"Devastamos mais da metade do nosso País pensando que era preciso deixar a natureza para entrar na história: mas eis que esta última, com sua costumeira predileção pela ironia, exige-nos agora como passaporte justamente a natureza".
Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo, um dos motes da fundação do ISA em 1994.
O ISA trabalha em parceria com povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais para elaborar soluções inovadoras para os desafios enfrentados por estas comunidades e povos. Nossas iniciativas apoiam e promovem a defesa de direitos, gestão e proteção territorial, economias do cuidado, processos formativos, restauração ecológica inclusiva e produtiva. Elas são baseadas em processos de experimentações e trocas de saberes transparentes, equitativas e de longo prazo com nossos parceiros, que tem como base a valorização dos modos de vida destas populações e a garantia de seus direitos.
Nossa abordagem de atuação coloca a potência dos saberes tradicionais em diálogo com práticas legais, acadêmicas e de mercado. A inovação, produzida a partir dessa interação entre diferentes mundos, pensamentos e linguagens, oferece caminhos para o reconhecimento pela sociedade brasileira - e mundial -, que são estes povos que cuidam e protegem as florestas que prestam os serviços socioambientais para a própria sobrevivência do planeta e cada um de nós.
Há diversas outras iniciativas que apontam para soluções originais para os desafios enfrentados pelas populações indígenas e tradicionais para garantir o direito à terra, o bem-viver, a preservação de suas florestas e modos de vida, intrinsecamente interdependentes. A formação de jovens comunicadores indígenas, por exemplo, capacita tecnicamente a juventude dos territórios do Xingu e do Rio Negro em dominar a tecnologia para contar suas próprias histórias, defender seus direitos e se conectar com a cultura de seus de seus antepassados. Conheça abaixo outros exemplos de soluções desenvolvidas pelo ISA e seus parceiros locais e nacionais:
Copiô, Parente, o primeiro podcast feito no Brasil para os povos da floresta
Xingu Solar, projeto de promoção de energia fotovoltaica no Xingu
O Instituto Socioambiental (ISA) lançou nesta quinta-feira (16/10) o novo episódio do boletim de áudio “Vozes do Clima” que, desta vez, apresenta o trabalhos e as pesquisas realizadas pelos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) do Rio Negro, Amazonas, como parte das estratégias para enfrentar a crise climática. As entrevistas foram feitas durante a oficina “Olhares Indígenas sobre as transformações nos territórios devido ao clima", realizada entre os dias 9 e 12 de setembro, em Brasília, como resultado de uma parceria entre o ISA, o Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé) e a Fundação Gaia Amazonas, no âmbito da Aliança Norte-Amazônica.
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Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) do Rio Negro participam da oficina “Olhares Indígenas sobre as transformações nos territórios devido ao clima", em Brasília|Leonor Costa/ISA
O programa tem a apresentação de Claudia Wanano, coordenadora da rede Wayuri de comunicadores indígenas do Rio Negro, e conta com as participações de Milena Joaquim, indígena do povo Kuripako; Ronaldo Apolinário, do povo Baniwa; Damião Amaral Barbosa, do povo Yeba Masã; Hélio Gessem Monteiro Lopes, do povo Tukano e um dos diretores da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN); Aloísio Calbazar Filho, analista socioambiental do ISA; e Thaynah Gutierrez, da Rede de Adaptação Antirracista.
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Conhecimento ancestral e ciência contra a crise climática
Participantes durante a elaboração do calendário circular durante oficina de trabalho dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs)|Equipe ISA/Tiquié
Ao longo dessas duas décadas, os AIMAs vêm produzindo diários detalhados sobre o clima, a terra, a água, as roças e os ciclos da floresta, combinando observações tradicionais – como a leitura das constelações, o comportamento dos animais e das planta e o ciclo das águas – com o uso de cadernos, tablets e mapas. O trabalho é realizado em comunidades ao longo do Alto, Médio e Baixo Rio Negro, envolvendo povos Tukano, Baniwa, Dessana, Baré, Tuyuka, Koripako entre outros.
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Segundo Ronaldo Apolinário, muitas famílias perderam suas roças, cultivos e plantações|Leonor Costa/ISA
Esses registros revelam extremos climáticos, como secas prolongadas, incêndios em áreas de igapó e enchentes recordes, que têm provocado perdas de roças, mudanças na disponibilidade de peixes e riscos à segurança alimentar e à cultura dos povos indígenas.
Todas essas experiências foram compartilhadas pelos agentes do Rio Negro que participaram dos quatro dias de oficina, realizada em outubro, e também nas entrevistas ao Vozes do Clima.
“Isso (as mudanças no clima) afeta muito na questão de cultivo para abertura de nova roça e para trabalho da roça, principalmente o nosso sustento que vem através da roça, tanto para a produção de segurança alimentar, quanto para geração de renda. Esse ano impactou de 60 famílias que perderam suas roças, que perderam seus cultivos, como plantações de banana, abacaxi, cobiô, até as pimenteiras, que a gente come todo dia lá na nossa região", contou Ronaldo Apolinário, sobre os impactos das mudanças do clima em seu território.
“Alagaram as escolas, as que ficam mais perto do rio, e os professores ficaram com muita dificuldade de dar aula, de ensinar as crianças. Também as casas de algumas pessoas que alagaram, a família, os filhos não tinham para onde ir", lembrou Milena Joaquim, moradora da região do Alto Içana, em São Gabriel da Cachoeira.
O que esperar da COP30?
Os relatos dos AIMAs apontam uma constatação que precisa ficar cada vez mais nítida: indígenas, quilombolas, extrativistas, ribeirinhos e demais comunidades tradicionais são os que mais protegem os biomas e, por isso, devem ser os protagonistas das discussões e das políticas de combate à crise climática.
Thaynah Gutierrez, secretária-executiva da Rede por Adaptação Antirracista, em entrevista ao “Vozes do Clima", defendeu mudanças na elaboração das ações de adaptação pelo poder público.
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Thaynah Gutierrez considera importante fortalecer os espaços de construção e troca entre as comunidades tradicionais globais durante a COP30|Arquivo pessoal
“São mesmo os povos tradicionais, os povos originários, as comunidades negras que sempre estiveram naqueles territórios que vão conseguir dar soluções, que vão garantir nossa resiliência, nossa sobrevivência nos territórios. Justamente essas estratégias que precisam ser consideradas nas nossas abordagens de adaptação para as políticas públicas. A gente precisa mudar o eixo da política pública de adaptação para fazer ela partir do local e do território e assim subir por nível federal e que essas estratégias consigam ter recursos para isso", reforçou.
Em relação à COP30, Gutierrez espera que o evento traga experiências como as dos AIMAs para a centralidade dos debates. Para ela, a conferência da Amazônia precisa dar voz aos representantes de povos e comunidades tradicionais para que as ações aprovadas façam sentido para quem está nos territórios.
“A gente precisa fortalecer esses espaços de construção e troca entre as comunidades tradicionais globais e demonstrar que a gente pode, sim, ser protagonista na tomada de decisões. Porque historicamente a gente não era reconhecido, mas falta ainda esse lugar de protagonismo na tomada de decisão e acho que é para esse lugar que a gente vai percorrer na COP 30, tendo a presença massiva das comunidades tradicionais ali nos espaços das negociações e garantindo que a gente tenha essa visibilidade que nos é de direito", finalizou.
O que é o “Vozes do Clima”?
O boletim de áudio “Vozes do Clima” é uma realização do ISA, com produção da produtora de podcasts Bamm Mídia e apoio da Environmental Defense Fund (EDF) e propõe levar informações a povos e comunidades tradicionais sobre os temas relacionados à pauta climática. A identidade visual foi concebida pelas designers e ilustradoras indígenas Kath Matos e Wanessa Ribeiro. Além de ser distribuído via Whatsapp e Telegram, o programa também poderá ser ouvido nas plataformas de áudio Spotify, iHeartRadio, Amazon Music, Podcast Addict, Castbox e Deezer.
Este é o quinto episódio da segunda temporada de “Vozes do Clima”, que contará com um total de 12 edições e abordará os diversos debates sobre clima e a pauta socioambiental.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
ISA e O Joio e o Trigo lançam curso gratuito com soluções de povos e comunidades tradicionais para a crise climática
Aulas em vídeo e materiais de apoio abordam temas como defesa dos territórios, mercado de carbono, economia da sociobiodiversidade, sistemas agrícolas tradicionais e restauração ecológica
Em Santa Cruz, no Xingu, novas experiências usam tecnologias para restauro florestal|Ricardo Abad/ISA
Dividido em 14 vídeo aulas, que podem ser assistidas a qualquer momento, o curso é apresentado pela bióloga, educadora e comunicadora socioambiental, Jessi Alves, e aborda temas relacionados a mudanças climáticas, mercado de carbono, economias da sociobiodiversidade e restauração ecológica.
“Neste curso, vamos entender como chegamos até a crise ambiental atual, apontando as causas, mas também as soluções. Vamos discutir como povos e comunidades tradicionais são ricos em conhecimentos e experiências para enfrentar a crise climática e, com isso, promover justiça social e climática", explica Jessi Alves, na aula de abertura.
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A bióloga e educadora Jessi Alves apresenta o conteúdo das 14 vídeo aulas|Tauani Lima/ISA
O curso é dividido em duas partes, tem linguagem acessível e recursos audiovisuais de apoio para facilitar a compreensão.
A primeira aborda um panorama da crise. Nas primeiras aulas, o curso aponta as raízes da emergência climática e mostra como o uso intensivo de combustíveis fósseis, a monocultura, a pecuária e o desmatamento aceleraram o aquecimento do planeta. Também mostra como a crise climática aumenta ainda mais as desigualdades sociais e econômicas, e apresenta o conceito de racismo ambiental.
Na segunda parte, o curso traça um panorama das soluções, apresentando os serviços ambientais e mostrando como várias das atividades ligadas aos conhecimentos de povos e comunidades tradicionais se encaixam no conceito. A restauração ecológica, uma prática que traz bons resultados para as diferentes crises ambientais; e o mercado de carbono, atualmente o principal assunto na agenda climática, também são temas da segunda parte do curso.
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O trabalho das redes de sementes são soluções coletivas e somam às ações de restauração ecológica|Rodrigo Carvalho Gonçalves
E, por fim, são abordadas a política climática, as leis e normativas que tratam diretamente do assunto, mostrando o potencial de regulação climática que existe em programas de governo que apoiam a produção agrícola e extrativista em territórios coletivos.
Lançado às vésperas da COP30, a primeira na Amazônia, o curso parte da premissa de que sem os povos e comunidades tradicionais, a saída para a emergência climática fica ainda mais distante de se tornar uma realidade.
“Os modos de vida de indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais mostram que seu desenvolvimento ao longo dos milênios, na verdade, sempre preservou a natureza e promoveu a biodiversidade", explica Jessi Alves, na apresentação do curso.
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O Sistema Agrícola Tradicional Quilombola das comunidades do Vale do Ribeira, no estado de São Paulo promovem a biodiversidade|Marília Garcia Sellen/ISA
O curso “Clima e Sociobiodiversidade: formulando soluções de futuro” é uma realização do Instituto Socioambiental (ISA) e de O Joio e o Trigo. A produção contou com apoio do Fundo de Defesa Ambiental e da Fundação Rainforest da Noruega.
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A solução que vem da Caatinga
Caatinga Climate Week coloca o bioma exclusivamente brasileiro no centro do debate climático a partir de experiências e saberes de povos e comunidades tradicionais
Caatinga Climate Week: saberes e resistências que floresceram durante quatro dias no coração do Semiárido pernambucano|Arthur de Souza/Centro Sabiá
O chão de terra arenoso entre o amarelo e o cinza, as árvores secas enfileiradas com mandacarus imponentes, a vegetação amarelada e rasteira, que compõem parte de um cenário que no imaginário de muita gente é sinônimo de pobreza, escassez e fome, foram territórios férteis de debates intensos, vivências e trocas entre os dias 1 e 4 de outubro, na região agreste de Pernambuco. Mas não são só essas características que formam o bioma Caatinga, que recebeu nos primeiros dias de outubro a Caatinga Climate Week, iniciativa organizada pelo Centro Sabiá, em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA).
As experiências compartilhadas durante os quatro dias mostraram que o único bioma exclusivamente brasileiro é também morada de milhares de espécies nativas, de uma sociobiodiversidade diversa e rica, de frutas e flores que desabrocham quando vem a chuva e de povos e comunidades tradicionais que há séculos desenvolvem suas estratégias de adaptação a partir de seus saberes ancestrais.
A Caatinga, bioma presente nos estados da Bahia, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Ceará, Piauí, Maranhão e Minas Gerais e imortalizada na memória de cada brasileiro pelas letras de Luiz Gonzaga, ilustre pernambucano da cidade de Exu, é também a Caatinga expressada nas falas da líder índigena e coordenadora da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), Elisa Pankararu, da etnia Pankararu, localizada no sertão de Pernambuco: a Caatinga é um bioma de resistência e de beleza.
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Elisa Pankararu: "Somos de beleza, de cultura e de conflito também, porque somos de resistência e somos de enfrentamento"|Beto Figueroa/Centro Sabiá
Segundo ela, a imagem que foi construída no país sobre o bioma é repleta de preconceito e discriminação, mas precisa ser superada: “Está nas artes, no cinema, nas pinturas, nos quadros e nós sempre somos visto como um lugar de mulheres feias com seus maridos magros, e crianças magras e feias também. E não somos. Somos de beleza, de cultura e de conflito também, porque somos de resistência e somos de enfrentamento", completou Elisa Pankararu, uma das lideranças mais respeitadas entre os povos de sua região e no movimento indígena brasileiro.
A Caatinga Climate Week
Durante quatro dias, entre as cidades de Caruaru, Garanhuns, Pesqueira, Vertentes, Jucati, Caetés, Arcoverde e Buíque, entre o agreste e o sertão pernambucano, cerca de 500 pessoas, de vários estados do país, passaram pelo evento e debateram a urgência de colocar a Caatinga no centro do debate climático.
Organizações da sociedade civil, movimentos de base de povos e comunidades tradicionais e da agroecologia, lideranças indígenas e quilombolas, ativistas socioambientais, representantes do poder público, influenciadores digitais e jornalistas puderam ver de perto diferentes experiências ao longo dos 400 quilômetros percorridos pela Caatinga Climate Week, nome propositalmente escolhido para fazer o contraponto a semanas internacionais que debatem a pauta do clima, como a Climate Week NYC (Semana do Clima de Nova York), ocorrida exatamente na semana anterior, em Nova Iorque, Estados Unidos.
Além dos filhos do bioma Caatinga, também estiveram presentes representantes da Amazônia, do Cerrado e da Mata Atlântica.
Segundo o coordenador de Mobilização Social do Centro Sabiá, Carlos Magno, o objetivo do evento foi mostrar que o povo da Caatinga, a partir de suas experiências, tem capacidade de ser protagonista das discussões feitas nos eventos climáticos e, sobretudo, agora no contexto da COP30, que será realizada em novembro, em Belém/PA.
“Essa semana do clima tem o intuito de fazer pontes, de conectar pessoas de diversos lugares para que a gente consiga realmente levar essa mensagem para a COP, de colocar a Caatinga no centro do debate climático. Seja em português, seja em inglês, seja em espanhol”, disse Carlos Magno, durante a plenária de abertura, realizada no Centro de Formação Paulo Freire, no assentamento Normandia, em Caruaru, uma das principais experiências de reforma agrária da região Nordeste.
Para a secretária executiva do ISA, Adriana Ramos, iniciativas como a Caatinga Climate Week são necessárias e urgentes para que o país possa aprender com os povos desse bioma as soluções que eles já apresentam.
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Adriana Ramos (ISA) e Carlos Magno (Centro Sabiá) destacam as soluções dos povos da Caatinga em meio às adversidade|Beto Figueroa/Centro Sabiá
“Aqui é um berço de grandes ideias. De um povo muito forte que vem construindo soluções, que é o que o mundo hoje está buscando. Soluções para o enfrentamento de situações muitas vezes adversas, sobretudo agora com as mudanças climáticas, situações criadas por outros, mas que a gente precisa ajudar a remediar. Então é uma grande honra poder estar aqui, se inspirando, bebendo nessa fonte e trazendo alguma contribuição", pontuou.
Rodrigo Junqueira, secretário-executivo do ISA, destacou que os outros biomas têm ainda muito o que aprender com a Caatinga, que já vem colocando em prática diferentes estratégias de adaptação climática.
“Vocês podem contar com a gente nessa continuidade, com tanta força, tanta resiliência, tanta resistência. Poder levar para Belém e para a COP todo esse aprendizado, toda essa luta que vocês têm. E saber que muito do que os outros biomas ainda estão aprendendo, sobre o que é adaptação, por exemplo, vocês já sabem, porque a vida de vocês passa por isso".
O evento não só cumpriu o objetivo de trazer o bioma de Luiz Gonzaga e de Patativa do Assaré para o centro da pauta mais debatida no momento, como mostrou que os povos da Caatinga têm as soluções para enfrentar a crise.
“A gente quer só que as pessoas reconheçam que a Caatinga é importante e que a gente pode construir muita coisa a partir desse lugar, da experiência dos povos, da inteligência coletiva que esse povo tem, da resistência e da resiliência que essas comunidades construíram nesse território", pontuou Carlos Magno.
Macaxeira: alimento, memória e resistência
Não eram nem 9 horas da manhã de quinta-feira (02/10) quando um grupo de cerca de 20 pessoas chegou no Sítio Serrote dos Bois, na zona rural de Caruaru, cidade pólo do agreste pernambucano e a primeira parada da Caatinga Climate Week. Aluísio Barbosa e Maria José Barbosa, agricultores familiares responsáveis pela casa, receberam os visitantes com café, chá, bolo de macaxeira e beiju. O alimento servido no intervalo da visita era fruto do principal assunto das mais de duas horas de conversa: a macaxeira.
Ali, no semiárido, a raiz, que em alguns lugares do Brasil é chamada de mandioca e em outros de aipim, é muito mais do que alimento e raiz fincada na terra. É também memória e resistência. A partir dela, agricultores familiares produzem farinha, beiju, goma, tapioca e tantos outros derivados e preservam o modo de vida tradicional de manejar a terra.
Enquanto caminhava com o grupo de visitantes pela plantação, Aluísio explicava como a macaxeira se tornou o principal alimento e fonte de recurso das famílias daquela região, tendo substituído a batatinha por ser mais adaptada aos longos períodos sem chuva do semiárido. Uma das aliadas nesse processo é a cisterna que Aluísio tem em seu quintal, parte do bem sucedido Programa de Cisternas do Governo Federal, tecnologia de acesso à água que já atendeu mais de 130 mil famílias nos últimos dois anos.
“Hoje, como eu sofri muito com a falta de água, eu tenho 208 mil litros de cisterna”, contou Aluísio.
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Cisternas do Programa de Cisternas, tecnologia de acesso à água que já atendeu mais de 130 mil famílias nos últimos dois anos|Túlio Seabra/Centro Sabiá
João Barbosa da Silva, o Dão responsável pela casa de farinha da Associação do Pequeno Produtor Rural de Caruaru, também fala sobre as diversas formas de se aproveitar a macaxeira. “Agora nós vamos conhecer como é o processo com ela para transformar na farinha. Ela tá dura, mas ela vai ser triturada, depois vai ser espremida a água, e depois torrada aquela massa”, explicou, percorrendo por todo o processo de produção da farinha e outros derivados da raiz.
Ao final da visita, Aluísio e Dão se juntaram também a José João dos Santos, conhecido como Pelé, para falar sobre os atuais desafios para as famílias que vivem da agricultura familiar na região, que passam pelos impactos das mudanças climáticas no plantio da macaxeira e em seus modos de vida, até o crescimento das frentes de trabalho precário na indústria têxtil da região de Caruaru.
“Passou esse tempo bom e agora a gente tá no tempo ruim. Mas mesmo no tempo ruim eu dou conselhos a muitos pais de família aqui para segurar os filhos na agricultura, incentivar, porque eu sou um exemplo disso”, disse Aluísio, cuja filha é responsável pela venda dos produtos na feira da agricultura familiar.
Nesse mesmo dia, além da visita ao Sítio Serrote dos Bois, os participantes da Caatinga Climate Week, divididos em grupos, visitaram as mulheres agricultoras do Sítio de Carneirinho, que se uniram em associação para acessar políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE); e uma família na zona rural do município de Vertentes, que transformou a escassez de água em oportunidade de produção agroecológica diversificada, por meio das tecnologias sociais de adaptação climática.
Fé no sagrado guia mulheres negras quilombolas
A chegada nas comunidades quilombolas de Castainho e Estivas, na zona rural de Garanhuns, só foi permitida depois de pedir licença aos ancestrais que protegem o território. A recepção do grupo composto por 18 participantes da Caatinga Climate Week ficou por conta de Maria José Isídio, conhecida como Mestra Zeza do Côco, e sua filha Edvani Lopes Isídio, ambas lideranças do Quilombo Castainho; e Aparecida Nascimento e Marinho dos Santos, lideranças do Quilombo Estivas.
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18 participantes da Caatinga Climate Week pediram licença para entrar no território do Quilombo Castainho|Beto Figueroa/Centro Sabiá
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Os cânticos na frente da capela honram a resistência, tradição e cultura quilombola e fortalecem na luta pelo território|Beto Figueroa/Centro Sabiá
De frente a uma capela com uma porta no meio e duas cruzes laterais e diferentes imagens de santos em seu interior, as lideranças entoaram cânticos que fazem referência à travessia pelo Oceano Atlântico de escravizados retirados do continente africano e sua chegada até os territórios quilombolas que seguem resistindo para manter sua tradição, sua cultura e, principalmente, seu direito ao território.
“Pedir licença a essas pessoas que passaram por aqui, que chegaram primeiro antes de nós. Então a gente pede essas bênçãos para todos vocês que estão visitando esse território, que é um território sagrado. Se a gente compreende que essa terra que nós estamos pisando é nosso corpo, que a água que a gente bebe para sobreviver é o nosso sangue, a gente entendeu isso”, explicou Aparecida Nascimento, conhecida como Cida.
Principal liderança do Quilombo Castainho, Mestra Zeza do Côco abriu a porta de sua casa embolando um côco que fala da luta de sua família em preservar as tradições daquele território. Ela e sua filha Edvani apresentaram as estruturas da casa de farinha, de onde tiram os sustento da família.
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Principal liderança do Quilombo Castainho, Mestra Zeza, compartilha emocionada o que a cultura da mandioca representa para ela e sua família||Beto Figueroa/Centro Sabiá
“Não se perde nada da mandioca, tudo é utilizado. Tudo”, sentenciou Edvani, que junto com a mãe mostrou todas as etapas do processo de aproveitamento da raiz, a mesma que os agricultores do Sítio Serrote dos Bois, em Caruaru, chamam de macaxeira.
Mestra Zeza, emocionada, emendou contando o que a mandioca representa para a família: “Eu sinto um orgulho muito grande de falar, sempre eu falo isso. Porque eu vendi na feira por 34 anos. E foi daqui da casa de farinha que eu eduquei meus filhos. Eu tenho quatro filhos que saíram de mim e tenho três do coração. Eu sempre me emociono, porque foi daqui, dessa casa de farinha, que a gente educou nossa família. Tenho três filhos que conseguiram se formar, e foi da casa de farinha e vendendo na feira”, disse, entre choro e aplausos.
Castainho, com cerca de 350 famílias, foi o primeiro quilombo de Pernambuco a receber a titulação parcial da terra, isso porque parte dos 193 hectares que formam o território está judicializado.
“Isso veio depois de muitas lutas, muitas ameaças, pela defesa dos nossos territórios, que é algo essencial para a gente. Não existe justiça climática, se não existir demarcação e titulação dos territórios quilombolas. Nós acreditamos nisso, porque sem nosso território, nós não somos nada, e a partir dos territórios é que nós vamos manter a preservação, a conservação dos nossos biomas, da nossa fauna, da nossa Caatinga, que é algo essencial para a gente. Território é vida, é ancestralidade”, defendeu Edvani.
No Quilombo Estivas, comunidade vizinha de Mestra Zeza do Côco e Edvani, se destacam as hortas orgânicas e os quintais produtivos com as técnicas e saberes da agroecologia. Cida, a mesma que recebeu a equipe da Caatinga Climate Week na entrada do território, explicou que as mulheres do quilombo estão na linha de frente dos trabalhos em comunidade, a partir do Coletivo de Mulheres Negras Quilombolas Flor de Dandara. Elas também são a maioria nos cargos de liderança da associação do Quilombo Estivas.
Nesta comunidade, a cisterna também garante a oferta de água para uso doméstico e no trabalho na roça. Mas, segundo os relatos de Cida e de outras mulheres da comunidade, os impactos das mudanças climáticas já podem ser sentidos. Neste ano, o alface não cresceu como de costume, por falta de sol, e a plantação de coentro não vingou, por conta da grande incidência de geadas.
Diferentemente de Castainho, Estivas, com pouco mais de 200 famílias, ainda não conquistou a titulação da terra e a comunidade enfrenta uma série de ameaças nesse processo. “Nossa luta não será em vão. Temos muita fé que o mundo vai olhar para nós, e que conquistaremos a titulação e a preservação do nosso território quilombola”, destacou Marinho dos Santos.
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Caatinga Climate Week também passou pelo território Xukuru, para ver as estratégias de adaptação e mitigação a partir dos saberes ancestrais|Tulio Seabra/Centro Sabiá
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A atividade "Roçados da Resistência" compartilhou a experiência de agricultores comprometidos com a preservação da biodiversidade|Tulio Seabra/Centro Sabiá
Nesse dia, além das visitas aos quilombos de Garanhuns, a Caatinga Climate Week também esteve com famílias agricultoras que enfrentam os efeitos da instalação de parques eólicos em sua comunidade, no município de Caetés; com agricultores que trabalham com rede de sementes crioulas e na preservação da biodiversidade e da paisagem agrícola, no município de Jucati; e com indígenas do território Xukuru, que desenvolvem estratégias de adaptação e mitigação a partir dos saberes ancestrais da agricultura indígena, no município de Pesqueira.
Vale do Catimbau: espaço sagrado afroindígena
O último dia da Caatinga Climate Week foi com uma plenária final no Parque Nacional do Catimbau, localizado entre o agreste e o sertão pernambucano, nos municípios de Buíque, Tupanatinga e Ibimirim.
O encontro reuniu lideranças indígenas das etnias Xukuru, Pankararu, Pankará, Fulni-ô, Kapinawá e Kambiwá, que saudaram os participantes com seus cantos e rezas.
Liderança do povo Kapinawá, território indígena onde fica parte do Parque Nacional do Catimbau, Cacique Robério Kapinawá falou sobre a necessidade de os espaços de discussão sobre clima ouvirem os povos da Caatinga.
“É importante que de fato a gente diga ao mundo, diga ao Brasil, que nós existimos. Se batem numa tecla de dizer que a Amazônia é o pulmão do mundo, também é importante ter o reconhecimento que a Caatinga é o bioma natural do Brasil e precisa ser valorizado. Isso precisa ser discutido nas mesas de debate sobre clima e de qualquer tipo de discussão”, enfatizou Cacique Robério.
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A plenária final teve a presença de lideranças indígenas das etnias Xukuru, Pankararu, Pankará, Fulni-ô, Kapinawá e Kambiwá|Arthur de Souza/Centro Sabiá
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Reunião de despedida ocorreu no Parque Nacional do Catimbau, localizado entre o agreste e o sertão pernambucano|Arthur de Souza/Centro Sabiá
“A gente fala de Caatinga, que às vezes é muito desvalorizada por quem não tem o conhecimento e não tem a vivência. E a gente veio aqui justamente pautar esse assunto, dentro desse contexto de emergência climática, que a gente também vai dialogar”, completou Hugo Fulni-ô, indígena do povo Fulni-ô.
Liderança do Quilombo Mundo Novo, em Buíque, Irailda Leandro deu o recado para que o país passe a enxergar a Caatinga como um celeiro de cultura e biodiversidade.
“A gente não quer que as pessoas cheguem com peninha da gente. A gente quer que vocês possam chegar a acessar o meu território, com ideia para que as minhas e os meus parentes possam adquirir conhecimento para sobreviver com dignidade. Então esse momento aqui é riquíssimo. A gente tem condições de sobreviver do território, de tirar da terra, da mãe terra a nossa sobrevivência, mas as pessoas insistem para que a gente seja ignorante, que a gente não tenha acesso aos conhecimentos e nem acesso a essas políticas públicas que possam nos libertar”.
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Lideranças do Médio Rio Negro lançam PGTAs e reforçam luta pela homologação da Terra Indígena Jurubaxi-Téa
Planos de Gestão Territorial e Ambiental orientam a governança indígena e serão levados à COP30 como pauta prioritária para conclusão dos processos de demarcação
Em evento realizado no dia 4 de outubro, lideranças indígenas do Médio Rio Negro celebraram o lançamento dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) das Terras Indígenas Jurubaxi-Téa e Uneiuxi, em Santa Isabel do Rio Negro (AM), reunindo representantes das duas terras indígenas e instituições parceiras.
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Os planos são frutos do trabalho conjunto de lideranças, jovens, homens e mulheres das comunidades dos territórios|Alexandre Produtor Audiovisual/Decom-Foirn
Durante o dia, as lideranças participaram também de uma oficina explicativa sobre o conteúdo dos PGTAs, num espaço em que puderam revisitar o processo de construção, tirar dúvidas e discutir os próximos passos para a implementação dos planos.
Os PGTAs são instrumentos previstos na Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI) e servem como guias elaborados pelos próprios povos para planejar o uso, proteger o território e orientar políticas públicas de acordo com suas realidades e modos de vida.
Os planos são frutos do trabalho conjunto de lideranças, jovens, homens e mulheres das comunidades dos dois territórios, em cooperação com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), a Coordenadoria das Associações das Comunidades Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro (Caimbrn) e da Associação das Comunidades Indígenas do Médio Rio Negro (Acimrn), com colaboração do Instituto Socioambiental (ISA) e Coordeadoria Regional Fundação Nacional dos Povos Insdígenas no Rio Negro (Funai/CR Rio Negro).
Lideranças e comunitários da região do Médio Rio Negro estiveram presentes no lançamento|Alexandre Produtor Audiovisual/Decom-Foirn
Presente na celebração, o presidente da Foirn, Dário Baniwa, reforçou a importância do documento como instrumento de autogestão e proteção dos territórios e destacou que o PGTA da TI Jurubaxi-Téa será apresentado na COP30 pela comitiva do Rio Negro, que tem como uma das principais pautas a reivindicação para a finalização do processo de demarcação da terra indígena que há décadas aguarda pelo reconhecimento oficial do território. “O PGTA é um instrumento de gestão e de autonomia. Ele mostra que os povos indígenas têm seus próprios modos de planejar o futuro e cuidar do território”, afirmou.
Para Carlinhos Neri, diretor de referência da Foirn no Médio Rio Negro, os planos expressam a visão das comunidades sobre o uso e o cuidado com seus territórios. “Eles consolidam as necessidades e os anseios das comunidades de forma planejada e articulada, e são ferramentas de reivindicação junto ao poder público e às instituições”.
Entre as lideranças locais, a fala de Adilson da Silva Joanico, da TI Jurubaxi-Téa e presidente da Acimrn, traduziu o sentimento coletivo: “É um trabalho que lutamos muito para realizar, e agora temos um documento físico nas mãos, que garante nossa voz e orienta os próximos passos com os governos municipal, estadual e federal.”
Da TI Uneiuxi, a liderança Eduardo Fonseca Castelo, do povo Nadëb, reforçou a importância simbólica e política do documento. “É o nosso plano de governo. Nossos direitos e nosso futuro estão registrados aí, dando mais uma segurança para nós. E registrado na nossa língua para que ela não se perca”, disse.
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Carlos Neri faz entrega simbólica do PGTA Uneiuxi à liderança Nadëb Eduardo Fonseca Castelo|Alexandre Produtor Audiovisual/Decom-Foirn
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Dário Baniwa, presidente da Foirn, faz entrega ao presidente da Acimrn, Adilson da Silva Joanico|Alexandre Produtor Audiovisual/Decom-Foirn
O lançamento faz parte do conjunto de 12 PGTAs apoiados pelo ISA em parceria com a Foirn, coordenadorias e associações de base. A antropóloga Carla Dias, coordenadora do Programa Rio Negro, destacou o caráter participativo do processo e o valor do documento como instrumento de fortalecimento da governança dos territórios pelos próprios povos indígenas. Segundo ela, “a ferramenta pode orientar políticas públicas adequadas à realidade local, apoiar as associações na elaboração de projetos e captação de recursos, além de servir para atualizar acordos intercomunitários”.
Os 12 PGTAs da região do Alto e Médio Rio Negro podem ser acessados e obtidos na íntegra no acervo do ISA e no site da FOIRN.
Todo o processo de elaboração dos PGTAs das Terras Indígenas Jurubaxi-Téa e Uneiuxi até o lançamento contou com o apoio financeiro da Aliança pelo Clima, da Rainforest Foundation Norway (RFN), da Embaixada da Noruega e da Fundação Gordon & Betty Moore, instituições parceiras do ISA que contribuem para tornar realidade o fortalecimento da gestão territorial e ambiental dos povos indígenas do Rio Negro.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Prêmio Vladimir Herzog anuncia vencedores da 47ª edição
Produções jornalísticas foram premiadas nas categorias arte, fotografia, livro-reportagem, áudio, multimídia, vídeo, texto e defesa da democracia
A Comissão Organizadora do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos definiu nesta terça-feira, dia 7, os vencedores e os contemplados com menção honrosa da 47ª edição. A sessão pública de julgamento foi transmitida ao vivo pelo YouTube. Cerimônia de premiação acontece dia 27 de outubro, no Tucarena, em São Paulo, antecedida da 14ª Roda de Conversa com Ganhadores.
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Troféu símbolo do Prêmio – a meia lua recortada com a silhueta de Vlado, uma criação do artista plástico Elifas Andreato|Alice Vergueiro/Acervo PVH
Daniel Camargos + Fernando Martinho + Diego Junqueira + Paula Bianchi + Bruna Damin + Débora de Maio + Beatriz Vitória + Carlos Juliano Barros | Repórter Brasil
Desde 2023, a premiação passou a ser organizada pelo Instituto Prêmio Vladimir Herzog, associação civil de direito privado, sem fins lucrativos ou político-partidários, fundada em novembro de 2022, em São Paulo.
A entidade reúne 18 instituições da sociedade civil, além da família Herzog: Associação Brasileira de Imprensa (ABI); Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI); Artigo 19; Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo; Conectas Direitos Humanos; Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP); Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ); Geledés; Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB Nacional); Instituto Vladimir Herzog, Instituto Socioambiental (ISA); Ordem dos Advogados do Brasil – Secção São Paulo; Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo; Coletivo Periferia em Movimento; Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo; Sociedade Brasileira dos Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), SBPJor – Assocação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo e União Brasileira de Escritores (UBE).
Desde a sua primeira edição, concedida em 1979, o prêmio celebra a vida e obra do jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado pela ditadura civil-militar no dia 25 de outubro de 1975 nas dependências do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo.
Serviço
47º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos
Roda de Conversa com os Ganhadores: 27 de outubro, segunda-feira, das 14h às 17h, no Tucarena (PUCSP) – Rua Bartira, 347 – Perdizes, SP
Solenidade de premiação: 27 de outubro, às 20h, no Tucarena (PUCSP) - Rua Bartira, 347 – Perdizes, SP.
No marco dos 50 anos do assassinato de Vlado, a Comissão Organizadora do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos instituiu, em caráter extraordinário, uma nova premiação para reconhecer produções focadas na Defesa da Democracia.
Com regulamento próprio e prazo diferenciado de inscrição, encerrado no último dia 23 de setembro, a categoria EXTRA contou com 120 produções inscritas. Conheça as finalistas:
- Allan de Abreu
Os kids pretos: O papel da elite de combate do Exército nas maquinações golpistas
- Henrique Picarell i+ Júlia Duailib + Rafael Norton + Diogo André + MJéssica Valença + Flávio Lôrdello +Lemonnier + Diego Rainho + Matheus Stone
8/1 – A democracia resiste
(GloboNews)
Os vencedores desta e das outras sete categorias tradicionais de premiação (Arte, Fotografia, Texto, Vídeo, Áudio, Multimídia e Livro-reportagem) serão conhecidos nesta terça-feira, 7 de outubro, das 14h às 18h, em sessão pública com transmissão ao vivo pelo canal do Prêmio no YouTube.
Desde a sua primeira edição, concedida em 1979, o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog presta homenagem a personalidades e profissionais da comunicação que se destacam na promoção dos direitos humanos fundamentais. Também celebra a vida e obra do jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado pela ditadura civil-militar no dia 25 de outubro de 1975 nas dependências do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo.
Em 2023, a premiação passou a ser organizada pelo Instituto Prêmio Vladimir Herzog, associação civil de direito privado, sem fins lucrativos ou político-partidários, fundada em novembro de 2022, em São Paulo. A entidade reúne 18 instituições da sociedade civil, além da família Herzog: Associação Brasileira de Imprensa (ABI); Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI); Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor); Artigo 19; Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo; Conectas Direitos Humanos; Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP); Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ); Geledés; Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB Nacional); Instituto Vladimir Herzog, Instituto Socioambiental (ISA); Ordem dos Advogados do Brasil – Secção São Paulo; Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo; Periferia em Movimento; Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo; Sociedade Brasileira dos Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e União Brasileira de Escritores (UBE). Um arco de alianças formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), Teatro da PUC, TV PUC, Pryzant Design, CDI e OBORÉ atua como parceiros realizadores.
O 47º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos tem o patrocínio da Petrobrás e do Governo Federal por meio da Lei de Incentivo à Cultura.
Sessão pública de julgamento e divulgação dos vencedores: 7 de outubro, terça-feira, das 14h às 18h. Transmissão ao vivo pelo Canal do Prêmio no YouTube
Roda de Conversa com os Ganhadores: 27 de outubro, segunda-feira, das 14h às 17h, no Tucarena (PUCSP) – Rua Bartira, 347 – Perdizes, SP
Solenidade de premiação: 27 de outubro, às 20h, no Tucarena (PUCSP) - Rua Bartira, 347 – Perdizes, SP.
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Professores recebem formação para ampliar acesso ao PNAE em escolas indígenas do Rio Negro
Implementação do Programa Nacional de Alimentação Escolar enfrenta grandes desafios logísticos e estruturais diante da extensão territorial, conectividade e acesso à informação
Cerca de 60 professores da rede municipal de São Gabriel da Cachoeira (AM), além de nutricionistas e gestores, participaram entre os dias 16 e 19 de setembro da Oficina de Multiplicadores do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e demais políticas públicas alimentares no Território Rio Negro. Realizada no Telecentro do Instituto Socioambiental (ISA), a atividade teve como objetivo formar os professores como facilitadores na elaboração de projetos para o PNAE em escolas indígenas de comunidades onde o programa ainda não atingiu.
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Cerca de 60 pessoas, entre professores, gestores e parceiros, participaram da Oficina de Multiplicadores do PNAE|Juny Venceslau Cardoso
O PNAE é uma das principais políticas públicas voltadas à segurança alimentar e nutricional de estudantes da rede pública. No Rio Negro, sua implementação enfrenta grandes desafios logísticos e estruturais diante da extensão territorial, conectividade e acesso a informação.
Somente em São Gabriel da Cachoeira, há 259 escolas da rede pública municipal, das quais 251 estão em comunidades indígenas, onde a gestão cotidiana é feita pelos próprios professores. Neste universo, o programa chegou a 53 comunidades em 2024 e, em 2025, ampliou seu alcance para 66, o que torna a oficina ainda mais relevante para fortalecer e ampliar a política na região, valorizando a cultura alimentar dos povos e gerando renda para as famílias.
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Mapa mostra onde estão localizadas as escolas indígenas municipais e a presença do PNAE na região|Renata Alves/ISA
“Por isso não convidamos os agricultores, e sim os professores. Porque é o professor quem recebe a merenda, que registra no relatório a entrega dos agricultores”, explica Andreia Damasceno, assessora técnica do ISA responsável pela atividade. Segundo ela, os convidados vieram justamente de comunidades distantes, nas calhas dos rios, onde a equipe de assessoria dificilmente chega com frequência, em uma estratégia para ampliar o acesso ao programa.
Considerando esse contexto, a programação combinou momentos de exposição e prática, onde os professores e gestores puderam, com apoio dos facilitadores, compreender as normativas, ler e preencher coletivamente as etapas do processo de venda ao PNAE, além de mapear os alimentos disponíveis em cada comunidade ao longo do ano.
O nutricionista Ricardo Colares, do Centro Colaborador em Alimentação e Nutrição Escolar (Cecane), ligado à Universidade Federal do Amazonas (Ufam), foi um dos parceiros e facilitadores da oficina. Ele explica que a efetivação do programa em territórios remotos, como o Rio Negro, representa um passo essencial no resgate da cultura alimentar indígena.
“Por muitos anos, as escolas receberam alimentos industrializados, que descaracterizaram os hábitos alimentares locais. Hoje, o PNAE permite valorizar e reintroduzir alimentos tradicionais, como galinha caipira, peixe, goma, farinha, beiju e pé de moleque, substituindo enlatados por uma alimentação mais saudável”, ressalta.
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Ricardo Colares, nutricionista do Centro Colaborador em Alimentação e Nutrição Escolar (CECANE/UFAM) também falou durante a oficia|Ana Letícia Pastore/ISA
No decorrer da programação, Ricardo explicou quais alimentos são permitidos no PNAE, conforme a Nota Técnica nº 03/2020 – 6ª CCR, esclareceu as diferenças entre Chamada Pública dos PCTs e Chamada Pública Geral do PNAE e apoiou o mapeamento da produção agrícola para fornecimento ao programa. Sua contribuição trouxe elementos técnicos que ajudaram a aproximar a política da realidade das comunidades locais.
“Depois de várias reuniões no Ministério Público Federal, com órgãos da Vigilância Sanitária, do MAPA [Ministério da Agricultura e Pecuária], da [Fundação Nacional dos Povos Indígenas] Funai e outros parceiros, foi elaborada a nota técnica que facilitou o acesso do agricultor. A partir dela, não é mais necessário que um alimento passe por inspeção e protocolo sanitário, pois se reconhece que os povos indígenas produzem e consomem seus alimentos de acordo com métodos tradicionais praticados há milhares de anos”, afirma.
Segundo Andréia, a dinâmica permitiu aproximar o planejamento da realidade da produção local e das especificidades culturais da alimentação indígena, uma vez que envolveu a participação de órgãos e técnicos responsáveis pela elaboração dos editais de chamamento no município, reforçando o diálogo entre as partes envolvidas e garantindo que os processos possam ser mais adequados à disponibilidade de alimentos em cada região.
Nesta perspectiva, a nutricionista Alexandra Maria Melgueiro Delia, responsável técnica pela alimentação escolar indígena em São Gabriel da Cachoeira, avalia que a oficina representa um avanço fundamental na execução da política.
“O município é de grande extensão territorial, com comunidades de difícil acesso, onde muitas vezes não conseguimos chegar. Trazer os professores para cá e capacitá-los para elaborarem os projetos junto com os agricultores é de grande relevância. A alimentação escolar só tende a ganhar, porque gera renda no município, valoriza a cultura e garante uma oferta de comida adequada, saudável e nutritiva para as nossas crianças”, destaca.
Professor em Vista Alegre, no médio Rio Içana, João Cláudio conta que, após a formação, vai poder orientar as famílias da sua região, que muitas vezes não conseguem acessar o programa devido à burocracia e à distância da cidade para organizar a documentação necessária.
O PNAE, relata o professor, ainda não chegou à escola da comunidade e os próprios pais, para complementar a merenda escolar, costumam fazer o “ajuri”, ou seja, se juntam para entregar frutos e outros produtos das roças e quintais de forma voluntária e gratuita. Para ele, a capacitação representa a possibilidade de planejar melhor a produção local, fortalecer a participação das famílias e fazer com que os alunos possam consumir alimentos regionais no lugar dos industrializados.
“Eu fiquei satisfeito, porque já vou poder ajudar os familiares lá, os pais dos alunos principalmente, para entender qual é a necessidade para nossas regiões, orientar e eles também poderem receber por isso”, avalia o professor.
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Professor e gestor da escola na comunidade de Maturacá, na TI Yanomami, João Vicente Vilela, ressalta a importância do PNAE|Vanessa Fernandes/ISA
O professor João Vicente Vilela, do povo Yanomami, é o responsável pela gestão da Escola Municipal Indígena Horoinã, na comunidade de Maturacá, na Terra Indígena Yanomami no Amazonas, e conta que o programa era conhecido pelo nome, mas sem detalhamento de como realmente funcionava.
A partir da oficina, ele conta que pôde compreender as normativas e o direcionamento do programa, o que lhe permitirá levar informações concretas para sua comunidade e incentivar os agricultores a apoiarem as escolas.
“O PNAE é importante para a gente, porque ele faz um complemento, ele valoriza as merendas regionais voltada para a nossa realidade, para não só se focar na merenda industrial”, completa.
A oficina é uma ação que integra o projeto de processos de estruturação, governança, conexão com o mercado e incidência política para a promoção das cadeias de valor de turismo de base comunitária e de produtos da sociobiodiversidade de comunidades indígenas no Rio Negro, realizado pelo ISA com apoio financeiro do BNDES e Fundo Amazônia.
A atividade contou com a parceria da Secretaria Municipal de Educação e Educação Escolar Indígena (Semedi) e do Cecane/Ufam, além do apoio da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (Idam), Secretaria Municipal do Interior, Produção e Abastecimento (Seminpa), Funai e ICMBio.
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Organizadores do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos anunciam finalistas da edição 2025
Vencedores serão premiados em sessão pública no dia 7 de outubro, com transmissão ao vivo pelo YouTube
Premiação acontece em 7 de outubro, em São Paulo|Divulgação
Neste ano, foram 469 produções inscritas nas categorias: Arte, Fotografia, Texto, Vídeo, Áudio, Multimídía e Livro-reportagem. No marco dos 50 anos do assassinato de Vlado, organizadores instituíram nova premiação - Categoria EXTRA - para reconhecer produções focadas na Defesa da Democracia, cujo prazo final de inscrição foi 23 de setembro, com etapa de avaliação única entre 29 de setembro e 7 de outubro.
Vencedores das sete categorias tradicionais de premiação e da Categoria EXTRA – Defesa da Democracia serão conhecidos em 7 de outubro, das 14h às 18h, em sessão pública com transmissão ao vivo pelo Canal do Prêmio no YouTube.
Desde a sua primeira edição, concedida em 1979, o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog presta homenagem a personalidades e profissionais da comunicação que se destacam na promoção dos direitos humanos fundamentais.
Também celebra a vida e obra do jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado pela ditadura civil-militar no dia 25 de outubro de 1975 nas dependências do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo.
Na histórica edição de 45 anos, em 2023, a premiação passou a ser organizada pelo Instituto Prêmio Vladimir Herzog, associação civil de direito privado, sem fins lucrativos ou político-partidários, fundada em novembro de 2022, em São Paulo.
A entidade reúne 18 instituições da sociedade civil, além da família Herzog: Associação Brasileira de Imprensa (ABI); Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI); Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor); Artigo 19; Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo; Conectas Direitos Humanos; Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP); Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ); Geledés; Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB Nacional); Instituto Vladimir Herzog, Instituto Socioambiental (ISA); Ordem dos Advogados do Brasil – Secção São Paulo; Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo; Periferia em Movimento; Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo; Sociedade Brasileira dos Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e União Brasileira de Escritores (UBE).
Um arco de alianças formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), Teatro da PUC, TV PUC, Pryzant Design, CDI e OBORÉ atua como parceiros realizadores.
O 47º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos tem o patrocínio da Petrobrás e do Governo Federal por meio da Lei de Incentivo à Cultura.
CONHEÇA OS FINALISTAS
Categoria ARTE
Diogo Braga “Racismo Ambiental: A outra emergência” Defensoria Pública do Estado do Ceará | Fortaleza/CE
Jorge Arbach “Filhos de Gaza” Instagram | Juiz de Fora/MG
Marina Duarte “Vozes (In)Visíveis: relatos de resistência LBT em Campo Grande (MS)” Editora Avuá | Campo Grande/MS
Categoria FOTOGRAFIA
Alexandre Cassiano “Sem Anistia” Jornal O Globo | Rio de Janeiro/RJ
Márcia Foletto “Antes Que Ela Veja” Jornal O Globo | Rio de Janeiro/RJ
Raphael Alves “Quando o coronavirus nãos se vai: as memória do Horror que Manaus viveu durante a pandemia” Agência EFE | Manaus/AM
Categoria PRODUÇÃO JORNALÍSTICA EM ÁUDIO
Igor Mello e equipe Juliana Dal Piva + Cristiano Botafogo + Camila Mercatelli + Paula Villar + Gabriela Varella + Elenilce Bottari +Eder Ribeiro + Fred Lopes + Stela Nesrine + Amon Medrado - Trilhas sonoras + João Brizzi “Projeto de Poder” – 4º episódio ICL Notícias | Rio de Janeiro/RJ
Thiago Domenici e equipe Mariama Correia + Clarissa Levy + Stela Diogo + Claudia Jardim + Luana Rocha + Pedro Pastoriz + João Ito + Marina Dias + Leticia Gouveia + Renata Cons + Bruno Penteado + Lorena Morgana + Ethieny Karen + Fernanda Diniz “Caso K - A história oculta do fundador da Casas Bahia” Agência Pública de Jornalismo Investigativo | São Paulo/SP
Vinicius Sassine e equipe Raphael Concli + Daniel Castro + Gustavo Simon + Magê Flores “Dois Mundos” – 1º episódio Folha de S. Paulo | Belém/PA
Categoria PRODUÇÃO JORNALÍSTICA EM MULTIMÍDIA
Anderson Araújo e equipe Emerson Da Costa Coelho Júnior “Memória, Verdade & Ditadura: as vítimas quase esquecidas de uma história que não acabou” DOL - Diário do Pará Online | Belém do Pará/PA
Artur Rodrigues e equipe Renan Porto + Fabio Leite + Rodrigo Freitas + Lilian Tahah + Otto Valle + Márcia Delgado + Olivia Meireles + Érica Montenegro + Juliana Garcês + Gui Primola + Lygia Lyra + Gabriel Lucas + Michael Melo + Italo Ridney + Caio Sales + Saulo Marques “A Política da Bala” Metrópoles | São Paulo/SP
Daniel Camargos e equipe Fernando Martinho + Diego Junqueira + Paula Bianchi + Bruna Damin + Débora de Maio + Beatriz Vitória + Carlos Juliano Barros “Ogronegócio: milícia e golpismo na Amazônia” Repórter Brasil | Belo Horizonte/MG
Categoria PRODUÇÃO JORNALÍSTICA EM VÍDEO
Ana Carolina Raimundi e equipe Emilio Mansur + Levi Luiz + Marcela Amodio + Marco Arantes “Cuidados Paliativos: vida até o último dia de vida” Fantástico – TV Globo | Rio de Janeiro/RJ
Ana Passos e equipe Vitor Gagliardo + Gabriel Penchel + Marcio de Andrade + Eric Gusmão + Caroline Ramos + Aleixo Leite + Wagner Maia + Maurício Azevedo Mães de luta TV Brasil – EBC | Rio de Janeiro/RJ
Iolanda Depizzol, Nina Fideles e equipe Vitor Shimomura + Camila Aguiar + Beatriz Drague Ramos + Gabriela Moncau + Gabriela Peres + Marco Antônio Vieira + Mãos Tagarelas + Isabela Gaia + Tatiana Solimeo + Cibele Lima + Carolina Apple + Monyse Ravena + Bruno Amorim + Igor Dutra + Jéssica Antunes “Território em Fluxo” Brasil de Fato | São Paulo/SP
Categoria PRODUÇÃO JORNALÍSTICA EM TEXTO
Angélica Santa Cruz “Sorriso: Uma Biografia ? Como uma mulher risonha e sem palavras virou um fato social total” revista piauí | São Paulo/SP
Isabel Harari e equipe Carlos Juliano Barros “Trabalho infantil na indústria tech” Repórter Brasil | São Paulo/SP
Renato Alves “A chacina de Angueretá” O Tempo | Brasília/DF
Categoria LIVRO-REPORTAGEM
Natalia Viana “O Vazamento - Memórias do ano em que o WikiLeaks mudou o mundo” Editora Fósforo | São Paulo/SP
Sérgio Ramalho “Decaído” Matrix Editora | Rio de Janeiro/RJ
Tayguara Ribeiro e Marina Lourenço “O grito dos Quilombos” Editora Todavia | São Paulo/SP
Contato de imprensa: CDI Comunicação Anaísa Silva – (11) 9 8299-1567 Renata Penna Franca – (11) 9 8228-2877 Roberta Scalabrini – (11) 9 4325-4039
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Demandas de amazônidas devem ser consideradas em novo PNL, apontam IEMA, GT Infra e ISA
Em conjunto com o Ministério dos Transportes, organizações da sociedade civil debateram diretrizes sociais e ambientais para a logística da Amazônia, em Brasília
Jacilene Pedroso Lopes vive às margens do rio Tapajós há décadas. Pescadora, mãe, conhece cada curva do rio como quem vive na própria casa. Mas, hoje, quando lança a rede, volta com ela quase vazia. “Falta peixe”, lamenta, olhando para as águas que sustentaram sua família por gerações. “O governo precisa saber: tem vidas nas reservas do Tapajós”, ressalta Lopes. A voz da pescadora, que faz parte da Federação das Organizações e Comunidades Tradicionais da Floresta Nacional do Tapajós, ecoou na sexta-feira (12) em Brasília, onde lideranças amazônidas se reuniram com o Ministério dos Transportes para uma missão urgente: garantir que o futuro da infraestrutura brasileira não destrua o presente de quem vive na floresta.
O 2º Workshop de Grupo Focal para o Plano Nacional de Logística (PNL 2050) foi promovido pelo Ministério dos Transportes (MT), Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), Grupo de Trabalho Infraestrutura e Justiça Socioambiental (GT Infra) e Instituto Socioambiental (ISA). O encontro teve como objetivo debater e aprimorar os critérios socioambientais apresentados na consulta pública “Indicadores Socioambientais e Climáticos para o Plano Nacional de Logística 2050”, e aberta para contribuição. Estes critérios foram desenvolvidos para consolidar a incorporação da análise de riscos e impactos socioambientais e climáticos ao planejamento de transportes de longo prazo.
O texto apresentado e disponibilizado pelo Ministério dos Transportes na consulta pública, resumidamente, aponta que os riscos para a infraestrutura incluem trechos expostos a inundações, deslizamentos e secas, afetando especialmente a malha rodoviária e hidroviária. Já os riscos decorrentes da infraestrutura abrangem impactos sobre terras indígenas, quilombolas e comunidades vulneráveis, além de conflitos sociais. Também se destacam danos ambientais, como supressão de vegetação, perda de patrimônio espeleológico e atropelamento de fauna em Unidades de Conservação. Por fim, há o agravamento das emissões de gases de efeito estufa, medidas por transporte, investimento e ciclo de vida da infraestrutura.
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2º Workshop de Grupo Focal para o Plano Nacional de Logística (PNL 2050) foi promovido pelo Ministério dos Transportes, IEMA, GT Infra e ISA|Isis Nóbile Diniz/IEMA
Aprimoramento dos indicadores socioambientais
De modo geral, os indicadores apresentados pelo governo focaram mais na infraestrutura. Por conta disso, durante o encontro, especialistas do terceiro setor, lideranças de organizações comunitárias amazônidas e pesquisadores propuseram que fossem considerados impactos mais amplos sobre territórios e meios de vida de populações locais associados a fatores como grilagem de terras públicas, crimes ambientais e falta de reconhecimento de direitos territoriais de comunidades tradicionais. Uma das principais questões levantadas foi a falta de indicadores sobre os riscos socioambientais de hidrovias que fazem parte de corredores logísticos do agronegócio e de indústrias de mineração. Houve preocupação com a dragagem de rios, especialmente referente aos peixes e espécies da fauna em geral, assim à agricultura de várzea e à navegação de pequenas embarcações.
Desse modo, houve troca de informações e dados que poderiam contribuir para um plano logístico de infraestrutura onde os critérios socioambientais possam ser mais efetivos e indicar caminhos mais seguros para a construção de corredores logísticos no território nacional.
Em relação aos critérios apresentados, os principais temas para melhoria nos indicadores, apontados pelos amazônidas, pesquisadores e especialistas do terceiro setor foram: análise de alternativas para os traçados dos transportes e de impactos cumulativos e indiretos das obras; dados detalhados sobre hidrovias, portos, cargas, passageiros, acidentes e conflitos territoriais; critérios socioambientais com governança territorial, bem-estar, aspectos socioculturais, ecossistemas e mudanças climáticas; necessidade de integração a outros planos setoriais e de medidas para salvaguardar terras públicas não destinadas; consulta Livre, Prévia e Informada com participação das comunidades afetadas; indicadores e análises menos fragmentadas de obras, com visão sistêmica dos projetos; urgência de institucionalizar o planejamento, vinculando-o ao orçamento público e consolidando critérios socioambientais em política de Estado.
Mariel Nakane, do Instituto Socioambiental (ISA), enaltece a importância da abertura do debate com as comunidades impactadas, a academia e a sociedade civil: “Os indicadores socioambientais do PNL 2050 podem refletir o acúmulo que a sociedade tem com as experiências negativas de projetos de transportes, e aproveitar a oportunidade de inaugurar um legado no planejamento setorial de transportes comprometido com não reproduzir os mesmos erros anteriores”.
Renata Utsunomiya, do GT Infraestrutura e Justiça Socioambiental, destacou a necessidade da inserção de dados sobre cargas, passageiros, riscos e acidentes, portos e conflitos territoriais e reforçou que a emissão de gases efeito estufa não pode ser critério único no modal. “É preciso considerar como diferentes ameaças interagem e afetam o território”, diz Utsunomiya.
Alinhar o planejamento de infraestruturas de transportes de forma integrada a outros planos setoriais, em especial o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), foi um dos principais pontos levantados por André Luís Ferreira, diretor-executivo do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA). Em relação ao planejamento, Ferreira apontou que é essencial elencar quais são as alternativas para resolver os problemas de infraestrutura existentes, os riscos sociais e ambientais de cada uma das alternativas, e como comparar essas alternativas e selecionar os projetos, considerando que existem indicadores de dimensões muito distintas como econômicos, sociais e ambientais.
Aliás, projeções da matriz origem-destino disponibilizadas pelo MT apontam que, até 2050, a produção de milho na região da Amazônia Legal deve triplicar, de 47 milhões para 133 milhões de toneladas. “Historicamente há uma pressão para essas mercadorias saírem pelo Arco Norte, passando por regiões do Madeira, do Tapajós-Xingu e do Tocantins-Araguaia. Mas há várias alternativas que devem ser avaliadas”, afirmou.
A falta de avaliação de alternativas e o subdimensionamento de impactos de obras foram reforçados por William Leles, do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ao apresentar projeções para a Ferrogrão (EF-170), ele demonstrou que, em vez de reduzir pressões, a obra tende a intensificar a movimentação de cargas na região, aumentando conflitos. “Se ela for construída, a movimentação no local aumenta, inclusive em rodovias. Isso vai trazer conflito de terras e mais impacto”.
Segundo o pesquisador, é preciso considerar que os efeitos de uma ferrovia não se limitam ao traçado da obra, mas se estendem do ponto de origem da mercadoria até o de embarque. “Não tem limite para impacto causado”, afirmou. Dados apresentados pelo pesquisador apontaram que a alternativa do Corredor Leste-Oeste (das ferrovias Fico-Fiol) pode gerar menos impacto ambiental e ainda contribuir para aliviar a sobrecarga logística em Mato Grosso.
Bruno Ab’Saber, representante do Ministério do Meio Ambiente, destacou a importância de considerar as terras públicas não destinadas no planejamento que, de acordo com dados estimados apresentados, somam 120 milhões de hectares, sendo 40 milhões federais e 80 milhões estaduais. “É difícil você ter um nível de fiscalização nessas áreas, isso faz com que elas sejam um ímã onde uma diversa gama de atores e fenômenos se dirigem, com diferentes impactos sobre os ecossistemas, sobre os povos indígenas, povos quilombolas e povos comunidades tradicionais que habitam nessas regiões”, afirmou.
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Iremar Ferreira, do Instituto Madeira Vivo, falou sobre os problemas relacionados aos impactos de obras na vida da população local e no meio ambiente|Isis Nóbile Diniz/IEMA
Participação de lideranças amazônidas
Um dos pontos centrais do encontro foi o espaço de participação de lideranças das regiões do Madeira, Tapajós e Tocantins, que reforçaram o histórico de desrespeito à Consulta Livre Prévia e Informada (CLPI), garantida pela Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). “É responsabilidade do Estado informar quais serão os ônus e bônus de qualquer empreendimento. A proposta do corredor logístico no rio Tapajós, até o momento não aconteceu a CLPI aos povos que estão às margens do rio”, salientou Lucas Tupinambá, vice-presidente do Conselho Indígena Tapajós-Arapiuns. “Muitas vezes, políticas construídas dentro de gabinetes podem estar destruindo vidas na Amazônia, nas margens de rios da Amazônia. É importante ouvir o nosso povo”, alerta.
Os moradores da região amazônica levaram problemas relacionados aos impactos de obras sem o devido planejamento na vida da população local e no meio ambiente. “Hoje, têm estudos demonstrando o aumento de acidentes no rio Madeira, inclusive de embarcações, e o desafio de fazer navegação”, disse Iremar Ferreira, do Instituto Madeira Vivo. A passagem da balsa e a movimentação de cargas danificam moradias fluviais, várzeas e barrancos, evidenciando a falta de segurança na hidrovia.
Cristiane Vieira da Cunha, Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, na região do Tocantins-Araguaia, reforçou que é necessária gestão integrada, governança interministerial e intersetorial, compromisso com sustentabilidade e análise cumulativa dos impactos para minimizar impactos. “A hidrovia Tocantins-Araguaia, no modo como está sendo planejada, só poderá ter uma viabilidade futura se outras infraestruturas forem construídas, como uma hidrelétrica. Isso causa impactos múltiplos, sistêmicos.” Projetos analisados de forma fragmentada perdem a visão integral dos problemas, desconsiderando conflitos, impactos sobre comunidades locais e riscos a espécies em extinção, como a Tartaruga-da-Amazônia e o Tracajá.
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Lucas Tupinambá, vice-presidente do Conselho Indígena Tapajós-Arapiuns, reforçou o histórico de desrespeito à Consulta Livre Prévia e Informada (CLPI)|Isis Nóbile Diniz/IEMA
Na Bacia do Tapajós, grandes projetos geram conflitos sociais e impactos ambientais, incluindo contaminação por agrotóxicos, prejuízos à pesca e à subsistência ribeirinha, agravados pelo transporte de barcaças e dragagem do rio.
Segundo Ferreira, o planejamento deve ir além do Plano Nacional de Logística para ser efetivo, abrangendo todas as etapas do Planejamento Integrado de Transportes (PIT) e planos setoriais, considerando riscos socioambientais. Ele concluiu afirmando que o processo de planejamento deve ser institucionalizado, transformado em lei, para o trabalho não ser descontinuado. “Atualmente, nada impede que o governo execute um projeto que não passou pelas etapas de planejamento. É preciso vincular os produtos resultantes do planejamento setorial ao orçamento público, consolidando esses avanços em uma verdadeira política de Estado.”
Representantes do terceiro setor, pesquisadores e lideranças amazônidas destacaram a satisfação com o espaço aberto para troca de informações e participação da sociedade, reforçando que essa interlocução é essencial para tornar o processo de planejamento de infraestrutura mais transparente, inclusivo e adequado às necessidades socioambientais dos territórios. O encontro ocorreu no âmbito do 6º Plano de Ação Nacional em Governo Aberto.
Em raros momentos da história, lideranças indígenas, ribeirinhos e quilombolas sentaram à mesa com o Ministério dos Transportes para falar sobre o futuro da infraestrutura brasileira, analisando os critérios socioambientais. E não como espectadores, mas como protagonistas da solução.
Também participaram da reunião representantes das organizações: Infra S.A., MapBiomas, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e lideranças de territórios da Amazônia, assim como representantes de órgãos públicos: Controladoria-Geral da União (CGU), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Infraestrutura Nacional de Dados Espaciais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (INDE/IBGE), Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), Ministério do Meio Ambiente (MMA), Ministério do Planejamento (MP), Ministério dos Povos Indígenas (MPI), Ministério de Portos e Aeroportos (MPA), Secretaria Especial do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Secretaria de Participação e Parceria Institucional da Casa Civil da Presidência da República (SEPPI/CC/PR), Subsecretaria de Sustentabilidade do Ministério de Transportes (SUST/MT) e Tribunal de Contas da União (TCU).
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Documento propõe indicadores ecológicos de monitoramento para o Plano Estadual de Recuperação da Vegetação Nativa do Pará
Monitorar a restauração com indicadores ecológicos é fundamental para assegurar que sejam gerados benefícios duradouros para a sociedade e a natureza
Ao centro, Edézio Miranda, técnico da Caminhos da Semente/Agroicone, em oficina de monitoramento em área restaurada por semeadura direta de muvuca|Andréa Ono/ISA
Assinado por Aliança pela Restauração na Amazônia, Redário, Caminhos da Semente, Projeto Regenera e Centro Capoeira, o documento propõe diretrizes para a construção de um protocolo estadual de monitoramento em campo, com indicadores e métricas capazes de avaliar o desempenho ecológico da restauração, independente da metodologia adotada, como etapa essencial para o alcance da meta estadual de restaurar 5,6 milhões de hectares até 2030.
Às vésperas da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 - COP30, prevista para ocorrer entre 10 e 21 de novembro na capital paraense, a Nota Técnica chama a atenção para compromisso assumido pelo Brasil de restaurar 12 milhões de hectares até 2030 e que essa meta está ancorada em leis e políticas públicas nas diferentes esferas de governo.
Baseado nas Recomendações para o Monitoramento da Restauração na Amazônia, publicação da Aliança pela Restauração na Amazônia de 2022, o documento, recebido pela diretora de Mudanças Climáticas e Serviços Ambientais, Indara Martins Aguilar Roumié, destaca a necessidade de o Pará estabelecer normas estaduais de monitoramento que integrem métodos de campo e sensoriamento remoto, garantindo a qualidade dos resultados.
“Tais medidas são fundamentais para assegurar governança, segurança técnico-jurídica e adesão social, além de criar condições favoráveis para atrair investimentos e garantir que a restauração gere benefícios duradouros para a sociedade e a natureza”, diz o documento.
“A Nota reforça as recomendações da Aliança de 2022, fruto de um processo rico e participativo que envolveu muitas organizações e pessoas especialistas, e nos coloca à disposição de auxiliar a Semas-PA nos próximos passos”, explica Danielle Celentano, técnica do Instituto Socioambiental (ISA) e uma das autoras da nota entregue à SEMAS/PA durante o workshop de Planejamento e Monitoramento da Recuperação Florestal do Pará (PRVN).
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