O Instituto Socioambiental (ISA) lamenta a morte de Israel Serafim Santos, agente da Força Nacional de Segurança Pública que atuava em operação de combate ao garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami.
Conforme a Casa de Governo, Israel atravessava o Rio Uraricaá durante o trabalho quando se afogou, tendo sido encontrado no sábado (21).
Israel era soldado da Polícia Militar da Bahia e, segundo o Governo Federal, atuava na corporação desde 2011. Ele ingressou na Força Nacional em 2023 e atuou em operações de desintrusão nas Terras Indígenas Apyterewa e Trincheira Bacajá, no Pará.
Neste momento de tristeza, o ISA se solidariza com os dois filhos de Israel, os familiares, os amigos e os colegas de trabalho. Também agradecemos o comprometimento do agente de segurança com as ações de proteção ao meio ambiente e povos indígenas.
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ISA leva pesquisas interculturais do Rio Negro à COP15 sobre Espécies Migratórias
Experiências levadas ao evento articulam conhecimentos indígenas, conservação de paisagens aquáticas e governança territorial em Sítios Ramsar da Amazônia
O Instituto Socioambiental (ISA) participa da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), que acontece de 23 a 29 de março, em Campo Grande (MS), levando três frentes de atuação: a pesquisa intercultural com povos indígenas, a conservação de paisagens aquáticas e a governança territorial em Sítios Ramsar na Amazônia.
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Evento evidencia o papel dos povos indígenas do Rio Negro na produção de conhecimento sobre ciclos ecológicos e na gestão de seus territórios|Ismael dos Santos/AIMA
A participação tem início no dia 24 de março, às 16h, com a atividade “Espécies migratórias no Médio e Alto Rio Negro: conhecimentos e práticas de manejo indígena no Noroeste Amazônico”, no Espaço Conexão Sem Fronteiras, no Parque Estadual das Nações Indígenas. A proposta evidencia o papel dos povos indígenas da região – que abrange territórios no Brasil, Colômbia e Venezuela – na produção de conhecimento sobre ciclos ecológicos e na gestão de seus territórios.
A atividade apresenta a experiência da rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs), que há duas décadas monitora fenômenos como a migração e reprodução de peixes, aves e mamíferos, articulando essas dinâmicas a observações climáticas e aos ciclos anuais da floresta.
Os dados sistematizados pelos próprios pesquisadores indígenas contribuem para o entendimento das dinâmicas ecológicas e para o monitoramento das mudanças ambientais na região. O AIMA Tiago Pacheco, do povo Koripako, da região do Rio Içana, também participa da mesa ao lado de outros pesquisadores.
O ISA também integra a mesa “Paisagens aquáticas, vulnerabilidades e oportunidades: fortalecendo áreas protegidas e Sítios Ramsar para a conservação de espécies migratórias no Brasil”, no dia 27 de março, às 9h, em colaboração com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).
O debate busca construir uma agenda de ações voltadas à conservação de áreas úmidas e paisagens aquáticas, fundamentais para a biodiversidade e a conectividade ecológica, frente a pressões como desmatamento, fogo, mineração e eventos climáticos extremos.
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Experiência de governança participativa do Sítio Ramsar do Rio Negro também será apresentada durante evento na COP15|Renata Alves/Rio Negro
Complementando essa agenda, o ISA participa ainda do evento “Governança Territorial e Conectividade Ecológica: estratégia integrada nos Sítios Ramsar do Rio Negro, Juruá e do Estuário da Foz do Amazonas e seus Manguezais”, no dia 26 de março, às 15h45, no Espaço Brasil (Zona Azul).
A atividade apresentará experiências de governança territorial baseadas em arranjos participativos e articulação interinstitucional, evidenciando contribuições para a manutenção da conectividade ecológica e a conservação de habitats críticos para espécies migratórias.
COP15
A COP15 integra a Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), um tratado ambiental das Nações Unidas firmado em 1979, em Bonn, que parte do princípio de que os animais migratórios não reconhecem fronteiras nacionais. Por isso, sua conservação depende de ações coordenadas entre países ao longo de suas rotas e ciclos de vida.
As espécies abrangidas pela Convenção são organizadas em dois anexos: o Anexo I reúne aquelas ameaçadas de extinção, que demandam medidas rigorosas de proteção, como a conservação de habitats e a redução de barreiras às migrações; e o Anexo II inclui espécies que requerem cooperação internacional por meio de acordos de gestão compartilhada.
Realizadas a cada três anos, as Conferências das Partes são o principal espaço de decisão da CMS, reunindo 132 países e a União Europeia para definir prioridades, revisar medidas de conservação e avaliar a inclusão de novas espécies nos anexos do tratado.
Entre os resultados esperados estão também a análise do progresso das Ações Concertadas, que são as iniciativas coordenadas entre países, além da construção de acordos regionais e declarações políticas que reforçam o compromisso global com a conservação da biodiversidade.
A realização da COP15 no Brasil, próximo ao Pantanal, um bioma estratégico para espécies migratórias e atualmente sob forte pressão de mudanças climáticas e incêndios, reforça a urgência de avançar em soluções integradas para a proteção desses ecossistemas e de suas espécies.
ISA na COP15
Espécies migratórias no Médio e Alto Rio Negro: conhecimentos e práticas de manejo indígena no Noroeste Amazônico 24 de março, terça-feira 16h – 17h Auditório Arara Azul - Espaço Conexão Sem Fronteiras - Parque Estadual das Nações Indígenas
Governança Territorial e Conectividade Ecológica: estratégia integrada nos Sítios Ramsar do Rio Negro, Juruá e do Estuário da Foz do Amazonas e seus Manguezais 26 de março, quinta-feira 15h45 - 16h35 Espaço Brasil – Zona Azul
Paisagens aquáticas, vulnerabilidades e oportunidades: fortalecendo áreas protegidas e Sítios Ramsar para a conservação de espécies migratórias no Brasil 27 de março, sexta-feira 9h – 10h Sala Tululú - Espaço Conexão Sem Fronteiras - Casa do Homem Pantaneiro
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Rede de Sementes dos Coletores da Serra da Lua promove ciclo de palestras com alunos indígenas em Roraima
Lideranças da comunidade e analistas do Instituto Socioambiental falaram com estudantes sobre a Terra Indígena Yanomami, a Usina Hidrelétrica de Bem-Querer e restauração ecológica
O Instituto Socioambiental (ISA) e comunidades da região da Serra da Lua promoveram um ciclo de palestras com alunos da Escola Estadual Indígena Edmilson Lima Cavalcante na comunidade Tabalascada, localizada na terra indígena de mesmo nome, em Roraima, na manhã da última a terça-feira (17/03).
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Ciclo de palestras ocorreu na Terra Indígena Tabalascada, em Roraima, com a presença de estudantes, lideranças e analistas do ISA|Fabrício Araújo/ISA
A ação faz parte das atividades desenvolvidas pela Rede de Sementes dos Coletores da Serra da Lua (Ressel). Três analistas do ISA em Roraima apresentaram as palestras que tiveram como temas: garimpo illegal na Terra Indígena Yanomami, a proposta de construção da hidrelétrica de bem-querer e os trabalhos da Ressel.
Lídia Montanha, coordenadora-adjunta do Programa Rio Negro em Roraima, apresentou aos estudantes um panorama sobre o garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami. O território foi alvo de invasão massiva de garimpeiros entre 2019 e 2022. O período também foi marcado por desestruturação da saúde e explosão de casos de malária e desnutrição, além de mortes de crianças por doenças facilmente tratáveis, como gripe.
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Lídia Montanha apresentou um panorama do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, que causou explosão de casos de malária e desnutrição|Fabrício Araújo/ISA
“Nos últimos anos, o governo tem atuado fortemente para retirar os invasores. Há várias operações para prender quem garimpa ilegalmente, destruir maquinários e fiscalizar nas Bases de Proteção que foram criadas”, disse Montanha durante a palestra.
Ciro Campos, analista do ISA, explicou aos alunos sobre os possíveis impactos da Usina Hidrelétrica Bem Querer. Esta usina começou a ser materializada em 2007, e seria uma das menos eficientes do Brasil, precisando alagar cerca de 80 hectares para cada megawatt gerado.
Ainda de acordo com Campos, há quatro hidrelétricas planejadas e a de Bem-Querer é só o projeto mais conhecido. Ele aponta ainda que o projeto consegue desagradar a grupos diversos porque afeta bandeiras comuns mesmo a grupos opostos.
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Ciro Campos também se apresentou falando sobre os possíveis impactos da Usina Hidrelétrica Bem Querer|Fabrício Araújo/ISA
“Eu acho que tem poucas coisas em Roraima que conseguem unir pessoas diferentes e o Rio Branco é uma delas”, disse Campos ao exemplificar um dos locais que seria afetado pela usina.
Para finalizar o ciclo de palestras, Emerson Cadete, analista do ISA que atua na Rede de Sementes da Serra da Lua (Ressel), explicou a implementação do projeto em Roraima e as atividades que foram realizadas até então.
Emerson, que é carinhosamente conhecido como Sementinhas, explicou o método da muvuca, lembrou que a rede de sementes fez capacitações para os coletores, além de promover intercâmbio com a rede do Xingu.
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Emerson Sementinhas finalizou o ciclo de palestras falando sobre a Rede de Sementes da Serra da Lua (Ressel)|Fabrício Araújo/ISA
“Uma das coisas que vai beneficiar a comunidade é que a Casa de Sementes vai receber energia solar. Esta energia vai beneficiar tanto os pais de vocês, quanto o trabalho com as sementes. E tudo isso fortalece a governança da comunidade”, disse o técnico em produção de sementes.
Esta etapa do ciclo de palestras encerrou junto ao fim das aulas do período matutino da escola e os estudantes seguiram para um almoço coletivo na comunidade Tabalascada.
O Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (PREVFogo) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) também participou do evento.
A brigada formada pelos indígenas das comunidades da Terra Indígena Tabalascada palestraram sobre o trabalho que desenvolvem na região, a importância das queimas prescritas e consequências de incêndios criminosos. Estas brigadas têm o trabalho apoiado pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Os professores e lideranças apresentaram o ponto de vista do movimento indígena sobre os temas e estimularam o debate com os estudantes após o fim das palestras.
Esta atividade de educação socioambiental foi apoiada com recursos doados pelo Cultures of Resistance Foundation. A Ressel também conta com o apoio do Amazon Investor Coalition.
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Mulheres Yanomami e Ye’kwana discutem parto, saúde e violência em oficina de Direitos Humanos
Atividade promovida pela Universidade Federal de Minas Gerais e ISA também incluiu reflexões sobre juventude e abuso de álcool
Mulheres da Terra Indígena Yanomami estiveram reunidas em Boa Vista participando de uma oficina de Direitos Humanos promovida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com apoio do Instituto Socioambiental (ISA) entre 26 de janeiro e 06 de fevereiro.
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A oficina de Direitos Humanos para mulheres na TI Yanomami refletiu, entre outras pautas, sobre questões da cidade que afetam o território|Fabrício Araújo/ISA
Durante a atividade, as yanomami e ye’kwana refletiram sobre condições de parto na cidade, violência nas comunidades e, principalmente, sobre a relação dos jovens com o consumo de álcool.
A oficina contou com 22 representantes de nove associações e nove regiões da Terra Indígena Yanomami.
Conforme Karenina Vieira Andrade, que é antropóloga e professora da UFMG, a oficina foi conduzida a partir dos assuntos do interesse das mulheres.
“Nesta oficina, elas falaram muito sobre o abuso de álcool e substâncias pelos jovens nas comunidades. Elas se preocupam muito porque não se restringe só a vinda a cidade, afeta o território também”, explica a antropóloga.
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A antropóloga Viviane Cajusuanaima Rocha exaltou o papel do encontro para estratégias de enferentamento às violências que atingem os jovens|Fabrício Araújo/ISA
A primeira antropóloga do povo ye’kwana, Viviane Cajusuanaima Rocha, acompanhou os seis dias de oficina. Ela apontou que as mulheres enfrentam desafios diferentes em cada comunidade e o encontro com pessoas de regiões diversas permite entender o contexto geral da maior terra indígena do Brasil.
“A Terra Indígena Yanomami é muito grande e não conhecemos o que vivem as mulheres de outras comunidades, tem vários povos e subgrupos yanomami. É muito importante conhecer os direitos das mulheres. Nós que vivemos nas comunidades não sabemos os direitos, mas ao sair da comunidade temos que conhecer nossos direitos”, afirmou.
Com as discussões em andamento, Viviane entendeu que a relação que os jovens yanomami e ye’kwana desenvolvem com álcool ao visitarem a cidade é um ponto de preocupação em comum entre todas elas.
“A bebida dos brancos é prejudicial para o nosso povo, causa conflitos e não respeita a nossa cultura. Não é da nossa cultura e essa discussão foi muito difícil, mas foi preciso levantar o tema aqui. Queremos respeito ao que foi discutido com as mulheres e posto no papel”, pontuou.
A oficina resultou em uma nova cartilha elaborada a partir das reflexões das yanomami e ye’kwana estratégias para o enfrentamento de formas de violência: bebidas, drogas, celulares e internet.
A oficina foi finalizada com uma reunião entre as mulheres yanomami e ye’kwana com os representantes da Secretaria Estadual de Saúde (Sesau), Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami e Ye’kwana (DSEI-YY), Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) e Defensoria Pública da União (DPU). Na ocasião foram apresentados o guia de pré natal e a cartilha que aborda a Saúde da Mulheres yanomami, sanöma e ye´kwana.
A atividade resultou em uma nova cartilha elaborada a partir das reflexões das yanomami e ye’kwana sobre como elas desejam ser atendidas pelos profissionais de saúde. Estes materiais foram usados em uma conversa que encerrou a oficina na sexta-feira (06/02) e são frutos das atividades desenvolvidas pelo projeto Redes de Cuidado na TIY.
“Esta cartilha não fica só aqui. Ela vai para várias comunidades para as pessoas entenderem como as mulheres yanomami e ye´kwana querem ser tratadas”, disse Ariane de Souza Goes, que esteve na oficina representando a Associação Yanomami do Rio Caburais e Afluentes (Ayrca).
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Ana Lúcia defendeu que profissionais da saúde conheçam a realidade dos territórios para um atendimento mais efetivo|Fabrício Araújo/ISA
“Os médicos e profissionais da saúde precisam entrar no território conhecendo a nossa realidade para trabalhar em acordo com o que nós queremos. O trabalho deles precisa ser específico para os yanomami”, disse Ana Lúcia Paixão, vice-presidente da Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK).
Os outros projetos são: A Ação Saberes Indígena na Escola (ASIE), um programa regular do governo federal que têm como foco a formação continuada de professores indígenas e produção de materiais didáticos. Também está em curso a construção de Espaços Comunitários de Saberes, Cultura e Bem Viver na Terra Indígena Yanomami e o projeto Redes de Cuidados da Saúde.
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Nota de pesar por Gabriel Ferreira, jovem liderança do povo wapichana
Gabriel atuou como secretário regional do Conselho Indígena de Roraima (CIR) e comunicador da Rede Wakywaa; ISA cobra investigações
Gabriel foi secretário regional do Conselho Indígena de Roraima e comunicador da Rede Wakywaa | Divulgação CIR
O Instituto Socioambiental (ISA) manifesta profundo pesar pela morte de Gabriel Ferreira, 28 anos, jovem liderança do povo indígena wapichana.
Gabriel era morador da comunidade Novo Paraíso, Terra Indígena Araçá, localizada no município de Amajari, em Roraima. Liderança da juventude indígena de Roraima, ele atuou como secretário regional do Conselho Indígena de Roraima (CIR) e comunicador da Rede Wakywaa.
O ISA se solidariza com os familiares e amigos neste momento de profunda tristeza. Também cobramos das autoridades que as investigações sejam rigorosas e levem a respostas concretas sobre as condições de sua morte.
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Cine Japu se consolida como espaço de democratização e celebração do cinema indígena no Rio Negro
Em 2025, o cineclube integrou importantes circuitos e mostras nacionais e internacionais, apresentando uma programação plural, com destaque para temáticas indígenas e ambientais
A primeira sessão de 2025 teve o filme Mensageiras da Amazônia, do Coletivo Audiovisual Munduruku Daje Kapap Eypi|Vanessa Fernandes/ISA
Às margens do Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira (AM), município com a maior população indígena do país, o Cine Japu vem se consolidando como um espaço estratégico de fortalecimento do audiovisual indígena. Prestes a completar três anos de criação, o projeto alcançou um público de quase 900 pessoas em 2025, o dobro em relação ao ano anterior.
Criado em 2023, é uma iniciativa do Instituto Socioambiental (ISA), com participação da Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro. As sessões são quinzenais, seguidas de rodas de conversa, com a proposta de ampliar diálogos, compartilhar saberes e fortalecer as culturas indígenas por meio da arte e do lazer, conectando comunidades, instituições locais e diferentes gerações.
Desde o seu início, 44 exibições já foram realizadas, reunindo um público total de 1.965 pessoas, tanto na sala Dagoberto Azevedo – Suego, no Telecentro do ISA, quanto em itinerâncias em escolas e comunidades próximas, reforçando o papel do cinema como ferramenta de educação, pertencimento e troca. Um impacto que vai muito além dos números.
Em 2025, o Cine Japu integrou circuitos e mostras nacionais e internacionais importantes, como o Circuito Embaúba, recebendo estreias do audiovisual brasileiro. Também foi um dos pontos selecionados para receber o 14º Circuito Tela Verde, uma iniciativa do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima; aderiu ao programa educacional da mostra Ecofalante; e foi convidado para exibir a 2ª Mostra do Mercosul Audiovisual, realizada pela Secretaria do Audiovisual (SAV) do Ministério da Cultura, em parceria com a Reunião Especializada de Autoridades Cinematográficas e Audiovisuais do Mercosul (RECAM).
O projeto também celebrou, pelo segundo ano consecutivo, o Dia Internacional da Animação, com uma seleção de curtas nacionais. Mais recentemente, o projeto recebeu convite para integrar o Mapeamento de Salas Públicas de Cinema da Secretaria do Audiovisual e do Ministério da Cultura, um reconhecimento importante para uma iniciativa que nasce em uma cidade fora do circuito comercial de cinema, em um contexto regional que possui o menor acesso a salas de cinema, museus e teatros do país.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2023), no Amazonas, para chegar ao cinema mais próximo, a média de deslocamento é de mais de 23 horas. No Rio de Janeiro, por exemplo, a média é de 16 minutos.
Espaço de fala e escuta
Ao longo das sessões de 2025, todas as rodas de conversa foram conduzidas por jovens comunicadores e lideranças indígenas, tanto da Rede Wayuri quanto do Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Dajirn/Foirn).
Outras instituições que também participaram ativamente das sessões e discussões foram o Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (Dmirn/foirn), o Colegiado Indígena do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (PPGAS/UFAM) e a Secretaria Municipal de Educação e Educação Escolar Indígena (SEMEDI).
Renata Meirelles, diretora do filme Do Colo da Terra, e a liderança do povo Desana Adelina Sampaio com os filhos - assíduos do projeto - após sessão no Cine Japu|Vanessa Fernandes/ISA
A programação diversificada trouxe filmes com temática indígena e ambiental, obras dirigidas por indígenas, filmes produzidos na região do Rio Negro, além de longas e curtas brasileiros que abordam outras temáticas sociais.
As sessões itinerantes em escolas como a Escola Municipal Indígena Lilian Ambrósio e a Escola Estadual Sagrada Família ampliaram ainda mais o alcance do projeto, com a participação ativa de gestores, professores e estudantes no processo de formação de plateia.
Entre os títulos exibidos, estiveram Mensageiras da Amazônia, do Coletivo Audiovisual Munduruku Daje Kapap Eypi, que acompanha jovens Munduruku utilizando o audiovisual como ferramenta de denúncia e defesa de seus territórios; Mapear Mundos, documentário histórico sobre as lutas indígenas e os direitos territoriais no Brasil; e Meu Pai Kaiowá (Yõg ãtak), que aborda reencontros familiares marcados por separações forçadas vividas por povos indígenas.
Também integrou a curadoria o documentário Do Colo da Terra, exibido com a presença da diretora Renata Meirelles, que reforçou o diálogo entre cineastas e público, além de obras de ficção como Ainda Não é Amanhã e Suçuarana, que ampliaram o debate sobre questões sociais, pertencimento e território.
A programação contou ainda com produções audiovisuais comunitárias e experimentais, como vídeos realizados pelas produtoras e multiartistas Naiara Bertoli e Rosi Waikhon, durante a programação de Imersão Teatral no Rio Negro, reforçando o compromisso do Cine Japu com múltiplas narrativas e formas de contar histórias.
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Sessão itinerante na Escola Municipal Indígena Lilian Ambrósio|Inês Mexia/ISA
Para a comunicadora indígena Nayra Sthefany Cardoso, que também foi uma das mediadoras ao longo de 2025, o Cine Japu, muitas vezes, é o primeiro contato com o cinema para muitas crianças e jovens de São Gabriel da Cachoeira. “A gente vê a emoção deles, a felicidade, os sentimentos despertados quando o filme passa na tela. Muitas vezes, aquela é a primeira experiência em uma sala de cinema, diante de um telão, junto com outras pessoas”, descreve Nayra.
Segundo a jovem, a iniciativa contribui para a formação crítica do público, especialmente dos mais jovens. “São vídeos educativos, que fazem a gente enxergar o mundo de forma mais crítica. Isso é muito importante para a nossa juventude, e a gente fica muito feliz”, afirma.
Na avaliação de Claudia Ferraz, coordenadora da Rede Wayuri, o Cine Japu se consolida como um espaço essencial para a população. “É um lugar onde podemos assistir filmes e documentários relacionados aos povos indígenas, que trazem memórias, histórias e narrativas que marcaram a vida dos nossos povos”, afirma.
Para Claudia, o diferencial está nos encontros que o cinema provoca. “Além de assistir, a gente compartilha, troca ideias e conversa sobre o que viu. O Cine Japu mostra a importância de registrar, gravar e mostrar a nossa realidade, nossa cultura e nossas línguas”, finaliza.
O público do Cine Japu ao longo do ano teve destaque especial para a participação de crianças e jovens, impulsionada pelas exibições nas escolas, mostrando que o cinema pode ser uma ferramenta potente de educação, pertencimento e imaginação. A participação do público feminino segue sendo majoritária desde o início do projeto.
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Da esquerda para a direita: Adelina Sampaio Veloso, Sarah Sampaio (bebê no colo), Melissa Maria, Wendell Manoel e Rafaela Sampaio Veloso em sessão do Cine Japu|Vanessa Fernandes/ISA
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A restauração da saúde do corpo e dos ecossistemas
Restaurar não é necessariamente retornar a um estado idealizado do passado. É criar condições para que estrutura, diversidade e função se reorganizem de maneira possível
*Artigo publicado originalmente em (o)eco, no dia 29 de janeiro de 2026.
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'Entre o metal e a natureza: reflexões sobre cura e restauração’ | Arte digital: Danielle Celentano + IA (ChatGPT/OpenAI), 2026.
Este texto nasce do cruzamento entre experiência profissional e vivência pessoal, onde corpo e paisagem deixam de ser metáforas distantes e passam a dialogar como territórios vivos. Entre ciência, técnica e cuidado, proponho um olhar que reconhece a restauração – humana e ecológica – como um processo de recomposição, no qual mesmo estruturas atravessadas por rupturas podem sustentar toda a potência da vida
Corpo e paisagem: uma mesma trama de vida Existe uma analogia profunda – e cada vez mais reconhecida – entre a saúde humana e a saúde dos ecossistemas. De modo semelhante, há paralelos claros entre os processos de restauração ecológica de áreas degradadas e os caminhos de reestabelecimento da saúde dos corpos adoecidos. Essa relação não é nova: atravessa saberes tradicionais, a ciência contemporânea e o conceito de Saúde Única, que reconhece a interdependência entre pessoas, ambientes e outros seres vivos – em consonância com a própria teoria da evolução. Escrevo sobre ela agora a partir de um lugar específico: o de um processo pessoal de cura que estou vivenciando.
Quando a degradação se instala Ao longo de mais de duas décadas trabalhando com conservação e restauração de florestas na Amazônia, aprendi que conservar deve ser sempre a prioridade: a restauração não pode ser tratada como panaceia e, em muitos casos, simplesmente não é possível. Da mesma forma, o cuidado com a saúde do corpo deveria ser prioritário – “melhor prevenir do que remediar” –, mas, por uma série de fatores intrínsecos e extrínsecos ao ser, isso nem sempre acontece. Talvez porque toda degradação – do corpo, da sociedade ou da natureza – seja o reflexo de uma ruptura mais profunda: o afastamento das relações que dão sentido, cuidado e pertencimento à Vida, perpassando a saúde física, mental e espiritual.
Quando a degradação já se instalou, a recuperação de um ecossistema depende de um bom diagnóstico, planejamento, cuidado contínuo e tempo. O mesmo vale para o corpo humano. Antes de qualquer intervenção, é fundamental compreender as causas do adoecimento – identificar fatores de risco, limites estruturais e perdas funcionais. Na restauração, chamamos isso de diagnóstico ambiental; na saúde, de exame clínico. Em ambos os casos, não há atalhos, embora hoje existam tecnologias cada vez mais sofisticadas para apoiar esses processos.
O planejamento vem em seguida. Ele envolve definir estratégias, escolher métodos e reconhecer o que pode ser regenerado de forma natural – a partir da retirada de pressões – e o que exige ações ativas. Na ecologia, isso inclui desde a exclusão de fatores degradantes até o plantio de sementes e mudas; em situações mais severas, pode ser necessário realizar previamente a reabilitação física, com obras de infraestrutura, a reabilitação química, por meio da biorremediação, ou a reabilitação biológica com a exclusão de espécies invasoras.
No corpo humano, esse processo envolve mudanças de hábitos, tratamentos medicamentosos, cirurgias, transplantes, colocação de próteses, reabilitação física, quimioterapias, entre outros. Por mais desejável que seja, não se pode romantizar a regeneração espontânea: há situações em que a intervenção é condição necessária para que a vida volte a circular. Assim como na restauração ecológica, o cuidado com a saúde também exige monitoramento e atividades periódicas de manutenção, para que o sucesso seja sustentado no longo prazo.
Ninguém restaura sozinho Restaurar, seja um território ou um corpo, não é necessariamente retornar a um estado idealizado do passado. É criar condições para que estrutura, diversidade e função se reorganizem de maneira possível, resiliente e viva. Há perdas irreversíveis – espécies extintas, articulações perdidas –, mas isso não significa ausência de futuro. Significa outro arranjo, outro equilíbrio, outra paisagem.
Também aprendi que ninguém restaura sozinho. Florestas dependem de redes invisíveis e colaborativas: microrganismos, formigas, aves, polinizadores, dispersores de sementes e, também, de pessoas – como coletores de sementes, plantadores e tantas outras. Da mesma forma, processos de cura humana se apoiam em médicos, fisioterapeutas, enfermeiras, terapeutas, familiares, amigos e instituições. Cada qual cumpre uma função específica, complementar e insubstituível.
A diversidade de atores é, novamente, condição para o sucesso. Mas ela não basta: o acesso aos recursos, aos cuidados e às tecnologias que tornam esses processos possíveis ainda está longe de ser universal. Garantir o direito humano à saúde – inclusive por meio de garantias trabalhistas – e os direitos da própria natureza, hoje assegurados em poucos países, é parte inseparável de qualquer processo sério de cuidado, cura e restauração.
Nesse caminho pessoal que estou vivendo em busca da minha própria saúde, tenho sido sustentada por uma rede de cuidados que inclui profissionais da saúde, o afeto da família, de amigas, amigos e colegas, além do apoio institucional da organização onde trabalho. Em muitas dessas pessoas reconheço o mesmo brilho nos olhos dos bons restauradores: gente que trabalha com técnica, mas também com sentido e amor.
Há uma diferença sutil, porém fundamental, entre atuar apenas pela troca financeira e atuar pelo compromisso genuíno com a vida. Na restauração e na medicina, isso faz toda a diferença.
Cura como caminho vivo Há ainda uma dimensão frequentemente negligenciada nesses debates: o tempo profundo. Ecossistemas se formam ao longo de anos, décadas e eras. Corpos também carregam códigos genéticos, memórias longas, ancestrais e espirituais. A restauração e a cura nem sempre são lineares ou totalmente mensuráveis. Há lutos – por funções perdidas, por versões anteriores de nós mesmos e pela morte – e há aceitação. Reconhecer isso não fragiliza nem a ciência nem o indivíduo; ao contrário, traz mais humanidade aos processos.
Cada pessoa vive o luto de uma forma diferente, assim como áreas que parecem impossíveis de se recuperar podem precisar de séculos ou milênios para voltar a expressar a vida. Para mim, a vida que se foi também retorna – tanto no aspecto físico, inscrito no ciclo da decomposição da matéria orgânica, quanto no aspecto metafísico, que perpassa a espiritualidade.
Por isso, acredito que nosso futuro comum exige uma mudança profunda de paradigmas. Existem diversos caminhos possíveis para essas transformações, entre eles a proposta de Saúde Integral, preconizada pelo meu amigo e médico Frei Klaus Th. Finkam, que defende que o bem-estar humano é resultado da integração entre saúde física, mental, social, emocional e espiritual. Nesse mesmo horizonte, junto com meu companheiro, o cientista Guillaume Xavier Rousseau, chamamos de Restauração Ecológica Integral, o processo social que busca integrar o bem-estar humano, a saúde dos ecossistemas e a espiritualidade, independentemente de religião.
Assim como na restauração ecológica, nem toda regeneração acontece sem intervenção. Há paisagens – e corpos – que precisam de suporte técnico para que possam, então, seguir seus próprios caminhos de reorganização. Restaurar a saúde – humana ou ecológica – é, em última instância, um ato de cuidado contínuo, que reconhece limites, valoriza redes, aceita pausas e aposta na força da vida, mesmo quando ela precisa de ajuda para seguir. É confiar que a vida, mesmo ferida, carrega em si a potência de voltar a florescer.
É nesse horizonte que sigo: cuidando do meu corpo e da Terra, confiando que ambos podem se restaurar quando encontram tempo, condições e cuidado. A cura – pessoal e planetária – é um caminho vivo, tecido com presença, compromisso e esperança.
Essa reflexão ganhou forma visual em uma obra construída a partir de uma radiografia pessoal das minhas próteses bilaterais de quadril, sobrepostas a elementos da natureza. Nela, folhagens densas, cipós e flores entrelaçam-se ao metal. O quadril, eixo do movimento e da sustentação do corpo, aparece como território de transição entre o artificial e o vivo. A prótese, muitas vezes associada à limitação, é ressignificada como infraestrutura de cuidado – suporte fértil para que a vida volte a brotar. Aqui, o metal não nega a vida – ele a sustenta.
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Lideranças Yanomami e Ye’kwana lançam filme sobre ‘A Carta de Surucucu’ e avaliam ação emergencial
Há três anos, o Governo Federal iniciava operação na Terra Indígena Yanomami e agora lideranças indicam próximos passos nas áreas da saúde, educação e proteção do território
As lideranças da Terra Indígena Yanomami lançam nesta sexta-feira (30/01) um minidocumentário sobre o VI Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana. O evento reuniu mais de 550 indígenas durante uma semana e resultou na Carta de Surucucu, documento que avalia ações emergenciais do governo federal e reivindica mais atenção no combate à malária e na proteção territorial.
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O Fórum de Lideranças é a mais alta instância de decisões da TI Yanomami. Na foto, Davi Kopenawa, presidente da Hutukara Yanomami|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
Disponível no YouTube, o curta de 19 minutos conta com depoimentos de algumas das lideranças, como Waihiri Hekurari, presidente da associação Urihi Yanomami, Davi Kopenawa Dário Kopenawa, presidente e vice-presidente da Hutukara Yanomami, Júlio Ye’kwana, presidente da Wanasseduume Ye’kwana (Seduume), e Carlinha Lins, presidenta da Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK).
Assista abaixo:
O VI Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana ocorreu na comunidade Kori Yauopë, na região de Surucucu, em novembro de 2025, e teve Waihiri Hekurari como anfitrião. Uma das vozes mais expressivas no combate ao garimpo e nas denúncias de descaso durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), ele convida os espectadores para a leitura da carta na íntegra.
“Nós, Yanomami e Ye’kwana, fizemos uma carta com a voz do nosso povo, uma flecha forte”, diz Hekurari. Waihiri ficou mundialmente conhecido como Júnior Hekurari - nome que abandonou por sentir a necessidade de uma alcunha mais adulta e diretamente ligada à língua do seu povo. O novo nome carrega o mesmo peso que a palavra “guerreiro” em português.
O minidocumentário conta ainda com depoimentos de lideranças Ye’kwana da Venezuela, que participaram do VI Fórum em um movimento de intercâmbio para compreender como as lideranças da Terra Indígena Yanomami se organizam no Brasil.
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Waihiri, uma das vozes mais expressivas no combate ao Garimpo, foi um dos anfitriões|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
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Lideranças reunidas no último dia do VI Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
O trabalho é uma produção de Cama Leão e Instituto Socioambiental (ISA) realizado em conjunto com as associações da Terra Indígena Yanomami que compõem o Fórum de Lideranças. Tem direção e montagem de Tati Vesch, produção de base e entrevistas por Fabrício Araújo, produção executiva de Maica Alves, coordenação de Ana Paula Anderson, direção de fotografia e drone por Erik Vesch, fotografia adicional de Lucas Silva, direção de arte de Mariana Abasolo, finalização de João Maia, tradução do yanomami para o português de Marcelo Moura, e tradução do espanhol para o português e legendas de Ana Paula Anderson.
Três anos em situação de emergência
O filme é lançado no mesmo mês em que a Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin) foi decretada na Terra Indígena Yanomami. À época, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) viajou a Boa Vista e montou uma operação para estruturar a saúde e expulsar garimpeiros ilegais da região. Agora, as lideranças avaliam quais devem ser os próximos passos do governo na manutenção da defesa da maior terra indígena do Brasil.
“O presidente decretou situação de emergência para salvar a população Yanomami, para expulsar os garimpeiros”, diz Hekurari antes do filme mostrar uma sequência de imagens de equipamentos e estradas utilizadas pelo garimpo ilegal sendo destruídos em operações ligadas à Casa de Governo em Roraima. Embora reconheçam avanços desde que a criação da Casa de Governo em fevereiro de 2024, as lideranças afirmam que a operação não pode parar e que ainda faltam avanços no combate à malária.
“Na minha opinião, na opinião do povo Yanomami junto com Xapiri, Lula é uma pessoa honesta. Eu o conheci e já sonhei com a alma dele. Ele nos abraçou e aprendeu a respeitar a nossa terra, aprendeu a respeitar o povo Yanomami. Nós esperamos mais, ele não pode abandonar e pensar que já resolveu”, afirma Davi Kopenawa, xamã do povo Yanomami.
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Carlinha Lins, presidenta da AMYK, também compartilhou as reivindicações das mulheres para o território|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
Conforme a Carta de Surucucu, houve 14.615 casos positivos de malária só nos primeiros oito meses de 2025. A quantidade é preocupante, pois a população Yanomami é estimada em cerca de 30 mil pessoas. O documento aponta que há esforços para reestruturação da saúde e que houve uma queda de 20% no número de casos positivos em comparação ao mesmo período de 2024, mas pedem que as equipes de saúde foquem no diagnóstico rápido.
Ainda referente ao combate ao garimpo, as lideranças pedem no documento que haja celeridade nos inquéritos e julgamentos de garimpeiros e financiadores da atividade ilegal, manutenção da Casa de Governo e operações de desintrusão, além de aprovação do Projeto de Lei 3.776/2024, que prevê aumento de penas minímas.
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As lideranças pedem celeridade nos inquéritos e julgamentos de garimpeiros e financiadores da atividade ilegal no território|Erik Vesch/Cama Leão/ISA
A carta também reforça o desejo dos Yanomami e Ye’kwana por uma educação diferenciada com Territórios Etnoeducacionais como caminho para terem acesso a escolas bilíngues e interculturais.
“Os jovens cobram a gente. Na minha comunidade, eles nos cobram por ajuda na educação, é o principal pedido. Eles querem o fim das invasões e querem frequentar escolas”, pontuou Júlio Ye’kwana, presidente da Seduume.
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Nota de pesar pelo falecimento de Geraldo Kuisitheri Yanomami, liderança do povo Yanomami
Pioneiro, Geraldo foi videomaker nos primórdios do projeto Vídeo nas Aldeias, assim como um dos primeiros professores yanomami, intérprete, microscopista e pesquisador
É com imensa tristeza que o Instituto Socioambiental (ISA) recebe a notícia de falecimento de Geraldo Kuisitheri Yanomami, liderança do povo Yanomami.
Geraldo faleceu aos 57 anos, na noite desta terça-feira (14), em razão de complicações de saúde.
Figura emblemática na luta pela defesa da Terra Indígena Yanomami, a maior do Brasil, Geraldo assinou uma carta em defesa de todas as florestas do mundo junto a Davi Kopenawa na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992, no Rio de Janeiro.
Também em 1992, esteve com Davi no Palácio do Planalto, em Brasília, para a assinatura da homologação da Terra Indígena Yanomami.
Pioneiro em várias frentes de atuação, Geraldo foi um dos primeiros a participar de processos formativos. Foi videomaker nos primórdios do projeto Vídeo nas Aldeias, assim como foi um dos primeiros professores yanomami, intérprete, microscopista e pesquisador.
Na última década participou ativamente da elaboração do Plano de Gestão Territorial e Ambiental da Terra Indígena Yanomami e do Protocolo de Consulta dos povos Yanomami e Ye´kwana, além de ser responsável pelo surgimento e fortalecimento da rede de coletores de castanha e de artesãs Yanomami, projeto desenvolvido pela Hutukara Associação Yanomami (HAY) em parceria com o ISA.
Geraldo foi um dos principais responsáveis pela implementação dos projetos da Hutukara na busca da melhoria na qualidade de vida dos Yanomami e segue como um exemplo para as novas gerações de seu povo. Permanece entre nós a sua garra, coragem, generosidade e simpatia.
O ISA deseja conforto e forças aos familiares, amigos e parceiros de luta da exemplar liderança que foi Geraldo Kuisitheri Yanomami.
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Aimas realizam oficina de manejo das capoeiras e do uso sustentável da sorva no Médio Rio Tiquié
Atividade incentivou debate sobre a influência humana na configuração de paisagens antropogênicas na região
Entre 27 de outubro e 10 de novembro de 2025, a comunidade de Boca da Estrada, no Médio Rio Tiquié (São Gabriel da Cachoeira – AM), sediou a oficina de Manejo das Capoeiras e da Sorva. A atividade contou com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) do Tiquié, reunindo estudantes, professores, artesãos e lideranças para fortalecer práticas indígenas de manejo e discutir estratégias de uso sustentável das capoeiras e da sorva (Couma utilis) — árvore utilizada na produção dos bancos tukano (kumurõ).
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Alunos, professores e consultor na capoeira madura na Comunidade de Boca da Estrada|Danilo Parra
A programação envolveu visitas a capoeiras, identificação de plantas, elaboração de desenhos de perfis das árvores indicadas em categorias de uso e manejo, proporcionando um rico debate sobre a influência da ação humana na configuração de paisagens antropogênicas nesta região.
Manejo das capoeiras
As capoeiras são áreas retomadas pela floresta após o período de uso agrícola. Estas áreas integram ambientes que sustentam o próprio sistema agrícola, uma vez que as plantas cultivadas dependem de solos ricos em fertilidade, que em suma só podem ser restaurados a partir deste processo de reversão da floresta novamente.
Na agricultura indígena do Rio Negro, ao contrário do modelo ocidental, as áreas produtivas não são utilizadas até a sua exaustão: quando a produtividade diminui, a área é deixada para se recuperar, visto que também existe uma série de cuidados que favorecem a regeneração de árvores úteis e funcionais nestes sítios manejados.
Nesse processo a floresta retoma essas áreas, e um conjunto de espécies características de cada estágio de sucessão renasce, cresce e acaba por formar uma nova floresta, revigorando o solo e garantindo roças produtivas ao longo de gerações.
Durante a oficina, os participantes sistematizaram conhecimentos locais e criaram classificações para os estágios de sucessão — das capoeiras novas (Wiakaro Wimaro) às mais antigas, com árvores grossas similares às da mata primária (Buhku Wiakaro).
As conversas destacaram que o manejo cuidadoso, além de evitar a degradação do solo e da própria floresta regenerante, mantém as características do sistema agrícola produtivo e, a depender do tipo de manejo de plantas úteis e funcionais, pode tornar esses ambientes ainda mais ricos.
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Ismael dos Santos desenha o perfil de uma capoeira intermediária, com destaque para árvores cultivadas (vermelho)|Marcus Schmidt
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Apresentação dos desenhos na oficina de capoeiras, com destaque para a categoria de plantas coletadas (amarelo)|Marcus Schmidt
As visitas às áreas de cultivo também mostraram desafios atuais, entre eles a manutenção de algumas práticas tradicionais que asseguravam a produtividade nestes ambientes após sucessivos ciclos de cultivo. Mudanças de hábitos associadas a novas tecnologias têm levado ao uso excessivo de algumas capoeiras e causado o distanciamento das áreas produtivas em relação às comunidades, levando muitas vezes a uma situação de escassez ou raridade de ocorrência de plantas úteis e funcionais, podendo resultar na degradação de algumas dessas antigas capoeiras, a depender dos cuidados considerados durante o período de cultivo agrícola.
A oficina resultou na avaliação de seis capoeiras em diferentes estágios de crescimento e estados de conservação no entorno da comunidade de Boca da Estrada, onde predominam povos de língua Tukano Oriental e Hüpda.
Algumas destas capoeiras mais antigas apresentavam boas condições de solos e presença de plantas úteis que haviam sido cultivadas e cuidadas pelos antigos donos. Estas foram mantidas nestes ambientes a partir da proteção, plantio de mudas e outros tipos de zelos que favoreceram o seu estabelecimento. Enquanto outras capoeiras apresentavam sinais de exaustão, evidenciados pelas características dos solos e da estrutura e composição de plantas. Conforme observado, ambientes de caatinga amazônica – tattahboa – são mais vulneráveis por apresentar solos mais arenosos e menos estruturados.
Os estudantes registraram cerca de 63 espécies de plantas, sendo posteriormente classificadas em 10 categorias de manejo que, em sua maioria, poderiam favorecer o seu estabelecimento nas áreas de capoeiras após os períodos de cultivo. Entre estas 10 categorias de manejo identificadas e traduzidas com o apoio de AIMAS, alunos e professores estavam: 1. corte, 2. manejo de rebrota, 3. cultivo, 4. dispersão de sementes, 5. corte de casca, 6. proteção, 7. coleta, 8. derrubada, 9. poda de galhos e 10. não manejada.
A proposta da oficina foi sensibilizar os comunitários sobre a importância dos cuidados com o manejo das capoeiras, enfatizando os conhecimentos dos agricultores mais experientes e considerando os limites da resiliência destes ambientes, evitando a degradação dos solos e favorecendo a permanência de plantas que apresentam usos específicos.
Os alunos e professores compreenderam a importância em atribuir categorias às plantas, uma vez que o manejo específico dessas categorias pode definir a sua permanência nestes sistemas, tornando as capoeiras mais diversas e sustentáveis.
Sorva: espécie sensível e central para o artesanato
A discussão sobre o uso da sorva (Couma utilis) na produção dos bancos kumurõ para comercialização retomou antigos debates sobre sua sustentabilidade. A sorva apresenta importância cultural para os povos rionegrinos, principalmente por ser a principal madeira utilizada na confecção dos bancos.
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AIMAs e alunos coletam madeira de sorva para a oficina de produção de bancos kumorõ|Marcus Schmidt
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A oficina de produção de bancos kumurõ e manejo da sorva, auxilia na revisão do plano de manejo|Marcus Schmidt
Em oficinas realizadas em anos anteriores, alguns fatores que limitam a sua regeneração e ocorrência em florestas mais antigas já haviam sido identificados, resultando em situações de raridade em algumas localidades ao longo desta região. Segundo estudos realizados pelo consultor Marcus Schmidt junto com a equipe de assessores do ISA na região do Rio Negro, a espécie apresentou situação desfavorável à regeneração natural, requerendo mais atenção e cuidados, aspectos que levaram à elaboração de um plano de manejo, de modo a garantir a sua continuidade entre o sistema produtivo.
Nesse sentido, a oficina de produção de bancos kumurõ e manejo da sorva, além de constituir um encontro de formação de novos artesãos permitiu que os participantes revisassem as estratégias definidas no plano de manejo: o plantio de mudas em roças; o uso de madeiras alternativas; a proteção de mudas regenerantes em capoeiras; e o monitoramento e proteção de matrizes que servem como porta sementes.
Nas iniciativas passadas ligadas ao manejo da sorva, o plantio de mudas já foi experimentado e apesar de algumas experiências positivas não é uma tarefa simples, como relatou o mestre artesão Celestino Azevedo, de Pirarara Poço. Ele conta que fez diversas tentativas até obter sucesso transplantando plântulas pouco enraizadas e geralmente dispersas por animais ao invés de plantar as sementes.
A região carece de um levantamento atualizado das populações de sorva. Apesar de algumas experiências positivas em relação ao plantio não se sabe a situação atual das populações de sorveira no Tiquié, ao que os participantes sugeriram algumas bolsas para jovens pesquisadores, maior envolvimento dos artesãos no plantio e integração da sorva às próprias áreas de roça e capoeiras.
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Finalização da Oficina de produção de bancos kumurõ|Marcus Schmidt
Para a formação dos jovens artesãos foram usados dois pés de sorva, dos quais resultaram mais de 30 bancos. Embora o foco desta oficina tenha sido a produção, os artesãos vêm atualmente discutido com o departamento de negócios da FOIRN os custos e a viabilidade econômica da atividade. Nesse sentido, as estratégias de manejo propostas nas oficinas podem ser uma alternativa interessante no sentido de agregar valor aos produtos e reduzir a pressão sobre o recurso. A sugestão de Marcus Schmidt é de que “toda ação de produção, com finalidades comerciais, deve estar conectada às ações de manejo”.
Integração entre escola, comunidade e território
Os debates da oficina mostraram que o manejo ambiental envolve também a transmissão de conhecimento e o fortalecimento cultural. Benzimentos, narrativas e história de ocupação do território emergiram como parte essencial do cuidado com a roça e com a floresta. Como disse a AIMA Oscarina Caldas, “os benzimentos são como adubo para nós; sem eles, a roça não produz direito”.
Os participantes da oficina contam que os conhecimentos tradicionais devem ser transmitidos nas “Casas de Saber” (vulgarmente chamadas de malocas), motivo pelo qual a comunidade pretende submeter um projeto ao Fundo Indígena do Rio Negro (FIRN) para a construção de uma dessas casas na área da comunidade.
Artesanato, economia e uso sustentável
Paralelamente à oficina de capoeiras e formação de jovens artesãos aconteceram outras atividades que também mobilizaram as mulheres da comunidade. Elas organizaram uma oficina de cerâmica – já que a feitura dos bancos é uma atividade exclusivamente masculina – e moradores da comunidade de Nova Esperança, vizinha a Boca da Estrada, promoveram uma oficina de cestaria Hüpda, utilizando-se da coleta de cipós e outros materiais.
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Mulheres apresentam o resultado da oficina de cerâmica e cestaria Hüpda|Marcus Schmidt
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Meninas apresentam o resultado da oficina de cerâmica e cestaria Hüpda|Marcus Schmidt
Uma agenda contínua de cuidado com o território
As oficinas tiveram grande participação da comunidade, envolvendo estudantes, professores e artesãos. Além de evidenciar a demanda por ações integradas, esse tipo de iniciativa demonstrou que as ações de manejo são mais do que eventos pontuais: elas são parte de um processo contínuo de cuidado com a terra, segundo a fala dos professores, alunos e AIMAs, durante as oficinas de manejo e produção.
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