A Bacia do Rio Negro se estende pelos estados do Amazonas e de Roraima, no Brasil, e também avança pelos territórios vizinhos da Colômbia, Venezuela e Guiana. Na sua porção no Amazonas, a bacia é uma das regiões mais preservadas de todo o bioma amazônico, com biodiversidade incalculável. Por outro lado, a parte da bacia localizada em Roraima vem sofrendo grande degradação ambiental causada pelo garimpo ilegal de ouro, desmatamento e roubo de terra, ou "grilagem de terra".
Aproximadamente 68% da Bacia do Rio Negro no Brasil está formalmente protegida por um conjunto de unidades de conservação e terras indígenas legalmente reconhecidas. A diversidade cultural da região é enorme: ali vivem 45 povos indígenas e estão localizados dois patrimônios culturais do Brasil – a Cachoeira de Iauaretê e o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro – além do ponto mais alto do Brasil, o Pico da Neblina, lugar sagrado do povo Yanomami.
No Rio Negro, o ISA mantém trabalho de longo prazo e parceria institucional - que nos enche de orgulho - com associações indígenas e suas lideranças, entre elas a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), a Hutukara Associação Yanomami (HAY) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Mantemos escritório e equipe na cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), considerado o município mais indígena do Brasil, localizado no Alto Rio Negro. De São Gabriel, também descemos com as águas do Negro para apoiar comunidades e associações indígenas dos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, ambos no Amazonas. Em 2009, o ISA incorporou a organização Comissão Pró-Yanomami (CCPY), sua equipe e legado, abrindo escritório em Boa Vista (RR) e passando a atuar diretamente com o povo Yanomami e outros povos de Roraima.
Atualmente, o ISA atua na Bacia do Rio Negro com a promoção de processos formativos, articulando parcerias para a proteção dos territórios indígenas, valorização da diversidade socioambiental, segurança alimentar das comunidades, desenvolvimento de cadeias de valor da economia da floresta para geração de renda e produção de pesquisas interculturais que dêem visibilidade aos conhecimentos tradicionais e modos de vida das populações que, há muitos anos, mantém as florestas da região preservadas.
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‘Ya Temi Xoa': filme sobre tributo aos Yanomami no Carnaval tem pré-estreia em cinema de Boa Vista
Primeira exibição será para lideranças indígenas e seus parceiros no dia 16 de agosto
Da esquerda para a direita: a liderança Pedrinho Yanomami, o xamã e liderança Davi Kopenawa, a deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG) e o xamã Manoel Yanomami, no desfile das campeãs|Lucas Landau/Hutukara/ISA
O filme Ya Temi Xoa, que registrou a trajetória dos Yanomami no Carnaval de 2024, terá sua pré-estreia em uma sala de cinema nesta sexta-feira (16/08), em Boa Vista (RR). A exibição ocorrerá na Playarte Cinemas do Roraima Garden Shopping, localizado no bairro Paraviana, zona leste da capital.
A primeira exibição acontece para lideranças indígenas Yanomami e parceiros de organizações não governamentais, autoridades de órgãos do governo federal, jornalistas e membros da sociedade civil.
Outros 77 ingressos serão distribuídos para estudantes da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Universidade Estadual de Roraima (UERR) e do Instituto Federal de Roraima (IFRR). Os interessados devem preencher o formulário e aguardar o envio do ingresso no e-mail.
Além do desfile da comunidade da Acadêmicos do Salgueiro em 11 de fevereiro, o filme, que tem 25 minutos de duração, mostra os bastidores dessa história, como uma visita do xamã Davi Kopenawa à quadra da escola e os preparativos finais dos Yanomami para desfilar na Avenida Marquês de Sapucaí.
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Davi Kopenawa, xamã Yanomami, durante a apuração dos desfiles das escolas de samba no Carnaval 2024|Tayná Uráz/Hutukara/ISA
Uma parceria entre a Hutukara Associação Yanomami e o Instituto Socioambiental (ISA), o filme tem a direção assinada por Thomas Mendel e produção de Ariel Gajardo, Carolina Fasolo, Evilene Paixão, Fabrício Araújo, Marina Terra e Roberto Almeida. A narrativa é centrada no encontro de lutas entre a comunidade negra das favelas do Rio de Janeiro e os Yanomami, que vivem na maior Terra Indígena do Brasil, localizada na Floresta Amazônica.
Sobre o desfile
O enredo “Hutukara”, que garantiu o 4º lugar e colocou a Salgueiro entre as seis campeãs do Carnaval do Rio de Janeiro em 2024, exalta a cosmologia e cultura dos Yanomami. Entre as referências para construção do espetáculo está o livro A Queda do Céu - Palavras de um Xamã, escrito por Davi Kopenawa em parceria com o antropólogo francês Bruce Albert.
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Ritmista do Acadêmicos do Salgueiro segura tamborim com a frase “Fora Garimpo”, em referência às invasões na Terra Indígena Yanomami|Thomas Mendel/Hutukara /ISA
Kopenawa também votou o samba enredo da escola - que recebeu 10 de todos os jurados - e auxiliou os carnavalescos na escolha das alegorias a fim de evitar que os Yanomami fossem retratados de forma genérica.
Dos bastidores à apuração do resultado, o filme compila toda a história de união de lutas da comunidade Salgueiro e dos indígenas Yanomami. Após o lançamento em Boa Vista, o filme deve ganhar uma estreia nacional, sendo disponibilizado online.
As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
‘Mapear Mundos’ tem estreia na Mostra Ecofalante de Cinema 2024
Filme une imagens históricas e depoimentos de figuras-chave da luta pela garantia de direitos dos povos indígenas no Brasil; lançamento acontece no dia 3 de agosto
As comemorações dos 30 anos do Instituto Socioambiental (ISA) não param. Com a programação especial “ISA 30 anos: Por um Brasil Socioambiental”, o ISA leva suas produções audiovisuais para a 13ª edição da Mostra Ecofalante de Cinema, que acontece entre os dias 1º e 14 de agosto de 2024 na capital paulista.
Para celebrar esse marco, além da exibição de oito obras produzidas pela organização, acontece a estreia de Mapear Mundos, filme com Beto Ricardo e Fany Ricardo, dirigido por Mariana Lacerda. Após a sessão, no dia 3 de agosto, no cinema Reserva Cultura de São Paulo, acontece um bate-papo com a liderança do Rio Negro, André Baniwa, a vice-presidente do ISA, Marina Kahn, e a diretora.
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André Baniwa (à esquerda) e Beto Ricardo (à direita) em outubro de 1997, na Terra Indígena Alto Rio Negro, no Alto Rio Içana, Amazonas|Pedro Martinelli/ISA
O longa-metragem articula imagens e vídeos do arquivo histórico do ISA com testemunhos atuais para rememorar os passos dados por organizações da sociedade civil na luta pela garantia dos direitos indígenas no Brasil, no contexto da ditadura cívico-militar, apoiando as condições para a articulação do “capítulo dos índios” na Constituição Brasileira de 1988.
O regime ditatorial propagou a falsa ideia de que os indígenas estavam em decrescimento populacional e que a Amazônia era um imenso “vazio demográfico”, argumento utilizado para efetuar a retirada forçada de povos indígenas de seus territórios e exploração de seus recursos. No começo dos anos 1980, Beto Ricardo, antropólogo, ativista, sociólogo e um dos fundadores do ISA, decidiu questionar essa ideia, inventando um método que comprovasse justamente o contrário, de forma científica.
Assista ao trailer:
Beto, ao lado de um grupo de pesquisadores, desenvolveram um sistema próprio para analisar a população indígena nessa e em outras regiões do Brasil , comprovando, por meio de dados, que os indígenas não só não estavam desaparecendo, como suas populações cresciam. Assim, seus direitos deveriam ser permanentes.
“Aos poucos, a imagem dos índios extintos foi substituída por uma imagem da presença importante dos índios como sujeitos políticos promissores”, afirma Beto Ricardo, em depoimento durante o filme.
“Isso foi uma revolução. Entre você ter certeza absoluta de que [os povos indígenas] iam desaparecer e de repente você descobrir que eles não só não vão desaparecer, como serão uma minoria cada vez menos minoria, porque a população indígena estava crescendo mais do que a população nacional. Os índios eram, para todos nós, um resquício do passado. De repente, nós constatamos objetivamente que eles iam ser parte do futuro”, relembra em cena Márcio Santilli, presidente e sócio fundador do ISA.
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"Mapear Mundos" traz registro fotográfico de março de 1988 que mostra mapa elaborado pelo Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI), uma das organizações que deu origem ao ISA, que revelou o assédio de mineradoras às Terras Indígenas na Amazônia|André Dusek/AGIL
O filme conta com outros depoimentos de protagonistas desta luta, como Fany Ricardo, sócia-fundadora do ISA e assessora do Programa Povos Indígenas no Brasil (PIB), Marta Azevedo, demógrafa e antropóloga, André Baniwa, liderança indígena do Rio Negro, Bráz França, liderança do povo Baré e ex-presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), e Dagoberto Lima Azevedo Suegu, antropólogo e liderança do povo Tukano. Bráz França e Dagoberto Suegu infelizmente vieram a falecer antes da estreia, em 31 de julho de 2023 e 11 de abril de 2023, respectivamente.
O longa-metragem refaz os caminhos percorridos para o reconhecimento dos povos indígenas como sujeitos políticos detentores de direitos, destacando a mobilização durante a Assembleia Constituinte de 1987 para incluir no texto constitucional os artigos que versam sobre essa parcela da população.
A obra retrata ainda o processo realizado para a demarcação das Terras Indígenas na região do Alto e Médio Rio Negro, uma conquista do movimento indígena local e que contou com apoio do ISA – sobretudo na propagação de informações que explicavam o que a medida significava para a proteção e preservação dos territórios.
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André Baniwa visita comunidades em parceria ISA/FOIRN para explicar processo de demarcação de Terras Indígenas no Rio Negro, em 1997|Pedro Martinelli/ISA
Sobre o período, Fany Ricardo ressalta a formação de uma rede de informação entre todos os grupos envolvidos, indígenas e não-indígenas, que se transformou em uma parceria duradoura: “Todos tinham o mesmo objetivo, que era o de fortalecer essas populações que estavam em risco”, destaca.
Para o grupo de pesquisadores, colocar os povos indígenas no mapa significava salvaguardar o futuro não só do Brasil, mas do mundo. Garantir a preservação dos conhecimentos ancestrais fundamentais para manter a floresta de pé.
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Beto Ricardo, um dos fundadores do ISA, faz apontamentos em mapa no Rio Negro em 1997|Pedro Martinelli/ISA
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Atuação de Beto Ricardo contribuiu para a garantia de direitos dos povos do Rio Negro|Pedro Martinelli/ISA
Além da exibição na Mostra Ecofalante nos dias 3 e 8 de agosto, Mapear Mundos será apresentado no dia 10 de agosto como parte da programação da Exposição ISA 30 anos no Museu A CASA do Objeto Brasileiro, com a participação da diretora Mariana Lacerda, André Baniwa, Geraldo Andrello, antropólogo e sócio-fundador do ISA, e Silvia Futada, ecóloga e associada do ISA.
Uma parte da trajetória documentada ao longo do filme também foi retratada em “Uma Enciclopédia nos Trópicos”, livro escrito por Beto Ricardo em parceria com o jornalista Ricardo Arnt e lançado em abril deste ano. A publicação traz prefácio do escritor e ativista indígena Ailton Krenak, posfácio do jornalista Leão Serva e conta os bastidores de momentos marcantes da trajetória do antropólogo Beto Ricardo durante o período entre 1970 e 2022, em uma narrativa bem humorada e envolvente.
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Fany Ricardo e Beto Ricardo durante a exibição de "Mapear Mundos" para convidados, em dezembro de 2023, em São Paulo|Claudio Tavares/ISA
Sobre a diretora
Mariana Lacerda é cineasta e documentarista natural de Recife (PE), formada em Jornalismo e mestre em História da Ciência pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Dirigiu Gyuri, filme feito ao lado de Claudia Andujar e Davi Kopenawa, lançado em 2020. Mais recentemente, dirigiu a série infantil para Tv Histórias de Fantasmas Verdadeiros para Crianças (2024) e o filme Eu sou uma arara (2023), ao lado de Rivane Neuenschwander, exibidos em festivais e mostras do Brasil, Alemanha, França, México e Colômbia.
Mostra Ecofalante de Cinema 2024
Reconhecida como o mais importante evento sul-americano para a produção audiovisual ligada às temáticas socioambientais, a Mostra chega à sua 13ª edição com cardápio composto por 122 filmes, representando 24 países. Ao longo do segundo semestre do ano, serão feitas itinerâncias em cidades do estado de São Paulo e em todo o país, com o objetivo de democratizar o acesso às obras excepcionais que incentivem o desenvolvimento sustentável do planeta por meio da educação e da cultura.
Reserva Cultural – Avenida Paulista n° 900, Bela Vista, São Paulo - SP
Centro Cultural de São Paulo (CCSP) – Rua Vergueiro nº 1000, Paraíso, São Paulo - SP
Entrada gratuita
Quinta-feira, 1 de agosto, às 17h15 – Sala 3 do Reserva Cultural
Programação 1
O Brasil Grande e os Índios Gigantes
Panará, A Volta por cima dos Índios Gigantes
Terra Yanomami celebra 30 anos da homologação
Rionegrinas
Sexta, 2 de agosto, às 17h – Sala 3 do Reserva Cultural
Programação 2
Volta Grande
Antes da Chuva
Rio Pardo, o retorno dos beiradeiros ao seu território
Sistema Agrícola Quilombola
Sábado, 3 de agosto, às 16h e às 17h30 – Sala 2 do Reserva Cultural
16h: Estreia de Mapear Mundos
17h30: Bate-papo sobre a atuação do ISA ao longo dos seus 30 anos, avanços e retrocessos em relação à garantia dos direitos dos povos originários, com a liderança do Rio Negro, André Baniwa, a vice-presidente do ISA, Marina Kahn, e a diretora Mariana Lacerda
Terça, 13 de agosto, às 20h – Sala 2 do Reserva Cultural
Exibição de Mapear Mundos
Terça, 13 de agosto, às 14h30 – Sala 2 do Reserva Cultural
Programação 1
O Brasil Grande e os Índios Gigantes
Panará, A Volta por cima dos Índios Gigantes
Terra Yanomami celebra 30 anos da homologação
Rionegrinas
Quarta, 14 de agosto,às 14h15 – Sala 2 do Reserva Cultural
Programação 2
Volta Grande
Antes da Chuva
Rio Pardo, o retorno dos beiradeiros ao seu território
Sistema Agrícola Quilombola
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
“Quero que vocês, brancos, escutem minhas palavras e defendam nossa floresta”
Autores Darysa Yanomami e Mozarildo Yanomami leram cartas para não indígenas no lançamento de 'Diários Yanomami' n' A Feira do Livro de SP
A viagem da Terra Indígena Yanomami até A Feira do Livro, em São Paulo, percorreu mais de três mil quilômetros. Enquanto faziam a longa jornada da terra-floresta Yanomami à "selva de pedra" paulista, Darysa Yanomami e Mozarildo Yanomami escreveram cartas para o público do auditório Armando Nogueira, em mesa que aconteceu no dia 5 de julho.
Os dois, que formam parte do grupo de cinco autores indígenas de Diários Yanomami: Testemunhos da destruição da floresta (ISA, 2024), tiveram a missão de lançar o livro – e fazer ecoar as urgentes palavras do povo Yanomami – em um dos maiores eventos literários do país. Em suas mensagens, um desejo comum: que os povos da floresta e da cidade se unam para lutar contra o garimpo na maior Terra Indígena do Brasil.
“Se todos vocês todos se juntarem a nós, unidos, conseguiremos afastar os garimpeiros e resolver os outros problemas da Terra Indígena Yanomami”, convocou Mozarildo em sua carta. "Eu quero (...) que vocês, brancos, escutem minhas palavras e defendam nossa floresta", pediu Darysa.
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Mozarildo Yanomami e Darysa Yanomami (ao centro), com Fabrício Araújo (esq), do ISA, e Corrado Dalmonego, organizador da obra|Júlio César Almeida/ISA
Durante a viagem e no palco d’A Feira do Livro, os Yanomami estiveram com Corrado Dalmonego, padre missionário da Consolata e do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), um dos organizadores do livro e o responsável pela tradução.
“Agora, vocês não indígenas podem ler as nossas palavras”
Darysa foi a primeira a ler sua carta, escrita à mão em um caderno de anotações. Assim como no livro, a primeira versão do texto, na página ímpar, estava escrita em Yanomami e a página seguinte, traduzida para o português. A pesquisadora optou por ler em português.
“Agora, vocês não indígenas podem ler as nossas palavras. Isso é bom para mim. Ao lerem essas palavras, vocês também irão pensar direito. Vocês vão conhecer o sofrimento de nós Yanomami e quero que também vocês defendam nossa floresta”, diz trecho.
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Darysa Yanomami, n'A Feira do Livro: "Ao lerem essas palavras (...) Vocês vão conhecer o sofrimento de nós, Yanomami"|Júlio César Almeida/ISA
Cada capítulo do livro foi escrito por um pesquisador Yanomami. Darysa é responsável pelo terceiro capítulo, com cinco episódios ao todo. Ela entrevistou mulheres Yanomami de diversas regiões e também hospedadas na Casa de Saúde Indígena em Boa Vista (Casai) e transcreveu as conversas na íntegra.
Para Dalmonego, “o bonito deste livro é ser coletivo e colaborativo. Além de suas vozes, os autores trazem a de parentes, de lideranças e as vozes da floresta que está morrendo”, disse.
O capítulo de abertura é literalmente um diário escrito por Mozarildo Yanomami. Durante a mesa, o mediador Fabrício Araújo, jornalista do Instituto Socioambiental (ISA), leu o início do capítulo descrevendo que aquele trecho em específico o havia fisgado para a leitura completa do livro:
“Os garimpeiros pensam, ‘será que os Yanomami não têm sentimentos?’, e dizem: ‘nós, garimpeiros, não temos medo de vocês, Yanomami’. Fico angustiado porque eles semeiam o medo entre nós, por isso, advirto vocês.”
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“Os garimpeiros pensam, ‘será que os Yanomami não têm sentimentos?’", pergunta Mozarildo Yanomami em trecho do livro|Júlio César Almeida/ISA
Alfredo Himotona é o autor do segundo capítulo, que traz entrevistas com outros Yanomami. Josimar Palimitheli também apresenta o formato de diários no quarto capítulo, enquanto Márcio Hesina, que escreveu a última parte do livro, apresenta notas de uma pesquisa sobre o emagrecimento de crianças.
Na manhã do dia seguinte, os Yanomami e Corrado Dalmonego retornaram à feira para prestigiar uma mesa que contou com a participação da antropóloga e escritora Hanna Limulja, amiga de longa data que escreveu O desejo dos outros – Uma etnografia dos sonhos yanomami, livro sobre os sonhos na cosmologia Yanomami.
À tarde, seguiram para o Museu A CASA do Objeto Brasileiro, que até 25 de agosto recebe a exposição ISA 30 anos: por um Brasil socioambiental. Com lotação máxima, eles assistiram ao filmeEscute: A Terra Foi Rasgada, que aborda o problema do garimpo em Terras Indígenas de três povos – Kayapó, Yanomami e Munduruku – e cuja exibição gratuita contou com falas de Enio Yanomami, responsável pelo setor de saúde da Hutukara Associação Yanomami (HAY), e da diretora Cassandra Mello.
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Casa cheia para assistir a 'Escute: A terra foi rasgada' e ao bate-papo com Enio Yanomami no Museu A CASA do Objeto Brasileiro|Adriana Miranda/ISA
No domingo, foi a vez de conhecer o Museu das Culturas Indígenas (MCI) e os parentes do povo Guarani, na Terra Indígena Jaraguá. Em uma visita guiada por Karai Djekupe (Thiago Guarani) à Tekoa Yvy Porã-Jaraguá, eles puderam aprender sobre a história de uma das menores Terra Indígena do Brasil e as atividades que os indígenas desenvolvem, como a criação de abelhas, oficinas de armadilhas para crianças e rituais sagrados. Depois disso, ainda tiveram fôlego para subir o Pico do Jaraguá – o ponto mais alto de São Paulo – em uma trilha de cerca de 40 minutos.
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Darysa e Mozarildo Yanomami posam em frente a mural com pinturas Yanomami, no Museu de Culturas Indígenas de São Paulo|Daniel Jabra
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Mozarildo Yanomami observa a cidade do topo do Pico do Jaraguá|Daniel Jabra
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Darysa Yanomami caminha até o final da trilha até o Pico do Jaraguá|Daniel Jabra
No dia seguinte, retornaram na longa viagem até a terra-floresta Yanomami, enquanto suas palavras seguiam ecoando pela cidade de concreto. “Eu não escrevi à toa. Todos vocês, brancos, que vivem em diversos lugares, e que agora estão aqui nesta Feira do Livro de São Paulo, olhem este livro! Depois que vocês lerem este nosso livro, vocês irão pensar direito! Vocês vão nos defender dos garimpeiros que provocam todo este sofrimento”, convocou Mozarildo Yanomami em sua carta aos não indígenas.
A produção editorial é assinada por Estêvão Senra, geógrafo do ISA, que também faz parte dos times de organização e edição junto a Alcida Ramos e Corrado Dalmonego. A tradução de Yanomae para Português foi feita por Dalmonego conjuntamente com os pesquisadores.
A publicação tem apoio do Fundo das Nações Unidas para a criança e adolescente (UNICEF), da Rainforest Foundation Norway e do Centro de Documentação Indígena (Missionários da Consolata). Também contribuem com apoio financeiro o Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO) da União Europeia.
Certo, eu fiz minha pesquisa porque nós Yanomami queremos viver bem e com saúde.
Depois de fazer esta pesquisa e de de fazer conhecer o que escrevemos quero que também outros Yanomami fiquem esclarecidos.
Mas eu quero também que vocês brancos escutem minhas palavras e defendam nossa Floresta, por isso fiz esta pesquisa.
Nós Yanomami não queremos sofrer. Nós queremos viver em uma Floresta bonita por isso quero fazer ouvir minhas palavras.
Eu escrevi minha pesquisa, depois de escrever no caderno, eu digitei no computador, e depois o Corrado fez a tradução.
Em minha pesquisa, eu perguntei para as mulheres Yanomami. Elas escutam que os garimpeiros devastam nossa Floresta, elas veem que nossos filhos sofrem desnutrição e dizem com força que não querem que os garimpeiros se aproximem. Quando os garimpeiros
ficam perto, a floresta fica poluída, suja , os peixes
acabam, as crianças emagrecem, é assim que as pessoas ficam.
Para mim foi bom fazer pesquisa, por isso fico contente com este trabalho.
Agora, nossa pesquisa se tornou um livro, é visível, por isso estou satisfeita.
Agora, vocês não indígenas podem ler as nossas palavras. Isso é bom para mim.
Neste livro tem o pensamento de nós mulheres Yanomami: como nós verdadeiramente pensamos.
Ao lerem essas palavras, vocês também irão pensar direito.
Vocês vão conhecer o sofrimento de nós Yanomami e quero que também vocês defendam nossa floresta.
Certo, é assim que eu queria falar para vocês em São Paulo, eu mesma que fiz esta pesquisa.
Carta de Mozarildo Yanomami aos não indígenas
Eu sou pesquisador yanomami e trabalhei junto com os meus parceiros do Instituto Socioambiental, da Diocese de Roraima e da Hutukara Associação Yanomami. Nós fizemos a pesquisa chamada Urihi Temi (para nós significa Floresta Viva) e escrevemos sobre a destruição que o garimpo ilegal está provocando na nossa terra yanomami.
Começamos a trabalhar nesta pesquisa em 2021, mas eu já tinha conhecimento do que acontecia antes. Eu morei em duas regiões da terra Yanomami: morei mesmo onde os garimpeiros trabalham faz muito tempo, e também em outro local onde destruíram só um pouco e foram embora. Eu vi tudo isso com meus olhos.
Estas organizações nos ajudaram a fazer a pesquisa, por isso, agora, vocês podem ver o nosso trabalho que virou um livro.
Se eu tivesse trabalhado sozinho, pouca gente teria como ler minhas palavras. O Instituto Socioambiental, a Diocese de Roraima e a Hutukara nos apoiaram. Por isso, agora vocês podem ler este livro e podem conhecer o que os garimpeiros provocam onde nós moramos, na nossa Terra Yanomami. As palavras escritas neste livro mostram a destruição provocada pelo garimpo, por isso, vocês escutem estas palavras!
Eu não escrevi à toa. Todos vocês brancos, que vivem em diversos lugares, e que agora estão aqui nesta Feira do Livro de São Paulo, olhem este livro! Depois que vocês lerem este nosso livro, vocês irão pensar direito! Vocês vão nos defender dos garimpeiros que provocam todo este sofrimento.
Eu sei que vocês de longe, vocês que moram aqui em São Paulo, já nos defenderam. Eu sei que vocês já conhecem o sofrimento que os garimpeiros causam aos Yanomami. Eu sei que vocês sabem que a floresta está sendo destruída. Alguns de vocês querem aprender com o livro que nós escrevemos.
Depois que vocês terão lido este livro eu ficaria feliz que pudessem fazer pressão sobre os deputados, os senadores e os outros políticos que tomam as decisões no Brasil.
Eu sei... tem gente, entre os brancos, que pensa que os garimpeiros podem ficar na terra yanomami. Tem pessoas que pensam assim. Aqui no Brasil, moramos nós indígenas, os Yanomami e os indígenas de outros povos, e também vocês não indígenas, mas alguns dos brasileiros têm ódio de nós Yanomami e não nos protegem da agressão dos garimpeiros.
Assim, eu penso que com a nossa pesquisa, todos podem ouvir nossas palavras e nos proteger. Por isso eu fico feliz que nosso livro seja conhecido.
Eu penso também que se vocês todos se juntarem a nós, unidos, conseguiremos afastar os garimpeiros e resolver os outros problemas da terra Yanomami. É também por isso que eu fiz esta pesquisa. Falo isso para vocês. Pensem isso, depois de ler nossas palavras
Eu quero também falar minhas palavras para os brancos de longe: os de outras terras que falam línguas diferentes, mas que nos defendem. Fiquem de olho no que acontece! O que escrevemos é tudo verdade! Escutem nossas palavras! Nós, aqui, não estamos vivendo nada bem.
O nosso pensamento não está sossegado. Nós estamos muito preocupados! Não vivemos mais no silêncio e na tranquilidade da floresta. É por isso que eu quero divulgar nossas palavras.
Assim, penso que talvez nossa floresta poderá se tornar, de novo, bonita. Eu espero que vocês, lendo nossas palavras, possam pensar direito.
Todos vocês brancos já sabem que os garimpeiros estão nos destruindo. Vocês sabem o sofrimento do meu povo, sabem que estão destruindo a floresta, os rios, os peixes e o barulho de seus maquinários está espantando os animais.
Isso deixa com raiva! Por isso fiz esta pesquisa que virou livro.
É isso que eu queria dizer aqui, para vocês, em São Paulo.
Estamos lançando este livro. Diários da Floresta.
Vocês em português, dizem que é um “livro” e nós yanomami chamamos isso de “papel sipë” “pele de papel”.
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Assembleia elege primeiro presidente Baniwa da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro
FOIRN será conduzida por Dário Baniwa e Janete Desana, eleita primeira vice-presidente mulher. Gestão de Marivelton Baré teve como desafios a pandemia e o governo Bolsonaro, mas saiu fortalecida
A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), que atua na Bacia do Rio Negro, tem novo diretor-presidente. Os povos do Rio Negro elegeram durante a XVII Assembleia Geral Ordinária Eletiva, em São Gabriel da Cachoeira (AM), na sexta-feira (28/06), Dário Casimiro, do povo Baniwa. É a primeira vez que um representante do povo Baniwa estará à frente da federação. O atual diretor-presidente é Marivelton Barroso, povo Baré, que esteve no cargo por dois mandatos.
Janete Alves, do povo Desana, é a nova vice-presidente, sendo a primeira mulher a assumir o cargo. A diretoria é composta ainda por Carlos Nery, do povo Piratapuya, Hélio Lopes, do povo Tukano e Edson Cordeiro, do povo Baré.
A nova composição, que será empossada em agosto, assume a FOIRN em um momento de crescimento e fortalecimento da federação e do movimento indígena – no cenário regional e nacional.
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Marivelton Baré (centro) ladeado pelo novo presidente da FOIRN, Dário Baniwa, e a nova vice-presidente, Janete Desana|Ana Amélia Hamdan/ISA
Além disso, as pautas indígenas vêm ganhando atenção no mundo todo, em grande parte devido à emergência climática. Isso porque os modos de vida dos povos originários representam uma alternativa à crise, porém, são também os mais ameaçados pelas mudanças climáticas.
Em depoimento logo após a eleição, Dário Baniwa agradeceu aos delegados e falou sobre a luta por direitos territoriais. “Em nome do povo Baniwa e Koripako, eu quero agradecer às lideranças que me antecederam e, em especial, ao nosso amigo Isaías Fontes, in memoriam. E quero agradecer a todos os povos indígenas do Rio Negro. Contem comigo: estamos juntos em prol dos direitos territoriais para o nosso bem viver. Na história de lutas e conquistas dos povos do Rio Negro, especificamente os Baniwa chegam pela primeira vez à presidência da FOIRN”, declarou.
Isaías Fontes, do povo Baniwa, foi diretor da FOIRN entre 2016 e 2020 e havia sido reconduzido para o segundo mandato quando faleceu, em fevereiro de 2021, após contrair Covid-19.
“Vamos fazer uma gestão com os cinco diretores. Precisamos de uma gestão democrática, dialógica. Estou aberto às orientações das lideranças mais antigas. E digo aos nossos parceiros: a FOIRN estará de braços abertos para o diálogo, para acordos de cooperação técnica e que possam trazer apoios em prol de nossos direitos”, disse Dário Baniwa.
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Votação parcial dos candidatos à direção da FOIRN. Dário Baniwa foi eleito novo diretor-presidente da federação indígena |Ana Amélia Hamdan/ISA
Janete Alves também agradeceu aos povos do Rio Negro e falou da representatividade de jovens e mulheres. “Quero agradecer pelo voto de confiança. Agradeço em especial à minha coordenadoria [Coordenadoria das Organizações Indígenas do Distrito de Iauaretê] COIDI e a todas as delegações que votaram em mim. Eu venho lutando pela conquista de espaço para as questões de gênero e juventude. E a gente mostra como movimento indígena que temos dado essa oportunidade para mulheres e jovens. Para mim é um marco histórico eleger uma vice-presidente. Para mim é uma honra”, comemorou.
Em uma fala emocionada, o atual diretor-presidente, Marivelton Baré, agradeceu aos povos do Rio Negro, parabenizou os eleitos e falou dos desafios a serem enfrentados.
“Foi a nossa luta incansável e conjunta que nos trouxe até aqui. O movimento é o controle social: a gente luta e conquista. Para a gente, é um sonho fortalecer a FOIRN. Peço aos parceiros, financiadores e lideranças que mantenham o compromisso conosco. Movimento indígena é luta, é direito coletivo. Nós vamos ter que defender o processo de demarcação de terra e temos o desafio de segurança na fronteira, do monitoramento, da proteção territorial, dos direitos humanos”, elencou.
A assembleia aconteceu no auditório do Instituto Federal do Amazonas (Ifam) e contou com 150 delegados – 30 de cada uma das cinco coordenadorias da federação – um modelo democrático reconhecido nacionalmente. O encontro multiétnico reuniu indígenas dos povos Baniwa, Koripako, Desano, Baré, Tukano, Tuyuka, Piratapuya, Tariano, Wanano, Yanomami, Dâw, Hupä´h, entre outros.
Liderança histórica do Rio Negro, Maximiliano Correa Menezes, do povo Tukano, afirmou que um dos grandes desafios da FOIRN é crescer sem perder o contato com as bases, ou seja, com quem está no território indígena. “É necessário termos presença constante dos diretores nas bases. Estar em Brasília e Manaus é importante, mas não podemos descuidar dos nossos projetos de sustentabilidade no território”, recordou. Ele acompanhou o surgimento da FOIRN – que completou 37 anos em 2024 – e fez parte da diretoria por 12 anos.
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Maximiliano Correa Menezes, do povo Tukano, trouxe reflexões sobre o movimento indígena para a assembleia da FOIRN|Ana Amélia Hamdan/ISA
A FOIRN conta atualmente com 74 funcionários e cerca de 330 colaboradores, entre comunicadores, articuladores, agentes ambientais e outros, e 92 associações. Durante a atual gestão, a federação triplicou o número de funcionários e passou a ter novos parceiros.
“Este crescimento teve como base projetos que ampliam e aprofundam os eixos de ação em que a Federação atua e que foram acordados com sua base a partir da elaboração de 10 PGTAs (Planos de Gestão Territorial e Ambiental) publicados. Foi possível fortalecer as instâncias de governança, aumentando o número de conselheiros, de participantes nas assembleias e ampliar seus departamentos que agora contam com articuladores regionais nas áreas de educação, jovens, comunicadores e mulheres indígenas”, analisou o antropólogo do Instituto Socioambiental (ISA), Renato Martelli.
Dário Baniwa e Janete Desana foram reeleitos como diretores de referência das coordenadorias regionais Nadzoeri e Coidi, respectivamente. Carlos Nery fica à frente da Caimbrn, antes ocupada pelo diretor-presidente Marivelton Barroso, povo Baré. Hélio substitui Nildo Fontes, Tukano, que atuava como vice-presidente e diretor de referência da Diawi´i. Edson Gomes, povo Baré, fica no lugar de Adão Francisco, povo Baré, da Caibarnx.
A FOIRN atua numa das regiões mais preservadas da Amazônia, em área de abrangência dos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, na Bacia do Rio Negro, no Amazonas. São 23 povos indígenas que convivem ancestralmente num território de aproximadamente 13 milhões de hectares com 12 Terras Indígenas reconhecidas e outras em processo de identificação pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
Desde as roças tradicionais até os rituais de proteção, o Alto e Médio Rio Negro resguardam um modo de vida indígena diverso, com um sistema político e de trocas que resiste milenarmente.
Mas a região sofre com a deficiência de políticas públicas referentes às mais diversas áreas, como saúde, educação, meio ambiente e segurança pública. Ainda assim, junto com os parceiros, a FOIRN vem constantemente propondo projetos que levam em conta a realidade local e a cultura ancestral indígena, atuando em áreas como etnoeducação, economia da sociobiodiversidade, proteção territorial e medidas de mitigação às mudanças climáticas.
Entre os problemas enfrentados estão as pressões crescentes do narcotráfico, garimpo, turismo ilegal, além de violência de gênero. Os impactos das mudanças climáticas também estão sendo sentidos, com a região passando por dois anos de cheias extremas e, em 2023/2024, pela seca histórica.
Alianças e parcerias
A assembleia da FOIRN aconteceu entre os dias 25 e 28 de junho. Foram debatidos temas como o crescimento da federação, fortalecimento de sua atuação como controle social e das associações de base para a sustentabilidade de projetos da sociobioeconomia e, ainda, transição geracional dentro do movimento indígena e a incidência para as políticas públicas de longo prazo de forma a implantar os PGTAs.
A aliança com instituições governamentais e não governamentais é uma das marcas de atuação da FOIRN e continua sendo apontada como uma forma de fortalecimento dos povos indígenas.
Vários parceiros estiveram presentes na reunião. A coordenadora-adjunta do Programa Rio Negro do ISA, Natália Pimenta, apresentou o planejamento estratégico do ISA e projetos em desenvolvimento no território, orientados a fortalecer os espaços de transparência com os parceiros.
“O ISA trabalha com a defesa dos direitos sociais das comunidades tradicionais. Esse trabalho só faz sentido em diálogo com as organizações que estão no território e são detentoras dos conhecimentos de suas regiões. Temos olhado, junto com a FOIRN, para a necessidade de uma formação intercultural para as equipes técnicas da federação, as associações e lideranças. Essa formação deve ser continuada, considerando que há novas lideranças jovens chegando e há preocupação com a transição geracional”, sublinhou.
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Natália Pimenta, coordenadora-adjunta do Programa Rio Negro do ISA, apresentou o planejamento estratégico da instituição|Ana Amélia Hamdan/ISA
A coordenadora da Funai - Coordenação Regional Rio Negro – CR-RN, Maria do Rosário Piloto, Dadá Baniwa, falou da importância das parcerias para o enfrentamento aos desafios da região do Rio Negro e fortalecimento dos povos indígenas, citando o Acordo de Cooperação Técnica (ACT) assinado entre Funai, FOIRN e ISA.
Chefe do ICMBio em São Gabriel da Cachoeira, Daniel Assis falou sobre a atuação conjunta com a FOIRN e o ISA nas TIs em sobreposição com o Parque Nacional Pico da Neblina.
Para Mariazinha Baré, da Apiam, a FOIRN é uma escola para outras organizações. “Com seus 37 anos, dentro de um processo de luta, a FOIRN tem sede própria e faz sua própria gestão administrativa e financeira. Esse foi um sonho dos que antecederam as atuais lideranças. É necessário também pensar em como manter a qualificação de pessoal em diálogo constante com o movimento indígena para uma formação técnica, mas também crítica e política. A formação deve qualificar futuras lideranças para que possam ser propostivas”, ponderou.
Toya Machinery, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), indica que a FOIRN vem se consolidando como referência na Amazônia e se torna exemplo para outras regiões. “Vimos a transformação e o fortalecimento da FOIRN, com um modelo político e administrativo que fortalece as ações no território. A gente vê que só demarcar não faz que o território fique nas mãos dos povos, é necessário termos atuações diversas. A FOIRN se consolida como exemplo na Amazônia. Com apoio de parceiros como [Operação Amazônia Nativa] Opan, Conselho Indigenista Missionário [Cimi] e ISA, temos conquistas na Amazônia: são 110 milhões de hectares de Terra Indígena na Amazônia Brasileira. Queremos fortalecer essa atuação e as organizações em outras regiões também”.
Pela primeira vez, o encontro foi transmitido ao vivo pelas redes sociais da FOIRN, com atuação do Departamento de Comunicação (Decom) e Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas do Rio Negro. O cineasta indígena Kamikia Kisedje participou da cobertura. Segundo a coordenadora do Decom, Gicely Ambrosio, a transmissão foi acompanhada de vários lugares do território indígena, como Querari, São Joaquim, Iauaretê e Maturacá.
Fortalecimento da Foirn
Marivelton Baré ocupou dois mandatos como diretor-presidente da FOIRN (2016-2020 e 2020-2024). Antes de assumir a presidência, foi diretor de referência para a sua região. Ele esteve à frente da federação durante o governo Bolsonaro – declaradamente anti-indígena – e a crise sanitária da Covid-19.
Marivelton assumiu a coordenação do Comitê de Combate e Enfrentamento à Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira, tendo papel essencial na articulação de parcerias para garantir estrutura mínima de atendimento aos povos indígenas. O enfrentamento à pandemia na região também foi marcado pelo fortalecimento dos conhecimentos da medicina indígena.
Em São Gabriel da Cachoeira, um marco do fortalecimento da FOIRN foi a inauguração de uma segunda sede, em fevereiro. Ainda durante a gestão de Marivelton Barroso e a diretoria de Nildo Fontes, Janete Desana, Dário Baniwa e Adão Francisco, foi aprovado o Protocolo de Consulta dos Povos do Rio Negro, importante instrumento de proteção e garantia dos direitos.
Outro ponto importante foi o fortalecimento da economia da sociobiodiversidade: a Casa Wariró ampliou negócios e vem construindo parcerias com as artesãs e artesãos dos Rio Negro para levar adiante o artesanato e a cultura do Rio Negro, gerando renda e protegendo a cultura. Há ainda a estruturação dos projetos de turismo de base comunitária, como o Yaripo, no Território Yanomami, e Serras Guerreiras de Tapuruquara.
Na área de comunicação, a FOIRN fortaleceu o Departamento de Comunicação (Decom) e ampliou conexões, com a instalação de aproximadamente 330 antenas Starlink no território.
A Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas inaugurou a rádio web e mantém três programas de rádio semanais, além de atuação nas redes sociais. O coletivo de comunicação indígena recebeu dois prêmios em reconhecimento à sua atuação: do Repórteres sem Fronteiras e World Justice Project, em Haia, na Holanda.
Em relação às pesquisas interculturais, houve a ampliação da rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs), que observam o ambiente nas comunidades da Amazônia, fazendo anotações em diários e tablets. Para fortalecimento das associações e defesa do território, foram contratados advogados indígenas.
O Departamento de Mulheres Indígenas (DMIRN) e o Departamento de Adolescentes e Jovens Indígenas (DAJIRN) passaram a contar com o coordenador e com articuladores nas bases, de forma a ampliar a representatividade. Atualmente, o coordenador do DAJIRN é Elson Kene, povo Baniwa, e do DMIRN é Cleocimara Reis, povo Piratapuya.
“Como mulheres, ainda temos desafios para encontrar espaços e desenvolver projetos. Mas o DMIRN é um exemplo para mulheres de outras regiões e daqui também. Isso nos fortalece”, disse Cleocimara Reis.
Luciane Lima, povo Tariano, está à frente do Departamento de Negócios da Sociobiodiversidade. Ela ressalta que nos últimos anos a Wariró recuperou a confiança dos artesãos por meio de articulações e encontros regionais nas comunidades indígenas. O Departamento de Educação Indígena é coordenado por Melvino Fontes, povo Baniwa. Hildete Araújo está à frente do Departamento de Patrimônio Cultural e Pesquisa Intercultural.
Na abertura da Assembleia da FOIRN, o diretor eleito Edson Gomes, do povo Baré, trouxe uma reflexão sobre as mudanças na região. “Vocês estão chegando das mais diversas calhas dos rios: Içana, Xié, Baixo Rrio Negro, Alto Rio Negro. Vieram de voadeira, barco, expresso. Alguns vieram de avião. Antigamente não existia isso. Nossos avós remavam dias para chegar ao local. As pessoas que iniciaram essa discussão que damos continuidade hoje, remavam. Por que estou dizendo isso? Este é o momento de a gente refletir em que ponto estamos. E o que queremos conseguir ainda.”
Conheça a nova diretoria da FOIRN:
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Nadzoeri (Organização Baniwa e Koripako)
Diretor de referência: Dário Emílio Casimiro, povo Baniwa
Dário Baniwa, de 38 anos, nascido na comunidade de Nazaré, é do clã Waliperi-Dakenaii dos Baniwa. Formado em educação indígena e mestre em antropologia social pela UFAM, atua como professor e assessor pedagógico. Após concluir o mestrado, voltou a São Gabriel da Cachoeira e assumiu a coordenação do departamento de educação da FOIRN. Em 2021, foi eleito diretor de referência da Nadzoeri e reeleito em 2024. Em 28 de junho, tornou-se o primeiro de seu povo a ser eleito diretor-presidente da FOIRN. Fala Baniwa e Nheengatu.
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COIDI (Coordenadoria das Associações Indígenas de Iauaretê)
Diretora de referência: Janete Figueiredo Alves, povo Desana
Janete Alves, nascida em Caruru Cachoeira, mudou-se para Iauaretê para acessar a educação. Lá, integrou a Pastoral da Igreja Católica e a Associação das Mulheres Indígenas (Amidi). Em 2017, foi eleita coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas da FOIRN, atuando na linha de frente contra a Covid-19. Em 2021 e 2024, foi eleita diretora de referência da Coidi. Em 28 de junho, tornou-se vice-presidente da FOIRN. Janete, de 37 anos, fala Tukano e Desano.
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Diawi´i (Coordenadoria das Organizações Indígenas do Tiquié, Uaupés e Afluentes)
Hélio Gessem Monteiro Lopes, povo Tukano
Nascido na comunidade de Colina do Rio Tiquié e criado em Taracuá, Hélio Lopes, de 30 anos, é o mais jovem diretor da FOIRN. Interrompeu o curso de técnico em administração para servir na Aeronáutica. Voluntário no movimento indígena, apoiou a Associação das Mulheres Indígenas da Região de Taracuá (AMIRT). Em 2022, participou do Acampamento Terra Livre, fortalecendo a luta indígena em meio a um contexto político adverso. Em 2024, foi eleito diretor de referência da região da Diawii. Hélio é do grupo Tukano Oákahapea e fala Tukano.
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CAIMBRN (Coordenadoria das Associações Indígenas do Médio e Baixo Rio Negro)
Carlos Alberto Teixeira Neri, povo Piratapuya
Carlinhos Neri, 51 anos, de Santa Isabel do Rio Negro (AM), formou-se técnico em agropecuária pelo IFAM. Engajou-se no movimento indígena após ser convidado pelo irmão para uma assembleia da ACIMRN. Atuou na proteção territorial e desenvolvimento de projetos culturais e socioeconômicos. Integrante do projeto que tornou o Sistema Agrícola do Rio Negro patrimônio cultural pelo Iphan, foi eleito diretor de referência para CAIMBRN em 2024. Fala Tukano e Nheengatu.
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CAIBARNX (Coordenadoria das Associações Indígenas do Balaio, Alto Rio Negro e Xié)
Edson Cordeiro Gomes, povo Baré
Edson Gomes, de 40 anos, filho de professores, sempre viveu na região do Alto Rio Negro. Participou da Pastoral da Juventude e atuou como professor. Envolveu-se no movimento indígena, trabalhando no Departamento de Educação e no Departamento de Negócios da Sociobiodiversidade da FOIRN. Em 2023, participou da tradução da Constituição para Nheengatu. Este ano, foi eleito diretor da CAIBARNX. É falante de Nheengatu e fundador da Academia de Língua Nheengatu.
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A não solução de Múcio para a invasão da Terra Yanomami
O presidente e sócio fundador do ISA, Márcio Santilli, comenta afirmação feita pelo ministro da Defesa, José Múcio, que defendeu o acesso de empresas de mineração à maior terra indígena do país
Márcio Santilli
- Sócio fundador e presidente do ISA
Indígenas Yanomami aguardam para receberem atendimento médico, em janeiro de 2023| Fernando Frazão/Agência Brasil/2023
*Artigo publicado originalmente no site do Congresso em Foco, em 21/06/24.
No último dia 7, a revista Carta Capital informou que o ministro da Defesa, José Múcio, defendeu o acesso de empresas de mineração à Terra Indígena Yanomami, como forma de substituir o garimpo ilegal, porque o governo não dispõe de recursos para cuidar da segurança regional. “Nós ficamos lutando pela conquista de um território que nós poderíamos estabelecer que a iniciativa privada poderia nos ajudar na ocupação do território”, disse. Segundo ele, “o índio ganharia”. As afirmações foram feitas no Seminário Internacional sobre Segurança Pública, Direitos Humanos e Democracia”.
Ele ainda complementou que isso já é feito em outros países. “Esse modelo seria brasileiro? Não, esse modelo é americano – Las Vegas é dos índios –, da Nova Zelândia, do Canadá, da Austrália. Esse modelo já funciona no mundo. Tirar os bandidos do processo e botar a sociedade para participar das áreas dos indígenas. Eles receberiam bem mais e as terras estariam preservadas”.
A declaração de Múcio causou perplexidade, pois o território Yanomami fica na fronteira com a Venezuela e o Exército mantém, na área, pelotões de fronteira para garantir a segurança nacional. Ele ignorou o questionamento já feito pelo presidente Lula sobre como o Exército defenderia o país de uma invasão externa, se não é capaz de erradicar o garimpo predatório.
Os garimpos que operam na região são altamente capitalizados, dominados por pequenos grupos poderosos, que mobilizam e manipulam a mão de obra informal de milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade. Dispõem de sofisticada logística aérea, que utiliza uma rede de pistas de pouso clandestinas, inclusive em território venezuelano. Investigações da Polícia Federal comprovam fortes vínculos entre os garimpos e o narcotráfico, envolvendo facções do crime organizado de ambos os países.
Risco reputacional
Múcio não parece preocupado com a reputação das Forças Armadas. Nem com a dele próprio, já que, sendo o ministro que responde pela estratégia de defesa nacional, não deveria embarcar numa tese tão mal informada. O ouro que ocorre é de aluvião e está presente em vários cursos d’água do território. Não há pesquisa mineral que comprove a existência de jazidas profundas, adequadas à mineração industrial convencional e legalizada.
A pesquisa é indispensável para localizar e dimensionar a jazida, além de identificar outras características relevantes para aferir a viabilidade econômica da sua exploração. Naquelas condições, o custo da própria pesquisa seria elevado e não seria possível realizá-la em áreas sob controle do garimpo. Retirar os garimpeiros seria condição básica para o ingresso de qualquer empresa.
Mesmo liberadas dos invasores, áreas degradadas por garimpo implicam um gigantesco passivo, adicional aos custos operacionais e logísticos, que não interessa a qualquer empresa. O garimpo depreda a própria jazida, erodindo o seu potencial de rentabilidade.
Além disso, em se tratando do povo Yanomami, conhecido no mundo todo, qualquer empresa séria levaria em conta o enorme risco reputacional inerente (que Múcio desprezou). Problemas operacionais, danos ambientais e conflitos com indígenas poderiam causar danos irreparáveis de imagem, dificultando o acesso a fundos de investimentos e a mercados mais exigentes.
Abdução
O modelo “Las Vegas” que Múcio deseja aplicar aos Yanomami é totalmente impróprio para uma população indígena de recente contato e que ainda dispõe de grupos isolados, que sequer mantêm relações regulares com a sociedade nacional. As áreas de mineração aventadas, no Canadá, Austrália e outros países, estão em geleiras ou em desertos que nada têm a ver com a Amazônia, com a sua biodiversidade e sistema hídrico.
Além disso, o modelo de Múcio está longe de ser o mais conveniente, pois são frequentes os conflitos entre empresas de mineração e povos originários nesses países. O ministro poderia balizar melhor as suas declarações se estivesse informado sobre os contratos já existentes entre a Vale e os Xikrin do Cateté (PA), ou da Paranapanema com os Waimiri-Atroari (AM), cujos territórios são vizinhos das minas.
Se José Múcio encontrar uma empresa que encare o risco reputacional, ocupe e retire os invasores de uma área de garimpo, assuma o passivo, pesquise e descubra uma jazida economicamente viável e banque os custos inerentes, conseguirá comprovar, apenas pontualmente, a sua hipótese. A substituição se dará na área daquela jazida, não afetando as demais áreas invadidas pelo garimpo.
A hipótese de Múcio pressupõe, ainda, a regulamentação em lei da pesquisa e lavra de minérios em Terras Indígenas, prevista na Constituição, mas até hoje não efetivada pelo Congresso. O tema está implícito numa ação direta de inconstitucionalidade por omissão (ADO), a ser julgada pelo STF, mas não há data para uma decisão. Por isso, a tese carrega muitas dúvidas sobre a disposição do Ministério da Defesa para retirar os invasores e proteger o território indígena até lá e depois.
O que fazer
Múcio deveria encarar de frente não apenas o custo e a ineficácia das operações intermitentes de retirada de garimpeiros, mas também dos pelotões de fronteira que não atendem às ameaças presentes. Deveria rever o atual sistema de controle do tráfego aéreo e considerar a implantação de uma base intermodal, que acolha todos os órgãos públicos e seja capaz de monitorar todos os acessos à região.
Com o respaldo do presidente Lula e do Itamaraty, Múcio poderia articular acordos de cooperação com a Guarda Nacional da Venezuela, para impedir o trânsito de garimpeiros e de insumos entre os dois países, combater o crime organizado e desenvolver ações assistenciais conjuntas para as comunidades fronteiriças.
Deveria, também, promover a incorporação da crise climática à visão estratégica das Forças Armadas (FAs), apequenada pelo negacionismo nos últimos anos. As FAs devem se antecipar à emergência, em vez de atuar a reboque dela. As Terras Indígenas e outras áreas de floresta são fundamentais para o país enfrentar a ameaça climática.
Finalmente, ou primeiramente, antes de fazer declarações públicas tão importantes e sujeitas a repercussões, Múcio deveria alinhá-las com Lula, com a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, e com dirigentes da Casa de Governo, instalada em Boa Vista (RR) para articular as ações junto aos Yanomami. A palavra do ministro da Defesa tem de ser de governo, para resolver, e não para terceirizar a responsabilidade pela segurança nacional.
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‘Diários Yanomami’ ganha lançamento na Floresta no Centro em SP
Livro escrito por autores Yanomami registra os impactos da invasão garimpeira na maior Terra Indígena do Brasil durante o governo Bolsonaro
Compre a sua edição de Diários Yanomami: Testemunhos da Destruição da Floresta, na loja online do ISA.
O geógrafo do Instituto Socioambiental (ISA), Estêvão Benfica Senra, estará presente explicando o processo de pesquisa desenvolvido pelos cinco autores Yanomami do livro.
“No período Bolsonaro com a desestruturação da presença do Estado no território, abandono de escolas, postos de saúde e outras estruturas, tinha-se uma situação muito angustiante: pessoas que haviam passado por processos formativos duradouros ficaram sem poder exercer suas funções, e sem perspectiva de trabalho”, explicou Senra.
Diante deste cenário, a pesquisa surgiu como uma forma de continuar apoiando esses indígenas além de ser uma forma de se produzir informações qualificadas sobre o território, com o objetivo de entender as mudanças que as comunidades experimentavam, com a explosão da invasão garimpeira.
Os autores do livro Diários Yanomami são Mozarildo Yanomami, Darysa Yanomami, Josimar Palimitheli Yanomami, Alfredo Himotona Yanomama e Marcio Hesina.
Os diários apresentam a percepção dos cinco autores e de seu povo sobre os impactos do garimpo na Terra Indígena Yanomami entre 2019 e 2022, período em que o Jair Bolsonaro (PL) ocupava o cargo de presidente do Brasil. A gestão foi marcada por políticas que estimularam a invasão garimpeira no território.
A publicação conta com relatos em formato de diários, registro de depoimentos e também entrevistas feitas pelos indígenas. O livro é bilíngue e sempre apresenta a primeira versão do texto em Yanomae com a tradução para português na página seguinte.
Lançamento em Boa Vista
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Da direita para a esquerda: Mozarildo Yanomami, Davi Kopenawa e Darysa Yanomami, tirando foto com o público no evento de lançamento do livro Diários Yanomami em Boa Vista (RR)|Rafael Oliveira/Mega Filmes/Hutukara/ISA
O primeiro acesso do público ao Diários Yanomami ocorreu em 24 de maio. O lançamento ocorreu no Centro Amazônico de Fronteira, o maior auditório da Universidade Federal de Roraima (UFFR) durante o evento Reahu na UFRR.
Na ocasião, os autores Darysa Yanomami e Mozarildo Yanomami estiveram acompanhados pelo xamã Davi Kopenawa, que também lançou o seu livro O Espírito da Floresta.
A publicação tem apoio do Fundo das Nações Unidas para a criança e adolescente (UNICEF), da Rainforest Foundation Norway e do Centro de Documentação Indígena (Missionários da Consolata). Também contribuem com apoio financeiro o Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária da União Europeia (ECHO) da União Europeia.
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Hidrelétrica Bem Querer seria uma das menos eficientes do país, aponta estudo
Análise consta em publicação do Fórum de Energias Renováveis de Roraima, que avalia riscos e incertezas do projeto
Membros da fundação colegiada do Fórum. Da esquerda para a direita: Rosilene Maia, Ciro Campos e Conceição Escobar 📷 Fabrício Ribeiro/Fórum de Energias Renováveis de Roraima
O Fórum de Energias Renováveis de Roraima lançou uma publicação que analisa os riscos e incertezas na construção da Hidrelétrica Bem Querer, com destaque para o diagnóstico de que o projeto seria um dos menos eficientes no país.
O livro, disponível em formato e-book, também aponta outras alternativas para o futuro energético de Roraima, baseadas em empreendimentos mais diversificados e de menor porte, utilizando as potencialidades locais e adotando o modelo de negócios usado no 1º leilão de energia de Roraima, realizado em 2021.
Em 2007, a Empresa de Pesquisa Energética iniciou os estudos de inventário da Bacia do Rio Branco. Publicado em 2011, o documento foi aprovado no mesmo ano pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e no ano seguinte, inicia-se os estudos de viabilidade técnica.
As principais preocupações que foram trazidas pela sociedade durante os vários eventos realizados pelo Fórum de Energias foram reunidas no livro. Veja algumas delas:
- Grande área alagada, atingindo florestas, áreas urbanas e rurais, fazendas e terras indígenas;
- Alto risco hidrológico com geração de energia baixa ou nula durante o período seco.
- Elevação do lençol freático, com consequente aumento do alagamento durante as cheias, sobretudo em Boa Vista;
- Perdas econômicas na área alagada, impactando na agropecuária, estradas, turismo, pesca, lazer, etc;
- Perda das corredeiras do Bem e Querer e de 130 km de praias no rio Branco.
- Elevada emissão de gás metano pelo reservatório da usina.
- Piora nos indicadores de saúde, segurança, educação, custo de vida e outros, principalmente em Caracaraí;
- Bloqueio do rio Branco para a passagem de peixes e embarcações;
- Retenção dos sedimentos no reservatório, reduzindo os nutrientes e alterando a qualidade da água rio abaixo;
De acordo com Ciro Campos, um dos coordenadores do Fórum de Energias, o estudo mostra que a hidrelétrica seria mais importante para Manaus do que para Roraima. Está previsto no projeto que a linha seria usada para transmitir a Manaus parte da energia gerada.
“Está faltando energia em Manaus e recentemente até compraram 700 M de usinas térmicas a gás. Bem Querer seria importante para enviar energia para Manaus e equilibrar a tensão do Linhão que está chegando, durante a cheia do Rio Branco”, diz o pesquisador do Instituto Socioambiental (ISA).
“Nosso estado teria que conviver com impactos irreversíveis e de larga escala, em troca de uma quantidade de energia que poderia ser obtida de outras formas, gerando menos impactos e mais empregos em Roraima”, complementa.
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Jovens de Roraima apresentam protesto contra usina durante lançamento do E-book|Fabrício Ribeiro/Fórum de Energias Renováveis de Roraima
O projeto formaria um lago com 130 km de comprimento e 519 km² de área com barragem construída sob o Rio Branco, o maior rio de Roraima. Tanto o tamanho, quanto a localização do projeto causam inquietação na sociedade local,
Conforme o estudo, a ideia da Usina Hidrelétrica Bem Querer começou ser materializada em 2007 e, apesar das alterações sofridas ao longo do processo, como a redução da potência de 708 para 650 MW, os riscos e incertezas do projeto permanecem, como os riscos relacionados ao tamanho do alagamento e à elevação do lençol freático.
Também há incerteza quanto à capacidade de geração da usina durante o período de estiagem. A potência mínima da usina durante o pico da estiagem não é informada mas, pela sua características de operação, é possível que neste momento a produção fique baixa ou nula.
De acordo com Rosilene Maia, integrante da coordenação colegiada, “o esforço em analisar a questão energética sob as diversas óticas sempre foi o método adotado pelo Fórum, e há consenso entre nós de que o projeto UHE Bem Querer não se mostra sustentável, embora se trate de produção de energia a partir de fonte renovável, tema central das nossas propostas”.
A publicação é uma realização do Fórum de Energias Renováveis de Roraima, que reúne diversos setores e organizações da sociedade local, entre elas o Instituto Socioambiental (ISA). O evento aconteceu no auditório do Instituto Euvaldo Lodi (IEL) em Boa Vista.
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Sistema de alertas mostra que 70% das denúncias da Terra Indígena Yanomami são de invasões
Alimentada pelos próprios indígenas, ferramenta de proteção territorial foi desenvolvida pela Hutukara Associação Yanomami, UNICEF e ISA
Dário Kopenawa, vice-presidente da Hutukara, discursa em eventos sobre a primeira fase do sistema de alertas do UNICEF, ISA e Hutukara - UNICEF/BRZ/Lais Muniz
Sete em cada 10 denúncias recebidas de um sistema de alertas no Território Indígena Yanomami (TIY) são referentes a atividades praticadas por não indígenas no território, incluindo garimpeiros. Os dados são de um novo sistema de alertas apoiado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e implementado pelo Instituto Socioambiental (ISA) e a Hutukara Associação Yanomami (HAY). O sistema abrange, em sua primeira fase, 19 regiões do território e recebeu 70 denúncias desde a sua implementação, entre março de 2023 e abril de 2024.
Os alertas gerados sobre atividades no território incluem temas como invasão e ameaças. Outros 18% dos alertas são relacionados a questões ambientais, como incêndios e água contaminada, e 12% sobre saúde, como casos de desnutrição e surtos de malária.
Para o vice-presidente da Hutukara e líder Yanomami, Dário Kopenawa, o projeto - que encerrou sua primeira fase no mês passado com um evento em Boa Vista, Roraima - apoia comunidades Yanomami e ajuda a denunciar invasões, situações de saúde e a gerir o território.
“Ainda estamos sofrendo, os garimpeiros continuam em nossas terras e continuam passando com seus aviões na cabeça do nosso povo, incomodando o nascimento das nossas crianças com o barulho de motores. Mas com o sistema de alertas temos a oportunidade de comunicar às autoridades sobre o que acontece dentro de território”, declarou Dário.
“Mais da metade dos mais de 30 mil yanomamis no território são crianças e jovens. O sistema de alertas, alimentado pelos próprios yanomami, vem como parte do processo de autonomia e controle do território, servindo como ferramenta para alertar o poder público e conscientizar a população sobre o que acontece na maior terra indígena do Brasil”, disse a coordenadora técnica para Assuntos Indígenas do UNICEF, Léia Vale.
A Casa de Governo, que centraliza a coordenação de 31 órgãos federais atuantes na TI Yanomami e no Estado de Roraima, esteve presente no evento do encerramento da primeira fase de implementação do sistema de alertas. “Hoje o nosso grande objetivo é combater o garimpo em terras indígenas, mas também fora do território. Essas informações que chegam por meio dos alertas são importantes para organizar o nosso trabalho”, explicou o diretor da Casa de Governo, Nilton Tubino.
Além da Casa de Governo, estiveram presentes no evento de fechamento da primeira fase, no dia 24 de maio, órgãos como a Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Defensoria Pública da União (DPU), Ministério Público Federal, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), a Universidade Federal de Roraima (UFRR) e organizações indígenas como a Associação Wanassedume Ye'kwana (SEDUUME) e URIHI Associação Yanomami.
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Sistema de alertas apresenta informações em língua indígena|Evilene Paixão/Hutukara Yanomami
Sistema de alertas
As denúncias e queixas vindas do Território Indígena Yanomami e que antes eram feitas por cartas, visitas presenciais ou mensagens de radiofonia, ganham um novo formato com o atual sistema de alertas. O sistema funciona como uma central onde as próprias comunidades, por meio de um aplicativo de celular, emitem notificações sobre riscos sanitários e ambientais de maneira ordenada.
“Com o projeto, temos um fluxo mais organizado para receber informações do território e com isso, temos melhor acompanhamento da situação e mais qualidade de informações. O sistema de alerta é uma oportunidade de organizar e ter dados com qualidade para acompanhamento mais fino e melhor resposta do poder público”, explica Estêvão Benfica Senra, geógrafo do ISA.
O aplicativo disponibiliza formulários onde a população pode anexar fotos, vídeos, áudios e até mesmo pontos de localização com coordenadas geográficas para relatar o alerta a ser gerado. Após qualificados e validados, os alertas são colocados no painel para que autoridades e instituições parceiras possam ter ciência de qualquer anormalidade que ameace o território. Os registros podem ser feitos offline e a ferramenta disponibiliza as opções nos idiomas yanomami, ye'kwana, sanoma e português.
O projeto do sistema de alertas conta com financiamento da União Europeia, através do Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária (ECHO, na sigla em inglês), e tem o objetivo de aumentar a resiliência e fortalecer a autonomia das comunidades com a integração de um sistema que respeite o contexto e o conhecimento das comunidades indígenas.
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Serras Guerreiras de Tapuruquara: aventura, cultura e hospitalidade indígena na Amazônia
No Médio Rio Negro, o turista se torna um visitante – acolhido e guiado pelos povos que ocupam ancestralmente o território
Começa a tarde na comunidade de Boa Vista, no Médio Rio Negro, Amazonas. As pessoas se preparam para almoçar, seguindo a regra dos anfitriões indígenas, que indicam que os primeiros a se servirem devem ser os visitantes.
Sobre a mesa, há uma diversidade de alimentos da floresta e dos quintais, como cará roxo, beiju, peixe moqueado – ou defumado –, peixe ensopado, buriti, abacaxi, banana, entre outras delícias.
Cozinheiras da comunidade de Boa Vista, no Médio Rio Negro, apresentam os pratos que serão servidos aos visitantes|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Peixes, frutas variadas, beiju: os melhores sabores do Rio Negro à mesa/Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Expedições das Serras Guerreiras de Tapuruquara oferecem variedade de pratos locais/Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Antes do cochilo na rede, logo após o almoço e com o forte calor amazônico, ainda resta disposição para uma conversa. Seu João Vieira Brazão, do povo Baré, usa o bloco de anotações e uma caneta para começar a rascunhar uma pequena gramática ilustrada de nheengatu, para ensinar um pouco de sua língua.
Desenha um rosto, coloca setas indicativas e vai escrevendo: olho, reçá; nariz, tym; cabeça, yakãga; orelha, nãby, boca, yorou. Em seguida, avança um pouco: meu nariz, se tym; meu olho, se reçá, minha boca, se yorou, minha orelha, se nãby. Como bom professor, vai em frente e forma uma frase: minha cabeça dói ou se akãga sacy.
A aula na língua nheengatu – um tanto improvisada pelo seu João Brazão – não faz parte do roteiro oficial do projeto de turismo Serras Guerreiras de Tapuruquara. Mas dá uma ideia dos encontros possíveis ao conhecer a Amazônia dos indígenas. E acompanhados dos indígenas.
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Crianças da comunidade de Boa Vista, no Médio Rio Negro, Amazonas|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Seu João Brazão (primeiro à direita) recebe participantes da expedição|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
O projeto oferece dois roteiros de cultura e aventura. O Maniaka tem ênfase na parte cultural, enquanto o Witera oferece mais aventura (detalhes abaixo).
A viagem acontece no Estado do Amazonas, entre as cidades de São Gabriel da Cachoeira e Santa Isabel do Rio Negro, numa das regiões mais lindas do Estado, com um cenário único onde há serras em meio ao tapete verde da floresta. A visitação acontece de agosto a fevereiro, quando as chuvas diminuem na região, sendo que cada expedição dura de 8 a 12 dias.
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Rio Negro de cima: vista panorâmica no topo de uma das serras|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Paisagens de tirar o fôlego se revelam aos visitantes|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Para cada serra, um nome. Vamberto Plácido, do povo Baré, que nasceu e sempre viveu nessa região, conta que as serras que dão nome ao projeto são, na verdade, guerreiros.
“Então, contando um pouco da história das serras guerreiras, vou contar para vocês uma históriazinha dessas serras. Segundo os mais antigos, essas serras, eles eram os guerreiros. Cada uma delas tem seu nome. Por isso que é o Jacamim, a Jacuraru, a Cutia, o Porco, o Trovão e a Anta. Saindo da Colômbia, percorreram a noite toda, mas não conseguiram pegar o destino onde iam guerrear com outra serra, onde ficava a cobra conhecida como cobra do Tukano. Eles não conseguiram chegar até lá e amanheceram o dia e ficaram até hoje. Então, esse projeto já trouxe o nome das Serras Guerreiras de Tapuruquara. Tapuruquara é o antigo nome de Santa Isabel do Rio Negro”, narra.
Para entrar nesse território – que é sagrado –, é preciso benzimento. Com esse ritual, o pajé apresenta os turistas aos verdadeiros donos da área, invisíveis aos não indígenas. Feita a proteção, é hora de aproveitar a viagem!
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Chega a hora de partir e conhecer as belezas do Rio Negro|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Banho de rio e amizade com as Serras de Tapuruquara ao fundo|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Variedade de lugares, sabores e experiências
Subida de serras, canoagem, culinária tradicional, oficinas de artesanato, banhos de rio, narrativas indígenas, danças e muita cultura.
Os passeios não se repetem. A depender da época, da seca ou das chuvas, as paisagens e os roteiros mudam – dificilmente o visitante vai nadar duas vezes na mesma praia.
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Roteiros incluem canoagem e passeios pelas praias de areia branca do Rio Negro|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Do alto das serras, é possível ver de cima a copa das árvores da floresta amazônica, o rio serpenteando, o voo das araras.
Depois de percorrer trilhas, ouvir histórias, visitar roças, fazer farinha e artesanato, nadar em praias de areia branca, remar, comer os alimentos tradicionais, você ainda poderá ter contato com a cultura dos 23 povos indígenas do Médio e Alto Rio Negro, que ocupam ancestralmente este território. Nessa região, convivem povos como os Baré, Tukano, Baniwa, Desano, Piratapuya, Arapaso, Nadeb, entre outros.
Na comunidade de Boa Vista, por exemplo, os turistas vão dançar o Mawako e participar de um Dabucuri. O ritual acontece em ocasiões especiais, agradece e compartilha os bons momentos e as farturas.
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Turismo de base comunitária leva os viajantes a uma imersão na culturas dos povos indígenas do Rio Negro|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Na comunidade de Aruti, a artesã Alciene da Silva de Oliveira, povo Piratapuia, ensina a manejar o arumã, usado para as peças artesanais como os tapetes. Em São João 2, Jacson Luis Costa Silva e Marlice Brandão Pinheiro, do povo Baré, convidam para sentir nas mãos a argila dos igarapés amazônicos e moldar pequenas peças seguindo a tradição milenar da arte de fazer cerâmica.
No projeto de turismo de base comunitária, o passeio tem um componente a mais. Além de passear, o turista apoia os indígenas e ajuda a preservar o meio ambiente, contribuindo para uma atividade econômica sustentável. São cerca de 200 famílias beneficiadas em cinco comunidades: Cartucho, Aruti, São João 2, Uábada 2 e Boa Vista.
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Oficina de cerâmica tradicional na comunidade São João 2|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Atividade faz parte dos roteiros do Projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
E, ao se prepararem para receber os turistas, os indígenas acabam reforçando a própria cultura, inclusive repassando aos mais jovens envolvidos nos projetos da sociobiodiversidade.
Os esforços exigidos nas viagens amazônicas são compensados na hora do descanso. O corpo se ajeita na rede. É hora de dormir como os indígenas.
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Visitantes dormem em redes e conhecem os costumes regionais|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
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Alojamentos permitem uma integração profunda com a natureza|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Na chegada e na saída, há momentos de muita emoção. Na recepção aos turistas, as crianças indígenas cantam para receber os visitantes, na língua indígena. Na despedida, é hora de abraçar os anfitriões, que já se tornaram amigos.
Por volta de setembro, quando as águas baixam no início da estação seca, a paisagem ganha generosas revoadas das borboletas amarelas, que agrupadas no chão formam verdadeiros tapetes vivos.
Coordenador geral do Serras Guerreiras de Tapuruquara, Marcos Baltazar Salustiano, do povo Baré, morador da comunidade do Cartucho, convida para essa visita.
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Marcos Baltazar Salustiano, do povo Baré e morador da comunidade do Cartucho, é coordenador geral do Serras Guerreiras de Tapuruquara|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
“A gente convida você a vir participar do nosso projeto, que é familiar. A gente tem esse contato com as pessoas de fora, mas é um contato assim, de amigo. As comunidades oferecem um carinho enorme para essas pessoas que vêm. E essas pessoas que vêm deixam também um carinho enorme nas comunidades. Por isso que a gente convida todos a participarem do projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara, que envolve os 23 povos indígenas de várias etnias, como Baré, Tukano, Desano, Nadeb.”
Puranga Pesika – Sejam bem-vindos!
Depoimentos
Jaciel Manoel Rodrigues, povo Baré, morador da comunidade do Cartucho e coordenador da Associação das Comunidades Indígenas Ribeirinhas (Acir)
Desde o início do projeto, a gente tem essa mentalidade. Todos que chegam, para a gente é como se fosse o nosso vizinho daqui. A gente acolhe com carinho, todos eles. E a gente se sente muito feliz quando eles estão aqui entre a gente.
Elaine da Silva Galvão, coordenadora do projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara na comunidade Aruti
A gente convive com outras pessoas. A gente conhece outras pessoas e eles conhecem a gente também, nossa língua, que é o nheengatu.
O que o visitante pode aproveitar da culinária? Bacaba, bacabinha, patauá. Surubi, pirandira, aracu, pacu. Tucupi doce, tucupi azedo, pimenta. Todo tipo de peixe eles pegam, eles trazem para oferecer aos turistas. Tem caldeirada, assado, frito, moqueado e, às vezes, até salgado.
Professor Rosemiro Torres Olar, povo Baré, professor e coordenador do projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara na comunidade Uábada II
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Professor Rosemiro Torres Olar, povo Baré, coordenador do projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Esses lugares são sagrados. Cada cachoeira tem um nome, tapiracanga, jurupari, outro lá, piramiri, kiuá. Tudo isso aí, ele se envolve em apenas um dono, que é Uaimi, que significa velha. Ela que cuida disso aqui. É dono de tudo esse patrimônio que tem aqui para dentro desse igarapé. Então toda vez que a gente vai para dentro do igarapé pescar, atrás de algum produto, ou vai a passeio, nós temos que pedir permissão a ela.
Um dos pajés, toda vez que a gente recebe o turista, para cá, principalmente pela primeira vez, ele faz um benzimento. Para que esse benzimento? Esse benzimento é para apresentar o visitante para o dono do igarapé, o dono da cachoeira. Então seria apresentar. Por isso, pelo cuidado que temos que ter com o turista. Proteger o nosso visitante.
Orlandino Cordeiro de Oliveira, povo Baré, conhecedor indígena e morador de Aruti, recebe os turistas em sua casa
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Orlandino Cordeiro de Oliveira (camisa pólo azul), povo Baré, conhecedor indígena e morador de Aruti, recebe os turistas em sua casa|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Meu nome é Orlandino de Oliveira, essa é minha família. Somos eu e minha família aqui. Minhas filhas, minhas noras, filhos, genros. Uma partezinha. A maioria está por aí. Sabe por que que possui esse nome de Aruti, essa ilha? Não tem essa pedrazona bem no rabo da ilha? Essa é Aruti. Isso significa, em português, é preguiça, a Ilha da Preguiça. Mas é o nome da ilha, não é porque eu sou preguiçoso. Esse Aruti está em nheengatu, língua de Baré.
João Vieira Brazão, povo Baré, coordenador do projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara na comunidade de São João 2
Espero que você venha conhecer aqui. Esperamos de braços abertos, com muito entusiasmo, para que conheçam a nossa realidade, a nossa floresta, o nosso rio, a nossa imagem pessoalmente, ao vivo, conhecer a nossa comida tradicional, conhecer o fruto da nossa região aqui, comer o peixe gostoso, conhecer a nossa farinha, o nosso beiju, a nossa fruta tradicional.
Vamberto Plácido Rodrigues, povo Baré, ex-coordenador do Projeto Serras Guerreiras e atual servidor da Funai
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Vamberto Plácido Rodrigues, do povo Baré, ex-coordenador do Projeto Serras Guerreiras e atual servidor da Funai|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Esse projeto, o benefício que trouxe para foi o intercâmbio das pessoas que vêm de fora conhecer a nossa cultura nas comunidades. Isso faz com que essa cultura se fortaleça. Porque apresentamos aos turistas a dança cultural, a própria língua, a dança.
Bruno Mangolini, coordenador da Poranduba Amazônia, participou da expedição em outubro de 2023
Além de você estar vivendo uma experiência muito peculiar, muito rica, de passear, de conhecer um lugar diferente, uma cultura, isso vai também vai contribuir com as comunidades, inclusive com o resgate da parte cultural. Também gera renda para a comunidade.
O que fica mais marcante fora os passeios, a parte gastronômica, as belezas naturais, é o cuidado dos indígenas que estão nos recebendo. A simpatia, a alegria deles em receber o visitante que vem conhecê-los, acho que isso é muito marcante.
Mari Salim, sócia da Montanero Expedições, participou da expedição em outubro de 2023
A gente percebe o resgate de vários saberes tradicionais, inclusive de saberes que os mais jovens não estavam valorizando tanto. E foi muito bonito perceber que eles estão articulando tudo isso por conta desse trabalho de turismo. Para mim, o que mais encantou foi a mobilização desse resgate, junto às famílias e os jovens, e o quanto eles já estão se sentindo orgulhosos de estar apresentando isso para nós. E fiquei muito contente de ver uma preocupação não só com a segurança, mas com o conforto de todos os visitantes que vêm. Desde os dormitórios, até a culinária e os transportes.
Jéssica Martins, assessora técnica em turismo do Instituto Socioambiental (ISA)
O projeto Serras Guerreiras é sonhado e construído junto com as comunidades, pelas comunidades indígenas do médio rio Negro. Esse é um roteiro que acontece nessa região bem especial, do Noroeste Amazônico, com uma paisagem diferenciada, tanto na questão da natureza, quanto na questão dos povos indígenas e na parte cultural, que é muito rica e muito diversa.
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Até breve! Moradores da comunidade de Boa Vista, no Médio Rio Negro, Amazonas, se despedem dos amigos-visitantes|Benjamin Mast/La Mochila Produções/ISA
Apresentação dos pratos para o almoço na comunidade São João 2|Benjamin Mast/ISA
Merenda com pratos regionais depois de remada na comunidade de Boa Vista|Benjamin Mast/ISA
Roteiros de turismo comunitário convidam a descobrir os sabores da culinária tradicional do Rio Negro|Benjamin Mast/ISA
Indígenas do povo Baré ensinam aos turistas a tradição milenar da arte de fazer cerâmica|Benjamin Mast/ISA
Paisagem na viagem de barco pelo Médio Rio Negro|Benjamin Mast/ISA
Paisagem na viagem de barco pelo Médio Rio Negro|Benjamin Mast/ISA
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Crianças brincando no rio, na Terra Indígena Cué-Cué Marabitanas (AM)|Juliana Radler/ISA
Em uma das regiões mais conservadas do país, uma jovem indígena partilhava um mingau com sua avó. Carregada de interesse, Elizângela da Silva, ouvia atentamente aos mitos do povo Baré.
Os mitos têm um significado importante para a população indígena do Rio Negro. São narrativas que contam sobre o sol, a noite e o rio, tecidas pela sabedoria e experiência dos mais velhos.
“Quando sua avó vai contar o mito da Mandioca, ela vai contando os processos, as origens. Ela vai dizendo ‘isso pode fazer’, ‘isso não pode fazer’. Desde criança a gente aprende o que a natureza pode nos causar caso a gente não respeite ela”, contou ao ISA.
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Agricultora Elizangela Baré segurando a maniva (mandioca). Alimento ocupa lugar central no Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro|Fellipe Abreu/National Geographic
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Elizangela da Silva, do Povo Baré, e Dona Mercedes Gregório, do povo Baniwa, descascam maniva na cozinha do Sítio São Bernardino |Fellipe Abreu/National Geographic
Com a chegada das escolas na Terra Indígena Cué-Cué Marabitanas, a rotina mudou. Os banhos de rio e os momentos com a avó foram dividindo espaço na rotina com o processo de alfabetização.
O aprendizado da língua portuguesa - até então desconhecida para a menina falante de Nheengatu - fora um pedido do avô. Junto da tia e da irmã, Elizângela subia diariamente o rio remando em canoa para chegar à escola.
Sem conseguir avançar nos estudos devido a precariedade das escolas rurais da época, mudou-se para a sede do município de São Gabriel da Cachoeira em 1993, aos nove anos de idade, onde morou na casa de parentes. Mesmo criança, precisou cuidar dos filhos de amigas dos familiares para continuar nos estudos.
Na casa de médicas da Associação Saúde Sem Limites - que desenvolvia projetos de assistência médica a povos indígenas e comunidades tradicionais - Elizângela Baré aprendeu sobre saúde e direitos dos povos indígenas.
Essa experiência, aliada à participação em um grupo da Pastoral da Juventude, permitiu seu ingresso no movimento indígena.
Participando dos eventos do Departamento de Jovens Indígenas do Rio Negro (DAJIRN), Elizângela acompanhou os bastidores da criação do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (DMIRN) da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), em 2002.
No ano seguinte, concluiu o Ensino Médio. No entanto, o cuidado com a família não permitiu a continuidade dos estudos e, em 2009, mudou-se novamente para o território indígena, dessa vez na comunidade onde morava a família do marido.
Em São Gabriel Mirim, recebeu o convite para atuar como professora no momento em que o sistema escolar municipal deixava de ser "rural" para ser "indígena" e nucleadas, com participação da comunidade escolar nas decisões da gestão pedagógica e do calendário das atividades, respeitando os modos de vida e a dinâmica das atividades coletivas das comunidades. Apesar de não ter frequentado o magistério, recebeu uma carta de recomendação da comunidade, e passou a ministrar aulas para uma turma multisseriada, com alunos da primeira à quinta série.
Um ano depois, recebeu um novo convite, dessa vez para assumir a gestão da escola nucleada Baré Napirikuri (que congregava escolas de 08 comunidades). O regulamento para exercício do cargo exigia a formação acadêmica mas, mais uma vez, a comunidade, confiando no trabalho realizado como professora, tomou a defesa de Elizângela.
Foi eleita em votação feita pelas famílias dos alunos, em 2010, e permaneceu no cargo até 2016. Com o apoio da família e da comunidade, enfrentou as críticas de professores homens indígenas que a acusavam de não ter capacitação para a função exercida.
“Na época não entendia o que era bullying, não entendia o que era racismo. Eu não sabia o que era essas coisas de patriarcado. [...] Eu não sabia de nada, mas eu peguei o microfone e eu falei ‘temos que respeitar, os pais dos alunos votaram’.”, lembra.
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Elizângela da Silva, do povo Baré, durante ato pelo 8 de março, na orla da praia de São Gabriel da Cachoeira (AM)|Juliana Radler/ISA
Apesar da resistência dos professores e de alguns homens da comunidade, atuou pela igualdade de gênero e pelo fim da violência contra as mulheres indígenas.
Nos almoços coletivos do centro social sensibilizou as famílias para que a comida fosse compartilhada entre homens e mulheres no mesmo momento, o que promoveu uma alteração na dinâmica onde homens se serviam antes das mulheres.
Nas salas de aula, compartilhou com os alunos o que presenciou no movimento de mulheres indígenas em São Gabriel da Cachoeira. No chão do território, realizou oficinas de artesanato e seminários sobre culinária, onde sábia e discretamente trouxe à discussão assuntos como empoderamento, direito da mulher e como diferenciar tradição de violência.
Em 2017, assumiu a coordenadoria do Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Dmirn/Foirn), onde permanceu até 2020.
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Elizângela Baré (em baixo, à direita) e demais integrantes da diretoria da Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMIARN), em São Gabriel Mirim|Juliana Radler/ISA/2017
Na época, Elizângela tinha concluído uma graduação em sociologia e cursava especialização em Educação Indígena. Ela conta que a opção por continuar os estudos enquanto trabalhava gerou desconfiança entre algumas lideranças.
“Quando eu entrei na Foirn, as lideranças diziam ‘tu tem que escolher: você quer ser estudante da universidade ou você quer ser liderança?’, e eu falei ‘eu quero ser os dois, estou lutando pelos direitos coletivos e os meus’”.
Durante a pandemia de Covid-19, Elizângela, juntamente com Janete Alves, coordenou a campanha "Rio Negro, Nós Cuidamos", que tinha como objetivo garantir a promoção de saúde, segurança alimentar e direito à informação a mais de 800 comunidades onde convivem 23 etnias do Rio Negro.
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Elizângela da Silva durante operação de doação de 15 toneladas de equipamento de proteção individual para prevenção à Covid-19, em agosto de 2020|Raquel Uendi/ISA
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Elizângela Baré (de camiseta rosa) distribui máscaras de proteção contra a COVID-19, em maio de 2020|Raquel Uendi/ISA
A iniciativa visava captar recursos emergenciais para a compra de produtos de limpeza, ferramentas agrícolas, combustível, kits de pesca e alimentos não perecíveis, além da ampliação de serviços de comunicação fundamentais via radiofonia, carros de som e informes de áudio.
Além de atuar na conscientização sobre a doença nas comunidades, Elizângela foi porta-voz da campanha em vídeo publicado pela Foirn em abril de 2020.
Em 2023, Elizângela foi finalista do Prêmio Inspiradoras pelo levantamento e mobilização realizados para tornar públicos dados sobre violência contra mulheres em São Gabriel da Cachoeira.
No mesmo ano, ela ganhou o Troféu Mulher Imprensa por colaborações com a Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas e com o portal Sumaúma – onde apresentou o podcast Rádio Sumaúma.
Entre o território e a cidade: a ponte
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Elizângela Baré durante lançamento do especial 'Memoráveis' na loja Floresta no Centro, em São Paulo|Claudio Tavares/ISA
Quatro anos após o início da pandemia da Covid-19, Elizângela Baré, primeira indígena a fazer mestrado em Saúde Pública na Universidade de São Paulo (USP), divide sua rotina entre a Terra Indígena e a cidade de São Paulo.
No movimento indígena e na academia, sua luta para que os saberes notórios dos povos indígenas, aqueles ensinados pelos familiares muito antes de aprender o português, possam ser introduzidos no Sistema Único de Saúde (SUS).
“A gente adere muito bem ao sistema ocidental, como indígena, né? Mas eu acho que o Ocidente, a sociedade em si, também tá na hora de aderir aos nossos saberes notórios”, defende.
“A gente mostrou nossa ciência, a gente mostrou nossos saberes. Eu escrevi para a USP, que é parceira da Foirn desde 2010, que os cestos de conhecimento das mulheres reacenderam, porque mesmo aquela mulher indígena que morava na cidade, trabalhava de manhã e de tarde com carga horária, durante a Covid-19 ela parou e cuidou da sua casa. [...] Ela procurou a cura no quintal, ela procurou a cura no caminho da roça, ela procurou a cura na margem do rio”, disse.
No quinto episódio do podcast Casa Floresta, lançado pelo ISA em 2022, Elizângela explica como se dá a criação dos chamados “cestos de conhecimento”, conjunto de ensinamentos, passado oralmente pelos familiares e guardado no subconsciente.
"Cada uma das mulheres tem um cesto de conhecimento. Lá tá tudo. Quando eu fiquei pela primeira vez menstruada, eu aprendi o sistema de vida tradicional do meu povo. A nossa mãe que repassou esse cesto invisível."
“Nós, mulheres indígenas, há cinco séculos estamos fazendo a promoção de saúde com o nosso modo de ser, o nosso modo de cuidar. É isso que eu sonho hoje, que o pessoal de São Paulo, e dos outros Estados também, possam ter suas janelas que curam”, completou.
Cosmovisão como flecha
No cultivo das roças para alimentação ou no manejo de plantas com propriedades medicinais, é no contato com a terra que os povos indígenas reafirmam sua humanidade. Na cosmovisão de muitos povos do Rio Negro, a terra é viva, o que significa dizer que os elementos da natureza são dotados de consciência e agência.
"Quando a gente vai plantar roça, primeiro planta abacaxi que é para o abacaxi ser a copa da água e cuidar das manivas, dando água para elas. A natureza, se bem cuidada, nos faz bem, mas ela pode também nos fazer mal. Se a roça é bem cuidada, ela dá alimentos e proteção. Mas sem benzimentos e cuidados podemos ficar doentes."
Em entrevista ao ISA, realizada em setembro de 2023, após a 3ª Marcha das Mulheres Indígenas, Elizângela Baré fez da visão de mundo dos povos originários a flecha que orienta a mudança na sociedade.
“Imagine se uma planta falasse, o que ela ia falar? Qual é a dor que ela iria falar quando ela é derrubada, quando ela é queimada, quando ela é tirada do território? Quando é contaminada por mercúrio, o que a água iria falar?”, questionou.
A mobilização aconteceu em Brasília (DF) às vésperas do julgamento do “Marco Temporal” no Supremo Tribunal Federal (STF). Essa tese jurídica e anti-indígena busca estabelecer um critério temporal para a demarcação das Terras Indígenas, vinculado à data da promulgação da Constituição Federal.
Na entrevista, a liderança também defendeu a demarcação do seu território de nascença, a Terra Indígena de Cué-Cué Marabitanas (AM), que teve apenas seu processo de Declaração concluído.
“Eu nasci naquela terra. Nunca meu pai saiu de lá, meu pai nasceu naquela terra. Como é que a Lei vai dizer que aquela terra não é minha?! Se a nossa mãe perdeu sangue naquela terra para nos parir, aquela terra é nossa”, disse Elizângela. “O ‘Marco Temporal’ faz com que a gente se sinta insegura dentro do nosso território, é uma lei que visa a destruição dos povos indígenas”, completou.
Elizângela Baré transmite, via rádio, informações e orientações para a prevenção à Covid-19|Arquivo Pessoal
Adelina Desana (à esquerda) e Elizângela Baré (à direita), levam banner de prevenção para a comunidade do Waruá, do povo Dâw, em abril de 2020|Rede Wayuri
Elisângela Baré, da Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMIARN), durante gravação do podcast Casa Floresta em São Gabriel da Cachoeira (AM)|Pedro Hassan/ISA/2022
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