Com direitos garantidos sobre seus territórios e com suas culturas valorizadas, povos indígenas e comunidades tradicionais buscam o reconhecimento do Estado, da sociedade e do mercado sobre a economia que praticam há séculos, em alguns casos milênios, baseada em técnicas produtivas ancestrais e no cuidado com as florestas.
Com essa economia da floresta - chamada também de Economia da Sociobiodiversidade, ou Economia do Cuidado - as comunidades priorizam a segurança alimentar, garantem o bem-viver e ainda produzem mais biodiversidade, o que beneficia todo o planeta. Contudo, o desenvolvimento a qualquer custo promovido pelo Estado prima por modelos econômicos altamente subsidiados, poluidores, predatórios e atividades ilegais que ameaçam, matam e destroem.
Em resposta a esse enorme e histórico desequilíbrio de forças, o ISA busca fortalecer o protagonismo das comunidades parceiras ao fomentar atividades produtivas, iniciativas de turismo de base comunitária e ações de restauração florestal nas bacias dos rios Negro, no Amazonas e Roraima, Xingu, no Mato Grosso e Pará, e Ribeira do Iguape, em São Paulo.
Ao mesmo tempo, o ISA também busca sensibilizar o setor privado, os governos e o mercado consumidor para a necessidade de promoção de políticas públicas e relações comerciais justas e transparentes que valorizem as contribuições socioambientais dos povos e comunidades e respeitem seus modos de vida, territórios e culturas.
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ISA lança série de camisetas que celebram os povos que cuidam das florestas e da vida
“Alimento para corpo e alma” faz parte das comemorações dos 30 anos do Instituto Socioambiental
Kaue Ferreira, do ISA, com a camiseta da Pimenta do Rio Negro|Claudio Tavares/ISA
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Clara de Assis, do ISA, com a camiseta do Babaçu do Xingu|Claudio Tavares/ISA
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Patrícia Ribeiro, da Rede Xingu+, com a camiseta de Muvuca de Sementes|Claudio Tavares/ISA
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Veronice Cardoso, do ISA, com a camiseta da Roça Quilombola|Claudio Tavares/ISA
A série de camisetas “Alimento para corpo e alma”, lançadas pelo Instituto Socioambiental (ISA) como parte da celebração dos 30 anos da organização, apresenta exemplos da biodiversidade que são fruto dos saberes e modos de vida de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. As ilustrações são de Catarina Bessell.
Estudo publicado pelo ISA mostrou que esses povos e suas economias são responsáveis, juntos, pela proteção de um terço das florestas no Brasil. O impacto positivo é fundamental para nossos tempos: mitigar os efeitos da emergência climática.
Dar visibilidade aos conhecimentos e culturas dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais fortalece seus modos de vida e sua conexão com os territórios.
Essas culturas são patrimônios vivos da cultura brasileira e a relação com a natureza garantiu, continua garantindo e vai garantir a conservação de florestas, rios, mares e os diferentes biomas do país.
Com isso, as associações se fortalecem nos processos de organização e comercialização dos produtos, e se tornam agentes de articulação de suas culturas e da defesa de seus direitos.
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Patrícia Ribeiro, da Rede Xingu+, com a camiseta do Pequi do Xingu|Claudio Tavares/ISA
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Kaue Ferreira, do ISA, com a camiseta da Roça Quilombola|Claudio Tavares/ISA
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Francisco de Sousa, do ISA, com a camiseta do Babaçu do Xingu|Claudio Tavares/ISA
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Clara de Assis, do ISA, com a camiseta da Pimenta do Rio Negro|Claudio Tavares/ISA
Para quem compra, cada camiseta traz os saberes de povos e comunidades, bem como suas lutas e resistência para manter suas culturas e territórios, fundamentais para a regulação do clima.
Com as economias da sociobiodiversidade, o futuro pode ser outro. Vista essa camisa!
Camiseta Pequi do Xingu
A série de camisetas “Alimento para corpo e alma” apresenta o Pequi do Xingu, fruto que simboliza a economia do cuidado com as florestas do povo Kisêdjê, em Mato Grosso. A iniciativa de produção de óleo a partir do pequi do Xingu recebeu o Prêmio Equatorial, da ONU, em 2019.
A série de camisetas “Alimento para corpo e alma” apresenta a Muvuca de Sementes, técnica que mistura saberes e sementes para o processo de restauração florestal. As sementes são coletadas por povos e comunidades tradicionais para, em seguida, serem semeadas em áreas degradadas e beiras de rio e gerar as florestas do futuro.
A série de camisetas “Alimento para corpo e alma” apresenta o Babaçu do Xingu, fruto que movimenta as organizações indígenas e ribeirinhas da região da Terra do Meio, em Altamira, no Pará. A farinha do coco babaçu, produzida a partir de sua entrecasca, é rica em nutrientes e tem começado a fazer parte da merenda escolar na região.
A série de camisetas “Alimento para corpo e alma” apresenta a Roça Quilombola, parte do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola, reconhecido pelo Iphan como patrimônio cultural imaterial do Brasil. A roça quilombola é símbolo da diversidade agrícola das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, no sudeste de São Paulo, retratada no filme “Do Quilombo pra Favela - Alimento para a resistência negra”.
A série de camisetas “Alimento para corpo e alma” apresenta as Pimentas do Rio Negro, um dos símbolos da diversidade agrícola dos povos indígenas da região, no noroeste do Amazonas. São ao menos 78 variedades de pimentas, que desidratadas e piladas com sal produzem a jiquitaia.
Clara de Assis Andrade, assessora da secretaria executiva do ISA Francisco Cleunilton Moreira de Souza, técnico em administração da loja Floresta no Centro, do ISA Kauê Fillip Ferreira Silva, assistente administrativo do ISA Patrícia Ribeiro Castanha, assistente administrativa da Rede Xingu+ Veronice Cardoso Matos, assistente administrativa da loja Floresta no Centro, do ISA
Fotografia: Claudio Tavares, documentalista do ISA
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Minidocumentário quilombola recebe menção honrosa no Festival Velho Chico de Cinema Ambiental, em Penedo (AL)
“Do Quilombo pra Favela – alimento para a resistência negra”, que revela a potência da economia da sociobiodiversidade no Vale do Ribeira, integrou a programação
Rosana de Almeida, liderança quilombola, representou o filme no Festival Velho Chico de Cinema Ambiental| Taynara Borges/ISA
O filme Do Quilombo pra Favela – alimento para a resistência negra foi congratulado com menção honrosa em sua exibição durante o 10º Festival Velho Chico de Cinema Ambiental, no Circuito Penedo de Cinema, em Alagoas, neste mês de novembro.
De cunho documental, o média-metragem acompanha o encontro entre quilombolas da porção paulista do Vale do Ribeira e moradores da favela São Remo, na zona Oeste da cidade de São Paulo, no contexto da pandemia da Covid-19, em 2021, tendo como centralidade a produção de alimentos no campo e seu consumo no grande centro urbano.
Exibido em sessão com lotação máxima, o minidocumentário encantou e emocionou o público no recém-inaugurado Cine Penedo pela potência do encontro entre comunidades negras de quilombos e do movimento urbano, num reconhecimento de identidade e resgate de ancestralidade.
Potência da sociobiodiversidade
Do Quilombo pra Favela – alimento para a resistência negra revela a força da produção nos territórios quilombolas, que plantam, cultivam e colhem uma grande diversidade de alimentos se valendo de conhecimentos ancestrais de respeito e integração com a natureza.
O filme reforça como é possível integrar o manejo da terra com a conservação da floresta em pé.
Habitando o coração da Mata Atlântica, as comunidades quilombolas moram e produzem ali há mais de 400 anos, e assim preservaram a maior porção do que restou deste bioma no Brasil, sendo os verdadeiros guardiões deste precioso remanescente de mata nativa.
Assista ao filme:
Liderança do Quilombo Nhunguara, Rosana de Almeida representou o filme durante o festival e contou como a dificuldade de comercialização dos alimentos durante a pandemia da Covid-19 abriu este novo caminho de contato com as favelas paulistanas.
Rosana também explicou como as comunidades se organizavam na Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira-SP (Cooperquivale) para comercializar seus alimentos nos programas de políticas públicas, principalmente o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), que paralisaram as compras durante a pandemia, deixando os produtores sem perspectiva de geração de renda naquele momento.
Foi então que, com o apoio de parceiros, a cooperativa elaborou um plano emergencial de captação de recursos para remunerar as famílias de produtores e distribuir os alimentos que, sem o escoamento, seriam perdidos no campo.
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"Do Quilombo pra Favela – alimento para a resistência negra" revela a força da produção nos territórios quilombolas do Vale do Ribeira|Taynara Borges/ISA
Assim, entre maio de 2020 e fevereiro de 2022 a Cooperquivale distribuiu cerca de 330 toneladas de alimentos naturais e orgânicos para aproximadamente 45 mil pessoas, entre indígenas, quilombolas, caiçaras e moradores de favelas paulistanas, conforme documentado no filme.
Para Rosana, poder contar esta história num local tão distante da sua comunidade foi uma experiência enriquecedora. De cima do avião, a caminho de Alagoas, sobrevoando áreas de cultivo, ela se intrigou: “Como pode a terra ser tão recortada assim?”.
A monocultura foi outro assombro: “Olha lá! E é tudo uma plantação só!”. Ao taxista ela contou que não mata cobra que não ofereça perigo: “Ela dormia lá no teto de casa até o dia em que foi embora”.
E às margens do Rio São Francisco se encantou com aquela imensidão a perder de vista. Tão distante do Rio Ribeira de Iguape, tão parecido com seu universo cotidiano.
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Rosana de Almeida, do Quilombo Nhunguara, às margens do Rio São Francisco (AL), durante o Circuito Penedo de Cinema| Taynara Borges/ISA
Reconhecimento
Além de ser selecionado para o 10º Festival Velho Chico de Cinema Ambiental, no Circuito Penedo de Cinema, em Alagoas, o minidocumentário “Do Quilombo pra Favela – alimento para a resistência negra”, distribuído pela Buva Filmes, também integrou a programação do Festival de Cinema Latino-Americano Independente MIRA, de Bonn, na Alemanha. Ambos no mês de novembro.
Agricultores do Quilombo Cangume colhem mandioca na roça. Imagem extraída do filme "Do Quilombo pra Favela"|Manoela Meyer/ISA
Osvaldo dos Santos, do Quilombo Porto Velho, na produção de farinha de mandioca que será destinada à distribuição na zona oeste de São Paulo. Imagem extraída do filme "Do Quilombo pra Favela"|Manoela Meyer/ISA
Coleta de alimentos, no Quilombo Porto Velho, que serão distribuídos em favela de São Paulo. Imagem extraída do filme "Do Quilombo pra Favela"|Manoela Meyer/ISA
Lula Santos, do Projeto Meninas em Campo, distribui cesta de alimentos no Jardim São Remo, em São Paulo. Imagem extraída do filme "Do Quilombo pra Favela"|Manoela Meyer/ISA
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Retomada da alimentação tradicional do povo Arara dá gosto ancestral à merenda escolar
Impactos da hidrelétrica de Belo Monte, como o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, prejudicaram hábitos alimentares nas aldeias
Crianças Arara retomam o gosto ancestral de sua cultura, prejudicado pelos impactos da construção da usina de Belo Monte|Priscila Tapajowara/ISA
Wàt tynondem (Peixe assado enrolado na folha da bananeira), Karak’kuréum (taioba), e Onatji Magarapa (Bolo assado de milho) —) esses são os nomes de três pratos tradicionais do povo indígena Arara que agora fazem parte do cardápio da merenda escolar em quatro escolas situadas nas margens do Rio Iriri, em Altamira, Pará.
A inclusão desses alimentos na merenda é resultado de um trabalho de pesquisa-ação realizado no Programa de Pós graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural da Universidade de Brasília (UnB) que contou com apoio do Instituto Socioambiental (ISA).
A pesquisa conectou os saberes dos mais velhos com a sistematização das informações pelos mais jovens junto às escolas da Terra Indígena Arara. O resultado foi a disponibilização de uma alta diversidade de alimentos tradicionais para essas instituições de ensino, a inserção desses alimentos nos programas alimentares e o fortalecimento da cultura Arara. Confira no vídeo:
Durante o último ano, os indígenas entregaram um total de 56 variedades de alimentos tradicionais dentro do território, beneficiando 211 estudantes Arara.
Os anciãos desempenharam um papel fundamental, compartilhando seus vastos conhecimentos sobre coleta, pesca e preparação desses alimentos com as gerações mais jovens, e promoveram a valorização das tradições ancestrais.
A conexão da pesquisa com as políticas públicas alimentares estava prevista desde o início do trabalho. Em 2023, a alimentação tradicional passará a ser integrada à alimentação escolar da TI Arara por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), com expectativa de implementação pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) — ambos do governo federal em parceria com a Prefeitura de Altamira.
A inserção dos alimentos tradicionais e locais nos processos de compras públicas, especialmente na alimentação escolar, é resultado do diálogo interinstitucional promovido pela Comissões de Alimentos Tradicionais dos Povos (Catrapovos), tanto nos estados quanto nacionalmente. As comissões vêm emitindo pareceres e notas técnicas com a finalidade de adequar as políticas e programas para viabilizar seu acesso pelos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais de acordo com seus modos de vida.
A Nota técnica nº 01/2017 do Ministério Público Federal (MPF) no Amazonas desempenhou papel fundamental para que as escolas passassem a adquirir produtos diretamente das comunidades, e vêm conectando os processos governamentais às realidades locais. No entanto, foi somente em 2020 que o MPF, por meio de outra nota, adequou a realidade do Amazonas para todos os povos e comunidades tradicionais do Brasil. Essa ação democratiza o acesso a políticas públicas, dando oportunidade de geração de renda nas comunidades rurais e favorecendo para que a alimentação escolar fornecida respeite a ancestralidade e a cultura de povos indígenas e comunidades tradicionais.
O movimento marca um notável avanço em relação ao cenário anterior, que limitava a alimentação tradicional a chegar no prato azul, utensílio característico das cozinhas e refeitórios escolares no Brasil onde é servida a alimentação escolar.
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Diversidade alimentar Arara chegou aos pratos azuis das escolas públicas|Priscila Tapajowara/ISA
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Indígenas entregam o Wàt tynondem (Peixe assado enrolado na folha da bananeira) nas escolas indígenas|Priscila Tapajowara/ISA
A retomada da alimentação saudável dos Arara é urgente, uma vez que há aumento progressivo de doenças crônicas derivadas da má alimentação. As escolas têm sido um dos principais vetores da introdução de alimentos industrializados nas comunidades.
Com a construção da hidrelétrica de Belo Monte, os Arara vivenciaram aumento no consumo de alimentos industrializados em decorrência da execução de ações do plano emergencial e do plano básico ambiental da hidrelétrica, o que fez com que a população desenvolvesse doenças devido à má alimentação. Segundo dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) pela reportagem do InfoAmazonia, de janeiro 2014 até junho de 2023 foram registrados 45 casos de hipertensão e de diabetes entre os Arara.
Política para alimentação de verdade
O PAA é uma iniciativa do governo federal que compra alimentos diretamente de agricultores familiares e de comunidades tradicionais, como indígenas e quilombolas. Esses alimentos adquiridos são então destinados a programas sociais, como merendas escolares, hospitais, creches e instituições de assistência social.
Este ano, a Rede Terra do Meio, organização que reúne sete povos indígenas, moradores de três Reservas Extrativistas e agricultores familiares da região do Médio Xingu, da qual os Arara da TI Arara fazem parte, submeteram ao edital do PAA um projeto de R$1,5 milhões de reais para destinar alimentos produzidos localmente para as 90 escolas municipais que atendem os mais de 2.500 estudantes desse território. Dessa maneira, os Arara vão fornecer seus alimentos tradicionais em suas escolas durante o ano de 2024. A expectativa é de que os outros povos que fazem parte da Rede Terra do Meio também incorporem sua diversidade na alimentação escolar.
Leonardo de Moura, assessor técnico do ISA, e pesquisador que desenvolveu a pesquisa mencionada, explica que essa permissão também é uma medida de fortalecimento cultural, uma vez que os jovens passaram a resgatar o sabor da própria cultura, adormecida com os mais velhos.
“Num momento de mudança climática e de erosão da diversidade, esse conhecimento é muito valioso. O que se come na floresta tem história, tem tradição e modos de fazer que podem resolver problemas do futuro. A escola pode ensinar as crianças que o alimento tradicional é bom e passar a ser um espaço em que se fomenta e fortalece a transmissão do conhecimento alimentar entre as gerações.”, disse Moura.
Além de promover a alimentação saudável, o projeto envolveu os jovens no registro das práticas de coleta de alimentos e pesca tradicionais do povo Arara. O material audiovisual revela a variedade de alimentos, preparos e conhecimentos tradicionais que podem ser incorporados à alimentação escolar da Terra Indígena Arara.
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Maurig Arara foi um dos quator jovens que participou do projeto-piloto para a retomada da alimentação tradicional Arara|Priscila Tapajowara/ISA
A retomada da pesca tradicional
A alimentação escolar tradicional pode ser integrada a outras atividades educacionais da escola, como foi o caso da entrega dos peixes Tybom (Jiju) e Ótpa (Tamoatá). Seis jovens da aldeia Iory, que nunca antes haviam participado da captura de peixes na floresta ou conhecido as técnicas de captura empregadas pelos conhecedores mais velhos, tiveram a oportunidade de acompanhar essa atividade e aprender com ela.
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Toitji Arara ensina para os jovens da comunidade o murot, tipo de armadilha usada para a captura de peixes|Priscila Tapajowara/ISA
Toitji Arara, o ancião mais velho da Aldeia Laranjal, na TI Arara, participou da atividade ensinando os mais jovens o murot - nome da armadilha para pegar o peixe - e ficou emocionado com a possibilidade de passar esse conhecimento.
“Eu fui criado fazendo tudo isso, mas muitas crianças não sabem ainda e é por isso que estamos ensinando. Não vamos perder isso, não vamos perder a nossa pesca”, disse o ancião Toitji.
Poucos dias após a experiência, a comunidade Arara organizou a festa Tybombé, coincidentemente durante a temporada do Tybom (Jiju), algo que não acontecia há décadas. É inegável que o resgate da prática tradicional de captura do Tybom, esquecida há anos, desempenhou um papel fundamental no fortalecimento da cultura do povo Arara.
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As crianças aprendem o murot com os mais velhos da sua Aldeia|Priscila Tapajowara/ISA
“Essa ação foi tão significativa que a captura do Tybom para a alimentação escolar gerou um diálogo na escola e queremos repetir a atividade na próxima estação seca, desta vez com a participação mais ativa da escola, entrando na agenda escolar de ensino”, disse o diretor responsável pelas escolas do Polo Arara, Renisson Batista de Freitas.
A coleta de alimentos na floresta faz parte da cultura Arara e agora fazem parte do cardápio das merendas|Priscila Tapajowara/ISA
Os jovens aprendizes da Terra Indígena Arara registaram a coleta e técnicas e preparo durante o projeto piloto|Priscila Tapajowara/ISA
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Povos das florestas reivindicam retomada de políticas públicas que valorizem economias da sociobiodiversidade
Na Semana da Sociobiodiversidade, extrativistas, indígenas e quilombolas lançam propostas para fortalecer uma economia que coloque povos e comunidades tradicionais como centrais para o desenvolvimento do país
Extrativistas da Sociobiodiversidade no Plenário na Câmara dos Deputados durante Sessão Solene em Homenagem ao Dia da Amazônia|Webert Cruz/ISA
Entre o Dia da Amazônia e o Dia do Cerrado, a Semana da Sociobiodiversidade marcou a retomada da incidência para a construção de políticas públicas adequadas para os povos da floresta.
O evento reuniu mais de 230 comunitários para dialogar sobre três cadeias produtivas: borracha, castanha e pirarucu. Ao longo de seis dias, entre 31 de agosto e 6 de setembro, eles buscaram estruturar propostas para fortalecer políticas e programas ligados às economias da sociobiodiversidade, a fim de promover culturas e proteger as futuras gerações de povos da floresta.
Assista a cobertura da semana através dos olhos dos comunicadores da Rede Xingu+:
No contexto da conservação ambiental, o evento mostrou que é fundamental reconhecer a contribuição desempenhada por povos indígenas e comunidades tradicionais como prestadores de serviços ambientais. Seus conhecimentos tradicionais, inovações, sistemas agrícolas e práticas de manejo desempenham um papel vital na promoção de uma ampla variedade de serviços ecossistêmicos, responsáveis pela conservação, manejo e proteção de mais de 36% do território nacional e sua biodiversidade.
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Dione Torquato, Secretário-geral do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), após a Audiência Pública sobre Direitos Trabalhistas e economias da Sociobiodiversidade na Câmara dos Deputados|Webert Cruz/ISA
Dione Torquato, da Floresta Nacional de Tefé, no Amazonas, e Secretário-geral do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), enfatizou o papel central desses povos em sessão solene na Câmara dos Deputados. A sessão, dedicada ao reconhecimento dos direitos trabalhistas dos povos da floresta, mostrou a urgente necessidade de reconhecer as práticas tradicionais como serviços que geram economia, renda e floresta viva.
“Nós, povos e comunidades tradicionais, agricultores(as) familiares, indígenas e quilombolas sustentamos as bases da economia solidária e sustentável deste país. Nossos territórios, além de serem extremamente importantes na produção de alimentos saudáveis, têm um papel fundamental na conservação do Meio Ambiente, redução das mudanças climáticas e manutenção dos Serviços Ambiente”, enfatizou Torquato.
Uma das propostas apresentadas durante a Semana e reafirmada no dia da Amazônia (5/9) foi a necessidade de regulamentação adequada da Lei de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), de modo a reconhecer os serviços de conservação e manutenção de floresta, biodiversidade, ecossistemas e suas contribuições para a humanidade através das técnicas, tecnologias e inovações presentes nos modos de vida dessas comunidades.
“Essas culturas, esses conhecimentos, esses manejos são, em si, os serviços ambientais de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Fomentar esses conhecimentos e práticas, é fomentar a conservação. Essas culturas manejam a paisagem e transformam florestas em florestas por milênios. Não transformam as florestas em pastos ou monoculturas, com degradação do solo, uso de químicos e baixa biodiversidade. É preciso reconhecer e retribuir diretamente as populações pelos serviços de manejo da paisagem, garantir a resiliência dos mesmos em seus territórios e as contribuições ecossistêmicas dos mesmos para o País”, explica Jeferson Straatmann, articulador do tema sociobiodiversidade no ISA.
Além do reconhecimento das práticas de manejo baseadas no conhecimento tradicional como serviços, tornou-se prioritário incidir sobre políticas públicas que façam a verdadeira promoção, estruturação e desenvolvimento das economias da sociobiodiversidade.
Economias da sociobio
MAIS QUE PRODUTOS, GENTE-FLORESTA!
As economias da sociobiodiversidade representam uma vasta diversidade de atividades, setores e produtos. Isso abrange desde a colheita responsável de recursos florestais e animais até a agricultura praticada por famílias, a produção de artesanato único, a pesca tradicional, o cuidado da paisagem, e o acolhimento comunitário no turismo local, entre outras oportunidades empolgantes.
No entanto, essas economias são muito mais do que apenas produtos. Elas se baseiam profundamente no conhecimento tradicional sobre a biodiversidade e na utilização sustentável dos recursos naturais. Pessoas que vivem em biomas e ecossistemas diversos, como florestas, savanas, caatingas, campos, áreas costeiras, manguezais, várzeas e rios, desempenham um papel essencial na preservação do meio ambiente, enquanto promovem oportunidades econômicas para suas comunidades.
Carta da sociobiodiversidade
Na última quarta-feira (6), líderes indígenas, povos e comunidades tradicionais extrativistas, trabalhadores e trabalhadoras rurais, campesinos e campesinas uniram suas vozes na "Carta da Semana da Sociobiodiversidade", um documento que exige políticas públicas adequadas para a região amazônica e seus habitantes.
“Para nós, esses territórios são espaços sagrados de construção e manutenção das nossas identidades, saberes, fazeres e lutas. São raízes de nossa ancestralidade, onde se assentam processos políticos, sociais e econômicos”, afirma trecho da carta.
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Joelmir Silva, ribeirinho e comunicador Xingu + entrevistando a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva|Webert Cruz/ISA
O documento foi recebido pela ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, diretamente das mãos do presidente do CNS, Júlio Barbosa, no dia 4/9. Na ocasião, a ministra enfatizou: “Esse é o imaginário de riquezas e belezas florestais, é a base a partir da qual elaboramos a ideia de cultura e de onde nascem sonhos e desejos, planos e projetos, vontades e investimentos”.
Esta carta abrangente aborda uma série de questões cruciais e oferece mais de 60 recomendações, organizadas em oito eixos temáticos, entenda em síntese:
1. Gestão e Governança Territorial
A carta destaca a necessidade de uma gestão eficaz e governança territorial para proteger os ecossistemas da Amazônia e os modos de vida das comunidades tradicionais.
2. Políticas Públicas
Ela cobra a implementação de políticas públicas específicas que atendam às necessidades da região amazônica e de seus povos.
3. Instrumentos Econômicos e Financiamentos
Aborda a importância de criar instrumentos econômicos e financiamentos adequados para apoiar as atividades sustentáveis na região.
4. Relações entre Empresas e Povos Indígenas, Quilombolas e Comunidades Tradicionais (PIQCTs)
Destaca a necessidade de estabelecer relações justas e equitativas entre empresas e comunidades tradicionais, respeitando seus direitos.
5. Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER)
A carta enfatiza a importância de fornecer assistência técnica e extensão rural de qualidade para apoiar práticas agrícolas sustentáveis.
6. Trabalho Digno de Extrativistas
Aborda a importância de garantir condições de trabalho dignas para os extrativistas da região amazônica.
7. COP-30
Faz referência à Conferência das Partes (COP) da ONU sobre Mudanças Climáticas, enfatizando a necessidade de medidas concretas para combater as mudanças climáticas.
8. Legado de Chico Mendes e Aliança dos Povos da Floresta
A carta reafirma o legado de Chico Mendes na defesa da Amazônia e destaca a Aliança dos Povos da Floresta como uma estratégia fundamental na luta pela garantia e consolidação dos territórios amazônicos.
Este documento representa um importante chamado à ação, unindo diversas vozes em prol da preservação da Amazônia e do bem-estar das comunidades que dependem dela. Agora cabe aos tomadores de decisão e à sociedade em geral trabalhar em conjunto para transformar essas recomendações em ações concretas que protejam esse tesouro natural e cultural inestimável.
Quanto tempo tem a ancestralidade que faz floresta?
Ouça a marisqueira Célia Neves, da Rede Brasileira de Povos e Comunidades Tradicionais (@redepctsdobrasil), natural da Reserva Extrativista Mãe Grande de Curuçá, no Pará.
Na fala de abertura do evento do dia da Amazônia, ela enfatizou que “a Amazônia é um “fratrimônio”, um patrimônio de todos e deve ser visto com a fraternidade que esse bioma exige.
Turismo de base comunitária leva a imersão nas belezas naturais e culturais da Amazônia|Marcelo Monzillo / ISA
Cercadas pela floresta, pelo rio Negro, seus igarapés e igapós, as Serras Guerreiras de Tapuruquara, localizadas em uma das regiões mais preservadas da Amazônia, no município de Santa Isabel do Rio Negro (AM), voltam a receber visitantes no próximo mês de outubro. A retomada é especial, já que os passeios não aconteciam desde 2019, quando foram interrompidos devido à pandemia.
O primeiro roteiro, chamado Maniaka, tem nove dias de duração e foi cuidadosamente pensado e estruturado pelos povos indígenas. Os turistas serão recebidos por famílias que moram nas comunidades e têm a oportunidade de viver uma imersão cultural, guiados pelos povos que vivem ali milenarmente. O segundo roteiro é o Iwitera e estará disponível a partir de janeiro.
Cada expedição conta com no máximo 12 visitantes e, portanto, as vagas são limitadas. No próximo dia 14, quinta-feira, às 19h (horário de Brasília) será realizada uma roda de conversa virtual sobre o projeto. Não perca!
A expedição parte de Manaus e os pacotes incluem transporte de barco até as comunidades, alimentação e todas as atividades previstas nos roteiros nas comunidades.
O projeto Serras Guerreiras de Tapuruquara é uma experiência que une o turismo de base comunitária, o turismo etnográfico e o ecoturismo, possibilitando que o visitante tenha a experiência de conhecer a região e, ao mesmo tempo, de proteger a Amazônia e fortalecer a cultura dos povos que vivem ali, contribuindo com o desenvolvimento sustentável.
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Vista do topo da Segunda Serra Guerreira, próxima à comunidade do Cartucho no Rio Negro|Marcelo Monzillo/ISA
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Vista do topo da Serra Iacawení, na Comunidade Uábada II, em Santa Isabel do Rio Negro (AM)|Marcelo Monzillo/ISA
Pelo turismo comunitário, as comunidades locais desempenham papel central no desenvolvimento e gestão do projeto, sendo as principais beneficiadas. Com o etnoturismo, os visitantes vivenciam e aprendem sobre as tradições, costumes, estilos de vida e patrimônio cultural das comunidades anfitriãs. Como os roteiros são pensados pelas comunidades, o calendário respeita o cotidiano dos indígenas, interferindo minimamente em seus modos de vida.
Durante a viagem às Serras Guerreiras, os visitantes vão conhecer as comunidades Cartucho; Tayaçu (São João II) e Aruti, passando pela experiência de dormir em redes, caminhar por trilhas, navegar em canoas, experimentar o alimento tradicional, ouvir narrativas em línguas indígenas, observar a confecção de artesanatos e ir às roças tradicionais cultivadas em meio à floresta.
Nas idas às roças, o visitante vai ver de perto o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, registrado como patrimônio cultural nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Localizadas em Santa Isabel do Rio Negro, as Serras Guerreiras de Tapuruquara são consideradas sagradas. A narrativa revela que as serras são guerreiros que desceram da Colômbia para lutar contra uma cobra mitológica que estava impedindo a passagem e permanência dos indígenas. Os guerreiros venceram a batalha e estão até hoje no local, representados em rochas.
Nessa região – no médio e alto rio Negro - convivem povos de 23 etnias em cerca de 750 sítios e comunidades em meio à floresta. Os visitantes vão estar em contato principalmente com povos Baré, Desana e Baniwa.
As expedições às Serras Guerreiras de Tapuruquara aconteceram anteriormente, entre 2017 e 2019, quando foram realizadas treze expedições que beneficiaram ao menos 100 famílias e 500 pessoas de oito etnias. Em 2020, a pandemia do coronavírus forçou a interrupção das atividades. Agora, os indígenas se preparam para receber novamente os visitantes.
O projeto de turismo de base comunitária Serras Guerreiras de Tapuruquara é desenvolvido pela Associação das Comunidades Indígenas Ribeirinhas (ACIR) e Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). O roteiro especial de retomada será operado pela agência Poranduba Amazônia.
Serras Guerreiras de Tapuruquara
Roteiro Maniaka
Comunidades Cartucho, Tayaçu (São João II) e Aruti
Data: 3/11/23 a 11/11/2023
Valor: R$ 7.200 à vista ou parcelado com acréscimo em até 12x
Principais experiências:
- Prática cultural com cerâmica;
- Prática cultural com tecidos de arumã;
- Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (Patrimônio Cultural do Brasil);
- Canoada;
- Dança Mawako.
O que está incluído:
Ida de barco regional a partir de Manaus inclusa (não inclui volta de avião a Manaus);
O pacote inclui transporte até as comunidades, alimentação tradicional e as atividades previstas nos roteiros nas comunidades.
Sr Jacson Luís, artesão dos fornos de cerâmica, na Terra Indígena Médio Rio Negro II|Marcelo Monzillo/ISA
Sra. Alaíde produzindo farinha na Comunidade Cartucho, em Santa Isabel do Rio Negro (AM)|Marcelo Monzillo/ISA
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Mais de 230 extrativistas e organizações da Amazônia realizam Semana da Sociobiodiversidade, em Brasília
Populações tradicionais, apoiadores e parceiros debaterão políticas públicas de proteção dos territórios extrativistas e de desenvolvimento das economias e produtos da sociobiodiversidade
A partir desta quinta-feira, dia 31 de agosto, até o dia 06 de setembro, Brasília receberá a Semana da Sociobiodiversidade 2023, um dos mais importantes eventos do país voltado às atividades extrativistas de povos e comunidades tradicionais, unindo coletivos de organizações das cadeias da borracha, do pirarucu e da castanha-da-amazônia. O evento ocorrerá na sede da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag). A programação completa está disponível no site www.semanadasociobio.com.br.
Mais de 230 pessoas, entre castanheiros, seringueiros e manejadores de pirarucu, além de apoiadores e parceiros, estarão reunidos para uma série de debates sobre políticas públicas socioambientais, com foco na garantia de direitos e qualidade de vida dos povos da floresta, e inserção de produtos em mercados. Será realizada ainda uma agenda no Congresso Nacional e mesas de diálogos com representantes do poder público sobre o desenvolvimento das cadeias de valor da sociobiodiversidade.
O objetivo é pensar soluções que conciliam o desenvolvimento econômico com a conservação da biodiversidade, reconhecendo a importância fundamental dos conhecimentos e modo de vida dos povos tradicionais, além da interdependência entre a conservação dos ecossistemas, a equidade social e a responsabilidade ambiental.
Tema
A Semana da Sociobiodiversidade deste ano debate o tema "Fortalecendo Economias Sustentáveis, Pessoas, Culturas e Gerações", para fomentar a articulação técnico-política interna entre essas cadeias, além de fortalecer o entendimento dessas produções como fruto de culturas ancestrais de manejo sustentável da floresta.
O encontro também servirá para unificar a atuação política desses povos, com o objetivo de incidir em políticas públicas que fortaleçam o reconhecimento dessas cadeias como serviços ambientais de grande importância para a manutenção do clima no planeta, bem como a floresta viva.
A semana reunirá lideranças extrativistas de estados como Acre, Amazonas, Amapá, Mato Grosso, Pará, Rondônia e Roraima, entre outros.
“Para nós, é muito importante essa integração entre os representantes da sociobiodiversidade amazônica, pois eles são os verdadeiros protagonistas dessas economias e vão apresentar as demandas e desafios de cada uma das cadeias de valor que compõem a Amazônia", afirma Dione Torquato, secretário-geral do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).
Programação
A programação da Semana da Sociobiodiversidade será dividida em dois momentos: de 31/08 a 03/09 haverá o Momento Setorial, onde os coletivos poderão dialogar e construir, em conjunto, ações específicas para as cadeias de valor. Já nos dias seguintes, de 04 a 06/09, o evento terá uma Agenda Política relacionada à sociobiodiversidade e para dialogar com as autoridades no Congresso Nacional, e no Executivo Federal.
As atividades incluem mesas-redondas, painéis, plenárias, debates e encontros políticos entre extrativistas e organizações. Além disso, no dia 4 de setembro, haverá uma sessão solene na Câmara dos Deputados, em homenagem ao Dia da Amazônia, celebrado anualmente em 5/09.
“A programação foi pensada de forma estratégica para atender a construção de uma agenda política benéfica às cadeias de valor e também para trabalhar individualmente cada um desses coletivos que atuam com produtos da sociobiodiversidade”, explica Jéssica Souza, analista socioambiental do Memorial Chico Mendes (MCM) e assistente técnica da Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc).
Feira da Sociobiodiversidade
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No sábado (02), o evento contará também com uma feira, momento especial em que diferentes produtos, oriundos das comunidades extrativistas, serão comercializados e apreciados. Essa iniciativa visa evidenciar a riqueza e a diversidade dos produtos da sociobiodiversidade, fundamentais para a segurança alimentar, a saúde, a cultura e o sustento das comunidades tradicionais.
Além de ser uma experiência gastronômica e cultural, a Feira dos Produtos da Sociobiodiversidade também visa sensibilizar a sociedade sobre a importância de apoiar as economias da sociobiodiversidade, valorizando os produtos e incentivando o consumo consciente e sustentável.
A feira será um verdadeiro mercado da sociobiodiversidade, onde os visitantes poderão conhecer e adquirir uma ampla variedade de produtos do comércio justo e orgânico da Amazônia. Serão oferecidos e comercializados produtos como castanhas-da-amazônia, óleos essenciais, artesanatos feitos com matéria-prima da floresta, peças de moda sustentável, alimentos orgânicos e degustação de pescados de pirarucu.
Juventude
A Juventude Extrativista tem protagonismo durante a Semana da Sociobiodiversidade. Será realizada uma plenária com o objetivo de incentivar a formação e conscientização dos jovens na construção de políticas destinadas aos territórios onde existem economias florestais, especialmente, aos de usufruto, moradia e manejo das comunidades extrativistas.
A realização do evento é do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), Memorial Chico Mendes, Comitê Chico Mendes, Coletivo da Castanha, Observatório Castanha-da-Amazônia (OCA), Coletivo do Pirarucu, Gosto da Amazônia, Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio), Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), WWF-Brasil, Operação Amazônia Nativa (OPAN) e Instituto Socioambiental (ISA). Além disso, tem o apoio e parceria de mais de 25 instituições socioambientais que atuam em defesa dos povos da floresta amazônica.
Semana da Sociobiodiversidade
Período: de 31/08 a 06/09
Horário: das 8h30 às 18h
Local: Sede da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG)
Endereço: SMPW Q1 - Núcleo Bandeirantes, Brasília - DF
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Quilombolas do Vale do Ribeira (SP) anunciam nova edição de feira de troca de sementes e mudas
Encontro acontece dias 11 e 12 de agosto em Eldorado e conta com seminário, oficinas, venda de produtos da roça, apresentações culturais e almoço tradicional
São Paulo também é quilombola! A força e diversidade dos quilombos do Vale do Ribeira (SP) vão ocupar a Praça Nossa Senhora da Guia, em Eldorado, nos dias 11 e 12 de agosto, na 14ª Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas.
Trata-se de um espaço para debater temas importantes, como a cultura e o manejo das roças tradicionais quilombolas, além promover as trocas de sementes e mudas e complementar a renda das comunidades pela venda de produtos agroecológicos dos quilombos do Vale do Ribeira.
Atualmente, os quilombolas do Vale do Ribeira manejam cerca de 83 espécies florestais e mais de 70 variedades agrícolas em meio ao maior maciço de Mata Atlântica do país.
A Feira se tornou a principal atividade de preservação do Sistema Agrícola Tradicional (SAT) Quilombola do Vale do Ribeira, um conjunto de práticas e conhecimentos ancestrais das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, transmitidos através das gerações por meio da oralidade e observação em vivências práticas.
Em 2018, o SAT Quilombola foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como patrimônio cultural brasileiro.
O encontro é organizado há 13 anos pelo Grupo de Trabalho da Roça (GT da Roça), composto por dezenove Associações das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira e parceiros.
Em 2022, na primeira edição presencial após dois anos de pandemia, a Feira recebeu cerca de 250 pessoas, no primeiro dia, e 450 pessoas no segundo, entre quilombolas, estudantes, parceiros e visitantes.
Confira a programação completa!
14ª Feira de Trocas de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira
Sexta-feira, dia 11/08 Local: Salão Paroquial na Praça Nossa Senhora da Guia, Centro - Eldorado/SP
Horário: das 9h30 às 12h00
Seminário “Culturas perenes e a sustentabilidade dos manejos nos territórios quilombolas” e mesa redonda: Aquilombando os manejos
Horário: das 14h00 às 16h30
Oficinas temáticas
Fiscalização ambiental e direitos quilombolas: Como podemos nos defender?
Muvuca e os desafios da restauração florestal
Comida da Roça quilombola: Introdução na alimentação escolar dos municípios
14ª Feira de Trocas de Sementes e Mudas Tradicionais das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira
- Trocas de sementes e mudas, venda de produtos da roça, apresentações culturais e almoço tradicional quilombola
Local: Praça Nossa Senhora da Guia, Centro - Eldorado/SP Horário: das 9h00 às 14h00
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As principais informações sobre o ISA, seus parceiros e a luta por direitos socioambientais ACESSE TODAS
Diálogo de saberes fortalece modo de vida de beiradeiros do Xingu
Módulo sobre economia debateu relações históricas entre a formação da identidade beiradeira e as cadeias de valor a partir da reflexão sobre o futuro da juventude nos territórios
Thamires Silva, Wellington Josée Silva e Evandro Silva durante o Curso de Gestão Territorial|Silia Moan/ISA
Jovens beiradeiros das Reservas Extrativistas Riozinho do Anfrísio, Rio Iriri e Rio Xingu, e também da Estação Ecológica Terra do Meio, outra Unidade de Conservação da região do Pará, refletiram no curso de gestão territorial do Beiradão sobre a história e a cultura associadas à identidade beiradeira e ao território do “beiradão”.
Das conversas, feitas em Altamira, às margens do rio Xingu, nasceram desejos de se criar caminhos para promover o diálogo com a sociedade envolvente, representantes do governo e parceiros, na busca pela proteção das suas vidas e de seus territórios.
O primeiro Curso de Gestão Territorial aconteceu entre 2011 e 2016, e foi realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA) e Fundação Viver Produzir e Preservar (FVPP), com apoio da Universidade Federal do Pará (UFPA) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Naquela época, o ciclo formativo tinha como objetivo fortalecer as lideranças das Reservas Extrativistas da Terra do Meio. O resultado foi a formação de assessores e lideranças das organizações comunitárias.
Em janeiro de 2023, foi realizado mais um módulo do curso de gestão territorial, dessa vez com o tema “economia”. Durante um mês, o coordenador do curso e antropólogo no ISA, Augusto Postigo, ao lado de Nurit Bensusan, especialista em biodiversidade do ISA e Raquel dos Santos, ecóloga, educadora e consultora do ISA, estiveram nas comunidades Gabiroto, São Francisco e Morro do Anfrísio, com cerca de 90 jovens beiradeiros.
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Nurit Bensusan, especialista em biodiversidade do ISA, interpreta o conceito de economia da sociobidiversidade a partir dos conhecimentos dos estudantes do curso de Gestão Territorial, na Resex Rio Xingu|Silia Moan/ISA
Para compreender como o conceito está relacionado à prática, Nurit Bensusan dividiu a palavra Sociobiodiversidade em três: sócio, bio e diversidade. Com os beiradeiros da Resex Rio Xingu, a bióloga refletiu e interpretou sobre os sentidos de cada um dos termos para, ao fim, discutir com os estudantes a força da união do socio+bio+diversidade, que para os estudantes pode ser resumido como "o meio pelo qual o conhecimento tradicional do beiradão gera vida, protege e faz floresta”.
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Thamires Silva, estudante do curso de gestão territorial|Silia Moan/ISA
Ela conta que é sempre um desafio falar sobre o jargão que nós, que vivemos fora das comunidades, usamos para nos referir às práticas, muitas vezes usuais e consagradas, dos povos e comunidades tradicionais, como economia da sociobiodiversidade.
“É o que essas pessoas fazem todos os dias: tirar castanha, pescar, tirar borracha, botar roça, fazer farinha. E, dessa forma, garantir sua soberania alimentar e a floresta íntegra”, afirma Bensusan. Entretanto, afirma a especialista em biodiversidade do ISA, “os termos que a gente usa são, muitas vezes, enigmáticos para beiradeiros e outros povos e comunidades que constituem a rica sociobodiversidade desse país”.
Ainda assim, ela acredita que o esforço é válido, pois é conhecendo esses termos, esse jargão, que as comunidades da Terra do Meio podem se organizar para garantir seus direitos.
Em resposta à provocação de Bensusan sobre a relação entre economia e sociobiodiversidade, a estudante Thamires Silva sintetizou que, para ela, "economia é como a gente se organiza para ter um futuro melhor”.
Num momento em que a bioeconomia é a palavra da “moda”, é fundamental entender o que está em jogo no futuro próximo do país - que está associado ao beiradão, ou seja, a vida dessas pessoas - e assegurar que as economias da sociobiodiversidade tenham seu lugar, com políticas, instrumentos e inovação. Afinal, bioeconomia se escreve com S de sociobiosiversidade, afirma a professora do Curso de Gestão Territorial no Beiradão.
A sociobiodiversidade faz parte do modo de vida beiradeiro, desde as relações entre diversidade biológica, sistemas agrícolas tradicionais e a cultura beiradeira. E para que o beiradão continue sendo diverso, é preciso que os direitos territoriais dos beiradeiros sejam garantidos, com o reconhecimento, acesso pleno, posse e segurança dos territórios beiradeiros.
Lembrando do passado para compreender o presente e sonhar com o futuro!
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Jovens beiradeiros apresentando sua visão sobre economia durante o curso de Gestão Territorial|Silia Moan/ISA
Foi ativando a memória dos estudantes que o grupo refez os caminhos percorridos pelos produtos do extrativismo, desde o aviamento à organização para a produção, coleta, comercialização e beneficiamento.
Assim, foi possível compreender como esses caminhos e personagens envolvidos mudaram ao longo dos últimos 150 anos, desde a época dos barracões até os seringais da Terra do Meio, como conta o livro “Xingu: histórias dos produtos da floresta" organizado por André Vilas-bôas, Natalia Ribas Guerreiro, Rodrigo Gravina Prates Junqueira e Augusto Postigo.
Nesse módulo, foram os alunos que contaram essa história a partir da análise de como o conhecimento sobre os valores e economia foram atualizados com a implementação da Rede de Cantinas e do protagonismo dos beiradeiros na produção extrativista.
A partir do aprofundamento sobre como as Redes de Cantinas são estruturadas, com base nas cadeias de valor, os jovens fizeram leituras e cálculos para fortalecer os conhecimentos nas línguas portuguesa e matemática, ao mesmo tempo em que compreendiam mais sobre a história de formação do mosaico da Terra do Meio.
Além da relação profunda com o mundo das águas, os beiradeiros da Terra do Meio nomeiam de beiradão o território como um todo, afirma Augusto Postigo.
“Beiradão significa o território como um todo, composto de florestas, rios, igarapés, numa diversidade de paisagens reconhecidas pelos beiradeiros.”
É por meio da identificação “beiradeiro” que essas comunidades tradicionais se colocam no mundo, relacionando sua cultura e seus saberes locais ao modo harmonioso de se relacionar com a floresta.
A forte conexão com as águas, animais e plantas, influencia seus hábitos e costumes. Há ainda a teia de relações de parentesco que se espalha pelo território, conectando do Alto Iriri e Xingu até Altamira.
Ao longo dos dias do curso de gestão, a troca de conhecimento entre os participantes do módulo de Economia e os técnicos do ISA possibilitou que as relações estruturadas no beiradão fossem reconhecidas e valorizadas.
Essa edição do curso de gestão é parte de um projeto financiado pela Iniciativa Darwin.
O que muda com esse governo?
Foi com essa pergunta que os beiradeiros refletiram sobre a mudança nas políticas públicas, principalmente sobre a criação da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais, liderada por Edel Nazaré, uma mulher da águas, nascida no município de Curralinhos, localizado no arquipélago do Marajó - (PA).
Patricia Lima, estudante e comunicadora da Rede Xingu+, falou que “Edel tem a realidade do modo de vida beiradeiro”.
Como é o futuro que queremos? O curso de gestão territorial pelos olhos das comunicadoras beiradeiras!
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Quadro com perguntas orientadoras do Curso de Gestão Territorial|Silia Moan/ISA
Protagonistas das articulações entre os diferentes territórios e povos da Bacia do Xingu, os Comunicadores da Rede Xingu+ constituem um grupo de 26 jovens indígenas e beiradeiros que têm se aperfeiçoado, durante as formações, no uso de ferramentas de comunicação para o fortalecimento das estratégias de proteção do corredor de Áreas Protegidas do Xingu.
Durante o módulo sobre economia, realizado na Resex Rio Xingu, a comunicadora beiradeira Patricia Lima utilizou diferentes linguagens abordadas durante o curso para roteirizar, filmar, dirigir e entrevistar os participantes do curso, resultando no vídeo "Curso de Gestão Territorial: Beiradeiros na luta pelos seus direitos!", onde os jovens contam qual é o futuro que querem para suas vidas no Beiradão.
A feira de produtos orgânicos Quilombo&Quebrada nasceu em 2022 para mostrar a necessidade de políticas públicas alimentares adequadas que valorizem a produção das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, no sudeste de São Paulo.
Em confluência, as Mulheres de Orì, consultoria de inovação ligada ao empreendimento de impacto social Kitanda das Minas, estabeleceu uma parceria com a Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale) para comercializar os alimentos das comunidades quilombolas. A cooperativa recebe apoio técnico do Instituto Socioambiental (ISA) para organizar e escoar sua produção.
A conexão que propõe o Quilombo&Quebrada contribui com o combate a desigualdades alimentares ligadas pelo racismo estrutural, que existem tanto nos quilombos quanto nas periferias urbanas.
Conheça em 8 imagens a iniciativa e participe das feiras:
1- Os alimentos comercializados na feira Quilombo&Quebrada são alimentos ancestrais livres de veneno produzidos pelos quilombolas do Vale do Ribeira (SP) | Júlio Cézar/ISA
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2- Desde 2018, o Sistema Agrícola Quilombola é reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio imaterial brasileiro | Júlio Cézar/ISA
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3- A produção de alimento quilombola faz parte de um conjunto de saberes e técnicas que compõem esse sistema de produção em convivência com a Mata Atlântica | Júlio Cézar/ISA
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4- O Quilombo&Quebrada é uma construção de protagonismo na encruzilhada entre a comunidade negra rural e urbana | Júlio Cézar/ISA
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5- Os alimentos vendidos na feira são totalmente orgânicos e com preços acessíveis para o bolso da população periférica | Júlio Cézar/ISA
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6- Os alimentos comercializados na feira incluem variedades da Mata Atlântica tradicionalmente consumidas nos quilombos do Vale do Ribeira (SP) | Júlio Cézar/ISA
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7- Em 2023, a feira acontecerá quinzenalmente entre Jardim Lapena e Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo | Júlio Cézar/ISA
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8- A segunda edição da feira Quilombo&Quebrada de 2023 está marcada para o dia 3/6, um sábado, no Jardim Lapena, zona leste de SP. Siga as redes sociais da @kitandadasminas, @cooperquivale e @socioambiental e acompanhe as próximas edições |Júlio Cézar/ISA
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No Xingu e Araguaia (MT), pequenos agricultores unem restauração de florestas e cultivo de alimentos
Assentados demonstram que é possível articular produção de alimentos saudáveis, geração de renda e floresta em pé; conheça essa história inspiradora!
Pedro Righi, pequeno agricultor, posa ao lado da primeira árvore plantada no seu lote, no PDS Bordolândia (MT)|Ismael Silva/ISA
No meio de extensas plantações de monoculturas, como a da soja, pequenos agricultores familiares mostram que é possível aliar restauração de florestas com a geração de renda a partir da produção de alimentos orgânicos.
O projeto "Conectividade Ecológica e Econômica no Xingu Araguaia", faz a conexão de restauração de florestas em fluência com o cultivo sustentável garantindo a manutenção, restauração e manejo das áreas degradadas e o estímulo de hortas agroecológicas e quintais produtivos nas bacias dos rios Xingu e Araguaia, no Mato Grosso.
Iniciado em 2020, o projeto faz parte do Programa REDD Early Movers (REM) Mato Grosso, e com a parceria do Instituto Socioambiental (ISA), junto às suas associações de pequenos agricultores, promovem melhorias em suas produções utilizando a restauração de florestas e áreas degradadas como base fundamental.
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Rede que fortalece e multiplica: encontro do PDS Bordolândia (MT) fez balanço dos três anos da iniciativa junto a pequenos agricultores|Ismael Silva/ISA
Os Projetos de Assentamento Guatapará, localizado em Canarana, Pé da Serra e Beira Rio de Nova Xavantina e o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Bordolândia, em Serra Nova Dourada, foram os três projetos de assentamentos da reforma agrária na região de Mato Grosso contemplados com o projeto.
As atividades envolveram o acompanhamento técnico para o manejo e fertilidade do solo, o aumento da produtividade, e a produção de alimentos diversificados sem veneno pela agricultura familiar que otimizaram diretamente a geração de renda extra para 47 famílias agricultoras.
A restauração de áreas prioritárias, como as Áreas de Preservação Permanente (APPs) foi o ponto alto dessa ação, como explica Guilherme Pompiano, técnico de restauração do ISA e coordenador do projeto.
“Esse é um trabalho que pode parecer até de formiguinha frente a uma região que deve ter mais de mil hectares de áreas degradadas, mas o que se está fazendo aqui vai diminuindo assoreamento e melhorando a qualidade d'água. A restauração dessas áreas é fundamental para segurar a água e nascentes que estão na emergência da seca e que impactam não só os pequenos mas grandes produtores”, afirma.
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Equipe ISA Canarana no Encontro do PDS Bordolândia (MT): da esquerda para a direita, Cleiton Neto, Murielli Garcia e Guilherme Pompiano|Ismael Silva/ISA
Ao se caminhar na área do lote de Silvio Domingos, agricultor do (PDS) Bordolândia, o resultado da restauração dessas áreas não deixa dúvidas. Sua área, com a extensão de 33 hectares, estava totalmente degradada. Agora, ele fez a floresta retornar aos poucos, a florescer, em uma área restaurada com sementes nativas. “Eu questionei no começo, porque essa área era muita pedra, mas me explicaram como é o processo e eu concordei, retirei as pedras grandes e fizemos. Agora, eu tô pensando em ampliar a área”, diz.
Ao todo, foram reflorestados quase seis hectares, distribuídos em 11 propriedades rurais associadas. Além disso, houve a implementação de 33 quintais produtivos que envolvem o cultivo de hortas e plantio de pomares e 13 áreas de recuperação de pastagens que estavam degradadas, que otimizaram, principalmente, o cultivo de leite das famílias de pequenos agricultores.
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Silvio Domingos, agricultor do (PDS) Bordolândia|Ismael Silva/ISA
“É importante fazer a conectividade dessas áreas, porque elas ficam menos suscetíveis à degradação, ao fogo e dentro desses corredores ecológicos há uma probabilidade maior de efetividade da restauração e da manutenção das nascentes”, explica Aline Ferragutti, engenheira florestal do ISA que acompanhou o projeto.
No PDS Bordolândia, o projeto contou com a parceria da Associação Agroecológica Caminhos da Paz (Acampaz) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que ampliaram a capacidade e eficácia da iniciativa. No início, estava previsto para este assentamento somente a aplicação do projeto em três lotes e a reforma da sede da associação. No entanto, ao final, o número quase que triplicou com a ajuda da comunidade que se articulou para fazer a extensão do projeto para mais famílias.
“Esse é o poder das sementes: faz as coisas ficarem mais vivas e bonitas e também ajuda na nossa produção, a floresta produz água limpa que vai direto para nossa horta, pastagem, mata a sede dos animais. Não vejo produção de qualidade longe das florestas. Isso foi um aprendizado desta ação”, avalia Roni Cezar, presidente da Acampaz.
Em Bordolândia, foram realizados trabalhos de restauração ecológica em 2,3 hectares, distribuídos em cinco áreas. Os resultados alcançados até o momento são animadores. Um dos destaques do PDS Bordolândia, além da restauração de Áreas de Preservação Permanente (APPs), foi a restauração das pastagens, que impactou diretamente na produção de leite de Pedro Righi, que duplicou sua produtividade leiteira.
“O projeto aqui foi muito bom para mim, fez uma diferença grande na minha venda, estou produzindo 25 litros a mais e isso eu vendo para cooperativa e ganho uma renda boa”, comemora.
A horta de Andreia Teresinha também foi beneficiada com o projeto, o que a ajudou a estabelecer renda extra com a venda de produtos semanais extraídos ali, do seu próprio quintal. Com uma produção abundante, ela consegue suprir tanto a demanda alimentar da sua casa quanto em feiras locais e se orgulha.
“Aqui no meu terreno não tem veneno e quase eu não passo no mercado para dar conta da comida, só uma coisinha ou outra para complementar. Já pensou eu passar veneno e entregar para alguém e a pessoa passar mal com o veneno? eu não”, afirma.
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Andreia Teresinha foi beneficiada pelo Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Bordolândia, em Serra Nova Dourada (MT)|Ismael Silva/ISA
Plantar água é semear vida
A técnica utilizada para a restauração das áreas nos assentamentos de Mato Grosso é a "Muvuca de Sementes". Apesar do nome curioso, essa técnica de raiz ancestral vai muito além de uma simples mistura aleatória de sementes.
A muvuca é uma tradução popular da semeadura direta, que é uma técnica para restauração florestal que consiste na combinação de sementes agrícolas e florestais, incluindo sementes nativas e de adubação verde, juntamente com areia, formando um insumo que favorece, em algumas regiões, a formação da estrutura da floresta em curto tempo. Essa tecnologia otimiza os recursos disponíveis e promove a recuperação de áreas degradadas de forma eficiente e econômica.
Através da "Muvuca de Sementes", a restauração florestal ganha uma nova abordagem, combinando tradições ancestrais com inovações científicas. Essa técnica promissora tem o potencial de transformar a forma como encaramos a recuperação de áreas degradadas, permitindo a reconstrução de ecossistemas resilientes e sustentáveis.
A Rede de Sementes do Xingu (RSX), junto aos seus mais de 600 coletores beneficiados de 21 municípios, 14 assentamentos rurais, uma reserva extrativista e sete povos indígenas distribuídos em 17 aldeias desenvolve a muvuca há 16 anos na região, e de semente em semente já reflorestou mais de oito mil hectares no Brasil.
Quer conhecer melhor a Rede de Sementes?
Assista ao filme Fazedores de Floresta e se aproxime das histórias, sementes e pessoas que provaram que floresta em pé é bom pra todo mundo.