Levantamento aponta que 70% dos recursos do Pronaf vão para as regiões Sul e Sudeste, comprometendo a diversidade produtiva do país. Campanha ÓSocioBio busca adequação e desburocratização do Plano Safra e Pronaf 2026/2027 para mudar esse cenário
O acesso ao crédito rural no Brasil enfrenta distorções que limitam a inclusão de agricultores familiares, povos indígenas, quilombolas e outros povos e comunidades tradicionais, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
Apesar de ser a principal política pública de financiamento voltada ao setor, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) segue concentrado em poucas atividades e regiões, deixando de alcançar cadeias produtivas ligadas à sociobioeconomia, como extrativismo, sistemas agroflorestais e pesca artesanal.
Para mudar esse cenário e buscar ampliar o acesso dos povos e comunidades tradicionais ao crédito rural, o Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio) - do qual o Instituto Socioambiental (ISA) faz parte - e Conexsus acabam de lançar a campanha Pronaf na Sociobioeconomia.
Os dados mostram que o financiamento rural ainda apresenta forte concentração produtiva e regional, apesar de avanços recentes. Atualmente, cerca de 70% dos recursos do Pronaf estão concentrados na região Sul e Sudeste, enquanto aproximadamente 85% das operações seguem vinculadas à pecuária, evidenciando um descompasso entre a política de crédito e a diversidade produtiva dos territórios brasileiros.
"O excesso de exigências burocráticas segue excluindo povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares das políticas públicas que deveriam fortalecê-los. É urgente adequar o Pronaf à realidade dos territórios, ampliando o acesso ao financiamento para as cadeias da sociobioeconomia. Garantir esse acesso é fundamental para gerar renda, valorizar os modos de vida e manter a floresta em pé como estratégia de desenvolvimento para o país”, afirma Laura Souza, secretária executiva do ÓSocioBio.
Na prática, o crédito rural não chega de forma efetiva a uma parcela significativa dos produtores que atuam em sistemas produtivos sustentáveis, sobretudo em territórios mais isolados ou com menor presença de serviços financeiros.
Esse cenário está diretamente ligado a entraves burocráticos e operacionais que dificultam a inclusão dessas populações nas políticas públicas. Entre os principais desafios está a exigência de documentação que muitas famílias têm dificuldade de acessar, como o Cadastro da Agricultura Familiar (CAF), além da baixa oferta e baixa remuneração de assistência técnica para elaboração dos projetos de financiamento.
Em áreas remotas, as dificuldades são ainda maiores. Na fase pós-crédito, há casos em que produtores não conseguem comprovar despesas por falta de nota fiscal — situação comum em regiões onde insumos são adquiridos em pequenos comércios locais ou de maneira informal. Também há limitações logísticas, como longas distâncias a serem percorridas até agências bancárias, acesso precário à internet e falta de orientação técnica contínua, o que acaba afastando parte das famílias das linhas de crédito disponíveis.
Na região Norte, 85,4% do volume de recursos do Pronaf em 2025 foi destinado à pecuária, enquanto menos de 8% chegaram às cadeias da sociobioeconomia, como cacau, açaí, castanha-do-Brasil, óleos vegetais, pesca artesanal e sistemas agroflorestais. Em 2024, 91,7% do orçamento do Pronaf na região Norte foi para a pecuária convencional - uma das principais atividades responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa no país -, enquanto apenas 2% chegaram às cadeias da sociobiodiversidade. Os dados mostram um avanço entre 2025 e 2024, alavancado inclusive devido à campanha ÓSocioBio e Conexsus que também foi realizada no ano passado.
Mas a análise aponta que as operações para os produtos da sociobiodiversidade concentram-se em 53% na cadeia do cacau. Esse movimento está associado ao aumento expressivo do preço do cacau, e consequentemente, o interesse de famílias em operações de crédito para essa cadeia produtiva.
Esse cenário reforça a necessidade de ajustes estruturais no Plano Safra 2026/2027 para garantir maior equilíbrio na distribuição do crédito rural e ampliar o acesso às atividades ligadas ao uso sustentável da biodiversidade e de outros produtos da sociobiodiversidade ainda pouco financiados.
Acesse a Nota Técnica sobre o Plano Safra 2026/2027.
“A sociobioeconomia representa uma oportunidade estratégica para o Brasil. São cadeias produtivas de alto valor que geram renda, fortalecem comunidades rurais e contribuem para manter a floresta. Ampliar o acesso ao crédito para essas atividades significa transformar a biodiversidade em desenvolvimento sustentável”, afirma Fernando Moretti, diretor de Políticas da Sociobioeconomia da Conexsus.
Outro desafio central é o acesso à documentação. Estimativas da Conexsus, levando em conta uma base de dados de mais de 5 mil famílias de agricultores familiares, principalmente povos e comunidades tradicionais, indicam que cerca de 40% das famílias da sociobioeconomia declararam não possuir CAF ativo.
Esse percentual é semelhante ao identificado em diagnósticos recentes sobre a bioeconomia amazônica. Estudos da Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia, NatureFinance e WRI Brasil apontam que aproximadamente 40% das famílias envolvidas nas cadeias da sociobiodiversidade na Amazônia ainda não possuem CAF ativo, o que limita o acesso ao crédito rural e a políticas públicas voltadas à agricultura familiar e à sociobiodiversidade.
Mais do que ampliar recursos, o desafio central está em reorientar o crédito rural, tornando-o mais acessível, inclusivo e alinhado às demandas da agricultura familiar e das economias da sociobiodiversidade.
“Quando essas economias ganham escala, os impactos são múltiplos: geração de renda, valorização dos territórios e conservação dos ecossistemas”, afirma Moretti.
Diante desse cenário, especialistas e organizações que atuam no tema apontam que o Plano Safra 2026/2027 será decisivo para reorientar o crédito rural e ampliar o acesso às cadeias produtivas sustentáveis.
Entre as principais expectativas para este ano estão:
- Ampliação do número de operações de crédito voltadas à sociobioeconomia em todas as regiões do país;
- Adoção de critérios que garantam maior participação dessas atividades na destinação dos recursos;
- Expansão e descentralização da emissão do Cadastro da Agricultura Familiar (CAF), considerada essencial para ampliar o acesso ao financiamento;
- Fortalecimento da assistência técnica, com maior cobertura e remuneração adequada aos profissionais que atuam diretamente nos territórios;
- Criação de mecanismos de garantia que facilitem o acesso ao crédito por cooperativas e negócios comunitários;
- Incentivos para que instituições financeiras ampliem a oferta de financiamento para essas cadeias produtivas.
Sobre o ÓSocioBio
O Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio) é uma rede colaborativa que reúne 43 organizações socioambientais da sociedade civil, movimentos sociais populares, empreendimentos e cooperativas de base comunitária que atuam nos campos, nas florestas e nas águas, mobilizados em torno da agenda das Economias da Sociobiodiversidade.
Sobre a Conexsus
O Instituto Conexões Sustentáveis - Conexsus atua na promoção da conexão dos negócios comunitários com os mercados, sejam locais, regionais, nacionais ou internacionais, disponibilizando acesso a investimentos financeiros customizados, aliados à orientação técnica voltada a melhoria da maturidade organizacional e o desenvolvimento de sua base de associados.
Sobre o Instituto Socioambiental (ISA)
O Instituto Socioambiental (ISA) é uma organização da sociedade civil que atua desde 1994 ao lado de comunidades indígenas, quilombolas e extrativistas, seus parceiros históricos, para desenvolver soluções que protejam seus territórios, fortaleçam sua cultura e conhecimentos tradicionais, elevem seu perfil político e fortaleçam suas economias. O ISA conta com equipes e escritórios permanentes em São Paulo, Distrito Federal e quatro estados amazônicos, além de compromissos de longo prazo com parceiros nas regiões do Vale do Ribeira, Xingu e Rio Negro.
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