Sem respeitar direitos, passos técnicos, licenciamento ambiental e participação pública efetiva, especialmente dos povos negativamente impactados, a obra na região amazônica não pode seguir adiante
Mariel Nakane
- Assessora do ISA
Melillo Dinis do Nascimento
- Advogado do Instituto Kabu, da Associação Iakiô e da REPAM-Brasil
*Artigo originalmente publicado no Migalhas, no dia 17/03/2026
Em decisão recente, o Tribunal de Contas da União (TCU) manteve a suspensão do processo de concessão (desestatização 025.756/2020-6) da Ferrogrão. Em 12 de março, o ministro-substituto Marcos Bemquerer Costa acompanhou a unidade técnica do Tribunal ao determinar a paralisação: faltam elementos essenciais, de nível de procedimento e informacionais, para prosseguir com a análise da proposta de concessão. O TCU sinalizou que decisões irreversíveis não podem nascer da pressa nem da opacidade técnica.
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Terra Indígena Baú, uma das áreas protegidas ameaçada pelos possíveis impactos da construção da Ferrogrão|Alberto César Araújo/Amazônia Real
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e o Ministério de Transportes enviaram os estudos e a minuta do contrato de concessão ao controle externo em 19 de fevereiro deste ano. Os Estudos de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) foram atualizados em 2024. A unidade técnica do TCU, porém, concluiu que a proposta carece de maturidade e traz riscos institucionais, jurídicos, financeiros e socioambientais, razão pela qual se recomendou a manutenção do sobrestamento do processo, posição acolhida na última sexta-feira (13/03) pelo ministro substituto.
As alterações no EVTEA não foram meros ajustes cosméticos, elas refletem alterações substanciais no “núcleo essencial” do projeto, que redesenham a equação econômica do empreendimento e que, por essa razão, não poderiam deixar de ser submetidas à etapa de audiência pública, conforme a política de controle e participação social da ANTT.
Essa dimensão democrática não pode ser subestimada. A participação social realizada em 2017 apoiou-se em premissas que hoje se alteraram substancialmente. Diante do quadro, o TCU exigiu nova rodada de audiência pública com divulgação prévia dos estudos atualizados, porque a legitimidade de uma decisão pública depende da compreensão e do debate sobre opções técnicas, econômicas e ambientais. Audiências sem informações robustas são simulacros; decisões sem debate público são riscos.
Há ainda um problema de encaixe institucional com relação à viabilidade socioambiental do empreendimento. Projetos dessa magnitude, inteiramente na Amazônia Legal, implicam em riscos socioambientais, considerando-se, por exemplo, a presença de terras indígenas e unidades de conservação. A obtenção de Licença Prévia (LP) não é formalismo, mas imprescindível referência que reconhece a viabilidade (ou não) de um empreendimento dessa magnitude. E, em atestando a viabilidade, define condicionantes que se refletem não apenas em custos, como também em obrigações ao concessionário. Licitar sem LP é aceitar a transferência de incertezas para fases contratuais irreversíveis — caminho conhecido por gerar paralisações, pedidos de reequilíbrio e insegurança jurídica.
No plano financeiro, a modelagem atual revela fragilidades. A previsão de aporte público da ordem de R$ 3,5 bilhões, parcialmente via “investimento cruzado”, sem enquadramento jurídico claro, suscitou dúvidas sobre segurança fiscal e responsabilização por riscos futuros. Em termos de governança, essas projeções de aporte possivelmente insuficientes, bem como descasamentos temporais entre entradas e saídas de recursos e lacunas contratuais sobre a vinculação dos investimentos significam risco de contingência fiscal e de disputas contratuais que corroem o interesse público e a atratividade do projeto.
A determinação do TCU para manutenção do sobrestamento é, assim, medida de prudência administrativa: exigir Licença Prévia, realizar nova rodada de participação social, explicitar o enquadramento jurídico, detalhar o aporte público no edital e na minuta contratual, e demonstrar a suficiência e a compatibilidade temporal das fontes de recursos. São exigências técnicas e democráticas que funcionam como condição de salubridade política para a execução de um empreendimento que, se bem conduzido, traz ganhos sociais e econômicos; se mal conduzido, produz passivos duradouros.
Infraestrutura é promessa de futuro — mas promessa sem responsabilidade vira problema do futuro. A Amazônia brasileira já viu muitas ambições transformarem-se em tragédias socioambientais. A Ferrogrão é proposta de desenvolvimento. Contudo, se trilhos forem assentados sem respeitar direitos, passos técnicos, licenciamento ambiental e participação pública efetiva, especialmente dos povos negativamente impactados, o projeto não tem como seguir adiante. Qualquer obra na região amazônica deve se refletir em benefícios reais, sobretudo para as populações locais e tradicionais, não legado de incertezas. Estas são as exigências do TCU.
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Rede Xingu+ demanda proteção integral e permanente ao povo Parakanã, alvo de ataques consecutivos
Desde janeiro, Terra Indígena Apyterewa, no Pará, sofreu três ataques armados de invasores após desintrusão determinada pelo STF
A escalada da violência contra o povo Parakanã, na Terra Indígena Apyterewa, despertou um alerta nos demais povos e comunidades da bacia do Rio Xingu. É o que eles expressam às autoridades brasileiras, em ofício enviado na última terça-feira (10) por meio da Rede Xingu+ — uma aliança que reúne mais de 50 organizações indígenas, ribeirinhas e da sociedade civil.
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Em ofício às autoridades, o Conselho Político da Rede Xingu +, formado por mais de 50 organizações de povos indígenas, pede proteção integral|Lucas Landau/Rede Xingu+
“Nossa missão é a defesa do Corredor Xingu de Diversidade Socioambiental: uma área de 26,5 milhões de hectares, entre Amazônia e Cerrado, nos estados de Mato Grosso e Pará. Os povos do Xingu estão unidos. Nosso território é um só e a luta do povo Parakanã é a nossa luta”, diz o documento
O ofício foi direcionado aos Ministérios da Justiça e Segurança Pública (MJSP), dos Povos Indígenas (MPI), à Secretaria-Geral da Presidência da República (SG/PR) e à FUNAI (Fundação Nacional do Povos Indígenas) solicitando proteção integral e permanente ao povo Parakanã, na TI Apyterewa, que vem sofrendo ataques consecutivos nos últimos meses em São Félix do Xingu.
“Não é possível ignorar que a TI Apyterewa está em uma situação de grande vulnerabilidade, cercada de pessoas e grupos que não aceitam a desintrusão e querem a terra e os recursos que são dos Parakanã por direito”, afirma o Conselho Político no ofício.
A TI Apyterewa foi homologada em 2007 com 773.470 hectares. Mas, conforme aponta a manifestação da Rede Xingu+, a demarcação não significou segurança para o povo Parakanã, considerado de recente contato pela Funai.
“Crimes que assolam muitos dos nossos territórios no Corredor Xingu, deixaram a TI Apyterewa em uma situação crítica”, continua a declaração, remetendo-se ao histórico de grilagem de terras, extração ilegal de madeira e garimpo ilegal que pressionaram a TI por anos.
“Entre 2019 e 2022, o território ficou entre os mais desmatados do país”, lembra ainda a Rede. “A desintrusão aconteceu em 2023, depois das tentativas de 2013 e 2017, que foram sabotadas [...] Em 2024 os Parakanã receberam sua terra de volta, com a expulsão dos invasores. Mas ficaram também no meio de um campo de guerra, e com o passivo dos 100 mil hectares degradados”, declara.
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Mapa mostra área degradada na TI Apyterewa
O relatório Boi Pirata: a pecuária ilegal na Terra Indígena Apyterewa, do Ministério Público Federal (MPF), publicado em 2023, revelou que a terra foi convertida em um polo de pecuária ilegal com 86 fazendas localizadas ilegalmente no território e movimentando entre 2012 e 2022 um total de 48.837 bovinos, sendo que 47.265 foram destinados às fazendas que estão fora da terra indígena. Desses, 678 seguiram diretamente para o abate com movimentação de mais de R$130 milhões de reais em gado "lavado" para frigoríficos.
Além disso, em 2016 uma vila clandestina, a Renascer, foi consolidada dentro da TI, servindo de base para grileiros e garimpeiros. A vila foi demolida no início da desintrusão, em 2023. As invasões na Apyterewa ocasionaram a perda de 319 km de floresta, entre 2019 e 2022, segundo dados do Ibama e do ISA.
O processo de desintrusão na TI determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ocorreu entre outubro de 2023 e março de 2024, mas os ataques ao povo Parakanã têm sido constantes, de acordo com a Associação Indígena Tato’a, que representa os Parakanã.
Em dezembro de 2025, um colaborador contratado pelo Ibama para apoiar na retirada do gado foi morto numa emboscada. Em janeiro deste ano, um funcionário da Tato’ a foi alvo de atentado a tiros e, no início deste mês, dois indígenas Parakanã foram alvos de emboscada após comprar mantimentos no distrito de Taboca, em São Félix do Xingu.
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Por falhas na viabilidade socioambiental, TCU recomenda suspensão da concessão da Ferrogrão
Órgão indica que leilão ocorra somente após obtenção de Licença Prévia e pede audiência pública sobre os novos estudos, que refletem modificações no “núcleo essencial” do projeto de concessão anteriormente apresentado
O Tribunal de Contas da União recomendou, na última segunda-feira (23/02), a manutenção da suspensão do processo do projeto Ferrogrão até que a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e o Ministério dos Transportes promovam a realização de nova audiência pública e comprovação da participação social; obtenção da Licença Prévia como marco institucional do atesto de viabilidade ambiental do empreendimento; e justificativa da previsão de aportes públicos.
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O projeto Ferrogrão propõe a construção de uma ferrovia longitudinal a ser usada para exportação pela Bacia Amazônica|Alberto César Araújo/Amazônia Real
Os estudos foram juntados ao processo de concessão pelo Ministério de Transporte em 19 de fevereiro de 2026 e, segundo avaliação preliminar, há impedimentos para continuidade da análise do projeto por conta de lacunas na participação social, na definição das condicionantes socioambientais e na modelagem econômico-financeira do projeto.
De acordo com a Unidade de Auditoria Especializada em Infraestrutura Portuária e Ferroviária (AudPortoFerrovia), os estudos, atualizados em 2024, refletem modificações no “núcleo essencial” do projeto de concessão anteriormente apresentado ao órgão, em 2020, mas que não foram submetidos à participação social.
Entre as justificativas está presente que “[...] avançar sem nova audiência pública tende a enfraquecer a legitimidade democrática da decisão e a confiança nos mecanismos de governança do projeto. Em empreendimentos de grande escala e elevada sensibilidade socioambiental, a ausência de atualização do debate público desloca potenciais controvérsias para fases posteriores, nas quais os custos de ajuste são mais elevados e as alternativas decisórias mais restritas.”
A ausência da comprovação da viabilidade socioambiental do empreendimento, é, de acordo com a unidade técnica, fator crítico para o avanço com o leilão. Avaliando comparativamente os casos da UHE Belo Monte, do Linhão Manaus–Boa Vista, a UHE São Luiz do Tapajós e a duplicação da Estrada de Ferro Carajás, afirmou-se que “[...] o elemento discriminador entre cenários de execução administrável, atraso estrutural ou inviabilidade reconhecida não é a realização do leilão em si, mas o grau de consolidação prévia da viabilidade socioambiental.”
Complementarmente, o TCU menciona a relevância dos riscos associados aos impactos a povos indígenas, destacando-se o dever de Consulta Livre, Prévia e Informada:
“[...] A presença de terras indígenas na área de influência da ferrovia e a incidência da Convenção 169 da OIT introduzem obrigações procedimentais específicas, notadamente o dever de consulta prévia, livre e informada. Esse tema não se apresenta como risco hipotético, mas como eixo recorrente do debate público e institucional em torno da Ferrogrão, com manifestações no sentido de que a consulta deve ocorrer ainda na fase de planejamento. A recorrência dessas discussões revela que o componente indígena constitui fator autônomo de risco, com potencial de impactar diretamente o cronograma do empreendimento e de ensejar novos ciclos de judicialização caso não seja adequadamente equacionado.”
Avaliação de impactos cumulativos no componente indígena da Ferrogrão
Em 03 de fevereiro de 2026 a FUNAI encaminhou à INFRA S.A e ao Ministério de Transportes novo Termo de Referência para os Estudos do Componente Indígena da Ferrogrão, com a solicitação de avaliação de impactos cumulativos considerando como escopo geográfico as terras indígenas e aldeias indígenas sobre as quais há previsão de impactos de infraestruturas associadas à implantação e operação da Ferrogrão, como a hidrovia do Tapajós, as Estações de Transbordo de Carga (ETCs), a BR-163 e a rodovia estadual MT-322.
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Povos indígenas pedem saída do projeto de seus territórios no Acampamento Terra Livre (ATL)|Renan Khisêtjê/AIK/ISA
Rol de terras indígenas indicadas para avaliação de impactos cumulativos:
Praia do Mangue (Munduruku) Praia do Índio (Munduruku) (Reestudo) Sawré Ba’pim (Apompu) (Munduruku) Sawré Muybu (Munduruku e Registro de Povo Indígena Isolado nº 111 - Rio Jamanxim) Registro de Povo Indígena Isolado nº 40 (Riozinho do Anfrísio, localizado na Reserva Extrativista - RESEX Riozinho do Anfrísio) Baú (Mebêngôkre Kayapó e Registro de Povo Indígena Isolado nº 42 - Iriri Novo) Panará (Panará) Menkragnoti (Mebêngôkre Kayapó, Registros de Povo Indígena Isolado nºs. 42 - Iriri Novo e 118 - Capot Nhinore) Munduruku-Taquara (Munduruku) Bragança-Marituba (Munduruku) (Aldeias Escrivão - Em estudo, Camarão, Pinhel, Tupinambá do Baixo Tapajós-Identificação, Jaca, Paranapixuna, Santo Amaro,Mirixituba, Muratuba, Piracatuba, São Pedro, São Francisco, Brinco das Moças, Limão Tuba, Pajurá, Castanhal, Enseada doAmorim, São Caetano, Amassurara, Mapiazinho, Suruacá, Araçazal, Vista Alegre, Solimões, Arapium-Identificação, Vila Franca,Kumaruara-Identificação, Borari de Alter do Chão - Em estudo) Terena Gleba Iriri e Aldeia Kopenoty (Terena) Parque do Xingu (Wauja, Trumái, Yawalapití, Mehináku, Aweti, Yudjá, Kisêdjê, Ikpeng, Matipú, Kuikuro, Nahukuá, Tapayuna,Kaiabi, Kamayrurá, Kalapalo e Registros de Povo Indígena Isolado nºs. 119 - Alto Xingu/Curisevo e 120 - Alto Xingu/Arraias) Capoto/Jarina (Mebêngôkre Kayapó, Tapayuna)
Viabilidade econômico-financeira
A unidade técnica também se manifestou pela necessidade de esclarecimentos com relação à modelagem econômico-financeira da concessão, haja vista a previsão de de aporte público total de aproximadamente R$ 3,5 bilhões, a ser desembolsado entre os anos de 2028 e 2030, distribuído, respectivamente, nos valores de R$ 329 milhões, R$ 1,40 bilhão e R$ 1,65 bilhão.
A análise indicou pendências com relação à possível origem do aporte de recursos públicos a partir dos recursos de investimentos cruzados previstos nos processos de concessões da Rumo Malha Paulista, Malha Regional Sudeste S.A. (MRS) e da Vale S.A., relativamente à Estrada de Ferro Vitória a Minas, que totalizam aproximadamente R$ 2,25 bilhões.
“Em especial, a modelagem incorpora aporte público relevante (aproximadamente R$ 3,5 bilhões) sem adequada explicitação do enquadramento jurídico e sem disciplina contratual suficientemente detalhada, ao mesmo tempo em que o arranjo de investimento cruzado apresenta indícios de insuficiência de recursos e potencial descasamento temporal entre fluxos financeiros, projetando incertezas quanto à suficiência, à previsibilidade e à compatibilidade dos recursos, bem como quanto aos impactos fiscais associados, o que impede, no estado atual, a adequada avaliação da modelagem e de seus riscos por esta Unidade Técnica”
A decisão sobre a manutenção do sobrestamento do processo de concessão da Ferrogrão será dada pelo ministro relator. O ministro Aroldo Cedraz, relator do processo desde 2020, aposenta-se na data de hoje, dia 26 de fevereiro de 2026.
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GT Infra denuncia edital de R$ 74 milhões para dragagem no Tapajós sem licenciamento ambiental e consulta a comunidades
Nota técnica do Grupo de Trabalho Infraestrutura e Justiça Socioambiental aponta violação de direitos socioambientais e atropelo do licenciamento em projeto do DNIT
Vista aérea do Porto da Cargill na orla de Santarém (PA) | Alberto César Araújo/Amazônia Real
O Grupo de Trabalho Infraestrutura e Justiça Socioambiental (GT Infra) divulgou nesta quinta-feira (5/2) uma nota técnica que critica o edital de dragagem no Rio Tapajós publicado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Com valor estimado em R$ 74 milhões, o projeto avança sem licenciamento ambiental, sem estudos de impacto e sem consulta às comunidades tradicionais — violando direitos garantidos pela Convenção 169 da OIT. O edital é um dos motivos da ocupação da sede da Cargill em Santarém (PA), que completa duas semanas.
O documento destaca que o edital, voltado à abertura de um canal de navegação entre Santarém e Itaituba para escoamento de commodities, foi lançado antes mesmo da conclusão do licenciamento ambiental — etapa fundamental para identificar impactos e definir medidas de mitigação. Também faltam o Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental (EVTEA) e o Estudo de Impacto Ambiental (EIA-RIMA).
“Uma crítica central é o plano de dragagem já estar em licitação antes do licenciamento ambiental. É no licenciamento que se identificam impactos e se definem condicionantes. Sem isso, e com a licitação já definindo custos, esses impactos deixam de ser internalizados”, afirma Renata Utsunomiya, analista de políticas públicas de transporte do GT Infra.
A nota técnica alerta para danos irreversíveis em áreas sensíveis do ecossistema, incluindo territórios sagrados do povo Munduruku; o Tabuleiro de Monte Cristo, principal berçário da tartaruga-da-amazônia (espécie ameaçada); e modos de vida de comunidades ribeirinhas e indígenas. A dragagem pode afetar a reprodução física e cultural dessas populações, além de pressionar ecossistemas já fragilizados na Amazônia.
O GT Infra aponta ainda uma incoerência grave: enquanto o Plano Nacional de Logística 2050 (PNL 2050) ainda está em fase de construção — para definir corredores e prioridades no transporte nacional —, o DNIT avança com a dragagem de forma apressada. “Esse edital atropela as etapas da política pública. Enquanto o PNL 2050 está sendo formulado, a dragagem avança sem esse debate concluído”, reforça Utsunomiya.
Além disso, a nota técnica chama atenção para o Decreto nº 12.600/2025, que incluiu três mil quilômetros dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização, abrindo caminho para a concessão desses empreendimentos públicos à iniciativa privada. Para o GT Infra, avançar nesse processo sem estudos ambientais concluídos, transparência e consulta livre, prévia e informada aos povos e comunidades potencialmente afetados aprofunda conflitos socioambientais e viola direitos.
RECOMENDAÇÕES DO GT INFRA:
- Suspensão imediata do edital; - Conclusão do licenciamento ambiental com todos os estudos necessários; - Realização da consulta livre, prévia e informada às comunidades afetadas; - Alinhamento com o PNL 2050 e com o Plano Hidroviário Nacional; - Transparência total sobre impactos e alternativas.
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A restauração da saúde do corpo e dos ecossistemas
Restaurar não é necessariamente retornar a um estado idealizado do passado. É criar condições para que estrutura, diversidade e função se reorganizem de maneira possível
*Artigo publicado originalmente em (o)eco, no dia 29 de janeiro de 2026.
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'Entre o metal e a natureza: reflexões sobre cura e restauração’ | Arte digital: Danielle Celentano + IA (ChatGPT/OpenAI), 2026.
Este texto nasce do cruzamento entre experiência profissional e vivência pessoal, onde corpo e paisagem deixam de ser metáforas distantes e passam a dialogar como territórios vivos. Entre ciência, técnica e cuidado, proponho um olhar que reconhece a restauração – humana e ecológica – como um processo de recomposição, no qual mesmo estruturas atravessadas por rupturas podem sustentar toda a potência da vida
Corpo e paisagem: uma mesma trama de vida Existe uma analogia profunda – e cada vez mais reconhecida – entre a saúde humana e a saúde dos ecossistemas. De modo semelhante, há paralelos claros entre os processos de restauração ecológica de áreas degradadas e os caminhos de reestabelecimento da saúde dos corpos adoecidos. Essa relação não é nova: atravessa saberes tradicionais, a ciência contemporânea e o conceito de Saúde Única, que reconhece a interdependência entre pessoas, ambientes e outros seres vivos – em consonância com a própria teoria da evolução. Escrevo sobre ela agora a partir de um lugar específico: o de um processo pessoal de cura que estou vivenciando.
Quando a degradação se instala Ao longo de mais de duas décadas trabalhando com conservação e restauração de florestas na Amazônia, aprendi que conservar deve ser sempre a prioridade: a restauração não pode ser tratada como panaceia e, em muitos casos, simplesmente não é possível. Da mesma forma, o cuidado com a saúde do corpo deveria ser prioritário – “melhor prevenir do que remediar” –, mas, por uma série de fatores intrínsecos e extrínsecos ao ser, isso nem sempre acontece. Talvez porque toda degradação – do corpo, da sociedade ou da natureza – seja o reflexo de uma ruptura mais profunda: o afastamento das relações que dão sentido, cuidado e pertencimento à Vida, perpassando a saúde física, mental e espiritual.
Quando a degradação já se instalou, a recuperação de um ecossistema depende de um bom diagnóstico, planejamento, cuidado contínuo e tempo. O mesmo vale para o corpo humano. Antes de qualquer intervenção, é fundamental compreender as causas do adoecimento – identificar fatores de risco, limites estruturais e perdas funcionais. Na restauração, chamamos isso de diagnóstico ambiental; na saúde, de exame clínico. Em ambos os casos, não há atalhos, embora hoje existam tecnologias cada vez mais sofisticadas para apoiar esses processos.
O planejamento vem em seguida. Ele envolve definir estratégias, escolher métodos e reconhecer o que pode ser regenerado de forma natural – a partir da retirada de pressões – e o que exige ações ativas. Na ecologia, isso inclui desde a exclusão de fatores degradantes até o plantio de sementes e mudas; em situações mais severas, pode ser necessário realizar previamente a reabilitação física, com obras de infraestrutura, a reabilitação química, por meio da biorremediação, ou a reabilitação biológica com a exclusão de espécies invasoras.
No corpo humano, esse processo envolve mudanças de hábitos, tratamentos medicamentosos, cirurgias, transplantes, colocação de próteses, reabilitação física, quimioterapias, entre outros. Por mais desejável que seja, não se pode romantizar a regeneração espontânea: há situações em que a intervenção é condição necessária para que a vida volte a circular. Assim como na restauração ecológica, o cuidado com a saúde também exige monitoramento e atividades periódicas de manutenção, para que o sucesso seja sustentado no longo prazo.
Ninguém restaura sozinho Restaurar, seja um território ou um corpo, não é necessariamente retornar a um estado idealizado do passado. É criar condições para que estrutura, diversidade e função se reorganizem de maneira possível, resiliente e viva. Há perdas irreversíveis – espécies extintas, articulações perdidas –, mas isso não significa ausência de futuro. Significa outro arranjo, outro equilíbrio, outra paisagem.
Também aprendi que ninguém restaura sozinho. Florestas dependem de redes invisíveis e colaborativas: microrganismos, formigas, aves, polinizadores, dispersores de sementes e, também, de pessoas – como coletores de sementes, plantadores e tantas outras. Da mesma forma, processos de cura humana se apoiam em médicos, fisioterapeutas, enfermeiras, terapeutas, familiares, amigos e instituições. Cada qual cumpre uma função específica, complementar e insubstituível.
A diversidade de atores é, novamente, condição para o sucesso. Mas ela não basta: o acesso aos recursos, aos cuidados e às tecnologias que tornam esses processos possíveis ainda está longe de ser universal. Garantir o direito humano à saúde – inclusive por meio de garantias trabalhistas – e os direitos da própria natureza, hoje assegurados em poucos países, é parte inseparável de qualquer processo sério de cuidado, cura e restauração.
Nesse caminho pessoal que estou vivendo em busca da minha própria saúde, tenho sido sustentada por uma rede de cuidados que inclui profissionais da saúde, o afeto da família, de amigas, amigos e colegas, além do apoio institucional da organização onde trabalho. Em muitas dessas pessoas reconheço o mesmo brilho nos olhos dos bons restauradores: gente que trabalha com técnica, mas também com sentido e amor.
Há uma diferença sutil, porém fundamental, entre atuar apenas pela troca financeira e atuar pelo compromisso genuíno com a vida. Na restauração e na medicina, isso faz toda a diferença.
Cura como caminho vivo Há ainda uma dimensão frequentemente negligenciada nesses debates: o tempo profundo. Ecossistemas se formam ao longo de anos, décadas e eras. Corpos também carregam códigos genéticos, memórias longas, ancestrais e espirituais. A restauração e a cura nem sempre são lineares ou totalmente mensuráveis. Há lutos – por funções perdidas, por versões anteriores de nós mesmos e pela morte – e há aceitação. Reconhecer isso não fragiliza nem a ciência nem o indivíduo; ao contrário, traz mais humanidade aos processos.
Cada pessoa vive o luto de uma forma diferente, assim como áreas que parecem impossíveis de se recuperar podem precisar de séculos ou milênios para voltar a expressar a vida. Para mim, a vida que se foi também retorna – tanto no aspecto físico, inscrito no ciclo da decomposição da matéria orgânica, quanto no aspecto metafísico, que perpassa a espiritualidade.
Por isso, acredito que nosso futuro comum exige uma mudança profunda de paradigmas. Existem diversos caminhos possíveis para essas transformações, entre eles a proposta de Saúde Integral, preconizada pelo meu amigo e médico Frei Klaus Th. Finkam, que defende que o bem-estar humano é resultado da integração entre saúde física, mental, social, emocional e espiritual. Nesse mesmo horizonte, junto com meu companheiro, o cientista Guillaume Xavier Rousseau, chamamos de Restauração Ecológica Integral, o processo social que busca integrar o bem-estar humano, a saúde dos ecossistemas e a espiritualidade, independentemente de religião.
Assim como na restauração ecológica, nem toda regeneração acontece sem intervenção. Há paisagens – e corpos – que precisam de suporte técnico para que possam, então, seguir seus próprios caminhos de reorganização. Restaurar a saúde – humana ou ecológica – é, em última instância, um ato de cuidado contínuo, que reconhece limites, valoriza redes, aceita pausas e aposta na força da vida, mesmo quando ela precisa de ajuda para seguir. É confiar que a vida, mesmo ferida, carrega em si a potência de voltar a florescer.
É nesse horizonte que sigo: cuidando do meu corpo e da Terra, confiando que ambos podem se restaurar quando encontram tempo, condições e cuidado. A cura – pessoal e planetária – é um caminho vivo, tecido com presença, compromisso e esperança.
Essa reflexão ganhou forma visual em uma obra construída a partir de uma radiografia pessoal das minhas próteses bilaterais de quadril, sobrepostas a elementos da natureza. Nela, folhagens densas, cipós e flores entrelaçam-se ao metal. O quadril, eixo do movimento e da sustentação do corpo, aparece como território de transição entre o artificial e o vivo. A prótese, muitas vezes associada à limitação, é ressignificada como infraestrutura de cuidado – suporte fértil para que a vida volte a brotar. Aqui, o metal não nega a vida – ele a sustenta.
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Povo Xavante busca ampliar alimentação tradicional nas escolas
Encontro na UFMT reuniu professores e lideranças indígenas, órgãos públicos e sociedade civil para debater ampliação do acesso a políticas públicas
O Danhõ´re - dança e canto tradicional do povo Xavante - deu início ao 3º Encontro Amnhô Tebré - Segurança e Soberania Alimentar do Território Xavante, na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), em Pontal do Araguaia. Assim como o ritual busca o fortalecimento da cultura por meio da passagem de conhecimento e formação dos guerreiros, o encontro também promoveu no repasse de informações uma forma de assegurar direitos ao povo Xavante por meio da alimentação tradicional.
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Frutos do buriti coletados por mulheres Xavante. Eles chegam às escolas promovendo segurança alimentar, saúde e proteção do meio ambiente|Adryan Araújo Nascimento/ISA
Durante dois dias - entre 2 e 3 de dezembro de 2025 - foram realizadas conversas sobre o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e acesso ao mercado institucional de compras públicas.
A Secretaria Executiva da Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos no Mato Grosso (Catrapovos-MT), representada pelo Instituto Socioambiental (ISA) e Instituto Centro de Vida (ICV), apresentou o PNAE e fez o relato das experiências de escolas indígenas no estado que têm cardápios tradicionais e compram alimentos de produtores indígenas. Também foi feito o repasse sobre o passo a passo das chamadas públicas específicas (processo que possibilita a aquisição de produtos das aldeias).
“A ideia do evento foi também colocar diferentes atores em diálogos para pensar estratégias de melhoria da segurança alimentar do povo Xavante, que se reflete também na venda de produtos para suas escolas, onde as crianças podem ter acesso a preparos tradicionais”, explica a antropóloga Luísa Tui, do ISA.
Estiveram presentes professores, diretores escolares, produtores e lideranças Xavante das TIs Marechal Rondon, Parabubure, Ubawawe, Chão Preto, São Marcos e Sangradouro.
Os relatos indicam a importância e a riqueza da alimentação tradicional dos Xavante e, em paralelo, os desafios que surgem com a presença contínua de produtos ultraprocessados nas aldeias, como a desnutrição e a diabetes.
As mudanças climáticas e pressões no entorno das TIs foram apontadas como fatores que dificultam a produção de alimentos e impõem a necessidade de adaptação, experimentação e incorporação de técnicas aos modos tradicionais de produção. “Antes, meus pais plantadores não precisavam pedir nada, hoje é diferente, hoje precisamos de insumos, de ajuda”, relata o cacique Raimundo, da Aldeia São Brás.
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Alimentos do povo Xerente vendidos para suas escolas|Marcos Simawê Xerente/Chefe da UTL FUNAI Tocantínia
A experiência das escolas dos Xerente, no Tocantins, com a realização de chamadas públicas específicas, foi compartilhada durante o encontro e inspirou os próximos passos dos Xavante. Selma Xerente conta como participou da mobilização dos seus parentes para produção e venda para as escolas do território.
“No começo, as mulheres ficaram com medo de vender produto da roça para a escola, achavam que iam perder o Bolsa Família. Fomos [junto com a Funai] conversando com elas, eu mesma fiz venda para a escola. Quando comecei, as outras começaram a ver e também quiseram participar”, relata.
“Estamos ficando doentes de comida”, completa Selma, explicando que a comida na escola pode ser igual à tradicional consumida pelos pais, avós e mais antigos, garantindo cultura e saúde para os estudantes. Ela e outros produtores Xerente entregam para suas escolas produtos como buriti, bacaba, caju, polvilho, banana e melancia.
Duas iniciativas que já estão em execução no território Xavante também foram tema de debates. Um deles é o projeto desenvolvido em parceria com a UFMT e Funai, com recursos do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), buscando o fortalecimento da produção de alimentos em 35 aldeias, por meio de assessoria técnica e distribuição de materiais e insumos. Outra é a experiência da Escola Estadual Luiz Rudzane êdi Orebewe, localizada na aldeia Ro'odzaredza ódze (TI Parabubure), que já realiza compra de produtos tradicionais.
No primeiro dia, foram repassadas informações sobre o PNAE, a Catrapovos e a Nota Técnica 03/2020 (que permite a compra de produtos locais e tradicionais por escolas indígenas e de comunidades locais). No segundo dia, os grupos de trabalho, liderados pela Catrapovos-MT, puderam ter conversas mais detalhadas sobre as chamadas públicas específicas e traçar articulações e estratégias para a efetivação delas nas escolas Xavante.
O encontro foi realizado pela Funai (CR-Xavante) e pela Catrapovos-MT. Além de representantes de ambas as instituições, estiveram presentes CR- Tocantins Araguaia, professores do Campus Universitário Araguaia - Universidade Federal de Mato Grosso; Distrito Sanitário Especial Indígena - Dsei Xavante; Companhia Nacional de Abastecimento - Conab; Diretoria Regional de Educação de Barra do Garças - Secretaria Estadual de Educação. Também compareceram profissionais da Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer), Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (Seaf) e Secretaria de Educação dos municípios de Barra do Garças, General Carneiro e Campinápolis, onde ficam localizadas as 6 Terras Indígenas (TIs) Xavante envolvidas no evento.
O PNAE vem se mostrando uma política pública para a segurança alimentar, mas que também fortalece a cultura e protege o meio ambiente. Com a entrega de alimentos tradicionais nas escolas, há o fortalecimento da cultura por meio do incentivo às roças tradicionais e por meio da comida ancestral consumida por alunos. E também promove o sistema agrícola desse povo, que produz alimentos e protege o Cerrado ao mesmo tempo, sendo essencial para a regulação climática.
Mas, para isso acontecer, é necessário o ajuste de políticas públicas à realidade dos territórios, o que vem sendo promovido pela Catrapovos, uma iniciativa do Ministério Público Federal (MPF) em parceria com a sociedade civil organizada e órgãos públicos.
Um exemplo que vem de Mato Grosso é uma norma específica do estado que facilita a emissão de notas fiscais para produtores indígenas e quilombolas e foi articulada pela Catrapovos-MT. A alteração da norma foi publicada em setembro deste ano e cria um capítulo específico que regulamenta a Inscrição Estadual por esses povos, condição para obtenção da nota fiscal, garantindo a isenção dos impostos aos produtores familiares nas vendas públicas. Com isso, foi corrigida uma lacuna que dificultava a participação desses povos em programas desse tipo.
Consea
O encontro para o fortalecimento do povo Xavante por meio da alimentação tradicional é especialmente importante pois, neste ano, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) veio a público demonstrar consternação e indignação pela morte de 11 indígenas desse povo, da Terra Indígena Marãiwatsédé (MT), conforme consta da Recomendação conjunta nº01/2025 da Defensoria Pública da União (DPU) e Ministério Público Federal (MPF) de 23/06/2025. “O falecimento de crianças por desnutrição é inaceitável, tendo em vista que tais mortes são decorrentes de causas evitáveis”, diz o documento do Consea.
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Yakuwipu Waurá: da cerâmica à memória viva da luta das mulheres do Xingu
#ElasQueLutam! apresenta o reencontro da liderança waurá com sua trajetória e com a missão de dar visibilidade à força e à resistência das mulheres de seu povo
Luzes brancas iluminam cerâmicas recém-moldadas dispostas em um grande papelão estendido por quase toda a extensão do chão de uma sala no Sesc Consolação, no centro da capital paulista.
Sentada em uma cadeira escolar, de frente para outra jovem, Yakuwipu Waurá explica meticulosamente a técnica que utiliza para moldar o barro e evitar que as peças se rachem. Fala também sobre os materiais que usa para dar liga, em especial o cauxi, espécie de coral que é encontrado nos rios e que, diante dos impactos das mudanças climáticas, está cada vez mais escasso e tornando incerta a produção das cerâmicas.
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Em sua terra natal, na aldeia Piulewene, no TIX, Yakuwipu desempenha uma série de funções e e também segue na luta pela proteção territorial|Claudio Tavares/ISA
“Eu rodei o Xingu inteiro e eu percebi que em volta do Xingu o desmatamento aumentou bastante”, conta Yakuwipu Waurá. “O rio que a gente nadava o fundo é preto, agora tá começando a ficar barrento. [...] O cauxi não tá mais reproduzindo, é difícil reproduzir”.
A aluna anota atentamente todos os detalhes em um caderno. A oficina, no Sesc Consolação, fez parte de uma agenda repleta de encontros, rodas de conversas e oficinas que tinha como objetivo compartilhar o conhecimento ceramista dos Waurá em museus e centros culturais de São Paulo e também de alertar para os impactos das mudanças climáticas no Território Indígena do Xingu. Saiba mais.
Na sala, também estão presentes suas parentas e companheiras de viagem: sua mãe, Pere Yalaki Waurá; Kuheju Waurá; Kutalo Waurá; Yakuwipu Waurá; e Kayana Pisulu Waurá. Além delas, dois meninos correm por todo o curto perímetro da sala, Ukuhan Waurá, filho de Yakuwipu, e Tawapy Waurá.
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Yakuwipu Waurá, ceramista e liderança Waurá, durante oficina no SESC Consolação, em setembro de 2025|Claudio Tavares/ISA
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Yakuwipu, Pere Yalaki, Kutalo, Kayana Pisulu e Kuheju durante oficina de cerâmica no SESC Consolação|Claudio Tavares/ISA
Em sua terra natal, na aldeia Piulewene, no TIX, Yakuwipu desempenha uma série de funções: é técnica de desenvolvimento infantil em sala de aula, presidente da Associação Sapukuyawa Arakuni, estudante de ciências humanas e sociais/licenciatura intercultural indígena da UFR, integra o Movimento Mulheres do Território Indígena do Xingu (MMTIX) e também segue na luta pela proteção territorial.
É com um sorriso constante no rosto que Yakuwipu conta que sua luta transcende essa viagem para São Paulo - a luta tem raízes familiares. Ainda assim, foi nessa cidade que é lar de parentes de 194 etnias, segundo o Censo 2022 do IBGE, que ela encontrou algumas das respostas que tanto buscava em sua vida.
“Começa com o movimento da luta de resistência dos povos indígenas. Na época, para garantir a Constituição”, inicia Yakuwipu sobre a missão e fardo que herdou ao nascer.
Seu avô era uma liderança do povo Waujá e fez parte do movimento que lutou nos anos 1970 pela inclusão do Capítulo VIII, conhecido como Capítulo dos Povos Indígenas, na Constituição. “Ele precisava mais homem nascer como neto para poder levar esse a luta dele na proteção territorial, lutar pela terra demarcada para poder garantir para o futuro”, ela explica.
Na época, ela conta, outros povos estavam sendo massacrados pelos não indígenas e seu avô temia muito pelo futuro de seu povo. Por isso, pedia por um neto homem para ajudar a enfrentar esse inimigo. “Meu pai não queria que eu viesse ao mundo”, lamenta.
Foi uma parteira quem garantiu que a bebê recém nascida tivesse um futuro. Esse porvir, no entanto, vinha com a promessa de um casamento com o neto mais novo dela, que ao final não se cumpriu. “Por isso que eu sempre falo que nasci casada”, brinca.
Yakuwipu diz que cresceu ouvindo essa história. Cada parte dela. Mas enfatiza que, ao fim, foi criada por seu pai, que se arrependeu de sua atitude inicial. “Todo dia de manhã eu acordava, ele já estava preparando tudo. Abóbora e batata assada, banana assada, me acordava, oferecia”, relembra. “Não me faltou nada, o amor, o carinho, eles deram”, completa.
Sua mãe vivia na aldeia grande, junto às suas irmãs, enquanto Yakuwipu ficou em uma aldeia menor, no Médio Xingu, com seu pai. Por isso, aprendeu um pouco do conhecimento dos homens também. Ela aprendeu a fazer a roça, a preparar a terra, a pescar. “Tudo que os homens faz, ou quase, eu faço”.
Assim como seu avô, a luta pela proteção territorial chegou cedo em sua vida, mas foi sua mãe, também uma mulher indígena em movimento, quem a chamou atenção para aprender o português e somar esforços na luta de seu povo.
Ela conta que o território em que vive sofre com diversos tipos de invasão, madeireira, de pescadores e foi por esse motivo que ela se aproximou dos movimentos do Xingu, da Associação Terra Indígena Xingu (ATIX), e dos parceiros, para poder levar e denunciar o que está acontecendo.
“Minha mãe sempre nos lembra e fala a fala do nosso nosso avô, que é para a gente saber se defender do nosso inimigo, que a gente tem que saber falar na língua, aprender falar, aprender a estratégia, a técnica, o conhecimento do não indígena. Assim a gente sabe viver em dois mundos”.
Por essa razão Yakuwipu começou a estudar, mas apenas aos 18 anos, quando enfim uma escola foi construída em sua aldeia. Cursou até o 5º ano do Ensino Fundamental e terminou o Ensino Fundamental e Médio fora. Atualmente, ela é técnica de desenvolvimento infantil na escola de sua comunidade e está cursando Licenciatura Intercultural na Universidade Federal de Rondonópolis (UFR).
Ela conta que quando aprendeu o português, foi instruída a voltar para a aldeia e multiplicar o que aprendeu. De modo que ela se tornou técnica de desenvolvimento infantil, e para se aprimorar cada vez mais, decidiu cursar a universidade.
Foi com o conhecimento que buscou fora do território e com o incentivo de sua mãe que ela passou a atuar também no movimento de mulheres do Território Indígena do Xingu, o MMTIX, acompanhando as reuniões, ajudando a população xinguana e levando a voz das mulheres. Confira esse e outros movimentos de mulheres indígenas no Mapa Interativo das Organizações das Mulheres Indígenas no Brasil!
“Elas me vêem como referência, porque eles não dão muita confiança nas mulheres”, lamenta. “Eu sabia que se eu conseguisse terminar meus estudos, eles iriam me ver como referência e deixar outras minhas sobrinhas e outras mulheres se inspirarem e verem que somos mulheres, somos capazes de aprender as coisas igual os homens”.
Todos esses movimentos em sua vida trouxeram a Yakuwipu a necessidade de se reconectar com uma parte importante de seu povo: as cerâmicas. Ela aprendeu com seu pai quando criança e ele havia aprendido com a tia dele, a parteira que a trouxe ao mundo.
A matéria-prima, no entanto, era pouca, por isso não era possível praticar tanto. Razão pela qual aos 27 anos ela tomou a decisão de dedicar sua vida a isso. Ela explica que não são apenas cerâmicas. A “panelinha”, como chama, “é uma entidade do Waujá. Porque no Xingu, você ser Waujá, você tem que saber fazer”, ela complementa. “É uma forma que a gente se conecta com o nosso passado e mantém presente no futuro”.
O reencontro e a história recontada
E foi por meio desta conexão que Yakuwipu viu sua história ganhar um novo sentido, a partir do reencontro com as cerâmicas dadas de presente ao indigenista Orlando Villas-Bôas. A sua história acompanhando a luta do seu povo nem sempre é fácil. “Como eu atuo na frente da proteção territorial do Xingu, eu vejo muito problema que tá acontecendo no Xingu. Eu fico muito triste e aí eu penso: por que que parteira me colocou nesse mundo?”.
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Da esquerda para a direita: Yakuwipu Waura; Pere Yalaki Waura; Kayana Pisulu Waura; Kutalo Waura; todas da aldeia Piulewene; e Kuheju Waura, da aldeia Ulupuwe; em visita ao Museu das Culturas Indígenas para ver as peças de cerâmica que vieram do Acervo do Orlando Villas-Bôas|Claudio Tavares/ISA
Nesse reencontro, em evento promovido pelo Museu das Culturas Indígenas, em São Paulo, sua mãe, Pere Yalaki, reconheceu, através da peça, a ceramista. Ela descreveu então a parteira que trouxe Yakuwipu ao mundo: “Ela é ceramista, era uma mulher importante para o Waujá, era uma mulher que recebe e aconselha, e ela era uma mulher para a comunidade e a mulher que não dependia muito das coisas dos homens, ela sabia se virar e ela era uma mulher que é sábia”.
“Só de olhar aquela peça, a gente sente a presença de cada artista que fez aquele canal. É muito forte”, explicou. “De repente eu entendi porque ela me colocou no mundo”, falou emocionada. “Eu acho que é isso é minha missão. Ela salvou minha vida para eu poder contar a história e falar um pouco sobre ela, para ela ser conhecida”, concluiu.
Yakuwipu se descreve como uma mulher que luta pela autonomia das mulheres, que sonha em ver o Xingu daqui a 50 anos com rios limpos, fartos em peixes e alimentos tradicionais. Ela espera também ajudar as mulheres do seu povo que têm vontade de conhecer outros mundos, a atuarem na proteção territorial ou em qualquer cargo no Xingu, além de incentivar as pessoas do seu povo a entrarem na universidade e aprenderem as estratégias dos não indígenas.
“Eu acho que toda a história que meu pai falava para mim, me incentivou a ser essa mulher que eu sou. Pesadelo que eu não tenha enxergado essas coisas. Quando ele me deixou eu vi tudo que ele fez para tentar me preparar para esse mundo”, lamenta.
“Até agora não caiu a ficha sobre isso, mas quando eu vim aqui em São Paulo e eu vi panela, eu percebi que é isso. Tem uma forma que eles falam que você não pode ser que eu acho que é para incentivar a gente ser aquela pessoa e hoje eu sou”, afirma.
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Mergulhe na exposição 'Os Olhos do Xingu', agora disponível na plataforma Google Arts & Culture
Mostra virtual de comunicadores indígenas e ribeirinhos da Rede Xingu+ navega pelas belezas e ameaças aos territórios entre Mato Grosso e Pará
A exposição Os Olhos do Xingu está disponível na plataforma Google Arts & Culture, em uma história que convida o público a mergulhar nos modos de vida dos povos xinguanos, a partir do olhar dos Comunicadores da Rede Xingu+. A ferramenta permite a visitação online das fotografias e vídeos de oito comunicadores que vivem em Terras Indígenas na Bacia do Rio Xingu, entre Pará e Mato Grosso.
A exposição é uma realização da Rede Xingu+ e do Instituto Socioambiental (ISA), e contou com apoio da Fundação Rainforest da Noruega e da União Europeia. Com curadoria de Kujaesãge Kaiabi e dos comunicadores do Xingu a exposição convida a sociedade envolvente a entrar em contato com imagens que revelam a relação intrínseca entre o bem viver e a proteção dos territórios.
Em 20 imagens, os comunicadores xinguanos apresentam seus olhares sobre as belezas e as ameaças aos modos de vida nos territórios, enfrentadas pelos povos do Corredor de Diversidade Socioambiental do Xingu diante da crise climática. As imagens apresentam, por um lado, a preocupação de indígenas e ribeirinhos com pressões e ameaças, e por outro, a felicidade expressa no relacionamento com as comunidades, seus conhecimentos e modos de vida.
Na Aldeia Kalapalo, crianças se divertem com o ‘ta’, brincadeira que consiste em acertar uma flecha no centro de uma roda em movimento|Tauana Kalapalo
A curadoria de fotografias apresentadas na mostra inclui registros de mobilizações em Brasília, como a 3ª Marcha Mulheres Indígenas, realizada em setembro de 2023, de retratos feitos em reuniões, rituais e manifestações culturais realizadas nos territórios, além da captura de paisagens à beira de rios e fotografias aéreas das aldeias e pressões.
Além das fotografias, a exposição se expande com a exibição imersiva de 20 vídeos-relatos, em que indígenas e ribeirinhos compartilham as histórias por trás de cada fotografia. Nos vídeos, os comunicadores apresentam as inspirações que os motivaram a produzir os registros fotográficos.
A exposição ainda conta com um mapa dos territórios dos comunicadores da Rede Xingu+ sobreposto por camadas que mostram as Terras Indígenas, Unidades de Conservação, corpos d’água e o desmatamento acumulado nos limites da Bacia do Rio Xingu, oferecendo mais uma oportunidade para o público se aprofundar nas paisagens que constituem e inspiram os comunicadores.
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Construção de Umatalhi, centro cultural na aldeia Tuatuari, no Alto Xingu|Yamony Yawalapiti
Sobre os comunicadores da Rede Xingu+
O grupo de Comunicadores Indígenas e Ribeirinhos do Xingu integra a Rede Xingu+, uma articulação entre organizações de povos indígenas, associações de comunidades tradicionais e instituições da sociedade civil atuantes na bacia do Rio Xingu.
Ao se apropriarem do uso de equipamentos e tecnologias sociais, os comunicadores da Rede Xingu+ assumem o protagonismo na comunicação de suas associações e contribuem com a articulação política entre diferentes povos da Bacia do Rio Xingu, com a, emissão de alertas, a prevenção e o monitoramento de atividades ilegais nas Áreas Protegidas do Xingu.
Serviço
Exposição Os Olhos do Xingu Realização: Rede Xingu+ e Instituto Socioambiental (ISA) Apoio: Fundação Rainforest da Noruega e União Europeia Parceria: Associação Dos Moradores da Reserva Extrativistas do Iriri (Amoreri), Associação Floresta Protegida (AFP), Associação Terra Indígena do Xingu (ATIX), Associação Yudjá Mïratu Xingu (Aymïx) e Instituto Kabu Parceiros da exposição: Cama Leão, Incentivem Soluções Culturais, Museu Nacional da República, Secretaria de Relações Internacionais e Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Distrito Federal Vídeos: Bebinho Salgado 45
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COP30: povos e comunidades tradicionais exigem voz nas decisões sobre o Sistema Jurisdicional de REDD+ do Pará
FEPIPA, Malungu e CNS apontam desafios e oportunidades diante da construção do Sistema Jurisdicional de REDD+ do Pará para garantia de direitos de povos indígenas, quilombolas e populações extrativistas
A Federação dos Povos Indígenas do Pará (FEPIPA), a Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará - MALUNGU e o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) apresentaram suas perspectivas sobre os possíveis resultados, aprendizados e próximos passos do Sistema Jurisdicional de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (Redd+) Jurisdicional em elaboração no estado do Pará e que visa regular o mercado de crédito de carbono.
Durante o debate, realizado pelo Instituto Socioambiental e a Fundação Rainforest da Noruega, na Zona Azul da COP30, as lideranças ressaltaram a importância da consulta livre, prévia e informada aos povos que terão seus territórios afetados pela iniciativa.
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Da esquerda para a direita: Juliana Maia (ISA), José Brilhante (CNS), Concita Sompré (FEPIPA) e Aurelio Borges (Malungu)|Thalyta Martins/ISA
Para Concita Sompré, co-fundadora da (FEPIPA) e da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA), o processo é uma novidade para muita gente. REDD+ é a sigla para Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal, Manejo Sustentável de Florestas e Conservação e Aumento dos Estoques de Carbono Florestal, e é desde a informação mais básica até os detalhes mais complexos em projetos desse tipo que precisam circular em todas as instâncias. Consultar as comunidades, explicar os processos e ouví-las sobre os impactos para o território é indispensável para o sucesso do programa.
"Desafios nós sempre vamos ter, mas cada parente, cada etnia tem pensamento diferente. Parecemos todos iguais, mas cada cultura tem sua forma de entender o processo e isso tem que ser respeitado", explicou Concita, defendendo a importância de considerar o contexto social onde estão inseridas as comunidades.
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Mesa, que aconteceu no pavilhão do ISA com a Rainforest, teve tradução simultânea|Thalyta Martins/ISA
Juliana Maia, analista de políticas climáticas do ISA, aponta que a participação dos povos indígenas, quilombolas e extrativistas nos processos de tomada de decisões é fundamental para que se alcancem os resultados esperados.
“Se o Estado do Pará está se propondo a realizar um processo de escuta a povos indígenas, comunidades quilombolas e extrativistas é muito em razão do pleito das lideranças que estão aqui”, ressaltou.
Segundo Maia, há algum tempo não havia sinalização neste sentido, em que pese a Convenção nº 169 da OIT estabeleça a obrigação de o estado realizar a Consulta Prévia, Livre e Informada. A mobilização dos povos e da sociedade civil é central neste cenário, considerando os desafios e a necessidade de informar e assegurar transparência em relação às implicações e pontos de atenção do SJREDD+.
Participaram da mesa também José Ivanildo Gama Brilhante, tesoureiro do CNS, e Aurelio Borges, coordenador da Malungu.
José Brilhante ressaltou que o modo de vida dos povos e comunidades tradicionais valoriza a natureza e garante a vida das pessoas dentro e fora do território. Portanto, uma política que reconheça quem protege e não quem desmata é muito bem vinda.
Aurelio Borges falou sobre a importância da proximidade entre todas as partes interessadas. Ele trouxe também o desafio, como liderança, de dialogar com a população, visto que, para dele, este é um projeto que tem potencial para dar certo, se bem feito.
“O REDD+ em si é muito complexo e a gente não sabe muito bem como funciona esse mercado primário e jurisdicional. Por isso, precisamos estar dentro do processo entendendo e levando questões que, para nós, são pertinentes”, ressaltou Aurélio.
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Anúncios de políticas na COP30 reconhecem povos da Terra do Meio (PA) como guardiões da floresta
Governo autorizou, em evento na AgriZone, valor de R$ 2,6 milhões para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) na região. Parceria entre o Governo do Pará e o BID prevê investimentos de US$ 3,5 milhões em projeto de Pagamento por Serviços Ambientais
Povos indígenas, beiradeiros e agroextrativistas que convivem na Terra do Meio (PA) têm um papel essencial no manejo e cuidado dessa região, que forma um mosaico de Áreas Protegidas ao redor dos Rios Xingu e Iriri, no Pará. Representantes da Rede Terra do Meio, que reúne associações desses povos, participaram da COP30, em Belém, e vão retornar para casa com o anúncio de duas políticas públicas que promovem seus modos de vida e geram renda.
Na segunda-feira (17/11), o Governo Federal anunciou R$2,6 milhões para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) na região, sendo R$1,8 milhão da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e R$800 mil do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é responsável pelo plano operacional e tem a parceria, além da Funai e do MDS, do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA).
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Ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), Paulo Teixeira, durante anúncio do PAA para a Terra do Meio|Leonardo de Moura/ISA
A assinatura ocorreu na AgriZone, espaço da Embrapa na COP30, e contou com ampla representação dos povos da Terra do Meio e com a presença do ministro do MDA, Paulo Teixeira, e da presidenta da Funai, Joênia Wapichana, entre outras autoridades.
Diretor de Política Agrícola e Informações da Conab, Silvio Porto ressaltou a inovação do projeto e a participação da Funai. Segundo Joênia Wapichana, o acordo reafirma a identidade cultural indígena e pode ser replicado em outros territórios. “Essa é uma medida, uma política pública, que pode e deve ser replicada em outros territórios indígenas do país e mostra que a Terra Indígena tem sua importância neste cenário de segurança alimentar”, destacou a presidenta da Funai.
O PAA na Terra do Meio já vinha se destacando pela diversidade de povos e alimentos. Entre novembro de 2023 e julho de 2025, o programa chegou a 11 territórios, com a participação de 537 pessoas, sendo 63% mulheres. No total, foram entregues 150.000 kg de alimentos de 76 tipos, com 61 escolas recebendo os produtos.
Assista ao vídeo sobre o PAA na Terra do Meio.
Com o programa, o alimento das roças tradicionais, florestas e rios são entregues nas escolas e outras instituições. Para que isso seja possível, vem sendo realizada uma série de adequações nas políticas públicas, de forma a desburocratizar e flexibilizar processos.
A Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos (Catrapovos), encabeçada pelo Ministério Público Federal e com participação da sociedade civil, tem papel essencial na indicação de adequações das políticas de aquisição de alimentos à realidade dos territórios.
Pagamento por Serviços Ambientais (PSA)
Na semana anterior, no dia 12 de novembro, o diretor-presidente da Rede Terra do Meio, Francisco de Assis Porto, participou de cerimônia ao lado do governador do Estado do Pará, Helder Barbalho, e da representante do BID no Brasil, Annette Kilmer.
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Governador do Pará, Helder Barbalho, a representante do BID no Brasil, Annette Kilmer, e o diretor-presidente da Rede Terra do Meio, Francisco de Assis Porto|Ana Amélia Hamdan/ISA
O encontro foi para a assinatura do contrato de projeto-piloto de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) na região da Terra do Meio, que prevê investimentos de US$3,5 milhões. A assinatura ocorreu na Zona Azul, espaço da COP30 onde as delegações negociam acordos climáticos.
“Esse é o primeiro passo para acessarmos um direito que é nosso, que somos os guardiões da floresta. E a organização, a gestão e a visibilidade da Rede Terra do Meio sensibilizaram o Estado. A gente se sente feliz e bem por preservar a floresta”, comemorou.
A construção do projeto será em conjunto com os povos da Terra do Meio. O próximo passo é a implementação do plano de engajamento, consulta e mobilização para a elaboração do projeto-piloto.
O convênio envolve o Governo do Pará, o BID e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio). O objetivo é reconhecer o papel dessas populações na preservação da floresta e fomentar modelos sustentáveis de desenvolvimento nos territórios coletivos.
Cerca de 40% dos recursos serão utilizados diretamente nos pagamentos, orientando a construção de uma política pública permanente de PSA no Pará.
Tanto o PAA e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o PSA têm se mostrado políticas públicas eficazes de segurança alimentar, mas também de proteção ambiental e regulação climática. Quando adequadas às realidades dos territórios, o PAA e o PNAE promovem os sistemas agrícolas tradicionais de indígenas, quilombolas e povos e comunidades tradicionais, que produzem alimentos e, ao mesmo tempo, promovem o cuidado com a floresta. Já a política de Pagamento por Serviço Ambiental (PSA) reconhece e potencializa o papel dessas populações na preservação.
(Com informações da Agência Brasil de Comunicação)
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