meio da biorremediação, ou a reabilitação biológica com a exclusão de espécies invasoras.
No corpo humano, esse processo envolve mudanças de hábitos, tratamentos medicamentosos, cirurgias, transplantes, colocação de próteses, reabilitação física, quimioterapias, entre outros. Por mais desejável que seja, não se pode romantizar a regeneração espontânea: há situações em que a intervenção é condição necessária para que a vida volte a circular. Assim como na restauração ecológica, o cuidado com a saúde também exige monitoramento e atividades periódicas de manutenção, para que o sucesso seja sustentado no longo prazo.
Ninguém restaura sozinho Restaurar, seja um território ou um corpo, não é necessariamente retornar a um estado idealizado do passado. É criar condições para que estrutura, diversidade e função se reorganizem de maneira possível, resiliente e viva. Há perdas irreversíveis – espécies extintas, articulações perdidas –, mas isso não significa ausência de futuro. Significa outro arranjo, outro equilíbrio, outra paisagem.
Também aprendi que ninguém restaura sozinho. Florestas dependem de redes invisíveis e colaborativas: microrganismos, formigas, aves, polinizadores, dispersores de sementes e, também, de pessoas – como coletores de sementes, plantadores e tantas outras. Da mesma forma, processos de cura humana se apoiam em médicos, fisioterapeutas, enfermeiras, terapeutas, familiares, amigos e instituições. Cada qual cumpre uma função específica, complementar e insubstituível.
A diversidade de atores é, novamente, condição para o sucesso. Mas ela não basta: o acesso aos recursos, aos cuidados e às tecnologias que tornam esses processos possíveis ainda está longe de ser universal. Garantir o direito humano à saúde – inclusive por meio de garantias trabalhistas – e os direitos da própria natureza, hoje assegurados em poucos países, é parte inseparável de qualquer processo sério de cuidado, cura e restauração.
Nesse caminho pessoal que estou vivendo em busca da minha própria saúde, tenho sido sustentada por uma rede de cuidados que inclui profissionais da saúde, o afeto da família, de amigas, amigos e colegas, além do apoio institucional da organização onde trabalho. Em muitas dessas pessoas reconheço o mesmo brilho nos olhos dos bons restauradores: gente que trabalha com técnica, mas também com sentido e amor.
Há uma diferença sutil, porém fundamental, entre atuar apenas pela troca financeira e atuar pelo compromisso genuíno com a vida. Na restauração e na medicina, isso faz toda a diferença.
Cura como caminho vivo Há ainda uma dimensão frequentemente negligenciada nesses debates: o tempo profundo. Ecossistemas se formam ao longo de anos, décadas e eras. Corpos também carregam códigos genéticos, memórias longas, ancestrais e espirituais. A restauração e a cura nem sempre são lineares ou totalmente mensuráveis. Há lutos – por funções perdidas, por versões anteriores de nós mesmos e pela morte – e há aceitação. Reconhecer isso não fragiliza nem a ciência nem o indivíduo; ao contrário, traz mais humanidade aos processos.
Cada pessoa vive o luto de uma forma diferente, assim como áreas que parecem impossíveis de se recuperar podem precisar de séculos ou milênios para voltar a expressar a vida. Para mim, a vida que se foi também retorna – tanto no aspecto físico, inscrito no ciclo da decomposição da matéria orgânica, quanto no aspecto metafísico, que perpassa a espiritualidade.
Por isso, acredito que nosso futuro comum exige uma mudança profunda de paradigmas. Existem diversos caminhos possíveis para essas transformações, entre eles a proposta de Saúde Integral, preconizada pelo meu amigo e médico Frei Klaus Th. Finkam, que defende que o bem-estar humano é resultado da integração entre saúde física, mental, social, emocional e espiritual. Nesse mesmo horizonte, junto com meu companheiro, o cientista Guillaume Xavier Rousseau, chamamos de Restauração Ecológica Integral, o processo social que busca integrar o bem-estar humano, a saúde dos ecossistemas e a espiritualidade, independentemente de religião.
Assim como na restauração ecológica, nem toda regeneração acontece sem intervenção. Há paisagens – e corpos – que precisam de suporte técnico para que possam, então, seguir seus próprios caminhos de reorganização. Restaurar a saúde – humana ou ecológica – é, em última instância, um ato de cuidado contínuo, que reconhece limites, valoriza redes, aceita pausas e aposta na força da vida, mesmo quando ela precisa de ajuda para seguir. É confiar que a vida, mesmo ferida, carrega em si a potência de voltar a florescer.
É nesse horizonte que sigo: cuidando do meu corpo e da Terra, confiando que ambos podem se restaurar quando encontram tempo, condições e cuidado. A cura – pessoal e planetária – é um caminho vivo, tecido com presença, compromisso e esperança.
Essa reflexão ganhou forma visual em uma obra construída a partir de uma radiografia pessoal das minhas próteses bilaterais de quadril, sobrepostas a elementos da natureza. Nela, folhagens densas, cipós e flores entrelaçam-se ao metal. O quadril, eixo do movimento e da sustentação do corpo, aparece como território de transição entre o artificial e o vivo. A prótese, muitas vezes associada à limitação, é ressignificada como infraestrutura de cuidado – suporte fértil para que a vida volte a brotar. Aqui, o metal não nega a vida – ele a sustenta.
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Conheça as 11 experiências pedagógicas premiadas pelo Edital Aldear a Educação Básica
Dentre mais de 200 propostas recebidas, projetos de Norte a Sul do país se destacaram por trazer para as salas de aula histórias, culturas e saberes indígenas
Mariana Soares
- Jornalista do ISA
Luma Ribeiro Prado
- Educadora e pesquisadora no ISA
O Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei) e o Instituto Socioambiental (ISA), em parceria com o Instituto Alana e a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga) anunciam as onze iniciativas premiadas no Edital Aldear a Educação Básica: Fortalecendo a Lei 11.645/08, por mais histórias, culturas e saberes indígenas nas salas de aula no Brasil.
Lançado em setembro, o prêmio visa reconhecer e divulgar experiências educativas que valorizam a sociodiversidade e o antirracismo, combatendo o preconceito e evidenciando a importância dos conhecimentos indígenas para o enfrentamento da crise climática e a valorização de suas histórias milenares.
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Da esq. p/ dir: Tatiane Maira Klein, Paula Mendonça, Cristine Takuá, Luma Ribeiro Prado, Mariana Soares, Carlos Papa Mirim Poty e Elie Ghanem na reunião de finalização do Edital Aldear a Educação Básica|Brenda Okubo/ISA
Para selecionar os onze projetos premiados, um Comitê dedicado apreciou mais de 200 propostas de educadores indígenas e não indígenas. Estava prevista a premiação de dez propostas, no entanto escolhemos uma a mais devido à qualidade dos materiais. Com educadores de Norte a Sul do país, as propostas premiadas apresentam projetos como podcast com intelectuais indígenas, jogo com mulheres indígenas lideranças, catálogo tátil de grafismo pataxó e foram realizadas com estudantes de todas as faixas etárias, em salas de aula da Educação Infantil, Ensino Fundamental, Médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA).
A apuração foi realizada por 16 especialistas e representantes do campo da educação, de movimentos sociais, instituições do terceiro setor e universidades com base em critérios como impacto da proposta, criatividade, abordagem intercultural e interdisciplinar.
Entre os integrantes do Comitê de Avaliação estavam: Daniela Kaingang, coordenadora do Fneei; Paula Menezes, do Instituto Alana; Cris Takuá, do Museu das Culturas Indígenas (MCI); Antonia Terra, do Laboratório de Ensino e Material Didático do Departamento de História da Universidade de São Paulo (Lemad/USP); Ednéia Gonçalves, da Ação Educativa; Fernando Mendes, do Centro de Referências de Educação Integral (CREI); Veronica Pinheiro, da Associação Selvagem; Aline Scolfaro, do Museu da Pessoa; Rinah Souto, do Araetá: Grupo de Estudo em Poéticas Indígenas e Práticas Educativas Emancipatórias da Universidade Federal da Paraíba (UFPB); Luma Ribeiro Prado, Tatiane Maíra Klein e Roberto Almeida, do ISA; Elie Ganhem, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP); Tatiana Amaral, do Programa de Diversidade Cultural do Sesc (SP); Martinha Mendonça, da Escola Municipal Indígena Guarani Para Poty Nhe'ë Ja; e Joziléia Kaingang, da Anmiga.
Para difundir as práticas destacadas para a comunidade educadora, as ações pedagógicas selecionadas serão em breve disponibilizadas gratuitamente no site Mirim.org. Os educadores autores dos projetos, por sua vez, serão contatados para receberem um vale-presente no valor de R$2 mil reais. A cerimônia de premiação está prevista para o primeiro semestre de 2026.
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Folheto reúne informações sobre a lei 11.645/2008, sobre saberes indígenas nas escolas|Brenda Okubo/ISA
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Alguns dos livros que valorizam histórias milenares dos povos indígenas no Brasil|Brenda Okubo/ISA
O edital tem como objetivo fortalecer a Lei nº 11.645/08, normativa que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e tornou obrigatório o ensino das histórias e culturas indígenas e afro-brasileiras nas escolas do país. A Lei surgiu por demanda do movimento indígena, e tem contado com a atuação de educadores indígenas para ampliar sua efetivação.
O Edital dá sequência a uma série de iniciativas do FNEEI, ISA e Alana na promoção da Lei nº 11.645/08. Entre elas, o levantamento de educadores indígenas que atuam na formação continuada de professores sobre a normativa e a nota técnica “Lei 11.645/08: Ensino de História e Cultura Indígena”, apresentada no Encontro Nacional de Educação Escolar Indígena em Brasília, em 2024.
Confira as iniciativas premiadas e seus representantes:
“Raízes da cultura, sementes que contam histórias: as sementes e o artesanato do povo Tapeba” – enviada pela professora Ana Paula da Rocha, do povo Tapeba, da Escola Indígena Aba Tapeba, em Caucaia (CE);
“Encontro Indígena: Cultura, Lutas e Resistência - a experiência do CIEJA Campo Limpo” – enviada pela professora Andressa dos Santos Silva, do CIEJA Campo Limpo, São Paulo (SP);
“Do Território à Sala de Aula: Saberes Indígenas na Educação de Jovens e Adultos” – enviada pelo professor Arley de Araújo Clemente, do povo Potiguara, do Centro Comunitário Indígena/EJA Nordeste, Ceará Mirim (RN);
“Campos do Cristal encontra Anhetenguá: um caminho para aldear o currículo” – enviada pela professora Bruna Moreira da Silva, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Campos do Cristal, Porto Alegre (RS);
“Vozes da Floresta: um chamado para um novo amanhã” – enviada pela professora Cristiana Andrade Butel, da Escola Estadual Senador João Bosco, Parintins (AM);
“‘Outro olhar’: um podcast sobre vida e obra de Ailton Krenak e Davi Kopenawa Yanomami” – enviada pelo professor Leonardo Alves da Cunha Carvalho, do Instituto Federal de São Paulo no Campus São Miguel Paulista, São Paulo (SP);
“Povos da Terra: saberes indígenas, ciência e educação para o bem viver” – enviada pela professora Monyque Ferreira Brandão, da Escola Estadual José Domingos da Silveira, Barueri (SP);
“Saberes que conectam na educação infantil: ancestralidade, natureza, memórias e vivências” – enviada pela professora Selma de Souza Sá Silva, do povo Pankará, da Escola Municipal Virgílio Távora, São Paulo (SP);
“Mulheres que tecem a história: biografias de lideranças indígenas femininas” – enviada pela professora Talita Yosioka Collacio, da Escola Municipal Professor João de Barros Pinto, Santo André (SP);
“Ariponã: diálogo intercultural e valorização da cultura pataxó em escolas de Betim, MG” – enviada pela professora Thais Regina Maciel da Silva, do povo Pataxó, da Escola Municipal Aristides José da Silva, Betim (MG);
“Opy em maquete: integrando saberes do povo Guarani M’bya e outras ciências” – enviada pela professora Vilmone Benites Samaniego - Wera Mirim, do povo Guarani Nhandeva, da Aldeia Pira Rupa, da Escola Indígena Pira Rupa na Terra Indígena Massiambu/Palhoça, Palhoça (SC).
Sobre o Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei)
O Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (Fneei) é um espaço de diálogo e articulação entre lideranças indígenas, educadores e o Estado, em defesa de uma educação escolar indígena específica, diferenciada e intercultural. Criado em 2015, o Fórum atua na promoção de políticas públicas que valorizem os saberes tradicionais, as línguas e os territórios indígenas, conforme previsto na Constituição e no Plano Nacional de Educação, reafirmando seu papel de resistência frente aos retrocessos nos direitos dos povos indígenas.
Sobre o Instituto Socioambiental
Com o lema “socioambiental se escreve junto”, em 1994 foi fundado o Instituto Socioambiental (ISA). Desde então, atuamos lado a lado com parceiros históricos de comunidades indígenas, quilombolas e extrativistas para desenvolver soluções que protejam seus territórios, fortaleçam suas culturas e saberes tradicionais, elevem seu perfil político, e desenvolvam economias sustentáveis. Com Programas e escritórios dentro dos territórios, o ISA fincou suas raízes em três bacias hidrográficas: Rio Negro (AM/RR), Xingu (MT/PA) e Ribeira de Iguape (SP). E, em parceria com associações locais, organizações não governamentais, e redes regionais e nacionais, articula projetos através dos Programas de Política e Direito Socioambiental e Povos Indígenas no Brasil, bem como dos Temas de Restauração Ecológica, Economias da Sociobiodiversidade e Clima - uma relação de duas vias que nomeamos “raiz-antena”. Nossa missão é defender a pluralidade socioambiental brasileira, seja no chão da floresta ou nos corredores de Brasília.
Sobre o Alana
O Alana é um ecossistema de organizações de impacto socioambiental que promove e inspira um mundo melhor para as crianças. Um mundo sustentável, justo, inclusivo, igualitário e plural. Um mundo que celebra e protege a democracia, a justiça social, os direitos humanos e das crianças com prioridade absoluta. Um mundo que cuida dos seus povos, de suas florestas, dos seus mares, do seu ar. O Alana é um ecossistema de organizações interligadas, interdependentes, de atuação convergente, orientadas pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. O encontro de um Instituto, uma Fundação e um Núcleo de Negócios de Entretenimento de Impacto. Um combinado único de educação, ciência, entretenimento e advocacy que mistura sonho e realidade, pesquisa e cultura pop, justiça e desenvolvimento, articulação e diálogo, incidência política e histórias bem contadas.
Sobre a Anmiga
A Anmiga é uma organização de mulheres originárias dos seis biomas do País – Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pampa e Pantanal. Por meio de uma construção coletiva, elas buscam fortalecer a luta pelo bem viver e por seus territórios, a partir do protagonismo das mulheres e da valorização de seus saberes tradicionais.
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“A COP dos povos?: Novo episódio do “Vozes do Clima” faz balanço sobre Conferência de Belém
Lideranças indígenas, quilombolas e extrativistas e representantes do ISA avaliam resultados e falam sobre participação popular na primeira COP realizada no Brasil
O boletim de áudio “Vozes do Clima” fecha o ano de 2025 trazendo um balanço político da Conferência sobre Mudanças do Clima da ONU, a COP30, realizada em Belém (PA), em novembro deste ano. O novo episódio,lançado nesta quinta-feira (18/12), traz as vozes de lideranças indígenas, quilombolas e extrativistas sobre a primeira COP realizada no Brasil, que contou com forte presença de ativistas socioambientais, de organizações de povos e comunidades tradicionais e de juventudes e periferias. Ao longo dos onze dias de evento, foram realizadas diversas atividades paralelas às negociações oficiais, permitindo a participação expressiva da sociedade do lado de fora da Zona Azul.
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Ativistas socioambientais estiveram na COP30, em Belém, denunciando os perigos da crise climática|Hermes Caruzo/COP30
O programa tem a apresentação de Leonor Costa, jornalista do ISA, e conta com as participações de Kleber Karipuna, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib); de Biko Rodrigues, coordenador nacional e articulador político da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq); de Letícia Moraes, vice-presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), de Adriana Ramos, secretária executiva do ISA; e de Ciro Brito, analista de políticas climáticas do ISA.
Na avaliação das lideranças ouvidas pelo “Vozes do Clima", povos e comunidades tradicionais conquistaram avanços importantes, como o anúncio de demarcação de Terras Indígenas, reconhecimento de territórios quilombolas e maior representatividade nos documentos e espaços oficiais da COP. Além disso, destacaram a ampla participação dos movimentos sociais em espaços paralelos, como a Aldeia COP, a Cúpula dos Povos e a Zona Verde, e também nos espaços oficiais onde ocorrem as negociações.
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A Marcha Global pelo Clima reuniu milhares nas ruas de Belém, com destaque para a participação indígena|Alaor Filho/Fotos Públicas
Segundo a Apib, a COP30 também registrou a maior participação indígena na Zona Azul, espaço com acesso restrito, que reúne os negociadores oficiais e as delegações dos países. Foram mais de 900 credenciais para lideranças indígenas de todo o mundo. E quase 400 só do Brasil.
“Desde quando o Brasil tava lá atrás, ainda em 2023, anunciado como o possível país sede da COP30, nós começamos a fazer toda uma articulação para termos as nossas pautas, as nossas demandas no centro dos debates. É a COP com a maior presença, com a maior participação histórica dos povos indígenas, não só do Brasil, do mundo inteiro, numa COP de clima", explicou o coordenador executivo da Apib em entrevista ao "Vozes do Clima”.
A COP de Belém também foi histórica para as populações quilombolas. Os documentos finais da Conferência mencionam, pela primeira vez, o termo “afrodescendentes”, reconhecendo o papel essencial das populações negras nas ações de enfrentamento à crise do clima.
Organizações quilombolas, que vinham lutando nas conferências passadas para que suas ações de adaptação nos territórios fossem consideradas formalmente como estratégias para a contenção da crise climática, chamam atenção para este avanço.
“Esta menção no documento final da COP sobre os afrodescendentes, para nós é uma vitória histórica. Nós somos o país com mais número de afrodescendentes fora do continente africano", lembrou Biko Rodrigues.
Ele também comentou a importância do painel Amazônia Quilombola, estudo promovido pelo ISA, em parceria com a Conaq, e lançado durante a COP30. O levantamento identificou 632 territórios quilombolas no bioma Amazônia, número 280% maior do que o registrado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
“Essa COP para nós teve um gosto muito especial. Conseguimos produzir uma NDC, conseguimos produzir um painel sobre a Amazônia Quilombola, trazendo os dados da Amazônia, e dados muito importantes que nos colocam no outro patamar. E esses dados servem para reforçar nossa demanda, e mais do que nunca o Estado brasileiro deve reconhecer a titulação dos territórios quilombolas como uma política de clima”, destacou o coordenador nacional da Conaq.
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ISA e Conaq apresentam painel Amazônia Quilombola em espaço na Zona Azul|Leonor Costa/ISA
Também durante a COP30 ocorreu o lançamento do Fórum Global de Comunidades Locais sobre Mudança Climática, o Caucus de Comunidades Locais. A articulação internacional, que já vinha de outras conferências sobre mudanças do clima, é composta por representantes de comunidades locais da África, da Ásia e da América Latina e Caribe.
Letícia Moraes, vice-presidente do CNS, explicou ao "Vozes do Clima" que o objetivo é alcançar participação mais ativa das comunidades tradicionais nos processos de negociação da Conferência.
“Nossa expectativa em torno dessa criação era muito grande, porque se não tem o reconhecimento, você não é lembrado dentro da construção de políticas públicas e nós consideramos, dentro do nosso aprendizado, que as políticas públicas se fazem muito pelo que tá escrito no papel. Ela firma para os segmentos que existem no Brasil também a necessidade que é essa construção conjunta, a construção de alianças para que as nossas pautas sejam envolvidas nas pautas internacionais que existem em torno da crise climática, dos Caucus de Comunidades Locais e espaços efetivos de governança também dessas discussões", ressaltou a liderança.
O mapa do caminho e outras ações
Apesar da ampla participação popular, o documento final da COP30 não trouxe uma das resoluções mais esperadas: o mapa do caminho para o fim do uso de combustíveis fósseis, conforme o governo brasileiro havia se comprometido. A pressão dos países mais poluidores não permitiu que a Conferência de Belém avançasse em políticas para reduzir a emissão de CO2, um dos principais responsáveis pelo aquecimento global.
Mas, segundo Adriana Ramos, secretária executiva do ISA, alguns passos nesta direção foram dados.
“É claro que é ruim a gente não ter chegado ao fim da COP com uma sinalização clara desse mapa do caminho. Ao mesmo tempo, considerando que isso nunca esteve durante o tempo todo de preparação como uma pauta prioritária da COP, eu acho que foi sim um ganho que o Brasil tenha conseguido colocar isso na mesa e juntado mais de 80 países a seu favor. Agora tem uma proposta de uma discussão e quem é contra tem que se manifestar contra e as forças que são favoráveis vão poder formular propostas e participar desse debate. O fato de que a Colômbia vai organizar uma conferência específica sobre isso, também é uma sinalização muito positiva de que a agenda é agora e não tem como escapar. Vai ter que pelo menos ser discutida", disse.
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Ativistas reivindicam, durante a COP30, fim do uso dos combustíveis fósseis, um dos principais responsáveis pelo aquecimento global|Alaor Filho/Fotos Públicas
Ciro Brito, analista de políticas climáticas do ISA, chamou atenção para outras pautas que saíram no conjunto de 29 documentos aprovados na COP30 – conhecido como Pacote de Belém. Entre os avanços, ele destacou o tema da adaptação.
“Você teve a aprovação dos indicadores, dos objetivos globais de adaptação, que são indicadores voluntários, mas que são fundamentais para dar um parâmetro, um guia para os países avançaram em adaptação. A grande pedra no sapato, digamos assim, das COPs é justamente a triplicação dos recursos de financiamento para adaptação e isso foi conquistado. Se pedia que o prazo fosse até 2030, mas o resultado final foi até 2035, e saiu no documento do Mutirão Global, que é o principal documento político dessa COP 30. Então, algumas perguntas ainda ficam: como e quando essa essa triplicação vai efetivamente avançar? Isso vai ser um objeto de discussão também nos próximos ciclos”, pontuou Ciro.
Ouça aqui!
O que é o “Vozes do Clima”?
O boletim de áudio “Vozes do Clima” é uma realização do ISA, com produção da produtora de podcasts Bamm Mídia e apoio da Environmental Defense Fund (EDF) e propõe levar informações a povos e comunidades tradicionais sobre os temas relacionados à pauta climática. A identidade visual foi concebida pelas designers e ilustradoras indígenas Kath Matos e Wanessa Ribeiro. Além de ser distribuído via Whatsapp e Telegram, o programa também poderá ser ouvido nas plataformas de áudio Spotify, iHeartRadio, Amazon Music, Podcast Addict, Castbox e Deezer.
Este é o sexto episódio da segunda temporada de “Vozes do Clima”, que contará com um total de 12 edições e abordará os diversos debates sobre clima e a pauta socioambiental.
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Aimas realizam oficina de manejo das capoeiras e do uso sustentável da sorva no Médio Rio Tiquié
Atividade incentivou debate sobre a influência humana na configuração de paisagens antropogênicas na região
Entre 27 de outubro e 10 de novembro de 2025, a comunidade de Boca da Estrada, no Médio Rio Tiquié (São Gabriel da Cachoeira – AM), sediou a oficina de Manejo das Capoeiras e da Sorva. A atividade contou com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) do Tiquié, reunindo estudantes, professores, artesãos e lideranças para fortalecer práticas indígenas de manejo e discutir estratégias de uso sustentável das capoeiras e da sorva (Couma utilis) — árvore utilizada na produção dos bancos tukano (kumurõ).
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Alunos, professores e consultor na capoeira madura na Comunidade de Boca da Estrada|Danilo Parra
A programação envolveu visitas a capoeiras, identificação de plantas, elaboração de desenhos de perfis das árvores indicadas em categorias de uso e manejo, proporcionando um rico debate sobre a influência da ação humana na configuração de paisagens antropogênicas nesta região.
Manejo das capoeiras
As capoeiras são áreas retomadas pela floresta após o período de uso agrícola. Estas áreas integram ambientes que sustentam o próprio sistema agrícola, uma vez que as plantas cultivadas dependem de solos ricos em fertilidade, que em suma só podem ser restaurados a partir deste processo de reversão da floresta novamente.
Na agricultura indígena do Rio Negro, ao contrário do modelo ocidental, as áreas produtivas não são utilizadas até a sua exaustão: quando a produtividade diminui, a área é deixada para se recuperar, visto que também existe uma série de cuidados que favorecem a regeneração de árvores úteis e funcionais nestes sítios manejados.
Nesse processo a floresta retoma essas áreas, e um conjunto de espécies características de cada estágio de sucessão renasce, cresce e acaba por formar uma nova floresta, revigorando o solo e garantindo roças produtivas ao longo de gerações.
Durante a oficina, os participantes sistematizaram conhecimentos locais e criaram classificações para os estágios de sucessão — das capoeiras novas (Wiakaro Wimaro) às mais antigas, com árvores grossas similares às da mata primária (Buhku Wiakaro).
As conversas destacaram que o manejo cuidadoso, além de evitar a degradação do solo e da própria floresta regenerante, mantém as características do sistema agrícola produtivo e, a depender do tipo de manejo de plantas úteis e funcionais, pode tornar esses ambientes ainda mais ricos.
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Ismael dos Santos desenha o perfil de uma capoeira intermediária, com destaque para árvores cultivadas (vermelho)|Marcus Schmidt
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Apresentação dos desenhos na oficina de capoeiras, com destaque para a categoria de plantas coletadas (amarelo)|Marcus Schmidt
As visitas às áreas de cultivo também mostraram desafios atuais, entre eles a manutenção de algumas práticas tradicionais que asseguravam a produtividade nestes ambientes após sucessivos ciclos de cultivo. Mudanças de hábitos associadas a novas tecnologias têm levado ao uso excessivo de algumas capoeiras e causado o distanciamento das áreas produtivas em relação às comunidades, levando muitas vezes a uma situação de escassez ou raridade de ocorrência de plantas úteis e funcionais, podendo resultar na degradação de algumas dessas antigas capoeiras, a depender dos cuidados considerados durante o período de cultivo agrícola.
A oficina resultou na avaliação de seis capoeiras em diferentes estágios de crescimento e estados de conservação no entorno da comunidade de Boca da Estrada, onde predominam povos de língua Tukano Oriental e Hüpda.
Algumas destas capoeiras mais antigas apresentavam boas condições de solos e presença de plantas úteis que haviam sido cultivadas e cuidadas pelos antigos donos. Estas foram mantidas nestes ambientes a partir da proteção, plantio de mudas e outros tipos de zelos que favoreceram o seu estabelecimento. Enquanto outras capoeiras apresentavam sinais de exaustão, evidenciados pelas características dos solos e da estrutura e composição de plantas. Conforme observado, ambientes de caatinga amazônica – tattahboa – são mais vulneráveis por apresentar solos mais arenosos e menos estruturados.
Os estudantes registraram cerca de 63 espécies de plantas, sendo posteriormente classificadas em 10 categorias de manejo que, em sua maioria, poderiam favorecer o seu estabelecimento nas áreas de capoeiras após os períodos de cultivo. Entre estas 10 categorias de manejo identificadas e traduzidas com o apoio de AIMAS, alunos e professores estavam: 1. corte, 2. manejo de rebrota, 3. cultivo, 4. dispersão de sementes, 5. corte de casca, 6. proteção, 7. coleta, 8. derrubada, 9. poda de galhos e 10. não manejada.
A proposta da oficina foi sensibilizar os comunitários sobre a importância dos cuidados com o manejo das capoeiras, enfatizando os conhecimentos dos agricultores mais experientes e considerando os limites da resiliência destes ambientes, evitando a degradação dos solos e favorecendo a permanência de plantas que apresentam usos específicos.
Os alunos e professores compreenderam a importância em atribuir categorias às plantas, uma vez que o manejo específico dessas categorias pode definir a sua permanência nestes sistemas, tornando as capoeiras mais diversas e sustentáveis.
Sorva: espécie sensível e central para o artesanato
A discussão sobre o uso da sorva (Couma utilis) na produção dos bancos kumurõ para comercialização retomou antigos debates sobre sua sustentabilidade. A sorva apresenta importância cultural para os povos rionegrinos, principalmente por ser a principal madeira utilizada na confecção dos bancos.
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AIMAs e alunos coletam madeira de sorva para a oficina de produção de bancos kumorõ|Marcus Schmidt
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A oficina de produção de bancos kumurõ e manejo da sorva, auxilia na revisão do plano de manejo|Marcus Schmidt
Em oficinas realizadas em anos anteriores, alguns fatores que limitam a sua regeneração e ocorrência em florestas mais antigas já haviam sido identificados, resultando em situações de raridade em algumas localidades ao longo desta região. Segundo estudos realizados pelo consultor Marcus Schmidt junto com a equipe de assessores do ISA na região do Rio Negro, a espécie apresentou situação desfavorável à regeneração natural, requerendo mais atenção e cuidados, aspectos que levaram à elaboração de um plano de manejo, de modo a garantir a sua continuidade entre o sistema produtivo.
Nesse sentido, a oficina de produção de bancos kumurõ e manejo da sorva, além de constituir um encontro de formação de novos artesãos permitiu que os participantes revisassem as estratégias definidas no plano de manejo: o plantio de mudas em roças; o uso de madeiras alternativas; a proteção de mudas regenerantes em capoeiras; e o monitoramento e proteção de matrizes que servem como porta sementes.
Nas iniciativas passadas ligadas ao manejo da sorva, o plantio de mudas já foi experimentado e apesar de algumas experiências positivas não é uma tarefa simples, como relatou o mestre artesão Celestino Azevedo, de Pirarara Poço. Ele conta que fez diversas tentativas até obter sucesso transplantando plântulas pouco enraizadas e geralmente dispersas por animais ao invés de plantar as sementes.
A região carece de um levantamento atualizado das populações de sorva. Apesar de algumas experiências positivas em relação ao plantio não se sabe a situação atual das populações de sorveira no Tiquié, ao que os participantes sugeriram algumas bolsas para jovens pesquisadores, maior envolvimento dos artesãos no plantio e integração da sorva às próprias áreas de roça e capoeiras.
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Finalização da Oficina de produção de bancos kumurõ|Marcus Schmidt
Para a formação dos jovens artesãos foram usados dois pés de sorva, dos quais resultaram mais de 30 bancos. Embora o foco desta oficina tenha sido a produção, os artesãos vêm atualmente discutido com o departamento de negócios da FOIRN os custos e a viabilidade econômica da atividade. Nesse sentido, as estratégias de manejo propostas nas oficinas podem ser uma alternativa interessante no sentido de agregar valor aos produtos e reduzir a pressão sobre o recurso. A sugestão de Marcus Schmidt é de que “toda ação de produção, com finalidades comerciais, deve estar conectada às ações de manejo”.
Integração entre escola, comunidade e território
Os debates da oficina mostraram que o manejo ambiental envolve também a transmissão de conhecimento e o fortalecimento cultural. Benzimentos, narrativas e história de ocupação do território emergiram como parte essencial do cuidado com a roça e com a floresta. Como disse a AIMA Oscarina Caldas, “os benzimentos são como adubo para nós; sem eles, a roça não produz direito”.
Os participantes da oficina contam que os conhecimentos tradicionais devem ser transmitidos nas “Casas de Saber” (vulgarmente chamadas de malocas), motivo pelo qual a comunidade pretende submeter um projeto ao Fundo Indígena do Rio Negro (FIRN) para a construção de uma dessas casas na área da comunidade.
Artesanato, economia e uso sustentável
Paralelamente à oficina de capoeiras e formação de jovens artesãos aconteceram outras atividades que também mobilizaram as mulheres da comunidade. Elas organizaram uma oficina de cerâmica – já que a feitura dos bancos é uma atividade exclusivamente masculina – e moradores da comunidade de Nova Esperança, vizinha a Boca da Estrada, promoveram uma oficina de cestaria Hüpda, utilizando-se da coleta de cipós e outros materiais.
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Mulheres apresentam o resultado da oficina de cerâmica e cestaria Hüpda|Marcus Schmidt
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Meninas apresentam o resultado da oficina de cerâmica e cestaria Hüpda|Marcus Schmidt
Uma agenda contínua de cuidado com o território
As oficinas tiveram grande participação da comunidade, envolvendo estudantes, professores e artesãos. Além de evidenciar a demanda por ações integradas, esse tipo de iniciativa demonstrou que as ações de manejo são mais do que eventos pontuais: elas são parte de um processo contínuo de cuidado com a terra, segundo a fala dos professores, alunos e AIMAs, durante as oficinas de manejo e produção.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
COP30: povos e comunidades tradicionais exigem voz nas decisões sobre o Sistema Jurisdicional de REDD+ do Pará
FEPIPA, Malungu e CNS apontam desafios e oportunidades diante da construção do Sistema Jurisdicional de REDD+ do Pará para garantia de direitos de povos indígenas, quilombolas e populações extrativistas
A Federação dos Povos Indígenas do Pará (FEPIPA), a Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará - MALUNGU e o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) apresentaram suas perspectivas sobre os possíveis resultados, aprendizados e próximos passos do Sistema Jurisdicional de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (Redd+) Jurisdicional em elaboração no estado do Pará e que visa regular o mercado de crédito de carbono.
Durante o debate, realizado pelo Instituto Socioambiental e a Fundação Rainforest da Noruega, na Zona Azul da COP30, as lideranças ressaltaram a importância da consulta livre, prévia e informada aos povos que terão seus territórios afetados pela iniciativa.
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Da esquerda para a direita: Juliana Maia (ISA), José Brilhante (CNS), Concita Sompré (FEPIPA) e Aurelio Borges (Malungu)|Thalyta Martins/ISA
Para Concita Sompré, co-fundadora da (FEPIPA) e da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA), o processo é uma novidade para muita gente. REDD+ é a sigla para Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal, Manejo Sustentável de Florestas e Conservação e Aumento dos Estoques de Carbono Florestal, e é desde a informação mais básica até os detalhes mais complexos em projetos desse tipo que precisam circular em todas as instâncias. Consultar as comunidades, explicar os processos e ouví-las sobre os impactos para o território é indispensável para o sucesso do programa.
"Desafios nós sempre vamos ter, mas cada parente, cada etnia tem pensamento diferente. Parecemos todos iguais, mas cada cultura tem sua forma de entender o processo e isso tem que ser respeitado", explicou Concita, defendendo a importância de considerar o contexto social onde estão inseridas as comunidades.
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Mesa, que aconteceu no pavilhão do ISA com a Rainforest, teve tradução simultânea|Thalyta Martins/ISA
Juliana Maia, analista de políticas climáticas do ISA, aponta que a participação dos povos indígenas, quilombolas e extrativistas nos processos de tomada de decisões é fundamental para que se alcancem os resultados esperados.
“Se o Estado do Pará está se propondo a realizar um processo de escuta a povos indígenas, comunidades quilombolas e extrativistas é muito em razão do pleito das lideranças que estão aqui”, ressaltou.
Segundo Maia, há algum tempo não havia sinalização neste sentido, em que pese a Convenção nº 169 da OIT estabeleça a obrigação de o estado realizar a Consulta Prévia, Livre e Informada. A mobilização dos povos e da sociedade civil é central neste cenário, considerando os desafios e a necessidade de informar e assegurar transparência em relação às implicações e pontos de atenção do SJREDD+.
Participaram da mesa também José Ivanildo Gama Brilhante, tesoureiro do CNS, e Aurelio Borges, coordenador da Malungu.
José Brilhante ressaltou que o modo de vida dos povos e comunidades tradicionais valoriza a natureza e garante a vida das pessoas dentro e fora do território. Portanto, uma política que reconheça quem protege e não quem desmata é muito bem vinda.
Aurelio Borges falou sobre a importância da proximidade entre todas as partes interessadas. Ele trouxe também o desafio, como liderança, de dialogar com a população, visto que, para dele, este é um projeto que tem potencial para dar certo, se bem feito.
“O REDD+ em si é muito complexo e a gente não sabe muito bem como funciona esse mercado primário e jurisdicional. Por isso, precisamos estar dentro do processo entendendo e levando questões que, para nós, são pertinentes”, ressaltou Aurélio.
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Livro ‘Florescendo nas Brechas’ tem lançamento no espaço Floresta do Centro, em São Paulo
Nova publicação do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade reforça protagonismo de povos e comunidades na preservação de rios e florestas; evento é dia 27/11, às 19h
No dia 27 de novembro, às 19h, o espaço Floresta no Centro, em São Paulo, recebe o lançamento do livro “Florescendo nas brechas: territórios tradicionais e economias da sociobiodiversidade”, nova publicação do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio).
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Capa do livro Florescendo nas brechas|Divulgação
A obra apresenta em 11 capítulos um panorama das economias da sociobiodiversidade em diferentes regiões do país e reforça o protagonismo de povos e comunidades tradicionais como resposta à crise ambiental.
O livro destaca a importância de olhar para os saberes e práticas que garantem a preservação de rios, florestas e do planeta, mostrando como essas comunidades mantêm viva a floresta e constroem alternativas econômicas sustentáveis. Entre os exemplos estão alimentação escolar, manejo do babaçu no Maranhão e Pirarucu na Amazônia e questões técnicas no acesso a crédito.
O evento de lançamento convida o público a conhecer de perto essas experiências, com a presença de Angelise Pimenta (consultora do ISA), Marcelo Martins (ISA), Karin Juruna (Professor da Escola Kamadu), Areaki Juruna (Artesã), Luisa Tui (ISA), Lara Ramos (World-Transforming Technologies (WTT)), Henrique Roncada (WRI Brasil) e Márcio Menezes (Catrapoa). A mediação fica por conta de Rafael Barbieri (WRI Brasil).
Quem participar poderá se aproximar dos conhecimentos que nascem nos territórios tradicionais e entender como as economias da sociobiodiversidade florescem “nas brechas” do modelo dominante, apontando outros futuros possíveis.
Lançamento do livro “Florescendo nas brechas: territórios tradicionais e economias da sociobiodiversidade”
Local: Espaço Floresta no Centro – Loja 28, 2º andar da Galeria Metrópole, Av São Luis 187, São Paulo (SP).
Horário: a partir das 19h
Entrada gratuita, sujeito a lotação
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Iniciativa quilombola, Casa de Sementes Jucão recebe prêmio internacional de arquitetura
Edificação no Quilombo Nhunguara (SP) foi escolhida por combinar beleza e função ecológica, atender às necessidades locais e dar poder às pessoas de transformar realidades
Construída em estrutura de taipa de pilão, construção da Casa de Sementes Jucão valoriza conhecimento tradicional quilombola|Alain Briatte Mantchev
A premiação, além de reconhecer o valor social e ecológico da construção de 42m2 localizada no Quilombo Nhunguara, em Iporanga (SP), valoriza o conhecimento tradicional dos antepassados dos coletores e abre caminhos para novos projetos.
De acordo com a comissão avaliadora do Ammodo Architecture Award 2025, a escolha da Casa de Sementes do Jucão se deu pela forma inovadora que o projeto combina beleza e função ecológica, ao mesmo tempo em que atende às necessidades locais com potencial de transformação e amplia o poder de transformação social, transformando-se, portanto, em algo extraordinário.
Conheça a Casa de Sementes Jucão!
O espaço é seguro e saudável para sementes, e contribui para a manutenção e regeneração da floresta brasileira no futuro. O reconhecimento exalta um exemplo de como uma estrutura pode ser ao mesmo tempo bela, simples e ainda com potencial de ajudar a resolver um problema global.
Estruturada em taipa de pilão com cascalho do Rio Ribeira de Iguape, podendo armazenar toneladas de sementes coletadas da Mata Atlântica, a casa de sementes foi inaugurada em 15 de dezembro de 2021.
O espaço foi batizado como Casa de Sementes Jucão em homenagem a José Rodrigues de Almeida, liderança do Quilombo Nhunguara, um batalhador pelas roças tradicionais e sempre à frente na luta pelo reconhecimento do seu território, falecido em novembro de 2021.
Giovanna Bernardes, do Instituto Socioambiental (ISA) e responsável técnica da Rede de Sementes do Vale do Ribeira, conta que o prêmio, de 10 mil euros, será revertido para melhorias na construção.
“Essas melhorias fortalecerão o papel da Casa de Sementes, potencializando seu efeito multiplicador em diversas atividades. A Casa de Sementes tornou-se um espaço acolhedor e um elo vital nos esforços contínuos da rede para restauração ecológica e engajamento comunitário”, informa.
A Rede de Sementes do Vale do Ribeira é um projeto apoiado pelo ISA e faz parte do Redário, mobilizando cerca de 60 coletoras e coletores dos quilombos André Lopes, Maria Rosa, Nhunguara, São Pedro e Bombas.
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Maria Tereza Vieira, é quilombola, agricultora, viveirista e coletora de sementes, uma das fundadoras da Cooperativa da Rede de Sementes do Vale do Ribeira|Cláudio Tavares/ISA
De acordo com Maria Teresa Vieira, secretária da Rede de Sementes do Vale do Ribeira, a beleza e funcionalidade da Casa de Sementes faz a diferença na região, além de atrair visitantes há algum tempo.
“Esse prêmio vai nos ajudar, principalmente para nossa casa da semente, que é um local onde a gente está começando a receber o turismo também, para o pessoal que está vindo para visitar. Então, a gente tem que ter alguns reparos”, explicou. “O mais importante de tudo é ser reconhecido, sabendo que tem gente lá fora, tem pessoas que pensa positivo a nosso respeito, seja brasileiro ou estrangeiro, mas que também luta pela mesma causa de ver um planeta mais saudável, um planeta com mais verde. Por esse motivo eu agradeço esse prêmio em nome da rede toda e de todos coletores”, conclui.
Conhecimento tradicional
Alain Briatte Mantchev, arquiteto responsável pelo projeto, acredita que a aplicação da técnica tradicional dos quilombos foi o que proporcionou o resultado premiado.
“Ela já é própria dos quilombos, né? Todos os fogões de taipa que a gente vê tradicionalmente, é a mesma técnica das paredes ali. Então, na verdade, a gente se inspirou nessa técnica quilombola para construir a casa de sementes. E aí acho que cabe uma frase muito significativa para o projeto: guardar as sementes na terra para na terra a gente semear. E acho que tudo isso faz muito sentido”, afirma
Mantchev explica que o Prêmio Ammodo de Arquitetura celebra a arquitetura ecológica e social, a partir da seleção de projetos escolhidos por especialistas de vários continentes. O projeto Casa de Sementes do Jucão foi indicado pela arquiteta chilena, Amanda Riviera.
O evento de premiação aconteceu em cerimônia virtual em 13 de novembro de 2025.
O prêmio
A Ammodo Architecture promove e apoia a arquitetura social e ecologicamente responsável em todo o mundo. O Prêmio Ammodo de Arquitetura para escala local incentiva projetos com orientação social e ecológica. Na edição 2025, 26 projetos foram selecionados - 12 na categoria escala local, 12 na categoria engajamento social e dois na categoria arquitetura social.
A Ammodo é uma fundação holandesa que estimula o desenvolvimento da arte, da ciência e da arquitetura.
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Sistemas Agrícolas Tradicionais reforçam urgência de pacto transnacional pela Amazônia de pé
Saberes e práticas ancestrais sustentam a biodiversidade, garantem soberania alimentar e conectam territórios e povos além dos limites dos países amazônicos
Jose Ignacio G. Gomes Corte
- Analista em desenvolvimento e pesquisa socioambiental do ISA
Os Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs) são conjuntos organizados de saberes e práticas ancestrais que orientam o manejo das paisagens e o uso dos recursos naturais por diferentes povos em seus territórios. Baseados em profundos conhecimentos ecológicos e botânicos, esses sistemas garantem a reprodução social e cultural dos grupos e sustentam as paisagens de diversidade que caracterizam a Amazônia.
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Simoni Yanomami, da comunidade Kori Yauopë, descasca cana-de-açúcar da roça|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
Os SATs constituem verdadeiras estratégias de gestão territorial, sustentadas por amplas redes de trocas e interdependências entre humanos e não humanos. Neles, as cosmologias indígenas são centrais: moldam as relações com os territórios e orientam o uso e a domesticação dos recursos. Mandioca, cacau, pupunha, amendoim e inúmeras variedades de pimentas são frutos desses sistemas, que asseguram soberania e segurança alimentar, além de reforçar a reprodução da biodiversidade.
Para a preservação e manutenção dos SATs, é preciso garantir o direito ao território e o reconhecimento das formas de vida dos povos tradicionais. A vitalidade dos SAT é central para a conectividade sociocultural e ecossistêmica do bioma amazônico. Os SAT são uma das peças que articula essa conectividade, a partir de uma ampla rede de interconexões e relações de interdependência entre humanos, não humanos, plantas, animais e recursos naturais.
Dessa forma, a continuidade das contribuições prestadas pela Amazônia às condições de possibilidade da vida na Terra depende da conectividade sociocultural e ecossistêmica que está pautada pela vitalidade dos SAT nos diferentes territórios e contextos.
Entretanto, o avanço de atividades predatórias tem comprometido essa integridade. Pesquisas indicam que a Amazônia se aproxima de um ponto de não retorno, com fragmentação crescente e a formação de “ilhas” de ecossistemas, o que gera perda de conectividade ecológica e social.
Os desafios contemporâneos vêm mostrando a necessidade de uma articulação transfronteiriça que dê conta de ações de proteção ambiental e de modos de vida que garantam o equilíbrio e a preservação da conectividade sociocultural e ecossistêmica. Muitos dos povos que habitam a Amazônia precedem à formação dos estados-nacionais latino-americanos, sendo que as fronteiras entre países não levam em consideração os modos de habitar e usar o território desses povos. Sem uma perspectiva regional que permita observar essas situações que vão além dos limites geográficos entre países, não há possibilidade de garantir a conectividade da Amazônia.
É nesse contexto que a COP30, realizada em Belém, ganha força como um espaço estratégico para evidenciar que a proteção dos SATs – e, com eles, da conectividade amazônica – exige pactos transnacionais e compromissos políticos alinhados à realidade dos povos que constroem e mantêm esses sistemas há milênios.
A Aliança Norte Amazônica (ANA), iniciativa sul-americana de organizações socioambientais da qual o Instituto Socioambiental (ISA) faz parte, surge como uma estratégia fundamental para produzir evidências e promover ações com visão regional e transnacional. A partir da experiência local e territorial junto dos povos indígenas e tradicionais com os quais cada organização trabalha, o esforço é criar entendimentos conjuntos e estruturar ações com uma visão regional e transnacional, atuando num contexto que é regional e transnacional, nas suas relações e interconexões.
Desde o início do ano, ANA vem desenvolvendo uma perspectiva regional sobre os Sistemas Alimentares Indígenas Amazônicos (SAIA), buscando diagnosticar e qualificar sua situação em relação aos direitos territoriais, instrumentos de autodeterminação, políticas de fomento e transformações recentes. O objetivo é reconhecer as contribuições desses sistemas para a resiliência e adaptação às mudanças climáticas, além de reforçar os direitos originários dos povos que os mantêm.
Num cenário global marcado pelo negacionismo climático e por soluções centradas em interesses econômicos, instituições como a FAO desempenham papel crucial ao promover acordos e estratégias baseadas em conhecimento e justiça socioambiental. A participação da ANA na terceira edição do Centro Global sobre Sistemas Alimentares dos Povos Indígenas da FAO, em outubro, levou uma visão amazônica construída a partir de experiências locais e nacionais, reforçando a importância dos SATs para a proteção da floresta e dos povos que a habitam.
A hora demanda acordos e estratégias transnacionais que reconheçam as contribuições e os direitos dos povos indígenas e tradicionais diante do avanço da crise ambiental e climática. Proteger e valorizar seus sistemas alimentares é afirmar a importância dos múltiplos repertórios e modos de vida que sustentam a própria humanidade. A conectividade amazônica é o alicerce dessa visão e os Sistemas Agrícolas Tradicionais, um de seus elos vitais, guardados e praticados há milênios pelos povos que mantêm a floresta de pé.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Seminário internacional debate como as normas sanitárias afetam a alimentação
Pesquisadores, indígenas, quilombolas e produtores se encontram no Rio e em Brasília para discutir modelos industriais e tradicionais
Você já parou para pensar sobre como as normas sanitárias afetam o que você come? E de que forma os modelos de produção em massa, como o agronegócio, estão ligados à produção de doenças, enquanto os sistemas alimentares tradicionais — promovidos pelos indígenas, quilombolas, povos e comunidades tradicionais e agricultores familiares — apontam caminhos para uma vida mais saudável?
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Chibé de açaí, chibé de buriti e chibé de água e farinha na comunidade Canadá, próxima ao rio Ayari, na Terra Indígena Alto Rio Negro (AM)|Carol Quintanilha/ISA
Em seguida, nos dias 28 e 29, esses temas serão debatidos também em Brasília, durante o pré-Congresso da Associação Brasileira de Saúde Coletiva - Abrascão.
Os eventos têm o apoio do Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio) e são uma oportunidade única para o público entender as tensões entre a alimentação industrializada e os saberes de quem vive da terra e em territórios tradicionais.
“Estamos reunindo pesquisas e promovendo uma troca de informações e diálogo para refutar a percepção de que a fonte de contaminação vem do modelo tradicional. Há evidências que mostram que as maiores contaminações são, na verdade, fruto do sistema alimentar convencional”, diz a engenheira de alimentos do Instituto Socioambiental (ISA), Bianca Tozato, representante da sociedade civil no Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).
No Rio de Janeiro e em Brasília, um dos destaques da programação é a reunião de saberes múltiplos, com a presença de cientistas internacionais, nacionais, indígenas, quilombolas e produtores.
A abertura do seminário, na quarta-feira, terá o encontro do biólogo evolucionista Rob Wallace (EUA) com o pesquisador indígena André Baniwa, consultor na área de Medicinas Indígenas do Ministério da Saúde, e com a antropóloga Ana Paula Perrota, professora da UFRRJ.
Na mesa seguinte, o produtor de queijo Canastra Luciano Carvalho vai debater com a pesquisadora Élise Demeulenaere, que tem como foco a antropologia do meio ambiente, e com a pesquisadora Rosângela (Bibi) Cintrão, pós-doutoranda no Instituto de Nutrição da UERJ e pesquisadora o Centro de Referência em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (CERESAN).
Na quinta-feira, Fran Paula, da Coordenação Nacional Comunidades Rurais Quilombolas-CONAQ e da Aliança Cientifica Antirracista, pesquisadora em racismo e sistemas alimentares, estará em conversa com Kregg Hetherington (Canadá), com pesquisasobre a expansão da soja e seus impactos.
Em seguida, a engenheira de alimentos Bianca Tozato, do Instituto Socioambiental (ISA), conversa com Will LaFleur (Finlândia), que tem pesquisas em práticas de fermentação e etnografia sensorial.
Contato para a imprensa:
Sabrina Brito/ÓSocioBio - (61) 98439 2831
Ana Amélia Hamdan/ISA - (31) 99806 2958
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