A Bacia do Rio Negro se estende pelos estados do Amazonas e de Roraima, no Brasil, e também avança pelos territórios vizinhos da Colômbia, Venezuela e Guiana. Na sua porção no Amazonas, a bacia é uma das regiões mais preservadas de todo o bioma amazônico, com biodiversidade incalculável. Por outro lado, a parte da bacia localizada em Roraima vem sofrendo grande degradação ambiental causada pelo garimpo ilegal de ouro, desmatamento e roubo de terra, ou "grilagem de terra".
Aproximadamente 68% da Bacia do Rio Negro no Brasil está formalmente protegida por um conjunto de unidades de conservação e terras indígenas legalmente reconhecidas. A diversidade cultural da região é enorme: ali vivem 45 povos indígenas e estão localizados dois patrimônios culturais do Brasil – a Cachoeira de Iauaretê e o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro – além do ponto mais alto do Brasil, o Pico da Neblina, lugar sagrado do povo Yanomami.
No Rio Negro, o ISA mantém trabalho de longo prazo e parceria institucional - que nos enche de orgulho - com associações indígenas e suas lideranças, entre elas a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), a Hutukara Associação Yanomami (HAY) e o Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Mantemos escritório e equipe na cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), considerado o município mais indígena do Brasil, localizado no Alto Rio Negro. De São Gabriel, também descemos com as águas do Negro para apoiar comunidades e associações indígenas dos municípios de Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, ambos no Amazonas. Em 2009, o ISA incorporou a organização Comissão Pró-Yanomami (CCPY), sua equipe e legado, abrindo escritório em Boa Vista (RR) e passando a atuar diretamente com o povo Yanomami e outros povos de Roraima.
Atualmente, o ISA atua na Bacia do Rio Negro com a promoção de processos formativos, articulando parcerias para a proteção dos territórios indígenas, valorização da diversidade socioambiental, segurança alimentar das comunidades, desenvolvimento de cadeias de valor da economia da floresta para geração de renda e produção de pesquisas interculturais que dêem visibilidade aos conhecimentos tradicionais e modos de vida das populações que, há muitos anos, mantém as florestas da região preservadas.
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Ouça! Encontro entre Geni Núñez e Ehuana Yanomami abre podcast 'Floresta no Centro', do ISA
Episódio gravado celebra trajetórias e apresenta histórias de resistência no campo das artes, do ativismo, da espiritualidade e da escrita
Ehuana Yanomami, liderança da Terra Indígena Yanomami, conversou com a psicóloga e escritora guarani Geni Núñez em São Paulo|Claudio Tavares/ISA
O Instituto Socioambiental (ISA) lança o podcast “Floresta no Centro”, para estimular escutas e trocas sobre territórios, culturas e resistências. Os episódios são gravados em eventos realizados na Floresta no Centro, espaço do ISA na Galeria Metrópole, na capital paulista, que apresenta saberes de comunidades do Xingu, Rio Negro e Vale do Ribeira por meio de itens tradicionais, exposições, encontros e publicações da organização e de parceiros para visitantes.
Na estreia, as trajetórias de Ehuana Yanomami, professora, pesquisadora, artista plástica e liderança do povo Yanomami, e Gení Núñez, psicóloga, escritora, pesquisadora e ativista guarani, se fundem em uma conversa exclusiva, densa e sensível, mediada por Ana Maria Machado, tradutora de línguas e de mundos, antropóloga e indigenista com mais de uma década de atuação junto ao povo Yanomami.
Durante o episódio, Ehuana compartilha durante sua fala seus sentimentos ao visitar a Aldeia Guarani Kalipety, na Terra Indígena Tenondé Porã, em São Paulo. Segundo ela, foi a primeira vez que ela esteve em um território Guarani.
“Eu vi como eles fortalecem suas roças, valorizam os próprios alimentos [...] e fiquei muito feliz com tudo aquilo. Eles são também Yanomami, são indígenas. Temos os mesmos olhos e a mesma pele”, disse. “Mesmo que São Paulo cerque seus territórios, e eles sofram com isso, ao mesmo tempo, eles se mantêm fortes, mantêm suas línguas, escrevem e foi muito bom ver como eles fizeram a retomada. Os Guarani são muito fortes”, finalizou.
O episódio atravessa temas como território, espiritualidade, cuidado, linguagem e ancestralidade – da floresta ao centro urbano, do corpo à escrita.
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Da esquerda para direita: Gení Núñez, Ehuana Yanomami e Ana Maria Machado|Claudio Tavares/ISA
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Gení e Ehuana conversaram sobre suas trajetórias e os pontos de intersecção de suas culturas|Claudio Tavares/ISA
Durante a conversa, Gení Núñez ressalta como o modo de vida tradicional é uma forma de resistência e barreira contra a colonização, que mantêm o povo Guarani vivo.
“Muitas vezes o nosso povo é descrito como um povo pacífico e isso é traduzido como se nós fossemos muito obedientes ou muito em sintonia com esse processo colonial, mas isso esconde a resistência do nosso povo, porque mesmo depois de tantos séculos, a gente tem orgulho em dizer que há parentes que não falam nenhuma palavra em português”, disse.
“Esse movimento de manter a língua, os costumes, o modo de vida tradicional, ele segue tendo a espiritualidade no centro”, explicou.
Gení homenageia Ehuana com um poema, que pode ser conferido na íntegra na sua plataforma de áudio favorita.
Gravado durante os eventos realizados no Espaço Floresta do Centro (https://loja.socioambiental.org/), em São Paulo, o podcast é uma realização do Instituto Socioambiental (ISA) e faz parte de um esforço coletivo para amplificar vozes originárias e tradicionais.
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Entre os presentes, estava a fotógrafa Nair Benedicto, que compareceu para escutar Gení Núñez e Ehuana Yanomami no centro de São Paulo|Claudio Tavares/ISA
O podcast Floresta no Centro tem apoio da Fundação Rainforest da Noruega.
Créditos
Identidade visual: Cama Leão
Captação de áudio, identidade sonora e edição: Voz Ativa Produções
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Livro com autoria indígena sobre aves do Alto Rio Negro conquista Jabuti Acadêmico 2025
Escrito em Baniwa, Nheengatu e português, obra editada pelo INPA alia o conhecimento tradicional dos Baniwa à pesquisa científica
Publicado pela Editora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), o livro é resultado de uma parceria entre pesquisadores do instituto e autores da comunidade Baniwa da aldeia de Nazaré, e contou com a colaboração do Instituto Socioambiental (ISA) e da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) no município de São Gabriel da Cachoeira (AM).
O conteúdo reúne registros de 310 espécies de aves observadas na região do Rio Cubate, com informações detalhadas sobre nomes tradicionais, habitats, alimentação e comportamentos.
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Autores indígenas receberam o reconhecimento pela obra no palco do Prêmio Jabuti Acadêmico 2025, em São Paulo|Renata Alves/ISA
Escrito em Baniwa, Nheengatu e português, o livro alia o conhecimento tradicional dos Baniwa à pesquisa científica, e foi concebido desde o início como ferramenta para fortalecer o ensino nas escolas indígenas e a autonomia cultural das comunidades locais.
Para Dzoodzo Baniwa, educador, pesquisador, liderança indígena e um dos organizadores da obra, o livro atende a uma demanda da própria comunidade de Nazaré, que vislumbra o potencial do levantamento das aves para futuras iniciativas de ecoturismo.
Dzoodzo também destaca a importância do reconhecimento como um convite à comunidade científica a rever a forma histórica de produção de conhecimento, propondo a atualização de metodologias participativas e colaborativas que incluam as comunidades indígenas e/ou locais e seus saberes. “Receber o Prêmio Jabuti Acadêmico é reconhecer a importância da construção colaborativa do conhecimento científico intercultural baseado na valorização de saberes locais e conhecimentos científicos. Isso é o que o nosso livro traz”.
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Gracilene Florentino Bittencourt, tradutora da obra para o Nhengatu e Dzoodzo Baniwa, um dos autores|Renata Alves/ISA
O projeto foi conduzido por meio de oficinas, expedições e deliberações comunitárias, com todas as decisões editoriais sendo aprovadas em assembleia na aldeia de Nazaré.
O livro não apenas registra a biodiversidade do Alto Rio Negro, mas também afirma a potência dos saberes indígenas como base legítima para a produção de conhecimento científico e a conservação ambiental.
A obra foi organizada por Dario Baniwa, Dzoodzo Baniwa, Damiel Legario Pedro, Estevão Fontes Olímpio, Gracilene Florentino Bittencourt, Camila Cherem Ribas, Fernando Mendonça d’Horta e Ramiro Dário Melinski.
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‘Uma Enciclopédia nos Trópicos: memórias de um socioambientalista’ vence o Jabuti Acadêmico 2025
Lançado em 2024, livro destaca o legado de Beto Ricardo, fundador do ISA, e reúne memórias e documentos sobre a defesa dos direitos dos povos indígenas no Brasil
O livro Uma Enciclopédia nos Trópicos: memórias de um socioambientalista, de um dos fundadores do Instituto Socioambiental (ISA), o antropólogo Beto Ricardo, e do escritor e jornalista Ricardo Arnt, foi o vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico 2025 na categoria Antropologia, Sociologia, Demografia, Ciência Política e Relações Internacionais.
A cerimônia de premiação aconteceu nesta terça-feira (05/08), no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, e reuniu autores, editoras e representantes de instituições acadêmicas de todo o país. Carolina Ricardo, filha de Beto Ricardo, recebeu o prêmio ao lado de Ricardo Arnt e Ricardo Teperman, publisher da Zahar, selo do Grupo Companhia das Letras responsável pela publicação da obra.
Lançado em 2024 e organizado por Jurandir Craveiro, ex-presidente do ISA, o livro reúne reflexões, relatos e documentos essenciais da trajetória de Beto Ricardo e da organização. Jurandir destaca que relembrar histórias, orientar pesquisas e selecionar fotos e mapas não foi uma tarefa fácil para Beto, que enfrenta há alguns anos o Mal de Parkinson.
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Beto Ricardo, antropólogo e fundador do ISA, em seu escritório na antiga sede da organização em Higienópolis, São Paulo|Claudio Tavares/ISA
“Em 2021, ele pressentiu que, em algum momento, talvez não estivesse mais apto a levar adiante o projeto. Com os pés no chão e determinação, não hesitou em me pedir ajuda. Durante quase três anos, com o apoio da família, cuidadoras, amigos e companheiros do ISA, estive junto do Beto para que conseguisse nos contar a histórias da sua vida e suas lutas. Não sem sacrifício, com amor e paciência, ele concluiu a obra, deixando um legado inspirador”, afirmou.
O livro resgata momentos-chave da criação e consolidação do campo socioambiental no Brasil, revelando bastidores do movimento indigenista e destacando contribuições de figuras como Darcy e Berta Ribeiro, Davi Kopenawa, Lula, Marina Silva, Milton Nascimento e Gilberto Gil, entre outros.
Veja imagens históricas de Beto Ricardo que constam no livro:
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Lideranças indígenas durante as negociações do capítulo dedicado aos povos indígenas na Assembleia Constituinte|Beto Ricardo/ISA
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Milton Nascimento com Benke Ashaninka, em viagem em setembro de 1989 que resultou no CD Txai, em apoio à Aliança dos Povos da Floresta|Beto Ricardo/ISA
Um dos marcos narrados é a criação do programa Povos Indígenas no Brasil, herança que o ISA recebeu do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI) e que reunia, sistematizava e divulgava informações cruciais sobre os povos indígenas em um período em que o Estado brasileiro insistia em negar sua existência. O programa criou à Enciclopédia “Pibão”, como ficou conhecida a base de dados pioneira, referência nacional e internacional e alicerce fundamental para o trabalho do ISA.
Com prefácio do escritor e ativista indígena Ailton Krenak e posfácio do jornalista Leão Serva, o livro encerra com o capítulo “O céu que nos protege”, onde Beto alerta para os efeitos da crise climática no Brasil. O texto enfatiza a urgência do protagonismo dos povos tradicionais e a valorização da sociobiodiversidade para a preservação da vida no planeta.
CARLOS ALBERTO (“BETO”) RICARDO é antropólogo e ativista desde a resistência à ditadura militar no Brasil. Foi um dos fundadores do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), criou e editou a série Povos Indígenas no Brasil junto com Fany Ricardo, recebeu o prêmio Goldman de Meio Ambiente de 1992 e fundou diversas organizações, como o Instituto Socioambiental (ISA), o Instituto Atá e a Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (Raisg).
RICARDO ARNT é jornalista e escritor. Foi editor da Folha de S. Paulo, do Jornal do Brasil, do Jornal Nacional da TV Globo, da TV Bandeirantes e das revistas Exame, Superinteressante e Planeta. É autor de vários livros, entre os quais O que é política nuclear (1983); Um artifício orgânico: Transição na Amazônia e ambientalismo (1992); Jânio Quadros: O Prometeu de Vila Maria (2004); e O que os economistas pensam sobre sustentabilidade (2010).
A segunda oficina do Ciclo de Estudos Interculturais sobre Políticas Climáticas reuniu cerca de 40 lideranças das regiões de abrangência da governança territorial da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), entre os dias 15 e 18 de julho, em São Gabriel da Cachoeira (AM). O encontro foi marcado pela escuta, troca de experiências e fortalecimento das estratégias coletivas em defesa dos territórios, com foco nas conexões entre mercado de carbono, governança e justiça climática.
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Lucilene Veloso, do povo Desana e articuladora do Departamento de Mulheres da região da CAIBARNX, fala durante atividade em São Gabriel|Juliana Radler/ISA
A programação de quatro dias trouxe temas estratégicos, como projetos de carbono florestal, REDD+ jurisdicional, Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), mitigação e adaptação às mudanças climáticas, e também perspectivas de participação dos povos do Rio Negro na COP 30, marcada para novembro deste ano, em Belém (PA).
Na primeira parte da oficina, a realidade das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira (SP) foi apresentada como ponto de partida para compreender como as mudanças no clima impactam diretamente seus modos de vida, as práticas agrícolas e a juventude nas comunidades, proporcionando uma importante troca de experiências e conexão entre os territórios indígenas e quilombolas, seus desafios e potências.
“A gente trouxe um pouco das questões do que é o quilombo no Vale do Ribeira, sobre as roças, sobre a legislação, sobre a educação e como trazer o jovem para dentro dessa discussão, que é muito pertinente hoje em dia. Falamos também da importância da preservação do território, de buscar e trazer esse conhecimento para os nossos, preservar nossos anciãos e essa cultura que não pode se perder”, detalhou Nicéia da Prata Santos, liderança quilombola da comunidade Maria Rosa, em Iporanga (SP), e integrante da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ).
Lucia Munari, pesquisadora no Programa Vale do Ribeira, do Instituto Socioambiental (ISA), apresentou a metodologia aplicada em comunidades da região, em pesquisa que visa identificar como os quilombolas percebem as mudanças climáticas nos territórios, por meio da aplicabilidade de protocolo internacional com indicadores locais e ampla participação das comunidades na coleta de dados.
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À esquerda, Nicéia da Prata Santos, liderança do Quilombo Maria Rosa e à direita Lucia Munari, pesquisadora do ISA |Juliana Radler/ISA
O conhecedor indígena Arlindo Maia Tukano, ao final, reforçou a importância do encontro, destacando a presença dos convidados e a oportunidade de conhecer a perspectiva quilombola, seus territórios e os pontos de convergência com a cosmologia indígena. “Gostei muito de saber mais sobre os nossos amigos quilombolas. Eu não sabia como era, e aqui, através das falas da nossa amiga Nicéia, percebi que eles são nossos irmãos de luta. Nossa luta é a mesma”, afirmou.
Os debates sobre políticas climáticas se aprofundaram com a apresentação de estudos e experiências práticas, como o caso do Projeto de Carbono Paiter Suruí, em Rondônia, o primeiro projeto indígena brasileiro no mercado voluntário de carbono, apresentado por Karoline Brasil, engenheira florestal do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam).
Karoline Brasil, engenheira florestal do Idesam, apresenta o Projeto de Carbono Paiter Suruí durante as atividades em São Gabriel da Cachoeira| Juliana Radler/ISA
As atividades abordaram conceitos técnicos fundamentais, como linha de base, adicionalidade, estoque de carbono e as etapas para implementação de projetos florestais em territórios indígenas, com ênfase em uma abordagem que considera saberes tradicionais, a biodiversidade e os impactos reais das mudanças climáticas nas comunidades.
Os grupos trabalharam, de forma prática, na elaboração de trilhas para projetos próprios e refletiram sobre os desafios e oportunidades da participação em programas como o REDD+ Jurisdicional.
Juliana Radler, analista de políticas socioambientais do Programa Rio Negro do ISA, no Amazonas, que organiza o ciclo em parceria com Foirn e com apoio do Banco Mundial, destacou a importância do encontro num momento em que a pauta climática ganha ainda mais centralidade com a realização da COP30 na Amazônia.
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Juliana Radler, analista de políticas socioambientais do Programa Rio Negro do ISA (blusa roxa), é a organizadora do ciclo de estudos|Vanessa Fernandes/ISA
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Após as discussões, os grupos de trabalho apresentaram os resultados|Vanessa Fernandes/ISA
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Temas como cultura, conhecimento e biodiversidade formaram a pauta|Vanessa Fernandes/ISA
“Os cientistas têm alertado para o ponto de não retorno da Amazônia. Os povos indígenas também nos mostram, através de sua ciência e cosmovisão, que a natureza está em desarmonia e não apresenta mais os padrões que costumavam orientar a vida na floresta. As secas estão extremas e as inundações também. Os rios estão secando, os peixes diminuindo. Já vivemos os impactos das mudanças do clima na Amazônia e a efetivação de medidas de adaptação e mitigação são urgentes. Um financiamento climático que leve em consideração a justiça ambiental precisa avançar em Belém”, afirmou.
O encerramento da oficina reforçou a construção coletiva de estratégias para atuação indígena na COP 30 e a importância de levar à conferência uma voz que reflita a diversidade e a complexidade dos territórios amazônicos e tradicionais do Brasil.
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Encerramento da segunda oficina do Ciclo de Estudos Interculturais sobre Políticas Climáticas no Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira|Rede Wayuri
Ficha técnica do Ciclo de Estudos Interculturais em Políticas Climáticas do Rio Negro | II Oficina de 15 a 18 de julho:
Organização: Juliana Radler
Produção: Antônio Gabriel Silva, Michelle Machado Tukano, Juliana Radler, Wizer Oliveira Baré e Sidnei dos Santos
Conselho Intercultural e articulação com rede de Aimas: Arlindo Maia Tukano, Aloisio Cabalzar e Danilo Bruxellas Parra
Palestrantes convidadas: Ana Karoline Brasil (IDESAM), Lúcia Munari (Programa Vale do Ribeira/ISA) e Nicéia da Prata Santos (CONAQ)
Mediação: Michelle Machado Tukano e Juliana Radler
Logística: Antônio Gabriel Silva, Sidnei dos Santos e Wizer Almeida Baré
Alimentação: Rosemira Lizardo, Marlene Albino e Valéria Guerra
Apoio na articulação com comunidades: Adelina Sampaio Desana
Elaboração de conteúdos para a II oficina (slides, apostila e materiais de apoio): Ana Karoline Brasil (IDESAM), Lúcia Munari (Programa Vale do Ribeira/ISA), Nicéia da Prata Santos (CONAQ) , Juliana Radler (ISA) e Renata Alves (ISA)
Relatoria do evento e gravação em áudio dos conteúdos: Inês Mexia
Participantes:
Diretoria da Foirn: Dario Casimiro Baniwa (presidente), Hélio Gessém Monteiro Lopes Tukano, Carlos Neri Piratapuia e Edison Cordeiro Gomes Baré.
Lideranças das Coordenadorias: Coordenadoria das Associações Indígenas do Baixo e Médio Rio Negro (Caimbrn): Adilson da Silva Joanico e Pedro Vaz Pena; Coordenadoria das Associações Indígenas do Balaio, Xié e Alto Rio Negro (Caibarnx): Adelina de Assis Sampaio Veloso, José Baltazar, Edmundo Gomes Alemão e Lucilene Veloso; Coordenadoria das Associações Indígenas do Distrito de Iauaretê (Coidi): Gustavo Cordeiro Trindade, Miriam Sirlene Marques Dias e Fátima Alves Nogueira Coordenadoria Diawii (rios Uaupés e Tiquié): Alexandre Sarmento Rezende, Francicleno dos Santos Brandão, Anunciata Rezende Marques, Geraldino Pena Tenório e Nildo Fontes; Coordenadoria Nadzoeri (rios Içana e Ayari): Ronaldo Apolinário, Francinaldo Farias, Joaquim da Silva Lima e Tiago Pacheco;Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) - Ezequias da Costa Pereira, Oscarina Caldas Azevedo, Rafael Antonio Azevedo, Roberval Pedrosa e Rogelino da Cruz Alves Azevedo;Comunicadores da Rede Wayuri - Alderney Trindade da Silva, Claudia Ferraz Wanano, José Paulo Sampaio Castro, Aldison Lobo, Josivan Aguiar, Nayra Sthefany Cardoso, Richarlison Lana Meireles
Departamento de Adolescentes e Jovens do Rio Negro (Dajirn): Jucimery Garcia Tariano, Mariete Pompilho Videira
Conhecedores indígenas: Arlindo Maia Tukano e Januário Bastos Alves Tuyuka
Equipe do Programa Rio Negro: Ana Letícia Pastore, Danilo Bruxellas Parra, Dulce Morais, Jéssica Martins, Vanessa Fernandes, Juliana Radler e Renata Alves
Convidada da Academia: Juliana Lins Góes de Carvalho, doutoranda da Universidade Radboud, Holanda
Instituições convidadas: ICMBIO (São Gabriel da Cachoeira): Airton Norberto da Silva Almeida, Anair Fontes Azevedo, Edivaldo Luiz Lopes e Maria Janete Pena Ramos
Universitários de Gestão Ambiental da UFAM em São Gabriel da Cachoeira: Denise Nogueira, Humberto Rogério Freitas e Jociele Marinho Ferraz
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Animação Yanomami fortalece vigilância indígena contra invasores
Produção explica como funciona o sistema que já emitiu mais de 200 alertas para proteger a Terra Indígena Yanomami
Uma nova animação lançada nesta semana apresenta o funcionamento do Sistema de Alertas Yanomami, ferramenta criada e operada pelas próprias comunidades da Terra Indígena Yanomami para monitorar invasões, denunciar ameaças e proteger a vida em um dos territórios mais pressionados da Amazônia.
Assista!
Desde sua implementação, em setembro de 2023, o sistema já emitiu 211 alertas, sendo mais de dois terços relacionados a invasões garimpeiras. A iniciativa se consolidou como uma resposta direta à crise humanitária e agora ganha força como modelo para outros povos indígenas e territórios ameaçados.
O sistema de alertas é uma iniciativa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), com realização da Hutukara Associação Yanomami, Associação Wanasseduume Ye’kwana, Urihi Associação Yanomami e Instituto Socioambiental (ISA).
Narrada por Morzaniel Iramari, cineasta e liderança Yanomami, a produção reforça o papel do sistema como estratégia comunitária: “O Sistema de Alertas Yanomami nos ajuda na proteção do nosso território e da nossa saúde”, ressalta Morzaniel em língua Yanomami.
Idealizado pelas lideranças indígenas, o sistema permite que monitores comunitários enviem alertas via formulário com fotos, vídeos, áudios e localização, inclusive offline. As informações são validadas, organizadas em um painel público e encaminhadas a autoridades e parceiros. A ferramenta está disponível em quatro idiomas (Yanomami, Ye’kwana, Sanoma e português).
Animação foi dirigida e animada por João Maia, com produção da Cama Leão e do ISA. Abaixo, imagem de Angela Yanomami feita por Victor Moriyama/ISA:
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“Entregamos muitas informações para as autoridades. O projeto do Sistema de Alertas é muito produtivo e dá resultados muito bons. Usamos principalmente para denunciar invasores na Terra Indígena Yanomami durante a crise humanitária, e também problemas da saúde”, comentou Dário Kopenawa, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami.
Em apenas seis meses de 2025, foram registrados 40 novos alertas, 77% deles sobre invasões. Também há registros de surtos de malária, abandono de postos de saúde, falta de medicamentos e doenças respiratórias, reforçando que o sistema também é uma estratégia vital de cuidado e saúde coletiva.
O vídeo foi apresentado pela primeira vez para os Yanomami em uma oficina realizada na comunidade Xihopi, no Demini, na segunda quinzena de maio.
“A animação tem um papel importante de sensibilização e contextualização para as comunidades onde fazemos as oficinas. A animação ajuda a comunicar com a comunidade e faz ela entender melhor o que estamos fazendo”, explicou Estêvão Senra, geógrafo no ISA que participou da criação do sistema de alertas.
Da ferramenta ao vídeo de animação
A ferramenta foi implementada em setembro de 2023. Desde então, 211 formulários foram preenchidos e encaminhados aos órgãos públicos competentes. Cerca de 67,2% são alertas territoriais, geralmente ligados a invasões ao território. Os alertas relacionados à saúde chegam a 21,8% e os ambientais somam 10,9%.
“Os alertas principais continuam sendo de invasões, oriundos das regiões onde ainda há movimentação de garimpeiros ilegais, como os rios Apiaú e Uraricoera”, contou Estêvão Senra.
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Sistema de alertas está disponível em quatro idiomas (Yanomami, Ye’kwana, Sanoma e português) e pode ser usado no celular|Evilene Paixão / Hutuka
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Estêvão Senra, do ISA, mostra ferramenta a Morzaniel Iramari, narrador da animação, em agosto de 2023|Evilene Paixão / Hutukara Associação Yanomami
Na última oficina, estiveram envolvidos 21 indígenas, representantes de 11 comunidades da calha do Rio Demeni. Estevão Senra e Lídia Montanha, representantes do ISA, ministraram a oficina junto a Ícaro Lavoisier, do UNICEF), e o consultor Corrado Dalmonego.
A chefe de escritório do UNICEF em Roraima, Tâmara Simão, destacou que a proposta do vídeo também é comunicar aos órgãos públicos, e eventuais parceiros, sobre o projeto, incentivando o engajamento das instituições na iniciativa, visando estimular a cooperação entre os agentes que estão no território.
“É importante que o poder público esteja engajado e atuante junto ao Sistema de Alertas, que se mostrou uma ferramenta essencial para a proteção de meninas e meninos que estão em território. Através dos formulários, o instrumento permite que a própria comunidade leve suas prioridades e especificidades diretamente aos órgãos necessários para atuação", pontuou.
Uma versão resumida, com pouco mais de um minuto de duração, também está disponível no Instagram, TikTok e LinkedIn. As duas versões são narradas por Morzaniel em Yanomami e contam com legendas em português, espanhol e inglês.
Como é o Sistema de Alertas na prática?
Por meio de um formulário, os monitores das comunidades podem anexar fotos, vídeos, áudios, pontos de localização com coordenadas geográficas e relatos. Os envios podem ser feitos offline e incluídos nos dispositivos quando tiver conexão. A fim de garantir o acesso, a ferramenta disponibiliza as opções de idioma em Yanomami, Ye’kwana, Sanoma e Português.
O funcionamento é simples: uma vez que o sistema recebe a denúncia, operadores do sistema qualificam as informações para validar os relatos, que em seguida ficarão expostos em um painel virtual e público para que autoridades, instituições parceiras e a imprensa possam ter ciência de qualquer anormalidade que ameace o território.
Este projeto é uma iniciativa UNICEF, com realização da Hutukara Associação Yanomami, Associação Wanasseduume Ye’kwana, Urihi Associação Yanomami e Instituto Socioambiental. Conta com financiamento da União Europeia, através do Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária (ECHO, na sigla em inglês), apoio do Ministério dos Povos Indígenas, e tem o objetivo de aumentar a resiliência e fortalecer a autonomia das comunidades com a integração de um sistema que respeite o contexto e o conhecimento das comunidades indígenas.
Primeira muvuca de sementes — e de gente — da Rede de Sementes da Serra da Lua (Ressel) foi celebrada com alegria em Roraima|Fabrício Marinho/ISA/Platô
Uma verdadeira muvuca de gente se reuniu na Serra da Lua, em Roraima, para celebrar o nascimento da Rede de Sementes da Serra da Lua (Ressel). Foi ali, no centro das três comunidades que integram a iniciativa, que aconteceu a primeira muvuca de sementes — um momento simbólico e coletivo que marcou o início de um novo ciclo de cuidado com a terra e com os saberes tradicionais da região. A rede reúne indígenas dos povos Macuxi e Wapichana, guardiões ancestrais desses territórios e conhecimentos.
Atualmente, a Ressel conta com 38 coletores distribuídos entre as Terras Indígenas Tabalascada, Canauanim e Malacacheta, localizadas na região da Serra da Lua, no município do Cantá.. “Desde que surgiu o projeto, estamos trabalhando para construir este momento de conexão com a natureza. É um ponto de partida para o projeto”, comemorou Alcineia Pinho Cadete, coletora e Elo da comunidade Canauanim.
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Alcineia Cadete é coletora da comunidade Canauanim|Fabrício Marinho/ISA/Platô
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Foram 20 kg de sementes na primeira muvuca da rede|Fabrício Marinho/ISA/Platô
Cerca de 270 kg de 32 espécies de sementes nativas de Roraima já foram coletadas pela Ressel. Para a primeira muvuca, foram usados 20 kg para semeadura em 0,5 hectares. A escolha foi semear as sementes próximo à Casa de Sementes, onde as coletas serão armazenadas.
“É um local simbólico, porque é o centro das três comunidades quando olhamos no mapa. É importante e representa muito para os coletores, porque foram eles que coletaram as sementes e também foram eles que plantaram aqui”, explicou Emerson Cadete, analista técnico do Instituto Socioambiental (ISA), responsável por apoiar os coletores da Ressel.
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Emerson Cadete, analista no ISA e no Redário, mistura as sementes da muvuca que marcou o nascimento da rede de Roraima|Fabrício Marinho/ISA/Platô
Em clima de comemoração, o evento começou com um café da manhã, seguido de falas de lideranças da comunidade, de um representante do Conselho Indígena de Roraima (CIR) e de técnicos do ISA, organização que faz parte do Redário.
“Eu gostaria que toda a juventude e as pessoas da comunidade Canauanim conhecessem mais deste projeto e da importância de reflorestar. Tenho certeza que daqui a 10 anos veremos um resultado excelente de combate às queimadas e derrubadas no nosso território”, disse Helinilson Nicacio Cadete, tuxaua da comunidade Canauanim.
Também houve uma visita às instalações da Casa de Sementes. Logo depois, os participantes seguiram para a mistura das 32 sementes da primeira muvuca de Roraima. (Veja a lista de espécies no fim da reportagem)
Além da proposta de restauração, as sementes também foram escolhidas a partir dos serviços ambientais que suas árvores poderão prestar aos moradores da região. O Pau-rainha, cuja madeira é usada para construção de casas e artesanatos, foi a semente de grande destaque da ação ao lado de outras espécies que darão frutos, como caju e taperebá.
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Coletores indígenas reunidos para o momento de semeadura das sementes na Serra da Lua, em Roraima|Fabrício Marinho/ISA/Platô
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Sementes de pau-rainha, caju e taperebá na muvuca|Fabrício Marinho/ISA/Platô
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Trabalho coletivo na semeadura direta das sementes|Fabrício Marinho/ISA/Platô
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Da esquerda para a direita: as coletoras Alcinda Cadete, Geyce Silva e Alcineia Cadete, integrantes da Rede de Sementes da Serra da Lua|Fabrício Marinho/ISA/Platô
Coletores e Elos
A Ressel está em fase de estruturação para se integrar ao Redário, que já conta com 27 redes em diversos estados do Brasil. “Ser coletor já somos há muito, por sermos indígenas, pela vivência com a natureza e por desde a infância trabalharmos com as sementes para os nossos artesanatos e para medicina tradicional. E, agora, existe este projeto de coleta das sementes para fazer reflorestamento de áreas degradadas”, definiu Alcineia sobre a relação dos coletores indígenas de Roraima com as sementes nativas e seu papel na restauração ecológica.
Os Elos são coletores e representantes das comunidades que assumem a posição de liderança, articulação e coordenação dentro das redes às quais pertencem. Cada uma das comunidades da Ressel possui seu próprio Elo. “É esta pessoa que faz toda a ligação entre os coletores e a Casa de Semente. Toda semente que chega a esta casa é verificada pelo Elo”, complementou Juberlita Rocha, Elo da Tabalascada.
Redário
O Redário é uma articulação de redes de sementes cujo objetivo é apoiar as redes e grupos de coletores para a produção de sementes de qualidade, impulsionar mercado e viabilizar as melhores sementes para a recomposição de cada ecossistema.
“Nós estamos na década da restauração e a demanda por serviços de restauração ecológica no Brasil, assim como por insumos florestais, tem crescido. A restauração por semeadura direta de muvuca enriquece este mercado, pois permite atingir melhores resultados e serviços ambientais”, afirmou Luciano Langmantel Eichholz, técnico em restauração do ISA.
Luciano Langmantel Eichholz, técnico do ISA e Redário, conversou com os membros da Ressel sobre o Redário|Fabrício Marinho/ISA/Platô
São mais de 2.500 pessoas envolvidas na coleta de sementes, sendo mais da metade mulheres. Em 2024, o Redário comercializou diretamente mais de 18 toneladas de sementes de 186 espécies nativas. No mesmo ano, o total de sementes vendidas pelas redes da articulação ultrapassou 106 toneladas.
Sementes usadas na I Muvuca de RR
Adubação verde e agrícolas: Abóbora (Cucurbita pepo L.), Feijão de porco (Canavalia ensiformis), Gergelim (Sesamum indicum), Maxixe (Cucumis anguria);
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Indígenas do Rio Negro ampliam diálogo sobre clima e territórios na Casa do Saber, em São Gabriel da Cachoeira (AM)
Primeira oficina do Ciclo de Estudos Interculturais conecta políticas climáticas globais e nacionais às realidades indígenas, com foco em carbono, governança e justiça climática na Amazônia
Em ano de Conferência do Clima na Amazônia (COP 30), os povos indígenas fortalecem o diálogo intercultural sobre aspectos da governança climática global, geopolítica, economia e política de modo que temas como regulamentação do mercado de carbono e pagamento por serviços ambientais possam ser objeto de debate e reflexão de forma democrática, inclusiva e pé no chão junto às comunidades no Amazonas.
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Participantes do Ciclo de Estudos Interculturais em Políticas Climáticas, em São Gabriel da Cachoeira, na sede da Foirn|Adelina Sampaio Desana/ISA
Estabelecer conexões entre o pensamento indígena e as estratégias de mitigação e adaptação às alterações climáticas previstas no âmbito das negociações internacionais, também foi um dos objetivos do Ciclo de Estudos Interculturais em Políticas Climáticas, iniciado com a primeira oficina presencial realizada na Casa do Saber, da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), entre os dias 10 e 13 de junho.
Com organização do Programa Rio Negro, do Instituto Socioambiental (ISA) e apoio do Banco Mundial, o evento contou com 42 lideranças de cerca de 15 etnias do Rio Negro, como Baré, Baniwa, Desana, Tariana, Tuyuka, Tukano, Piratapuia, Koripako e Wanano. Os participantes debateram e refletiram sobre aspectos da ciência do clima, das políticas, leis internacionais e nacionais implementadas sobre o assunto, como a regulamentação do mercado de carbono, com a criação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE).
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Geopolítica e Convenção do Clima da ONU em pauta na Casa do Saber da Foirn, em São Gabriel da Cachoeira (AM)|Juliana Radler/ISA
A governança climática global e seus impactos nos territórios indígenas e nas políticas públicas existentes, como a Política Nacional de Gestão Territorial em Territórios Indígenas (PNGATI), é tema fundamental para as lideranças indígenas rionegrinas que habitam uma região com 23 milhões de hectares de floresta amazônica preservada, com 12 Terras Indígenas, na área de abrangência da governança territorial da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn).
A oficina contou com a presença da advogada especialista em Direito Socioambiental, Fernanda Rotta, da Rotta e Moro Sociedade de Advogados, para introduzir os aspectos jurídicos das políticas do clima, como a recém sancionada Lei 15.042 (Lei do Carbono), mecanismos de REDD + e REDD+ Jurisdicional - Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal -, assim como os direitos dos indígenas como titulares dos créditos de carbono em seus territórios.
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Advogados Fernanda Rotta e Adriano Oliveira Tukano explicaram o direito à consulta livre, prévia e informada (CLPI) em Terras Indígenas|Juliana Radler/ISA
A importância das salvaguardas socioambientais (salvaguardas de Cancún) e da aplicação dos Protocolos de Consulta para consulta livre, prévia e informada (CLPI) junto às comunidades em casos de desenvolvimento de projetos também foi trabalhada no Ciclo pelos participantes, que contaram com um encontro entre advogados (indígena e não indígena) para refletir sobre temas ligados à autonomia indígena, autodeterminação e soberania em seus territórios e modos de vida, com a participação do advogado Adriano Oliveira, do povo Tukano.
A equipe do Programa Rio Negro do ISA também conduziu apresentações sobre os efeitos dos Gases do Efeito Estufa (GEE), sobre o Ciclo do Carbono e a interferência antropogênica no equilíbrio climático da Terra, assim como tópicos relacionacionados às negociações no âmbito da UNFCCC (Convenção do Clima da ONU), sua criação na Eco 92 e principais desafios e conquistas, como o Acordo de Paris. Pontos de atenção sobre violações de direitos, fraudes e a chamada maquiagem verde também foram abordados, assim como a necessidade de se valorizar os princípios éticos estabelecidos nas negociações climáticas globais, como os estabelecidos pela Unesco, em 2017.
Durante quatro dias, os diálogos interculturais contaram também com apresentações dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (Aimas) e dos conhecedores indígenas, assim chamados os guardiões dos saberes ancestrais da cosmovisão indígena, entre eles Arlindo Maia Tukano e Januário Bastos Alves Tuyuka, ambos da Terra Indígena Alto Rio Negro, moradores dos Rios Uaupés e Tiquié. O papel dos Aimas, que formam uma rede de pesquisadores indígenas na Bacia do Rio Negro, foi ressaltado pelos participantes do Ciclo de Estudos como de fundamental importância para o presente e futuro da Amazônia em tempos de mudanças climáticas.
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Roda de Conversa sobre origem do fogo com conhecedores indígenas e Aimas, durante o Ciclo de Estudos Interculturais em Políticas Climáticas|Juliana Radler/ISA
A próxima oficina presencial do Ciclo de Estudos Interculturais em Políticas Climáticas no Rio Negro ocorrerá entre os dias 15 e 18 de julho, na Casa do Saber, na sede da Foirn, em São Gabriel da Cachoeira, com o objetivo de aprofundar o tema de pagamento por serviços ambientais, serviços ecossistêmicos e estratégias indígenas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, além da articulação dos povos indígenas do Rio Negro para a COP 30, em Belém, considerando aspectos ligados à gênero, raça e direitos da juventude.
Chega de destruição
Adolescentes indígenas e não indígenas, estudantes do Colégio Estadual São Gabriel, localizado no centro do município, apresentaram para os participantes do Ciclo de Estudos, trabalhos feitos em sala de aula sobre o aquecimento global, suas causas, consequências e ações possíveis para enfrentar o problema. Preocupados com o futuro que terão em um planeta mais quente, os alunos amazonenses demonstraram seu engajamento e compromisso com o meio ambiente, levantando a necessidade de cuidar urgentemente das florestas, dos rios e melhorar as condições de vida nas cidades amazônicas.
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Ilustração de estudantes do Colégio São Gabriel apresentada durante o Ciclo de Estudos Interculturais em Políticas Climáticas |Juliana Radler/ISA
“Chega de destruição e de lixo nos nossos igarapés. A gente tem que respeitar a natureza e não maltratar quem nos dá a vida”, disse uma aluna na apresentação.
O intercâmbio entre o Ciclo de Estudos Interculturais em Políticas Climáticas com os alunos adolescentes do colégio São Gabriel continuará na segunda oficina, com acompanhamento do professor de Ciências, Benedito Melgueiro Ribeiro, do povo Baré.
Ficha técnica do Ciclo de Estudos Interculturais em Políticas Climáticas do Rio Negro | Oficina de 10 a 13 de junho:
Organização: Juliana Radler
Produção: Michelle Machado Tukano, Juliana Radler e Wizer Oliveira Baré
Conselho Intercultural e articulação com rede de Aimas: Arlindo Maia Tukano, Aloisio Cabalzar e Danilo Bruxellas Parra
Assessoria Jurídica: Fernanda Rotta (Rotta e Moro Sociedade de Advogados) e Adriano Oliveira Tukano
Assessoria técnica em Gestão e Cadeias Produtivas: Ana Letícia Pastore
Mediação: Michelle Machado Tukano e Juliana Radler
Logística: Antônio Gabriel Silva, Claudino Amorim e Wizer Almeida Baré
Alimentação: Rosemira Lizardo, Marlene Albino e Valéria Guerra
Apoio na articulação com comunidades: Adelina Sampaio Desana
Elaboração de conteúdos para a oficina (slides, apostila e materiais de apoio): Ana Letícia Pastore, Aloisio Cabalzar, Arlindo Maia Tukano, Fernanda Rotta e Juliana Radler
Relatoria do evento e gravação em áudio dos conteúdos: Inês Mexia
Participantes:
Diretoria da Foirn: Dario Casimiro Baniwa (presidente), Hélio Gessém Monteiro Lopes Tukano, Carlos Neri Piratapuia e Edison Cordeiro Gomes Baré.
Lideranças das Coordenadorias: Coordenadoria das Associações Indígenas do Baixo e Médio Rio Negro (Caimbrn): Adilson da Silva Joanico, Lilian Gabriela Caldas de Assis Koripako e Pedro Vaz Pena; - Coordenadoria das Associações Indígenas do Balaio, Xié e Alto Rio Negro (Caibarnx): Adelina de Assis Sampaio Veloso, José Baltazar, Edmundo Gomes Alemão e Lucilene Veloso; Coordenadoria das Associações Indígenas do Distrito de Iauaretê (Coidi): Gustavo Cordeiro Trindade, Miriam Sirlene Marques Dias e Grazielly Prado Rodrigues, Almerinda Ramos de Lima; Coordenadoria Diawii (rios Uaupés e Tiquié): Francicleno dos Santos Brandão, Anunciata Rezende Marques e Maria Suzana Menezes Miguel e Coordenadoria Nadzoeri (rios Içana e Ayari): Ronaldo Apolinário, Francinaldo Farias, Walter Lopes da Silva e Bonifácio José
Rede de Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs): Milena Joaquim, Araújo Lourenço Amâncio, Edécio Marques Meira, Ezequias da Costa Pereira, Milton Sanches Velasque, Damião Barbosa, Ismael Pimentel dos Santos (Piaba) e Roberval Pedrosa.
Comunicadores da Rede Wayuri: Claudia Ferraz Wanano e João Paulo Piratapuia.
Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro (Dmirn): Cleocimara Gomes Piratapuia
Departamento de Adolescentes e Jovens do Rio Negro (Dajirn): Jucimery Garcia Tariano
Assessoria Jurídica da Foirn: Adriano Oliveira Tukano
Equipe do ISA: Andréia Damasceno, Aloisio Cabalzar, Ana Letícia Pastore, Dulce Morais, Danilo Bruxellas Parra, Juliana Radler e Petra Caldas
Convidada da Academia: Juliana Lins Góes de Carvalho, doutoranda da Universidade Radboud, Holanda
Rotta Moro Advogados: Fernanda Rotta
Instituições convidadas - FUNAI - CR Rio Negro: Maria do Rosário Martins (Dadá Baniwa) e Denivaldo Cruz da Silva, ICMBIO (São Gabriel da Cachoeira): Maria Janete Pena Ramos; Tribunal de Justiça do Amazonas (São Gabriel da Cachoeira) - juiz Manoel Átila Araripe Autran Nunes.
Francicleno dos Santos Brandão, liderança de Pari-Cachoeira, defende importância da autonomia dos povos indígenas|Juliana Radler/ISA
Liderança Adelina Sampaio, do povo Desana, e a advogada Fernanda Rotta, na primeira oficina sobre políticas climáticas em São Gabriel da Cachoeira|Aloisio Cabalzar/ISA
Mulheres lideranças indígenas de Iauaretê, na TI Alto Rio Negro, debatem sobre Adaptação Climática|Juliana Radler/ISA
Gustavo Cordeiro Trindade, coordenador da Coidi, analisa possíveis problemas em contratos de carbono junto às comunidades indígenas|Juliana Radler/ISA
Ezequias da Costa Pereira, Aima do município de Barcelos, analisa os eventos extremos na Bacia do Rio Negro|Juliana Radler/ISA
Juliana Radler, analista de políticas socioambientais do ISA, na Casa do Saber|Aloisio Cabalzar/ISA
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Enchente do Rio Içana amplia sequência de extremos climáticos no noroeste amazônico
Subida durante a enchente está sendo registrada em vários pontos da região do Rio Negro, desde a cidade de São Gabriel da Cachoeira até as cabeceiras dos rios
Enchentes e secas se alternam, ano após ano, numa sequência de extremos climáticos que impactam as comunidades indígenas da Bacia do Rio Negro. Desta vez, depois de dois anos de verões severos, com vazantes significativas dos rios formadores do Negro – provocados pelo El Niño potencializado por efeitos das mudanças climáticas – é o excesso de chuvas que está chamando a atenção e alterando a vida de seus habitantes.
De acordo com o Boletim Hidrológico da Bacia do Rio Amazonas publicado na ultima semana pelo Serviço Geológico do Brasil, o Alto Rio Negro segue em processo de enchente, subindo uma média diária de 6 cm em São Gabriel da Cachoeira e Barcelos, com níveis considerados altos para a época.
No Rio Içana, importante afluente que nasce na Colômbia e deságua na região do Alto Rio Negro, os Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) relatam prejuízos e preocupações com o avanço da água sobre as roças, casas, quintais com suas plantas frutíferas e até mesmo escolas, comprometendo a segurança alimentar e o bem-estar das famílias em seus territórios. A estimativa é de que mais de 120 famílias da região tenham sido afetadas na região.
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Após dois anos de verões severos, roças, casas e escolas estão alagadas. Na foto, o impacto na da cheia na Comunidade de Aracu-Cachoeira|Siderio Rodrigues/AIMA
“Agora o nível está subindo cada vez mais. Hoje subiu quase três palmos aqui em Bela Vista”, conta Tiago Pacheco, coordenador dos Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAs) do Alto Içana e professor nessa comunidade, alertando que as chuvas não têm dado trégua. “Se não chove pela manhã, com certeza à tarde e à noite [vai chover]. E acredito que hoje vai chover de novo, então não tem como parar a enchente, né?”.
Para Tiago, a situação é preocupante e atinge principalmente as famílias que estão localizadas em terrenos mais baixos. “A maioria das famílias de Aracú Cachoeira e daqui estão perdendo suas roças, que estão indo pro fundo. Não sei como vai ficar, porque as roças que estão sendo alagadas são novas roças, não maduras ainda. E as plantações também”.
Uma preocupação compartilhada por outros moradores, que já veem a rotina afetada e a subsistência ameaçada pela força da cheia, considerada extrema para a região. “O rio tá muito cheio mesmo. Algumas [comunidades] já alagaram metade e passou do nível”, segundo o AIMA Siderio Rodrigues, ao enviar imagens da enchente.
Siderio também relata a subida massiva de piabas durante dias seguidos, capturadas em armadilhas colocadas na cachoeira, alimento para todos da comunidade. A subida durante a enchente está sendo registrada em vários pontos do território, desde a cidade de São Gabriel da Cachoeira até as cabeceiras dos rios, como no Içana, onde também foi reportada na Cachoeira Uapuí, em seu alto curso.
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Casa do AIMA Valêncio da Silva, em Urumutum-Lago. Imagem do começo do mês|Aloísio Cabalzar/ISA
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Casa do AIMA Valêncio da Silva, em Urumutum-Lago. Imagem da casa tomada pela água|Walter Silva/AIMA
A imagem da esquerda mostra a casa do AIMA Valêncio da Silva, na comunidade de Urumutum-Lago, no início do mês, antes da cheia do rio. À direita, a mesma casa aparece completamente tomada pela água. Valêncio e sua família estão abrigados na casa de parentes numa área mais alta na própria comunidade. Uma realidade que se repete com muitas outras famílias atingidas pela enchente.
Da comunidade de Camanaus, também na fronteira Brasil-Colômbia, a AIMA Milena Patinho Joaquim relata a mesma situação: “a escola também se afundou e o rio continua subindo. Passou o limite onde sempre chegava”. Ela conta que, de acordo com os sabedores mais antigos, é a primeira vez que a água avança desta forma na sua comunidade.
Nos anos de 2021 e 2022, o nível da água também subiu de forma atípica na região do baixo Rio Ayari, afluente do médio Içana. Em 2025, a situação se repete, sendo essa a área mais impactada até o momento: segundo levantamento feito por lideranças locais, 29 famílias e 40 roças foram atingidas pela cheia. Lá, a água já começa a baixar, mas a dinâmica nas comunidades ainda não foi normalizada.
“Nós enviamos uma planilha e as lideranças foram preenchendo. Em toda a região do Içana, foram 122 famílias e roças impactadas. O número de casas foi de 81 que a gente conseguiu levantar”, explica Dzoodzo Aawadzoro, liderança indígena Baniwa.
A Defesa Civil de São Gabriel da Cachoeira emitiu um comunicado solicitando que os capitães (lideranças) das comunidades indígenas entrassem em contato para relatar a situação em suas localidades, a fim de organizar o apoio humanitário necessário.
Nesta segunda-feira (24), o coordenador do órgão, Armando Neto dos Santos, informou que uma equipe interinstitucional seguirá nos próximos dias em expedição para a região do Rio Içana, onde fará uma avaliação in loco da situação e das dimensões dos impactos para avaliar e fornecer os apoios necessários.
São Gabriel da Cachoeira em alerta
Rio abaixo, na área urbana do município de São Gabriel da Cachoeira, a situação é de alerta para inundação pela Defesa Cívil do Estado do Amazonas, mas ainda está dentro dos níveis esperados para o período.
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Passarela de madeira precisou ser instalada no Bairro São Jorge/Tirirical, em São Gabriel da Cachoeira|Vanessa Fernandes/ISA
O aumento do nível do rio já começa a mudar a paisagem da orla principal, onde a faixa de areia já desapareceu. Na mesma região, no Bairro São Jorge/Tirirical, uma passarela de madeira, conhecida como maromba, já foi instalada pela Secretaria de Obras para a passagem de pedestres no trecho onde o rio começou a tomar a rua. O acesso pela Vila dos Oficiais, controlada pelo exército, também foi liberado para os moradores.
Na região central, a rua Beira Rio, no Porto Queiroz Galvão, que há uma semana estava prestes a ser alcançada pela água, já se encontra com um trecho submerso interditado para a passagem de veículos nesta terça-feira (24). Na mesma região, ao final da avenida 31 de março, aos pés do Morro da Fortaleza, uma passarela foi instalada para garantir a passagem de pedestres que moram na área. A situação também está sendo monitorada no bairro Dabaru Beira Rio.
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Avenida Beira Rio em São Gabriel da Cachoeira interditada para o trânsito de veículos|Vanessa Fernandes/ISA
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Avenida 7 de Setembro também foi afetada e segue sem circulação de carros|Vanessa Fernandes/ISA
Maio, junho e julho são os meses onde o rio alcança sua cota máxima no município. Há uma semana, no dia 17 de junho, o nível do rio Negro em São Gabriel da Cachoeira era de 11,48 m. De acordo com a Defesa Civil, nesta terça (24), a cota é de 11,63 m. As medições ocorrem diariamente às 7h e 17h do horário local. A cota máxima registrada no município foi de 12,68 m em 11 de junho de 2021.
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Nota de pesar pelo falecimento de Genisvan Melquior
Genis, como era conhecido, foi um dos pioneiros no uso de tecnologias e sistemas de informação geográfica e deixa um legado de compromisso com os direitos territoriais dos povos do extremo norte do país
Genisvan deixa um legado de compromisso com os direitos territoriais dos povos do extremo norte do país|Arquivo/CIR
É com profundo pesar que recebemos a triste notícia do falecimento de Genisvan Melquior André, do povo Macuxi.
Genis, como era conhecido entre os amigos, nasceu em Maturuca, na região das Serras, na TI Raposa Serra do Sol, e foi um dos pioneiros no uso de tecnologias e sistemas de informação geográfica para o monitoramento e proteção de Terras Indígenas em Roraima. Atuou por 15 anos no Departamento de Gestão Territorial, Ambiental e Mudanças Climáticas do Conselho Indígenas de Roraima (CIR).
Nós do ISA, tivemos a honra de contar com a sua colaboração como estagiário, enquanto cursava a graduação em Gestão Territorial na UFRR. Neste período, Genis contribuiu de maneira fundamental para a construção do banco de dados geográficos das áreas protegidas da bacia do Rio Negro, base utilizada até os dias atuais na defesa dos direitos territoriais e difusos dos povos do extremo norte do Brasil.
Além das habilidades nas ferramentas de geoprocessamento, Genis foi tecladista do lendário grupo “Caxiri na Cuia”, banda de forró Macuxi, cujas canções ecoarão por muito tempo nas malocas e casas do nosso estado.
É com o coração partido, portanto, que gostaríamos de deixar as nossas homenagens a esta pessoa extraordinária, que tanto contribuiu para a luta em defesa dos povos indígenas. Nossas profundas condolências a família e amigos de nosso querido guerreiro.
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Canoita fortalece acordos de manejo no Alto Tiquié (AM) e reafirma protagonismo indígena
Encontro entre comunidades do Brasil e da Colômbia pactua diretrizes para preservação do peixe e do caraná, com base em conhecimentos ancestrais e práticas de cuidado com o território
A Canoita, encontro de troca de conhecimentos, comunicação e monitoramento territorial, mobiliza comunidades indígenas da região do rio Tiquié — entre Brasil e Colômbia — desde o início dos anos 2000. Realizada entre os dias 5 e 8 de maio, a edição de 2025 reuniu cerca de 120 participantes em São Pedro (ou Mopoea), do lado brasileiro do rio, para aprofundar os debates iniciados no ano anterior, em Bellavista de Abyú, na Colômbia.
O foco do encontro foi a pactuação coletiva de novos acordos de manejo do peixe — recurso central e cada vez mais escasso — e do caraná, palmeira usada para cobrir as malocas, onde saberes e práticas ancestrais para o manejo do mundo são abrigados e transmitidos entre gerações.
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Representantes da DIAWII/FOIRN, ATRIART e COITERTI assinaram novos acordos de manejo do peixe e do caraná|Mauro Pedrosa/ISA
Os acordos fazem parte de um plano traçado na Canoita do ano passado, onde estão previstas ações focadas em conhecimentos ancestrais e manejo ambiental, direitos das mulheres, gestão do lixo e comunicação. À frente dessa articulação estão a ATRIART (Associação das Tribos Indígenas do Alto Rio Tiquié) e o COITERTI (Consejo Indígena del Territorio del río Tiquié), com apoio do ISA (Instituto Socioambiental) e da Fundación Gaia Amazonas.
Como preparação e consulta às comunidades sobre os acordos, uma oficina em novembro de 2024 em Cachoeira Comprida, do lado brasileiro do Rio Tiquié, elaborou temas e propostas sobre formas de manejo da piracema, dos lugares sagrados, do uso timbó, do lixo e das artes e técnicas de pesca.
Mediada pelas lideranças tuyuka José Ramos, de São Pedro, e Jorge Lima, de Bellavista de Abyú, a Canoita contou com momentos de contextualização e histórico da iniciativa, grupos de trabalho organizados por trechos de rio e associações, plenárias e debates feitos sobretudo em Tuyuka e Tukano com traduções resumidas em português e espanhol.
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Outros encontros estão previstos para 2025 e vão ser protagonizados por mulheres e conhecedores tradicionais da região|Mauro Pedrosa/ISA
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A Canoita reuniu 120 participantes de diferentes gerações para discutir manejo na região|Danilo Parra/ISA
Embora o foco principal tenha sido a pactuação e compromisso com os acordos de manejo ambiental de peixes e caraná, a troca de experiências foi um dos marcos do encontro. Pelo lado brasileiro, foram rememoradas as iniciativas realizadas pelos agentes indígenas de manejo ambiental (AIMAs), escolas e movimento indígena viabilizadas principalmente por meio de projetos socioambientais nos últimos 20 anos.
Já do lado colombiano, ganharam destaque as experiências das AATIs (Associações de Autoridades Tradicionais Indígenas), que atuam como formas próprias e autônomas de governo, além das iniciativas voltadas à valorização e articulação dos sistemas tradicionais de conhecimento.
Resumidamente, os acordos definem os locais onde deve se restringir ou proibir a pesca sistematizados em um mapa[MOU1]. Também, indicam práticas de conhecimento indígena que devem ser procuradas, orientam como respeitar a piracema, como utilizar o timbó e quais são as formas que técnicas não tradicionais, como malhadeiras, devem ser empregadas para que não sejam predatórias nem agravem a escassez de peixe em uma região com poucos peixes.
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Mapa de trabalho para manejo de pesca e caraná. Fonte: Fundación Gaia Amazonas
Em relação ao caraná, cujas folhas são tradicionalmente utilizadas como cobertura das casas e das malocas, os acordos estabelecem formas de uso que garantam a regeneração dessa palmeira e respeitem o manejo tradicional realizado pelas gerações anteriores. Outro ponto abordado foi o compromisso com a construção de estratégias para lidar com os resíduos sólidos, como pilhas, baterias e plásticos, que têm se tornado presença crescente nos territórios.
As pilhas e baterias ganharam destaque nas discussões. Conforme aumenta o consumo de eletrônicos e a conscientização em relação ao descarte adequado desse tipo de resíduo, aumenta também seu acúmulo em tambores e carotes, o que tem criado um enorme desafio legal e logístico nas terras indígenas do Rio Negro. De acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, fabricantes de pilhas e baterias deveriam ser “... obrigados a estruturar e implementar sistemas de logística reversa…” (Lei 12.305 Art 33) , o que ainda não acontece no Alto Rio Negro.
Para que os acordos não se tornem apenas mais um documento entre tantos, os participantes ressaltaram a importância de sua implementação cotidiana, enraizada nas práticas vividas e compartilhadas pelas comunidades, famílias e escolas.
Com ampla experiência de mobilização, interlocução com burocracias não indígenas e construção de instrumentos próprios de planejamento — como os Planos de Vida, na Colômbia, e os Planos de Gestão Territorial e Ambiental, no Brasil —, as comunidades de ambos os lados da fronteira destacaram que a efetividade dos acordos depende da valorização contínua das boas práticas de manejo tradicional e do envolvimento direto das pessoas que habitam e cuidam do território.
Afinal, não se trata de realizar uma vigilância e punição ativa de quem não respeitar os acordos. Conforme colocado, sob forma de provocação bem humorada da liderança Raimundo Tenório, ninguém vai querer ser o vigia do rio enquanto a comunidade está em festa. Mas, as comunidades indicarão pessoas de referência que registrarão os pontos que serão avaliados periodicamente pelas comunidades e organizações indígenas e parceiras.
Seguindo a rota traçada com a retomada das Canoitas no ano passado, dois novos encontros já estão previstos para o segundo semestre de 2025. Com diretrizes temáticas definidas, serão protagonizados por coletivos de mulheres e conhecedores tradicionais das comunidades do Tiquié, e terão como foco os direitos e os papéis das mulheres, além da proteção dos sítios sagrados. Assim continua a jornada da peri yokosorogã — a pequena canoa, em tuyuka — navegando por essas águas e paisagens cuidadas, há milênios, por quem delas faz morada e conhecimento.