Macêdo foi um dos idealizadores, junto a Ailton Krenak e outras lideranças indígenas e seringueiros, da Aliança dos Povos da Floresta
O Instituto Socioambiental (ISA) vem manifestar solidariedade aos familiares, amigos e colegas de Antônio Luíz Batista de Macêdo em razão do seu falecimento no último domingo (15/02) no município de Cruzeiro do Sul, Acre.
Macêdo, popularmente conhecido como Txai Macêdo, nasceu em 1952 no Seringal Transval, no Rio Muru, Vale do Rio Juruá, no Acre. Começou a trabalhar coletando o látex da borracha ainda criança e dos 14 aos 17 anos trabalhou em embarcações fluviais nos rios do Vale do Juruá, no Acre e Amazonas.
Servindo ao exército, se tornou mecânico de motores e trabalhou em companhias de terraplanagem até os 24 anos. Depois, como Artífice de Obras e Serviços Públicos de 1976 a 1978.
Em 1978, entrou na então Fundação Nacional do Índio (Funai), inicialmente lotado no mal sucedido projeto de instalação de uma serraria na área indígena dos Apurinã, no quilômetro 45 em Boca do Acre, Amazonas. Passou ao cargo de sertanista em 1986.
Como indigenista e sertanista da Funai e assessor da Comissão Pró-Índio do Acre nos anos 1980, Macêdo promoveu o reconhecimento e a demarcação de diversas Terras Indígenas no seu estado, também no sudoeste do Amazonas e noroeste de Rondônia.
Nos anos 80, ele foi um dos coordenadores do movimento de criação da primeira Reserva Extrativista do Brasil, a Reserva Extrativista do Alto Juruá. A criação da figura jurídica de Reserva Extrativista foi uma demanda do 1º Encontro Nacional dos Seringueiros em 1985. Resultado de cinco anos de mobilização, em janeiro de 1990, o governo federal criou Reservas Extrativistas como “espaços territoriais destinados à exploração autossustentável e conservação dos recursos naturais renováveis, por população extrativista”.
Entre janeiro e março de 1990 foram criadas as quatro primeiras Reservas Extrativistas totalizando mais de dois milhões de hectares, entre as quais a Reserva Extrativista do Alto Juruá, com 506 mil hectares.
A Aliança Pelos Povos da Floresta
Macedo ficou à frente da Coordenação Regional do Conselho Nacional dos Seringueiros do Vale do Juruá de 1988 a 1995. Foi um idealizador, junto a Ailton Krenak e outras lideranças indígenas e dos seringueiros, da Aliança dos Povos da Floresta, e em 1990 participou da viagem de membros da Aliança com o cantor e compositor Milton Nascimento às terras do povo Ashaninka no alto Juruá. Da viagem resultou o disco Txai.
Parte desta história está contada no filme Mapear Mundos, em que Macêdo aparece ao lado de Milton durante coletiva de imprensa.
Assista abaixo:
Em 1990, em Londres, Macêdo expôs as conquistas da Aliança dos Povos da Floresta a uma plateia que incluía o então Príncipe Charles, e em 1992 foi indicado pela ONG Amigos da Terra a entregar ao ex-Beatle Paul McCartney, o Prêmio The Voice for the Planet Earth (‘A Voz Pelo Planeta Terra’).
No mesmo período, Macêdo coordenou a criação do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Mâncio Lima (AC) e ajudou na criação de sindicatos e de diversas associações agroextrativistas em outros municípios no Vale do Juruá.
Também propôs e coordenou a implantação e execução do primeiro projeto do BNDES no Acre entre 1989 e 1995, o que credenciou o estado a obter financiamentos do banco a partir de 2001.
Foi consultor do governo do Acre de 2000 a 2012, inspirando aos governos Jorge Viana e Binho Marques à criação do "Programa de Florestania" e no "Programa de Etnozoneamento em Terras Indígenas", numa ação pioneira que esteve na base da construção da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI).
A contribuição de Txai Macêdo às histórias de luta de povos indígenas e de populações tradicionais - cuja aliança surgida no Acre criou o termo "povos da floresta" - permitiu que comunidades indígenas e seringueiros se posicionassem na vanguarda da luta por seus direitos territoriais e culturais.
Como resultado, estes povos se libertaram de seus antigos patrões (os "senhores da borracha") e imprimiram uma nova fase de sua história, exemplificada pela criação e fortalecimento de organizações de base e associações, a implementação de cantinas de apoio ao abastecimento e comercialização da produção agrícola, extrativa e artesanal, a valorização da cultura e da educação através da construção de escolas e de conteúdos pedagógicos inovadores.
Esta força e inspiração inestimáveis têm contribuído para que os povos da floresta na sua luta por autonomia conquistem a liberdade de habitar suas terras, e obtenham mais educação, saúde, revitalização de culturas tradicionais e melhoria da qualidade de vida na floresta.
Nos últimos tempos, Macêdo deu maior visibilidade ao seu lado musical, gravando em 2022 seu disco Akiri.
Em nota, a Fundação Txai, criada por Macêdo em 1995, escreve:
Partiu Txai Macedo — não apenas um indigenista, não apenas um sertanista, mas um sábio que aprendeu a escutar o tempo da mata, o canto dos povos e a memória profunda da terra. Um homem que caminhou entre mundos sem nunca se separar daquilo que defendia: a vida.
Txai foi herói de um tipo raro.
Não o herói das armas ou dos aplausos, mas o herói paciente, que planta futuro onde outros só veem distância.
Que protege territórios como quem protege histórias.
Francisco Piyãko, da Associação Ashaninka-Apiwtxa escreve:
Se hoje a Apiwtxa é forte, se o nosso território tem a floresta em pé, se as nossas escolas ensinam a nossa língua e se nós caminhamos com as próprias pernas e de cabeça erguida, é porque lá atrás, nos momentos mais sombrios, tivemos a mão estendida de um verdadeiro “Txai”, que a significa mais que um amigo, significa metade de nós mesmos.
Independente de qualquer dor que estejamos sentindo agora, nós assumimos aqui o compromisso inegociável de dar continuidade a essa história. No momento mais difícil, de lutar e conquistar o nosso espaço, o Macedo esteve na linha de frente por nós. Agora, o nosso dever sagrado é cuidar das conquistas que o Txai Macedo trouxe e colocou em nossas mãos.
Macedo foi colaborador e amigo do ISA, e de seu antecessor, o Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), por mais de quarenta anos. Que descanse em paz.
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